"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 20 de abril de 2020

CUIABÁ 320-19

CAPITANIA FLUVIAL DO PANTANAL CHEGA A CUIABÁ-MT | CFPN
                Rio Cuiabá      (Foto: Marinha do Brasil)
José Antonio Lemos dos Santos
     Uma cidade não dá no pé como caju ou goiaba. A cidade é uma invenção humana, aliás, a maior, a mais importante, a mais bem sucedida e, também, a mais complexa. Ela é um objeto construído pelo homem, normalmente edificada a cada dia pelos seus donos, os cidadãos, numa obra sem fim, um grande e permanente canteiro de obras. Ao contrário do que parece, não são os governos que constroem a cidade normal e saudável. Ela é construída aos poucos e cotidianamente pelo cidadão, do mais simples ao mais poderoso; aos governos cabem as obras comuns de infraestrutura, bem como sua ordenação, através do planejamento e controle dessa grande obra.
     Assim é Cuiabá, nascida à beira de um corguinho chamado Ikuiebô,  o “córrego das estrelas” para seus habitantes originais, os Bororos, pelas pepitas que faiscavam em suas margens à luz da lua. A monumental Enciclopédia Bororo dos Salesianos ensina que a cidade recebeu o nome das pedras que ainda hoje ficam na foz deste mesmo corguinho, agora um canal de esgoto sob a grande avenida Coronel Duarte, a popular Prainha, e que eram chamadas pelos autóctones de Ikuiapá, lugar onde se pesca com flecha-arpão. Já existiam ocupações anteriores nas regiões do São Gonçalo Beira-Rio e do Coxipó do Ouro, hoje áreas dinâmicas e integradas da cidade, embora na época distantes e em decadência pela descoberta do ouro às margens do Ikuiebô.
     E ela floresceu formosa, mãe de cidades e estados, mãe do próprio Mato Grosso. O aniversário de Cuiabá deveria ser também o aniversário deste “Ocidente do imenso Brasil”. Sobreviveu a duras penas, forjando uma gente corajosa e sofrida, mas alegre e hospitaleira, dona de rico patrimônio cultural e com proezas que cobram mais carinho dos historiadores. Cuiabá hoje vibra em dinamismo, globalizada e provinciana, festeira e trabalhadora, centro de uma das regiões mais produtivas do planeta, agora abalada com o mundo pela covid-19.
     Mas Cuiabá que já venceu males maiores como a varíola e a gripe espanhola, vencerá mais esta, seguindo vibrante na construção do seu futuro a ser planejado e controlado em favor do bem comum, para que a soma do trabalho de cada um na grande obra urbana resulte numa cidade cada vez mais bela, justa, confortável, segura e ambientalmente sustentável, com padrões crescentes de qualidade de vida. Neste processo, 2020 é especial pelas eleições municipais previstas, que mesmo ameaçadas pela pandemia, serão um tempo para a sociedade pensar seu futuro, eleitores e candidatos.
     Para o Tricentenário, a cada ano escrevi artigos em contagem anual regressiva a partir do 290º aniversário da cidade. Passados os 300 anos, Cuiabá deveria adotar um novo marco a ser alcançado, por exemplo o seu 320º aniversário, um prazo de 20 anos, horizonte mínimo para o planejamento de uma cidade e um tempo com alguma chance de alcançar com meus artigos. Neste período além de metas macro como o resgate do Sistema de Municipal de Desenvolvimento Urbano, um urgente e agressivo plano de recuperação econômica pós pandemia, a otimização da infraestrutura, o ajustamento da malha viária através dos padrões geométricos mínimos de cada via e a desocupação digna das áreas de risco, poderiam ser incluídos também projetos específicos perseguidos a tempos pela cidade metropolitana, entre estes a revitalização do Centro Histórico, a ferrovia, o Rodoanel, o centro cultural sul-americano, a internacionalização do aeroporto e seu hub aeroviário, a distribuição do gás e a consolidação da Região Metropolitana como principal polo de verticalização da economia do estado. E por que não um time na série “A” do brasileirão? 20 anos dá? Agora só faltam 19.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

