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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

22 ANOS DO AQUÁRIO MUNICIPAL

 


José Antonio Lemos dos Santos

     No próximo dia 5 de fevereiro o Aquário Municipal de Cuiabá completaria 22 anos de sua inauguração. Há alguns anos desativado para modernização e ampliação, mas com as obras paralisadas e sem sinais de reativação próxima ou distante, lembro com muita tristeza que o Aquário Municipal foi um dos equipamentos urbanos mais queridos da população, sendo inclusive adotado como um dos cartões postais da cidade. É um dos projetos que mais me agradou desde sua elaboração no antigo Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Urbano (IPDU) até nas frequentes visitas quando ainda em funcionamento, compartilhando a alegria das crianças surpresas com os peixes colocados bem à altura de seus olhos ou vendo a disputa entre eles pela ração que jogavam no tanque externo. Satisfação visível também no semblante dos pais e avós, extasiados com a felicidade dos pequenos, ou mesmo eles encantados com alguma espécie que só tinham visto no prato, mas nunca ao vivo, nadando, exibindo toda sua beleza aquadinâmica. 

(imagem:gazetadigital)
     O Aquário empolgou a todos desde o início. O então prefeito Roberto França iniciando seu primeiro mandato aprovou a proposta de revitalização da Beira-Rio que vinha das administrações anteriores, mas entendeu que no projeto do Museu do Rio faltava o personagem principal, o peixe. Foi então projetado um aquário anexo ao Museu onde estivessem todas as espécies de peixes do rio Cuiabá e pantanal. O tempo era escasso, os recursos também e as referências para o projeto iam sempre além da capacidade da prefeitura. Com o arquiteto Ademar Poppi e sua equipe, em especial a arquiteta Ruth Dorileo, optou-se por um partido arquitetônico adequado àquelas condições mínimas e que serviu de referência para projetos similares em outras cidades.

     Além do projeto, é inesquecível a maratona para coleta dos exemplares que ocupariam o aquário. No dia da inauguração ainda tinha gente mergulhando no Pantanal atrás de um certo camarão e uma espécie de acará que faltavam. A poucas horas da inauguração o prefeito trazia pessoalmente de seus tanques criatórios piraputangas e pacus, alguns dos quais viveram enquanto viveu o Aquário. Todos animados na prefeitura e em especial no antigo IPDU, sempre com a presença de Teruo Izawa, um apaixonado por aquários e peixes, o anjo do Aquário, que se doava para mantê-lo funcionando, mesmo à míngua, até não dar mais. Faleceu sem nunca ter recebido o justo reconhecimento da prefeitura por esta dedicação.

     Há 22 anos milhares de pessoas estiveram na inauguração do Aquário, que recebeu em sua primeira década mais de 1 milhão de visitantes. Agonizando, ainda recebia uma média de 100 visitantes por dia. Poderia funcionar melhor, mas sua manutenção foi equacionada como uma estrutura autossustentável junto ao Museu do Rio, através da venda de lembranças relacionadas ao Aquário, ao rio e sua cultura ribeirinha, como chaveiros, bonés, camisetas, fotos, vídeos, livros diversos, receitas etc. Contudo por filigranas jurídico-burocráticas essa experiência nunca foi sequer tentada. 

     O entusiasmo construtivo da Copa reacendeu a esperança para o Aquário agonizante. O então prefeito, Mauro Mendes, hoje governador, chegou a anunciar para o grande evento internacional, mesmo sem compromisso com a FIFA, uma nova Beira-Rio com o projeto Orla do Porto, constando a ampliação e modernização do Aquário. A Orla do Porto foi à frente e inaugurada, mas o Aquário ficou pelo caminho. Agora temos o prefeito Emanuel Pinheiro e seu vice José Roberto Stopa, que prometeram a conclusão do Aquário. Já ressuscitaram o Cae-Cae e o Dutrinha, agora começam nova restauração da Orla do Porto. Estariam nesse pacote o Aquário e o Museu do Rio, seu complemento imprescindível, resgatando o belo cartão postal para a cidade?