VERTICALIZAÇÃO E PLANEJAMENTO REGIONAL

Resultado de imagem para delta energia biodiesel cuiaba


  Usina de Biodiesel da Delta Energia em Cuiabá, a 7ª maior do país.
                                                                                                                                        (Foto: agroolhar.com.br)
José Antonio Lemos dos Santos
     Escrevo sobre a verticalização enquanto processo de transformação da produção primária em outros produtos agregando-lhe valor econômico. Por exemplo, o algodão rende mais se é transformado em roupa. Mas para chegar à roupa tem que virar fio, depois tecido, para só então se transformar em uma peça de vestuário. O trabalho, braçal ou mecânico, artesanal, intelectual ou industrial é o fator que agrega valor a cada passo desta transformação. Poderia ser um automóvel, sofisticado, mas ainda assim resultado da combinação de muitos produtos primários transformados, alguns com transformação tão elaborada a ponto de não nos lembrar que a origem destas maravilhas está lá na produção primária, a qual nem se reconhece o devido valor.
     Quanto mais o produto primário é processado mais valor é agregado, exigindo, porém a cada passo mais tecnologia, preparo de mão de obra, acessibilidade a bens e serviços complementares e outros quesitos, gerando em troca progressivamente mais renda, melhores salários e empregos de maior qualidade. Assim, a verticalização das economias não é nivelada como se todos os processos de transformação tivessem o mesmo nível de sofisticação e exigências, e nem acontece em um plano como se todos os pontos do espaço regional atendessem a todos os requisitos de cada etapa de seus processos de transformação. Ao contrário, a verticalização acontece em espaços urbanos hierarquizados funcionalmente e organizados nas redes de cidades, de acordo com a qualidade de suas infraestruturas e de suas instalações produtoras de bens e serviços, bem como, da disponibilidade de mão de obra qualificada, energia, transportes, comunicações, centros de ensino e pesquisa, localização estratégica etc. A verticalização é urbana.
     Assim, seria como se tivéssemos duas escadinhas frente a frente: de um lado a dos requisitos dos processos de transformação e de outro a da disponibilidade de infraestrutura urbana, ou das cidades. Os processos de verticalização só se instalam nos degraus da hierarquização urbana compatíveis com seus requisitos. Só que a economia não fica esperando que este ou aquele estado, esta ou aquela cidade se prepare para receber os processos de verticalização. Se tiver condições tudo bem, se não, procura outro lugar com vantagens comparativas, ainda que em outro estado ou país. E é o que está acontecendo contra Mato Grosso. É urgente que o estado desenvolva um processo de Planejamento Regional capaz de caracterizar sua rede urbana, identificando seus principais polos nos diversos níveis, de forma a reforçá-los estruturalmente para o desempenho das tarefas de recepção aos investimentos industriais adequados a cada caso.
     Verticalizar sua economia é o grande desafio de Mato Grosso pois ela está acontecendo fora do estado em um processo inaceitável de exportação da renda e dos empregos de maior qualidade em prejuízo dos mato-grossenses. Estamos perdendo até na manteiga. Contudo, bons ventos sopram. Nos últimos dias aconteceu a volta do gás boliviano, a reativação da Termelétrica e a instalação de uma grande usina de biodiesel em Cuiabá. Mas é preciso mais, ampliar a rede de zonas industriais nos polos do estado apoiadas por um sistema sólido e honesto de estímulos fiscais, reviver a ecovia do Paraguai, internacionalizar de fato o Marechal Rondon, aproximar a ferrovia de todas as regiões do estado reforçando sua espinha-dorsal, a BR-163, e em especial conectando com os trilhos a Região Metropolitana de Cuiabá, sem dúvida a cabeça do sistema urbano de Mato Grosso. Repetindo o artigo anterior, a demora é irrecuperável e condena Mato Grosso a eterno celeiro e seu povo a cidadãos de segunda classe.   

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

GÁS, QUE VOLTE PARA FICAR


José Antonio Lemos dos Santos
     Um dos maiores crimes cometidos contra Cuiabá e Mato Grosso é o pouco caso com que se tratou o complexo gasoduto /termelétrica, o maior projeto implantado no estado, no valor de 1,0 bilhão de dólares e inaugurado em 2002. Crime com interesses diversos que vão desde a velha mania da política brasileira, em especial a mato-grossense, de um político não dar continuidade a obras de outros governos, até aqueles contrários à consolidação de Cuiabá como principal polo político e econômico unificador de Mato Grosso, passando por outras motivações também menores, mas poderosas. Casos semelhantes são, por exemplo, a conexão ferroviária da capital mato-grossense e a linha aérea até Santa Cruz de La Sierra, ambos até com empresas interessadas em suas implantações, mas que mesmo assim não avançam.
     A chegada de um gasoduto disponibilizando com fartura uma fonte de energia limpa e barata como o gás natural sacode as regiões por onde passa impulsionando a economia e elevando a qualidade de vida de suas populações com a geração de amplas alternativas de novos empregos e maiores rendas. Aqui chegou e ficou por isso mesmo. Para os políticos e gestores mato-grossenses parecia ter chegado em Marte. Especialista em Planejamento Urbano, não entendo nada sobre gás ou geração de energia, mas sei o quanto é importante a disponibilidade energética para o desenvolvimento de uma cidade ou região. Aliás, a qualidade de uma cidade em uma sociedade de mercado é aquela que sua população pode bancar com sua renda.
     Relembrando, com sua extraordinária visão de futuro o saudoso ex-governador Dante de Oliveira anteviu a grande produção agropecuária atual de Mato Grosso, de alta tecnologia e grande produtividade. Percebeu, então, ser fundamental a criação das condições para a verticalização no estado dessa produção primária, agregando-lhe valor. Gerar empregos aqui em vez de exportá-los. Entendia que a Baixada Cuiabana poderia ser a base propulsora desse processo de verticalização da economia estadual com apoio da ZPE de Cáceres. Para esse salto, energia e transporte seriam essenciais. Arrancou assim das barrancas do Paraná os trilhos da Ferronorte, criou o FETHAB, implantou o Porto Seco e internacionalizou o Aeroporto Marechal Rondon, viabilizando sua ampliação a quatro mãos com o também saudoso Orlando Boni, cuiabano então presidente da Infraero. Quanto à energia, destravou a APM de Manso então com obras paralisadas e trouxe a ex-poderosa Enron para implantar o complexo termelétrica/gasoduto.
     Implantado o complexo do gás viriam com ele as vantagens regionais comparativas atraindo novas indústrias e outros investimentos. Só que o plano não avançou. Ao invés, o gás aqui foi desmoralizado com sucessivas suspensões de fornecimento até perder a confiança do mercado consumidor. Sugiro ao leitor buscar no Google pelo gás de Mato Grosso do Sul. Sentirão o mesmo que senti: inveja! Lá bombando o futuro em Campo Grande e cidades do interior para uso veicular, residencial, comercial e cogeração, enquanto aqui ...
     Na última quinta-feira, em Santa Cruz de La Sierra com a presença do presidente Evo Morales, o governador  Mauro Mendes assinou com a estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos um contrato para fornecimento do gás natural até dezembro de 2020, com  renovação automática por mais 10 anos caso nesse período não se concretize uma sociedade entre a estatal boliviana e a MTGás para a expansão da cadeia do gás natural no estado. Fruto destas tratativas a termelétrica já está operando em potência máxima. Que venha então o gás, mas que venha com firmeza, confiável e para ficar. Aleluia!

terça-feira, 2 de julho de 2019

VERTICALIZAÇÃO, ATRAIR E NÃO ESPANTAR

A imagem pode conter: céu e atividades ao ar livre
 Distrito Industrial de Cuiabá  - Criado em 1978 - 695 ha