segunda-feira, 17 de junho de 2019

13 DE JUNHO, DA GUERRA E DA COPA

Torcidas do Chile e da Austrália integradas em Cuiabá (esportes/terra)
José Antonio Lemos dos Santos
     De novo era um dia 13 de junho, uma data emblemática para Cuiabá e Mato Grosso. Em 1867 aconteceu a retomada de Corumbá então ocupada pelos paraguaios, um desafio impossível, mas não para os cuiabanos que formaram a tropa do Exército Brasileiro na missão de enfrentar o mais poderoso exército do continente na época. Já em 2014, nesse mesmo dia a bola começou a rolar pela Copa do Pantanal com pleno êxito, para tristeza dos que fizeram de tudo por este Brasil afora para que Cuiabá não vingasse como uma das sedes do grandioso evento mundial. Dois grandes desafios quase intransponíveis, um de guerra e outro de paz.
     O primeiro jogo transformou a capital mato-grossense em uma grande festa estendida de uns três dias antes até uns três dias depois. Três dias após estive no aeroporto já ampliado, cujas obras não foram concluídas até hoje, e ainda pude ver australianos e chilenos embarcando. A festa do primeiro jogo me reforçou a impressão de que a Copa em Cuiabá foi um milagre do Senhor Bom Jesus como presente para sua cidade em seu Tricentenário. Não fosse a Copa, Cuiabá ia ficar sem qualquer obra significativa para a comemoração.
     Não teria gente melhor para vir a Cuiabá torcer por suas seleções na abertura da Copa do Pantanal. Chilenos e australianos deram um show de simpatia e se entrosaram com os cuiabanos de maneira perfeita, numa relação de alegria, civilidade e, mais importante, sempre em paz. Cuiabanos, australianos e chilenos juntos quem imaginaria que uma mistura dessa pudesse dar tão certa? Os australianos mais comedidos em gestos e expressões, mas muito chamativos com seus vistosos cangurus infláveis e suas vestimentas quase carnavalescas. Já os chilenos com uma alegria mais patriótica, com rostos pintados nas cores nacionais, sempre com a camisa da seleção e enrolados na bandeira de seu país. De súbito nas ruas, praças, shoppings ouvia-se um grito forte e solitário “chi-chi” imediatamente seguido por centenas de outras vozes “lê-lê, chi-chi, lê-lê”. Impressionante. A mais genuinamente alegre festa de massa que já presenciei em meus quase setenta anos.
     A Arena Pantanal foi o palco maior de toda essa festa recebendo mais de 40 mil pessoas e funcionou muito bem. Grosso modo conviviam naquele espaço espetacular cerca de 20 mil chilenos, uns 10 mil australianos e outros tantos cuiabanos, mato-grossenses e brasileiros de outros lugares. À minha frente uma família de Nova Canaã, ao meu lado esquerdo uma família de Campo Verde, na fila de trás um grupo de chilenos e mais atrás uma impressionante família de australianos, que devia estar em pai, mãe, avó e 3 filhos, um deles de colo sempre abanado pelo pai, e todos uniformizados. Jamais havia imaginado que alguém pudesse pegar a família e atravessar oceanos e continentes para torcer por um time sem a menor chance de vitória. E mesmo com o time derrotado, aplaudi-lo festejando, sem esboçar xingamentos ou provocações à torcida adversária. Lotados e com muita festa ainda tivemos o Fan-Fest, no qual eu não fazia a menor fé, e a Arena Cultural, uma feliz iniciativa do então prefeito Mauro Mendes.
     A abertura da Copa do Pantanal, e todo o evento, foi um momento especial quando povos diferentes e distantes se acharam em um lugar mágico no centro continental sul-americano, compartilhando civilidade, simpatia e resgatando um pouco da fé na possibilidade da convivência humana fraterna. Quando se definia as obras para a Copa propus um monumento à paz na pracinha do Caecae, onde jazem muitos heróis daquela epopeia, para marcar no concreto tanto a alegria da Copa como o martírio de irmãos e hermanos na grande guerra platina. Um projeto ainda válido pois o tempo apaga até o que jamais devia ser esquecido.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

13 DE JUNHO, A COPA E A PAZ



José Antonio Lemos dos Santos

     Reescrevo este artigo na última tentativa antes da Copa de sensibilizar as autoridades para a importância do dia 13 de junho na história de Mato Grosso, não para celebrar a guerra, mas para reverenciar mártires, vítimas do absurdo que é a guerra, nem mocinhos, nem bandidos, nem vencedores ou perdedores. 13 de Junho lembra o maior dos sacrifícios impostos aos cuiabanos e paraguaios. Já foi matéria escolar, mas hoje poucos sabem que o maior conflito das Américas ocorreu aqui na América do Sul, e que Cuiabá pagou caríssimo por ele. A Guerra do Paraguai reuniu Brasil, Argentina, Uruguai e interesses ingleses contra o Paraguai, na época o país mais poderoso na América Latina. E Mato Grosso foi o principal palco dessa tragédia. 
     Na Guerra do Paraguai, um dos momentos épicos protagonizados pelos cuiabanos foi o da Retomada de Corumbá, a 13 de Junho de 1867, cidade então mato-grossense e que havia sido apoderada pelos paraguaios. Organizados pelo presidente do estado Couto Magalhães e comandados pelo então capitão Antônio Maria Coelho os cuiabanos foram lá, desafiaram o maior poder bélico do continente e retomaram para o Brasil a importante cidade, num “fato heroico exclusivamente cuiabano”, conforme nos ensina Pedro Rocha Jucá. Só com forças militares locais, acrescidas de voluntários, sem ajuda de fora. 
     Infelizmente a história não parou na Retomada. As tropas retornaram à Cuiabá contaminadas com varíola. A epidemia tomou conta de Cuiabá, matando mais da metade de sua população. Segundo Francisco Ferreira Mendes, em cada casa havia ao menos um doente, e “a cidade ficou juncada de corpos insepultos, atirados às ruas, cuja putrefação impestava mais a cidade com a exalação produzida pela decomposição. Determinou o governo a abertura de valas e a cremação de cadáveres no campo do Cae-Cae, medida que se tornou ineficaz. Não raro eram vistos cães famintos arrastando membros e vísceras humanas pelas ruas”. 
     13 de Junho deve lembrar sempre a epopeia de bravura e dor de um povo humilde, mas determinado. A história de gente de carne e osso, cujos descendentes andam aí pela cidade em seu dia-a-dia, sem nem lembrarem que nas veias levam o valoroso sangue de seus bisavós, o mesmo que vem bravamente construindo e defendendo Mato Grosso e o país por quase três séculos. Hoje, no Cae-Cae nenhuma homenagem. A cidade cresceu e abraçou o campo santo. Dizem que queimada pelas velas desapareceu a cruz que ainda existia anos atrás. Resta a igrejinha onde as missas dominicais são “pela intenção dos bexiguentos”, embora a maioria dos fiéis desconheça do que se trata.
     Com a Copa do Pantanal ano que vem Cuiabá e Mato Grosso mais uma vez serão palco de um megaevento internacional, agora de paz. A Avenida 8 de Abril é um dos principais acessos à nova Arena e sua interseção com a Ramiro de Noronha e Thogo Pereira é um ponto crítico a ser solucionado. Esse projeto urbanístico poderia abranger a contígua Praça do Cae-Cae, compondo uma nova capela em uma nova praça, e nesta um significativo monumento à paz - à paz platina e à paz mundial - homenageando os heróis e mártires de todas as guerras, de todos os lados, em nome de nossos irmãos e hermanos, da polca e do rasqueado, do guaraná e do tereré, vítimas de uma mesma tragédia que precisa ser lembrada para jamais ser repetida. O assunto já contou com simpatias na Agecopa, do deputado historiador João Malheiros, e da paróquia local. No dia do primeiro jogo da Copa do Pantanal, 13 de junho de 2014, em pleno coração sul-americano, cairia muito bem uma cerimônia internacional pela paz no mundo a ser repetida a cada ano em um belo monumento dedicado a harmonia entre todos os homens. 
(Publicado em 11/06/2013 pelo Diário de Cuiabá, Midianews ...)