José Antonio Lemos dos Santos
     Tratamos aqui verticalização como os processos de transformação da produção primária agregando-lhe valor econômico. Por exemplo, o algodão rende mais se é transformado em roupa. Só que para chegar à roupa primeiro tem que virar fio e depois tecido, para só então se transformar em uma peça de vestuário. O trabalho, braçal ou mecânico, artesanal, intelectual ou industrial é o fator que agrega valor a cada passo desta transformação, neste exemplo o algodão. Poderia ser um automóvel, mesmo sofisticado ainda assim é resultado da combinação de muitos produtos primários transformados, alguns com transformação tão elaborada que leva muitos de nós a esquecer que a origem dessas maravilhas está lá na produção primária, desvalorizando-a.
     Quanto mais o produto primário é processado mais valor é agregado, exigindo a cada passo mais tecnologia, preparo de mão de obra, acessibilidade a bens e serviços complementares e outras, gerando em troca progressivamente mais renda, melhores salários e empregos de maior qualidade. Assim, a verticalização das economias não é nivelada como se todos os processos de transformação tivessem o mesmo nível de sofisticação e exigências, e nem acontece em um plano como se todos os pontos do espaço regional atendessem a todos os requisitos de cada etapa de seus processos de transformação.
     Em geral a verticalização acontece em espaços urbanos hierarquizados funcionalmente nas redes de cidades, de acordo com a qualidade de suas infraestruturas urbanas e de suas instalações produtoras de bens e serviços, bem como, da disponibilidade de mão de obra qualificada, energia, transportes, comunicações, centros de ensino e pesquisa, localização estratégica etc. Assim, seria como se tivéssemos duas escadinhas frente a frente: de um lado a dos requisitos dos processos de transformação e de outro a da disponibilidade de infraestrutura urbana, ou das cidades. Os processos de verticalização só se instalam nos degraus da hierarquização urbana compatíveis com seus requisitos. Só que a economia não fica esperando que este ou aquele estado, esta ou aquela cidade se prepare para receber os processos de verticalização. Se tiver condições tudo bem, se não, procura outro lugar com vantagens comparativas ainda que em outro estado ou país. E é o que está acontecendo em Mato Grosso.
     O problema é verticalizar a economia em Mato Grosso pois ela está acontecendo fora do estado em um processo inaceitável de exportação da renda e dos empregos de maior qualidade em prejuízo dos mato-grossenses. É preciso ampliar a capacidade atrativa da rede urbana, em especial da Região Metropolitana de Cuiabá, e em todo o estado, pois há espaço para a verticalização em todo seu território. Um bom começo seria aproximar a ferrovia de todas as regiões reforçando a espinha-dorsal do estado, a BR-163, e ampliando a rede de zonas industriais nos polos do estado, reativar o gás boliviano e a hidrovia do Paraguai, internacionalizar de fato o Marechal Rondon e criar um sistema sólido e honesto de estímulos fiscais. Atrair e não espantar.
     Este é o maior e quase insolúvel problema do estado pois, mais que dinheiro e técnica, exige estadistas, homens com ampla visão pública de futuro, o recurso mais escasso nesta terra tão pródiga em outros valores. Perdemos um dos raros na semana passada, Ivo Cuiabano Scaff, cidadão-profeta do desenvolvimento que há quase 50 anos anteviu o futuro do estado como grande produtor de matérias-primas e implantou distritos industriais em suas cidades-polo já pensando na futura verticalização necessária. A demora é irrecuperável e condena Mato Grosso a eterno celeiro e seu povo a cidadãos de segunda classe.


Trat

segunda-feira, 29 de abril de 2019

BASE AÉREA EM CÁCERES II

 
José Antonio Lemos dos Santos
     Dia 23 passado o governador Mauro Mendes em reunião com o ministro Sérgio Moro cobrou um reforço do Governo Federal na segurança da fronteira de Mato Grosso. Lembro que tão logo empossado seu secretário de segurança Alexandre Bustamante anunciou que o governo faria essa cobrança, colocando na época inclusive a necessidade de instalação de uma base aérea na região, assunto vital para as cidades brasileiras e, em especial para as mato-grossenses. Mas o noticiário não diz se o assunto foi tratado nesta importante reunião em Brasília. Por isso renovo meu artigo do início do ano sobre o tema.
     A proposta da base aérea levantada pelo governo no início do ano é consistente pois Cáceres dispõe de uma pista de pouso subutilizada com 1.850 x 30m capaz de receber jatos, em posição estratégica aos 1.100 Km da fronteira bem como em relação ao Pantanal, que vem servindo como base de recepção de cargas de drogas e armas lançadas por pequenos aviões ou vindas por terra mesmo. Seria o começo para uma revolução na segurança da fronteira e na vida de nossas cidades.
     Recordo que em 2009 registrei em artigo a apreensão pela Polícia Federal no Trevo do Lagarto de um carregamento de armas modernas e poderosas destinadas ao Rio de Janeiro. O transportador informou que aquela era a terceira viagem desse tipo que fazia. Quantas outras cargas já teriam então passado por outros transportadores? Na semana anterior fora apreendida uma enorme carga de cocaína e no mês anterior havia sido descoberta uma fazenda no pantanal usada para distribuição de drogas que chegavam por avião. Claro que essa situação vinha de muito antes, certamente continua até hoje em volumes muito maiores e continuará caso faltem fortes providências restruturantes.
     Um dos problemas básicos das cidades brasileiras é a insegurança pública que lhes impõem um quadro de medo e violência jamais visto. Esta situação é fomentada e se agrava pelos tráficos de drogas, armas e veículos, que se articulam em poderoso esquema nacional e internacional submetendo aos seus interesses e caprichos povos do mundo inteiro, em especial os jovens. Como pensar em qualidade de vida urbana numa situação destas? Nossas cidades viraram reféns.
     É de ressaltar que jamais será suficientemente elogiado o trabalho difícil e arriscado feito pelas polícias militar e civil do estado, Polícia Federal, polícias rodoviárias federal e estadual, e pelo Exército, bem como a importância dos governos manterem o apoio a essas ações terrestres na fronteira. Mas, no caso de nossa fronteira é indispensável lembrar que Mato Grosso é um dos únicos estados do Brasil a não dispor de uma Base Aérea. Mato Grosso do Sul tem, Goiás tem apesar de vizinha a de Brasília, e Rondônia tem duas! Salta aos olhos o absurdo desta situação considerando os 1.100 quilômetros de fronteira do estado, dos quais 700 em fronteira seca, e que seu território equivale a mais de 10% do território nacional. O problema se agrava na medida em que quase toda a fronteira nacional esteja protegida por bases aéreas e as rotas do crime acabem migrando para o grande rombo ainda existente nas fronteiras brasileiras, que fica aqui. E é o que parece acontecer, cada vez com mais intensidade.
     Tal como a ferrovia passando por Cuiabá, o gás, a termelétrica e a restituição integral pela União aos mato-grossenses do ICMS que nos foi “tirado” e não reembolsado pelos que insistem em não cumprir a Lei Kandir na íntegra, uma base aérea na nossa fronteira é um projeto que merece o apoio de todos os mato-grossenses e neste caso da base, de todos os brasileiros pois o brecha em nossa fronteira é uma das principais fontes de abastecimento do crime em todo o Brasil.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