terça-feira, 12 de junho de 2012

A DOIS ANOS DA COPA



José Antonio Lemos dos Santos 




     A partir de amanhã estaremos a dois anos do primeiro jogo da Copa do Mundo 2014 em Cuiabá. Dois anos passam rápido, como passaram os três desde que Cuiabá foi escolhida pela FIFA com uma das sedes desse que é um dos maiores eventos de massa do mundo. Até lá Cuiabá viverá uma epopeia, uma nova epopeia, agora de vida, de construção, no sacrifício diário de mobilidade que já começamos a enfrentar com a preparação da cidade em tempo recorde para Copa e para sua elevação a novos padrões urbanísticos com mais qualidade de vida para sua gente.
     Aliás, quis o destino que a abertura da Copa do Pantanal venha a acontecer em um dia 13 de junho, logo após o espetáculo da florada dos girassóis de Campo Novo do Parecis e Campo Verde, dia de Santo Antonio, época de friagem e muitas festas na cidade, mas também data da outra epopeia cuiabana, a Retomada de Corumbá, quando relembramos o martírio de dois povos valorosos, irmãos e hermanos, brasileiros e paraguaios, ambos vítimas do maior conflito bélico das Américas, a chamada Guerra do Paraguai. Uma bela oportunidade para se brindar com tereré e guaraná, rasqueados e polcas paraguaias, a paz entre esta gente tão amiga e entre os povos do mundo inteiro. Em outros artigos cheguei a propor a construção de um monumento à paz na praça do Cae-Cae, campo santo onde jazem os corpos de metade da população cuiabana da época, vítima daquele triste episódio. Pensando melhor, não foi o destino que escolheu a data. Diria ser mais uma arte do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, sempre tão generoso com esta terra, que além de ter trazido a Copa como um estratagema, um choque de vida e adrenalina para que nos preparemos para o Tricentenário, também nos faz lembrar no coração da América que futebol é esporte, uma das mais sublimes maneiras de se celebrar a paz, ainda que em disputas acirradas.
     Na prática, porém, o evento começará um ou dois meses antes com os preparativos para a instalação das equipes de imprensa, trabalhos de segurança e mesmo a chegada antecipada de algumas das seleções em trabalhos de adaptação ao clima e às coisas do Brasil e Cuiabá. Assim, é preciso que antes já esteja concluída a maioria dos projetos preparadores da cidade para a tão esperada e bem vinda enxurrada de visitantes. E tudo caminha para que assim seja, principalmente com a população assumindo a Copa como um direito seu e de seus filhos e netos, criticando, cobrando e aplaudindo a continuidade das obras e serviços programados. A meu ver a única situação perigosa é a do aeroporto, pois até agora, três anos após Cuiabá ter sido escolhida como sede da Copa, até hoje a Infraero não aprontou o projeto executivo. Temo que a Infraero continuará enrolando a presidenta Dilma e Cuiabá, colocando-a em risco como sede da Copa – seja lá por quais motivos – se não houver uma intervenção dura dos setores turístico, hoteleiro e comercial e de todos os segmentos da sociedade mato-grossense junto à empresa e à nossa classe política de um modo geral, e em especial junto à bancada federal que deixou a situação chegar onde chegou. Sem aeroporto, Copa nem com a cidade pintada de ouro.
     Mas vai dar certo. Se não for tudo o que a Copa oportunizou ou tudo o que era preciso, certamente será muito mais do que Cuiabá veria nas próximas 3 décadas sem a Copa. A cidade hoje é um canteiro extraordinário de obras públicas e privadas e se alegra junto às obras, com o mea-culpa de suas autoridades e cidadãos quanto à forma como manejavam seu desenvolvimento e o seu futuro. Polarizando hoje uma das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta, e aproveitando a grande oportunidade da Copa, a cidade está bombando como dizem os jovens, vive o melhor momento de sua história e não vai desperdiçá-lo. 

(Publicado em 12/06/2012 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 14 de junho de 2011