BASE AÉREA EM CÁCERES


Pista de Cáceres (imagem:JornalOeste)
José Antonio Lemos dos Santos
     Tão logo empossado o secretário de segurança do estado Alexandre Bustamante tem anunciado que cobrará uma presença mais efetiva do governo federal no controle da fronteira aqui em Mato Grosso, colocando inclusive, entre outras importantes questões, a necessidade de instalação de uma base aérea na região, assunto que tenho abordado há décadas, tamanha é sua importância para vida nas cidades brasileiras e, em especial para as mato-grossenses, destacando a Região Metropolitana de Cuiabá. A questão da base aérea levantada pelo secretário ganha muita força com a existência em Cáceres de uma pista de pouso subutilizada com 1.850 x 30m, capaz de receber jatos de carreira, em posição estratégica em relação aos 1.100 Km de fronteira bem como em relação ao Pantanal que vem servindo como plataforma de recepção de cargas de drogas e armas lançadas por pequenos aviões ou vindas por terra mesmo. Não seria um bom começo para uma revolução na segurança da fronteira mato-grossense e na vida de nossas cidades?
     Recordo que em outubro 2009 registrei em um artigo a apreensão pela Polícia Federal no Trevo do Lagarto de um carregamento de armas modernas e poderosas destinadas ao Rio de Janeiro. O transportador havia informado que aquela era a terceira viagem desse tipo que fazia. Quantas outras cargas já teriam então passado por outros transportadores? Na semana imediatamente anterior fora apreendida uma enorme carga de cocaína e no mês anterior havia sido descoberta uma fazenda no pantanal usada para distribuição de drogas que chegavam por avião. Claro que essa situação vinha de muito antes, certamente continua até hoje em volumes muito maiores e continuará caso faltem providências estruturantes fortes como as anunciadas pelo secretário.
     Um dos principais problemas das cidades brasileiras é a insegurança pública total, impondo-lhes um quadro de medo e violência jamais visto. Esta situação é fomentada e se agrava pelos tráficos de drogas, armas e veículos, que se articulam em poderoso esquema nacional e internacional submetendo aos seus interesses e caprichos povos do mundo inteiro, em especial os jovens. Como pensar em qualidade de vida urbana numa situação destas? Nossas cidades sofrem.
     É de ressaltar que jamais será suficientemente enaltecido o trabalho que com todas as dificuldades e riscos é feito pelas polícias militar e civil do estado, Polícia Federal, polícias rodoviárias federal e estadual, e pelo Exército, bem como a importância dos governos continuarem incrementando essas ações terrestres na fronteira. Mas, no caso de nossa fronteira é indispensável lembrar que Mato Grosso é um dos únicos estados do Brasil a não dispor de uma Base Aérea. Mato Grosso do Sul tem, Goiás tem apesar de vizinha a de Brasília, e Rondônia tem duas! Considerando os 1.100 quilômetros de fronteira do estado – dos quais 700 em fronteira seca, e que seu território equivale a mais de 10% do território nacional, o absurdo dessa situação salta aos olhos. O problema se agrava na medida em que toda a fronteira nacional esteja protegida por bases aéreas e as rotas do crime acabem migrando para o grande rombo ainda existente nas fronteiras brasileiras, que fica justamente aqui, na nossa fronteira. E é o que parece acontecer cada vez pior e com mais intensidade.
     Tal como a ferrovia passando por Cuiabá, o gás e a restituição integral aos mato-grossenses pelo governo federal do ICMS que deles foi “emprestado” pela Lei Kandir, uma base aérea na nossa fronteira é um projeto que merece o apoio de todos os mato-grossenses e neste caso da base, de todos os brasileiros pois o rombo em nossa fronteira é uma das principais fontes de abastecimento do crime em todo o Brasil.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

GÁS E FUTURO

Termelérica Cuiabá  (Imagem HiperNotícias)

José Antonio Lemos dos Santos
     Na semana em que Cuiabá comemorava seu 299º aniversário, com a cidade adentrando em seu tricentésimo ano de existência, foi noticiada a suspensão do funcionamento da Usina Termelétrica de Cuiabá e do gasoduto Bolívia-Cuiabá. Não entro aqui nos porquês dessa suspensão pois o rolo é muito grande envolvendo as 2 maiores empresas do país, presidência da república, lava-jato, em suma, desfocaria o objetivo deste artigo que é o descaso ou desleixo com que as autoridades governamentais e as lideranças civis do estado tratam o complexo industrial mais caro de Mato Grosso, fundamental para seu desenvolvimento e construído a um custo de 1,0 bilhão de dólares!
     Especialista em Planejamento Urbano, não entendo nada sobre gás, termelétrica ou rolos de empresas, mas sei o quanto é importante a disponibilidade do gás para o desenvolvimento de uma cidade ou região. Por isso sigo a Termelétrica desde sua gestação já tendo escrito muitos artigos sobre o assunto sob a ótica de Cuiabá e Mato Grosso. A Termelétrica de Cuiabá é fruto da visão de estadista do saudoso Dante de Oliveira. Com o gasoduto Bolívia-Cuiabá, integra um complexo inaugurado em 2002 a um custo de US$ 1,0 bilhão, repito. Com sua perspectiva de futuro o então governador anteviu a grande produção agropecuária atual de Mato Grosso, já prevendo a energia e a logística de transportes como os dois gargalos para esse processo. Hoje Mato Grosso é o líder do agronegócio nacional, principal fiador do saldo comercial e do PIB nacional, mas está encalacrado na logística. Só não está em crise energética justo pelas providências daquele tempo.
     Uma vez instalada em Mato Grosso uma agropecuária de alta tecnologia e produtividade, Dante percebeu ser fundamental a criação das condições para a verticalização no estado dessa produção primária, agregando-lhe valor. Gerar empregos aqui em vez de exportá-los. Entendia que a Baixada Cuiabana poderia ser a base desse processo de verticalização com apoio da ZPE de Cáceres. Para esse salto, energia e transporte seriam essenciais. Arrancou assim das barrancas do Paraná os trilhos da Ferronorte, criou o FETHAB, implantou o Porto Seco e internacionalizou o Aeroporto Marechal Rondon, providenciando sua ampliação a quatro mãos com o também saudoso Orlando Boni, cuiabano então presidente da Infraero. Na questão da energia destravou a APM de Manso, então com obras paralisadas a bastante tempo e trouxe a poderosa Enron para implantar o complexo termelétrica/gasoduto.
     Implantado o complexo do gás viriam com ele as vantagens regionais comparativas para a instalação de novas indústrias e outros investimentos. Só que o plano não avançou, a ponto do gás hoje não sensibilizar nem os taxistas e a Termelétrica ter um funcionamento descontinuado. O gás aqui foi inconfiabilizado e sempre me intrigou a causa desse aparente insucesso e do estranho silêncio de nossas lideranças empresariais e políticas sobre o assunto. Por que? Para mim não entenderam nada até hoje, na mais gentil das minhas hipóteses.
     Agora vem esta nova suspensão de funcionamento, mais séria pois afeta também o gasoduto. Ouvi no rádio o presidente do MTGás dizer que obteve uma liminar na Justiça assegurando o funcionamento do gasoduto e que, portanto, poderiam ficar tranquilos os cerca de 800 motoristas e as 4 ou 5 empresas que usam o gás como insumo energético. Infelizmente, trata-se muito mais que isso. Sugiro ao leitor buscar no Google pelo gás de Mato Grosso do Sul. Sentirão o mesmo que senti: inveja! Nos mapas, a distribuição por quase toda a Campo Grande, indo a Três Lagoas e Corumbá, para uso veicular, residencial, comercial, industrial e cogeração. Lá bombando o futuro, enquanto aqui ...

segunda-feira, 26 de março de 2018

VEMAGUETE NA FÓRMULA - 1

Foto:QuatroRodas
José Antonio Lemos dos Santos
     Vemaguete é o nome de um dos primeiros carros nacionais, foi produzida entre os meados das décadas de 50 e 60. Fez sucesso, e tinha algumas características estranhas para os dias de hoje tais como motor de dois tempos com um barulho típico que usava gasolina misturada com óleo, uma tal de “roda livre” que ajudava o carro a ser muito econômico e no começo de sua produção tinha as portas dianteiras abrindo para frente, e por isso foi logo batizada pelos brasileiros de “DeCáVê”, abrasileirando o nome do fabricante, a DKW, e especialmente em homenagem ao desembarque menos cuidadoso das mulheres. As portas logo foram mudadas pela fábrica, mas ainda assim nada mais distante de carros dos tempos atuais do que uma Vemaguete.
     Recorro à Vemaguete a pretexto de meu artigo da semana passada que no final levanta a possibilidade da Arena Pantanal, comparada a uma espaçonave extraterreste, ter pousado no lugar errado em função do desleixo das autoridades responsáveis que não conseguiram em tempo hábil renovar seu alvará de funcionamento com público, às vésperas de dois jogos decisivos de um time local em disputas nacionais. A comparação da Arena com uma espaçonave vem de sua tecnologia, beleza e impacto deslumbrante de sua iluminação cenográfica externa, quando ainda era acionada.
     Ao contrário da possibilidade sugerida no artigo, a Arena Pantanal pousou no lugar certo. Mato Grosso é conhecido com uma das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta em termos de alimentos graças a utilização de tecnologias de vanguarda mundial, em grande parte desenvolvidas no próprio estado e que permitem alcançar níveis altíssimos de produtividade aproveitando as condições especiais do solo e do clima. O agronegócio empurra com ele para cima em grande velocidade toda uma cadeia produtiva complementar complexa e também de ponta, com sofisticados serviços de saúde, educação, comércio, hotelaria, assessoramento técnico, logística e outros que encontram em Cuiabá seu principal polo regional de apoio. Assim a Arena Pantanal é filha dos tempos atuais, irmã das “plantations” e pecuária “high-tech” que ajudam a alimentar o mundo e sustentam a balança comercial brasileira, mas irmã também dos modernos shoppings, hotéis, hospitais, clínicas médicas, universidades, instalações culturais e de lazer que se distribuem hierarquicamente pela rede urbana mato-grossense.
     Acontece que as estruturas político-administrativas em Mato Grosso, considerando as federais, estaduais e municipais em todos os seus poderes, não conseguem acompanhar em velocidade e intensidade o dinamismo da sociedade mato-grossense. Aliás isso acontece no Brasil todo, como uma reunião do STF por exemplo. Só que em Mato Grosso esse descompasso atravanca tudo pois o estado ainda é muito carente do apoio governamental. Comparo então a dinâmica socioeconômica com uma corrida moderna de Fórmula 1 na qual nossos governos vão de Vemaguete, daquelas primeiras de portas invertidas e cheia de gambiarras.
     O que acontece com a Arena Pantanal é o mesmo que se dá com as constantes e crescentes demandas sociais ou econômicas mato-grossense. Demandas são comuns nas sociedades saudáveis. O problema não é a Arena e nem as demandas sociais ou da economia, mas as estruturas político-administrativas arcaicas, ultrapassadas, cuja única vontade é a autopreservação, incapazes e despreocupadas em resolver os problemas de sua obrigação. Desde implantar a ferrovia mais viável do mundo, ou o voo para a Bolívia, ou distribuir o gás que chega a Cuiabá por um gasoduto de U$ 250,0 milhões, problemas grandiosos ou pequenos como um simples alvará de funcionamento que qualquer boteco providencia.