13 DE JUNHO, UM MONUMENTO À PAZ

José Antonio Lemos dos Santos


     Como faço a cada ano, homenageio de novo o dia 13 de junho. Não para celebrar a guerra, mas para reverenciar mártires, herois ou não, nem mocinhos, nem bandidos, nem vencedores ou perdedores, todos vítimas do absurdo que é a guerra, qualquer guerra. 13 de Junho lembra o maior dos sacrifícios vividos pelos cuiabanos e paraguaios. Já foi matéria escolar, mas hoje quase ninguém sabe que o maior conflito das Américas ocorreu aqui na América do Sul, e que Cuiabá pagou caríssimo por ele. A Guerra do Paraguai reuniu Brasil, Argentina, Uruguai e interesses ingleses contra o Paraguai, na época o país mais poderoso na América Latina. E Mato Grosso foi o principal palco dessa tragédia.
     Na Guerra do Paraguai, um dos momentos épicos protagonizado pelos cuiabanos foi o da Retomada de Corumbá, a 13 de Junho de 1867, cidade então mato-grossense e que havia sido apoderada pelos paraguaios. Organizados pelo presidente do estado Couto Magalhães e comandados pelo então capitão Antônio Maria Coelho os cuiabanos foram lá, desafiaram o maior poder bélico do continente e retomaram para o Brasil a importante cidade, num “fato heroico exclusivamente cuiabano”, conforme nos ensina Pedro Rocha Jucá. Só com forças militares locais, acrescidas de voluntários, sem ajuda de fora.
     Infelizmente, a história não parou na Retomada. As tropas retornaram à Cuiabá contaminadas com varíola. A epidemia tomou conta de Cuiabá, matando mais da metade de sua população. Segundo Francisco Ferreira Mendes, em cada casa havia ao menos um doente, e “a cidade ficou juncada de corpos insepultos, atirados às ruas, cuja putrefação impestava mais a cidade com a exalação produzida pela decomposição. Determinou o governo a abertura de valas e a cremação de cadáveres no campo do Cae-Cae, medida que se tornou ineficaz. Não raro eram vistos cães famintos arrastando membros e vísceras humanas pelas ruas”.
     13 de Junho deve lembrar sempre a epopeia de bravura e dor de um povo humilde, mas determinado. A história de gente de carne e osso, cujos descendentes andam aí pela cidade em seu dia-a-dia, sem lembrar que nas veias levam o valoroso sangue de seus bisavós, o mesmo que vem bravamente construindo e defendendo Mato Grosso e o país por quase três séculos. Hoje, no Cae-Cae nenhuma homenagem. A cidade cresceu e abraçou o campo santo. Dizem que queimada pelas velas desapareceu a cruz que ainda existia ano passado. Resta a igrejinha onde as missas dominicais são “pela intenção dos bexiguentos”, embora a maioria dos fiéis nem saiba mais do que se trata.
     Como sede da Copa do Pantanal em 2014, Cuiabá e Mato Grosso mais uma vez serão palco de um megaevento internacional, agora pacífico. A Avenida 8 de Abril é um dos principais acessos ao novo Verdão e sua interseção com a Ramiro de Noronha e Thogo Pereira é um ponto crítico a ser solucionado, até como alternativa de ligação direta entre as Avenidas Miguel Sutil e XV de Novembro. Esse projeto urbanístico poderia abranger a contígua Praça do Cae-Cae, compondo uma nova capela em uma nova praça, e nesta um monumento à paz - à paz platina e à paz mundial - homenageando os herois e mártires de todas as guerras, de todos os lados, em nome de nossos irmãos e hermanos, da polca e do rasqueado, do guaraná e do tereré, vítimas de uma mesma tragédia que precisa ser lembrada para jamais ser repetida. Sei que o assunto conta com simpatias na Agecopa, na Secretaria Estadual de Cultura com o historiador João Malheiros, e que também vem sendo avaliado com carinho pela paróquia local. Seria mais uma atração turística no coração sul-americano, e palco para uma cerimônia internacional pela paz no mundo, em plena Copa do Pantanal. Por que não?
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 14/06/11)