terça-feira, 18 de julho de 2017

O GÁS DE MATO GROSSO E SUAS ILAÇÕES II

UOL

José Antonio Lemos dos Santos

     Ainda tentando ressuscitar da forte gripe que me impediu redigir este artigo na semana passada, retorno à denúncia que inadvertidamente fez o chefe da B&F em sua afamada gravação no Jaburu quando pediu a interferência presidencial junto ao CADE em uma suposta discriminação de preços do gás da Petrobrás contra a Termelétrica de Cuiabá usina hoje de propriedade do grupo. Preferia vê-lo aprisionado, mas, mesmo sem querer expôs um grave fato até então desconhecido dos mato-grossenses. O CADE ao afirmar que não cedeu ao pleito da J&F confirma a discriminação e o pior é que agora o assunto virou cavalo de batalha política porque qualquer correção nos preços seria vista como comprovação de uma negociata corrupta e não como uma questão de justiça para com um estado injustamente discriminado, afinal o gás é para impulsionar diversas atividades no estado, não só a termelétrica.
     A Petrobrás não é brasileira e Mato Grosso não é Brasil? O mato-grossense só serve na hora segurar a onda do PIB nacional ou de gerar superávits na balança comercial do país? E por que o silêncio de nossos líderes políticos e empresariais? Certamente esse fato grave era do conhecimento de muita gente graúda aqui do estado que por anos não mexeu uma palha sequer para denunciar o assunto, permitindo-nos ao menos o exercício do justo direito de espernear.
     No mundo todo onde chega o gás torna-se logo poderoso indutor de desenvolvimento. Por isso foi trazido para Mato Grosso, em especial para viabilizar a verticalização da economia estadual tendo na Baixada Cuiabana um de seus principais polos. Sugiro ao leitor buscar no Google pelo gás de Mato Grosso do Sul. Sentirão o mesmo que senti: inveja! Nos mapas a distribuição por quase toda a Campo Grande, indo a Três Lagoas e Corumbá, para uso veicular, residencial, comercial, industrial e cogeração. Esse mesmo gás da Petrobrás, inutilizado aqui.
     Por que nosso desprezo a esse importante recurso, já disponibilizado através de uma infraestrutura caríssima? Sequer usado por taxis. Pelo “método das ilações”, tão em voga nos dias de hoje, no artigo anterior deduzi que um dos motivos da sabotagem contra o gás de Mato Grosso teria sido a disputa com Mato Grosso do Sul por uma fábrica de fertilizantes da Petrobrás destinada a atender as demandas do Centro-Oeste, cuja instalação em Cuiabá era vantajosa por sua posição central na região. Porém, Mato Grosso do Sul tinha seu governo afinado ideologicamente com os governos do Bolívia e do Brasil. Assim, nosso gás foi cortado e a fábrica foi para Três Lagoas. Perdemos.
     Sobre o silêncio de nossos líderes, políticos ou não, uso de novo o famoso “método das ilações”. Entre estes existem os que ainda se ligam a um atrevido projeto de divisão do estado que se objetiva na interrupção da Ferronorte, na construção da Fico e no enfraquecimento da região de Cuiabá, gerando duas economias isoladas ao norte e ao sul. O gás atrapalharia. Existem outras lideranças fornecedoras de energia através de PCHs, outros que não estão “nem aí” para nada e ainda os que prefiro não comentar. Meras ilações. Ajudam a entender?
     Outro dia o governador Pedro Taques esteve na Bolívia abordando o assunto, e agora assume a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico o ex-deputado Carlos Avalone, secretário no governo Dante de Oliveira quando da instalação do gasoduto e da termelétrica. Poderia ser uma esperança maior do que de fato é. Como deputado também não mexeu uma palha em favor do nosso gás. Porém, a esperança é a última que morre. A favor ainda tem o projeto da ZPE de Cáceres, prioritário para o atual governo. O gás passando ao lado é um diferencial positivo. Talvez a questão agora caminhe novamente. Espero.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