Abaixo matéria do Midianews postado em 27/06/11 às 08:41

Júlio sugere que Agecopa construa monumento à Paz


Deputado quer homenagear os mortos da Guerra do Paraguai

Júlio Campos relembra que Cuiabá sofreu com a batalha

DA ASSESSORIA





O deputado federal Júlio Campos (DEM) sugeriu que a Agecopa inclua entre as obras da "Copa do Pantanal" um monumento à Paz, na Praça do "Cae Cae". Isso em homenagem as pessoas que, bravamente, perderam suas vidas na guerra com o Paraguai, na retomada do território de Corumbá à Mato Grosso, muitos caiam e lá mesmo eram enterrados por haver verdadeira multidão de cadáveres.
A sugestão do parlamentar foi feita com base no pedido do arquiteto e urbanista José Antonio Lemos dos Santos escreveu o artigo 13 de Junho, Um Monumento à Paz, que bem retratou a fibra do povo cuiabano, do povo mato-grossense em relação à retomada de Corumbá do Paraguai.
"A guerra exterminou 50% da população cuiabana, pois os soldados retornaram à Cuiabá com varíola. Este artigo relembra essa data e sugere que na nova Cuiabá, no novo Mato Grosso, hoje forte e pujante, não seja esquecida essa grande data e seja feito um monumento especial para homenagear aqueles heróis mato-grossenses sepultados no Cae-Cae", afirmou o deputado.
De acordo com o deputado, Mato Grosso sofreu muito com a Guerra do Paraguai e foi um dos estados dos países em guerra que mais teve enfrentamento naquela tríplice aliança entre Brasil, Argentina, Uruguai contra o Paraguai.

terça-feira, 15 de março de 2011

OS FRADES DO ANTIGO BOSQUE

José Antonio Lemos dos Santos

      Bem-vindos os sacerdotes diocesanos que após 72 anos retomam a condução da antiga Paróquia da Boa Morte. Nada contra os novos pastores, que por certo seguirão os passos do monsenhor Trebaure, o “padrinho”, padrinho de batismo de minha mãe e de tantos e tantas como ela, crianças da Boa Morte da primeira metade do século passado, pelo qual mantiveram verdadeira devoção por toda a vida. E 72 anos não são 7 dias. Nesse ínterim chegaram os frades franciscanos e conquistaram os corações das gerações que se sucederam, ampliando os limites da Boa Morte para além do Quilombo, Araés e Cae-cae, acompanhando o crescimento da cidade, passando pelos altos do antigo Bosque Municipal, hoje Praça Santos Dumont, onde construíram a atual Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens. Levavam para um local mais amplo e apropriado a antiga capela do Lavapés (tinha uma lagoa na frente onde os viajantes lavavam os pés antes de chegar na cidade), quase que um oratório de tão mínima, criada e mantida por almas caridosas, dentre as quais Mariana de Jajá, minha tia-avó.
      Morador da João Bento, no antigo Bosque, lembro da Mãe dos Homens ainda com as paredes pela metade sob a observação constante e severa do frei Quirino e segui sua construção admirado com a altura que alcançava, participando com a comunidade das quermesses, rifas, leilões, doações de todos os tipos que ajudaram na concretização do querido templo. Como as coisas demoram a acontecer quando a gente é criança. Vendo de hoje foi tudo muito rápido, só 5 anos, desde a primeira missa campal em 1955 até a igreja já praticamente concluída, por volta de 1960. Mas como demoraram a passar. Foi um custo, como diziam. Certamente essa obra tem um pouco ou muito a ver com a minha identificação com a Arquitetura. Não sei, nunca havia pensado nisso.
      No antigo Bosque os frades construíram ainda o Educandário Santo Antonio, o Salão Paroquial, e mais recentemente um anexo comercial com salão de festas. E lá instalaram a caridosa Pia União de Santo Antonio. O velho Bosque se transformou. Certa ou errada a Prefeitura logo transformou o Bosque em uma praça, a atual Praça Santos Dumont, com o sacrifício na época de alguns tarumeiros centenários (diz’que juntava muita mosca) e de algumas outras árvores também antiqüíssimas depois. Mas a Praça ficou simpática, com a igrejinha e os palanques oficiais dos desfiles de 7 de Setembro que nela se instalaram até a uns poucos anos atrás. Hoje recebe uma feira semanal de alimentação e artesanato e é a plataforma de saída da monumental Caminhada da Paz, talvez a última das grandes obras franciscanas no antigo Bosque, tão monumental que seria conhecida no Brasil inteiro se acontecesse em qualquer outro centro melhor aquinhoado com a simpatia da mídia nacional. Mas já é um grande orgulho cuiabano e mato-grossense e não pode deixar de existir, agora maior do que nunca.
      Domingo os frades deixaram o Bosque, o Cae-cae e a Boa Morte e o assunto não pode passar batido, afinal, 72 anos não são 7 dias para uma comunidade que aprendeu a conviver, amar e respeitar os frades, alguns churrasqueiros, corinthianos, outros com forte sotaque estrangeiro, motivos para inocentes piadinhas dominicais consentidas. Sei que muitos de minha geração têm outras tantas e tantas boas lembranças a narrar desse convívio. Pois é, ainda fragilizada por profunda dor recente, a comunidade franciscana de frades e fiéis se vê agora subitamente privada do seu velho relacionamento, como uma replicação maior de um tsunami original já bastante cruel, como se fosse uma pena, certamente imerecida. E La nave vá ... Que o Bom Jesus de Cuiabá abençoe os diocesanos e os frades do antigo Bosque.

terça-feira, 8 de junho de 2010

13 DE JUNHO, A COPA E A PAZ

José Antonio Lemos dos Santos


     A cada ano insisto em relembrar o que significa a data de 13 de junho ao mato-grossense. Não para celebrar a guerra, mocinhos ou bandidos, vencedores ou perdedores, e sim reverenciar vítimas, heróis ou não, todos mártires, principais frutos de qualquer guerra. 13 de Junho lembra o maior dos sacrifícios vividos pelos cuiabanos. Já foi matéria escolar obrigatória, mas hoje, quase ninguém sabe que o maior conflito das Américas ocorreu aqui, e que Cuiabá pagou caríssimo por ele. A Guerra do Paraguai reuniu Brasil, Argentina, Uruguai e interesses ingleses contra o Paraguai, na época o país mais poderoso na América Latina. E Mato Grosso foi o principal palco dessa tragédia.
     Na Guerra do Paraguai, um dos momentos épicos protagonizado pelos cuiabanos foi o da Retomada de Corumbá, a 13 de Junho de 1867, cidade então mato-grossense e que havia sido apoderada pelos paraguaios. Organizados pelo presidente do estado Couto Magalhães e comandados pelo então capitão Antônio Maria Coelho os cuiabanos foram lá, desafiaram o maior poder bélico do continente e retomaram para o Brasil a importante cidade, num “fato heróico exclusivamente cuiabano”, conforme nos ensina Pedro Rocha Jucá. Sem reforços externos, só forças militares locais, acrescidas de voluntários.
     Infelizmente a história não ficou por aí. As tropas retornaram à Cuiabá contaminadas com varíola, pois havia um surto da doença em Corumbá quando da Retomada. A epidemia tomou conta de Cuiabá, matando mais da metade de sua população. Segundo Francisco Ferreira Mendes, em cada casa havia ao menos um doente, e “a cidade ficou juncada de corpos insepultos, atirados às ruas, cuja putrefação impestava mais a cidade com a exalação produzida pela decomposição. Determinou o governo a abertura de valas e a cremação de cadáveres no campo do Cae-Cae, medida que se tornou ineficaz. Não raro eram vistos cães famintos arrastando membros e vísceras humanas pelas ruas.”.
     13 de Junho deve lembrar para sempre a epopéia de bravura e dor de um povo humilde, mas determinado. A história de gente de carne e osso, cujos descendentes circulam pela cidade em suas fainas diárias, sem se lembrar que nas veias levam o valoroso sangue de seus bisavós, o mesmo que vem bravamente construindo e defendendo Mato Grosso e o país por quase três séculos. Hoje, na pracinha do Cae-Cae, nenhuma homenagem. A própria cidade cresceu abraçando o campo santo, outrora afastado. Resta ainda uma cruz, solitária, com uma igrejinha ao lado onde as missas dominicais são “pela intenção dos bexiguentos”, embora a maioria dos fiéis nem saiba mais do que se trata.
     Como sede da Copa do Pantanal em 2014, Cuiabá e Mato Grosso mais uma vez serão palco de um mega-evento internacional, agora em favor da paz entre os povos através do esporte. A Avenida 8 de Abril, uma das principais vias de acesso ao novo Verdão, tem em sua interseção com a Ramiro de Noronha e Thogo Pereira um sério ponto crítico a ser solucionado, até como alternativa de tráfego direto entre a Av. Miguel Sutil e a XV de Novembro. Esse projeto urbanístico poderia abranger a contígua Praça do Cae-Cae, compondo uma nova capela em uma nova praça, e nesta um monumento à paz - à paz platina e à paz mundial - homenageando os heróis e mártires de todas as guerras, de todos os lados, em nome de nossos irmãos e hermanos, da polca e do rasqueado, do guaraná e do tereré, vítimas de uma mesma tragédia que precisa ser lembrada para jamais ser repetida. Uma atração turística no coração sul-americano para a realização de uma cerimônia solene de caráter internacional pela paz no mundo, em plena Copa do Pantanal, no dia 13 de junho de 2014, dia de Santo Antonio – a ser anualmente repetida.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 08/06/2010)