O GÁS DE MATO GROSSO E SUAS ILAÇÕES

HiperNotícias

José Antonio Lemos dos Santos
     Inadvertidamente o chefe do grupo J&F em sua polêmica gravação no Jaburu pode ter prestado um grande serviço a Mato Grosso. Preferia vê-lo preso pelos prejuízos que causou e continua causando ao Brasil, e em especial a Mato Grosso, maior produtor de gado do país e ele o maior o maior produtor de proteína animal do mundo. Um dos focos de sua famosa conversa com o presidente Temer foi um pedido de interferência presidencial junto ao CADE em uma suposta discriminação da Petrobrás contra a Termelétrica de Cuiabá em termos do preço do fornecimento de gás para a usina hoje de propriedade do grupo.
     A Termelétrica de Cuiabá é fruto da visão de futuro de um dos maiores estadistas que o Brasil teve, Dante de Oliveira, não valorizado entre nós como merecia justamente por ser daqui. Integra um complexo com o gasoduto Bolívia-Brasil (Cuiabá) implantado a um custo total de US$ 1,0 bilhão à época. Com sua perspectiva de futuro o então governador anteviu a grande produção agropecuária atual de Mato Grosso, já prevendo a energia e a logística de transportes como os dois gargalos para esse desenvolvimento. Hoje Mato Grosso é o líder do agronegócio nacional, fiador fundamental do saldo comercial e do PIB nacional, mas está encalacrado na logística e na energia para ir além.
     Instalado no estado um parque agropecuário de alta tecnologia e produtividade, Dante via ser fundamental a criação das condições para a verticalização no estado de toda essa produção, agregando valor à produção primária. Gerar empregos aqui em vez de exportá-los. Entendia que a Baixada Cuiabana poderia ser a base desse processo de verticalização com apoio da ZPE de Cáceres. Para esse salto restava resolver as questões da energia e do transporte para levar e trazer o desenvolvimento. Arrancou assim das barrancas do Paraná os trilhos da Ferronorte, criou o FETHAB, implantou o Porto Seco e internacionalizou o Aeroporto Marechal Rondon, providenciando sua ampliação a quatro mãos com o também saudoso Orlando Boni, cuiabano então presidente da Infraero. Na questão da energia destravou a APM de Manso, com canteiro de obras e máquinas parados a bastante tempo e trouxe a Enron.
     Então o complexo foi implantado com o gasoduto, a Termelétrica, e as vantagens regionais comparativas para a indústria e outros investimentos. Só que o plano não avançou a ponto do gás hoje não sensibilizar nem os taxistas e a Termelétrica ter um funcionamento descontinuado. Inconfiabilizados, em suma. Tirando a falência de seu primeiro dono, a Enron, outro grupo internacional logo assumiu, sempre me intrigou as causas desse aparente insucesso e do estranho silêncio de nossas lideranças empresariais e políticas sobre o assunto.
     Entre as causas está a interrupção do fornecimento do gás pelo governo Evo Morales, recém empossado, mantendo o fornecimento para outros ramais do Brasil. Começava a discriminação e também minhas ilações, palavra tão na moda hoje. Discutia-se a instalação de uma grande fábrica de fertilizantes da Petrobrás para atender o Centro-Oeste, cuja melhor localização seria uma posição central, no caso, Cuiabá. O gás era a principal matéria-prima. O governo boliviano, com os governos federal e de Mato Grosso do Sul, então companheiros ideológicos, queriam a fábrica no estado irmão. E o gás para Mato Grosso foi cortado, sob mil pretextos. A primeira ilação estava pronta. Com a omissão das lideranças políticas e empresariais mato-grossenses a fábrica foi instalada em Três Lagoas, colada a São Paulo, excêntrica a seu mercado. Agora aparece a reclamação do chefe da J&F. Seria verdade? Por que a diferenciação contra a Termelétrica de Cuiabá? Não é Brasil? Outras ilações ficam para futuros artigos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

GASODUTO

PantanalEnergia

José Antonio Lemos dos Santos

De alma lavada com a vitória do Cuiabá quinta-feira à noite na Copa Sul-Americana, a primeira competição internacional de um time de futebol mato-grossense, prossigo listando os fatores positivos prontos para serem usados em favor do desenvolvimento da Baixada Cuiabana. Em época de eleições e de elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado do Vale do Rio Cuiabá (PDDI/VRC) o melhor é elencar o que temos de bom e de positivo que possam servir de base propulsora para a construção do futuro, ao invés de começar com nossos pontos fracos. Destaco neste artigo o Gasoduto Bolívia-Cuiabá, de quase 700 Km a um custo de 250,0 milhões de dólares, que se complementa com a Usina Termelétrica Cuiabá I, construída por 750,0 milhões de dólares, conjunto inaugurado em 2002 como o maior investimento feito em Mato Grosso e que até o momento encontra-se subutilizado, quase abandonado. Este artigo usa lembranças pessoais de quem acompanhou esses projetos sob a ótica do desenvolvimento urbano, e tem o intuito de indicar possíveis caminhos propositivos aos que planejam ou são candidatos.
     O gasoduto Bolívia-Cuiabá passa por Cáceres, Livramento, Poconé e Várzea Grande até chegar à Cuiabá constituindo grande vantagem comparativa da Baixada Cuiabana em relação às outras regiões do estado como potencial para seu desenvolvimento. Está prontinho para deflagrar suas benfeitorias em favor da geração de empregos, renda e qualidade de vida para a população. E nenhum instrumento se mostra mais indicado do que o PDDI/VRC para resgatar o gasoduto de seu abandono, vez que atravessa 3 dos 4 municípios da Região Metropolitana sendo que sua ativação servirá também à Cáceres e sua ZPE em início de implantação.
     O gasoduto Bolívia-Cuiabá traz para Mato Grosso o gás natural que é uma mistura de hidrocarbonetos que serve como combustível relativamente limpo e barato para geração de energia com diversas finalidades, bem como matéria prima de várias aplicações na indústria química, de fertilizantes a remédios. Em todo o mundo o gás natural alavanca o desenvolvimento industrial nas regiões em que é disponibilizado e aqui na Baixada Cuiabana poderia estar em uso residencial, movendo veículos, tocando industrias existentes, atraindo outras ou reativando antigas, como a da cerâmica, de alto consumo energético com aproveitamento da argila abundante às margens do Cuiabá. Mas ao contrário do interesse que desperta no mundo, em Mato Grosso o gás foi abandonado e só tem sido utilizado no funcionamento de 2 ou 3 indústrias e a Termelétrica, de funcionamento intermitente em função de necessidades do sistema nacional interligado de energia.
     A culpa dessa situação é atribuída ao governo boliviano pela descontinuidade do fornecimento do gás, gerando descrédito e desestimulando os processos de conversão. Mas foi também evidente um forte desinteresse político nacional, estadual e dos municípios que seriam diretamente beneficiados. Ao governo federal parecia interessar que uma fábrica de fertilizantes da Petrobras, cuja localização se discutia, ficasse em Mato Grosso do Sul e não em Mato Grosso, apesar de quase toda a demanda ser mato-grossense. Cortando o gás de Mato Grosso, a fábrica foi para Mato Grosso do Sul. O assunto também não era, nem é, palatável aos principais políticos do estado, donos de PCH’s e fornecedores de energia. A omissão se completa com o silêncio das autoridades municipais cujo horizonte não ultrapassa os dois anos do calendário eleitoral. Talvez agora o caso seja retomado com os mandatários estaduais já entrosados, com a chance de renovação das eleições municipais e o PDDI Metropolitano buscando os verdadeiros caminhos do desenvolvimento para os municípios do Vale do Rio Cuiabá.
(Publicado em 26/08/16 pela Página do Enock, HiperNotícias, MidiaNews, ArquiteturaEscrita, em 31/08/16 no Diário de Cuiabá e no site do CAU/MT,,....)
Comentários
No Facebook:
Roberto Loureiro 26/0816  18:30h
"Parabéns pelos textos de alerta sobre iniciativas de desenvolvimento de MT implantadas e esquecidas .Esperanças relegadas ao esquecimento sem respostas do "por que?" .Quem sabe essa nova leva de politicos reflita sobre esses temas e deem sequencias a sonhos que ja deviam ser realidade.Vale a pena tentar.Avante!."