terça-feira, 9 de junho de 2009

13 DE JUNHO, COPA E PAZ NO MUNDO

José Antonio Lemos dos Santos


     Não vou celebrar a guerra, nem mocinhos ou bandidos, vencedores ou perdedores, e sim falar de vítimas, mártires e heróis, principais produtos em todos os lados de uma guerra. Lembro 13 de Junho, reverenciando o maior martírio sofrido pela gente cuiabana. Antes, matéria escolar obrigatória, hoje, pouco a pouco esquecemos que o maior conflito das Américas ocorreu aqui, e que Cuiabá pagou muito caro por ela. A Guerra do Paraguai reuniu Brasil, Argentina, Uruguai e interesses ingleses contra o Paraguai, na época o país mais poderoso na América Latina. Mato Grosso foi o trágico palco principal.
     Entre os diversos episódios vividos pelos cuiabanos na Guerra do Paraguai, um dos mais épicos foi o da Retomada de Corumbá, a 13 de Junho de 1867, cidade então mato-grossense que havia sido tomada pelos paraguaios. Os cuiabanos foram lá, enfrentaram o mais poderoso exército do continente e retomaram para o Brasil aquela importante cidade, num “fato heróico exclusivamente cuiabano”, como nos ensina Pedro Rocha Jucá, organizados pelo Presidente Couto Magalhães e comandados pelo então Capitão Antônio Maria Coelho. Sem reforços externos, só forças militares locais, acrescidas de voluntários.
     Mas a história não para por aí. As tropas voltaram à Cuiabá contaminadas com a varíola, pois havia um surto da doença em Corumbá quando da retomada. A epidemia tomou conta de Cuiabá, matando mais da metade de sua população. Segundo Francisco Ferreira Mendes, em cada casa havia pelo menos um doente, e “a cidade ficou juncada de corpos insepultos, atirados às ruas, cuja putrefação empestava mais a cidade com a exalação produzida pela decomposição. Determinou o governo a abertura de valas e a cremação de cadáveres no campo do Cae-Cae, medida que se tornou ineficaz. Não raro eram visto cães famintos arrastando membros e vísceras humanas pelas ruas.”.
     13 de Junho, para sempre deve lembrar a epopéia de bravura e dor de um povo humilde, mas determinado. A história de gente de carne e osso, não de livros, de novelas ou filmes, mas que anda aí na Praça Alencastro, no Porto, no Coxipó ou no CPA, sem mais se lembrar que em suas veias corre o valoroso sangue de seus bisavós, o mesmo que vem bravamente construindo e defendendo nosso país por quase três séculos. Hoje, na pracinha do Cae-Cae, nenhuma homenagem. A própria cidade expandiu abraçando o campo santo, outrora afastado. Ainda resta uma cruz, solene, e uma igrejinha ao lado onde as missas dominicais são “pela intenção dos bexiguentos”, ainda que a maioria dos fiéis não saiba mais do que se trata.
     Com a escolha de Cuiabá como sub-sede da Copa de 2014, Mato Grosso mais uma vez será palco de um importante evento internacional, agora festivo e promotor da paz entre os povos. No caminho do Verdão, a interseção da Avenida 8 de Abril, com a Ramiro de Noronha e Thogo Pereira configura-se como um estrangulamento viário a ser solucionado como alternativa de fluidez de tráfego entre a Av. Miguel Sutil e a XV de Novembro. Contígua à essa interseção, a Praça do Cae-Cae poderia integrar esse projeto urbanístico, compondo uma nova capela e uma nova praça, na qual seja projetado um monumento à paz, digno e solene, homenageando os heróis e mártires de todas as guerras, em nome dos nossos irmãos e hermanos, vítimas de uma mesma tragédia que precisa ser lembrada para nunca mais ser repetida. Além de mais uma atração turística, um local que possibilite, no dia 13 de junho de 2014, a realização de uma cerimônia de caráter internacional ajudando o futebol na sua nobre tarefa de promover a paz no mundo.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 09/06/09)