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A FORÇA DA METRÓPOLE


Foto José Lemos

José Antonio Lemos dos Santos

     O maior e mais importante patrimônio histórico deixado para Cuiabá por nossos antepassados é o futuro, não seu extraordinário passado, nem este dinâmico e desafiador presente. A socos e pontapés, muita luta e sofrimento, conseguiram resistir e permanecer neste lugar mágico, no centro da América do Sul, encontro natural dos caminhos continentais, primazia que lhe assegura potenciais fantásticos, mas que hoje é ameaçada por falaciosos argumentos e tenebrosas traições.
     Aproximam-se as eleições municipais e no último dia 28 de julho o governo do estado anunciou o início dos trabalhos de elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI) da Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá (RMVRC), sob a coordenação da SECID e da Agência de Desenvolvimento Metropolitano da Região do Vale do Rio Cuiabá (AGEM/VRC). Eleições e planejamento têm em comum a expectativa de projetar o futuro em cuja construção todos os cidadãos devem se empenhar. Mas quando se pensa em futuro para a Grande Cuiabá e sua região de entorno, normalmente o que se faz é tentar construí-lo consertando o passado ao invés de trabalhar suas enormes potencialidades e vantagens comparativas regionais. E não se constrói o futuro debruçados sobre o passado tentando corrigir erros, contando coliformes fecais, aedes aegypti e outros déficits e carências sociais e estruturais. Ao contrário, só consertamos os passivos do passado numa perspectiva correta de construção do futuro.
     Para construir seu futuro a RMVRC tem muitos elementos propulsores prontos para otimizar suas potencialidades, e que em qualquer lugar no mundo seriam minuciosamente estudados e aproveitados. A começar por ser a região que concentra quase 30% da população de Mato Grosso, representando sua maior oferta de recursos humanos em todos os níveis de capacitação, população que conseguiu gerar em 2015 mais de 25% do PIB mato-grossense, o maior PIB no estado, o triplo do segundo maior PIB municipal de Mato Grosso. E dizem que não produz nada. Outro fator preponderante a ser explorado é sua localização estratégica no continente e no território mato-grossense, equidistante de suas principais atrações turísticas e centralizadora hoje de uma das regiões mais produtivas do planeta.
     População, localização e PIB significativos, criam entre si uma sinergia chamada efeito-aglomeração, diferencial atrativo para outros empreendimentos seduzidos pelos já existentes, gerando uma espiral ascendente de desenvolvimento. Dessa potencialização estrutura-se uma rede de serviços comerciais, bancários, hoteleiros, culturais, educacionais e de saúde, com suas infraestruturas instaladas em condições de continuar fomentando, atendendo as demandas do desenvolvimento regional e sendo impulsionado para cima por este.
     A lista de elementos propulsores que poderiam ser acionados em favor do desenvolvimento regional contempla ainda outros itens que se bem trabalhados levariam a RMVRC a consolidar-se como o principal polo da tão importante verticalização industrial da economia mato-grossense. O gasoduto Bolívia/Cuiabá, pronto e operante, que com a Termelétrica representaram à época da construção um investimento da ordem de US$ 1,0 bilhão! Só o gás seria suficiente para sacudir positivamente a economia de qualquer região no mundo com energia abundante, barata, limpa e, mais ainda, matéria prima para indústrias químicas de amplo espectro, de fertilizante a remédios. Aqui, motivo de piada. Na lista ainda teríamos o Aeroporto Internacional, a ferrovia bem próxima, o Porto Seco e o Aproveitamento Múltiplo de "Manso, e seus desdobramentos, assuntos para outros artigos.
(Publicado em 12/08/16 pela Página do Enock, HiperNotícias, no dia 13/08/16 pelo Diário de Cuiabá, Midianews, FolhaMax, Blog do Lúcio Sorge, Arquitetura Escrita, em 15/08/16 MuvucaPopular ...)
ERREI
Conforme correção encaminhada pela Presidente da AGEM/VRC os trabalhos de elaboração do PDDI  da Região do Vale do Rio Cuiabá são coordenados pela AGEM/VRC e Casa Civil do Governo do Estado, sem relação com SECID  conforme publicado no artigo.

COMENTÁRIOS
Por e-mail:
Ivo Cuiabano Scaff  12/08/15
Meus parabéns pelo lúcido artigo e a visão ampla, abrangente, com visão de futuro de gestão maior.
Esse enfoque de planejamento e definição politica de cenários porvir, queira Deus que seja lido e absorvido por quem tem poder de incrementar."

Cleber Lemes:
"Bom Dia Dr. José Antonio ! 
Concordo com você. Como exemplo podemos citar a região Portuária do Rio de Janeiro, com o MUSDEU do FUTURO, a praça MAUÁ , etc. Um abraço ."

No Facebook
Eloísa Pereira da Silva 13/08/16 07:50h
"não desemperra nem com Lub ou óleo de máquina. ..a ganância é tanta...o medo é tanto...de grupos fuinhas ...meterem a mão nas possibilidades e oportunidades...!...a individualidade e os interesses antagônicos afogam a mola de propulsão...!O resultafo é a inércia !












terça-feira, 3 de setembro de 2013

ORLA CUIABANA

g1.globo.com

José Antonio Lemos dos Santos

     No último dia 27 o prefeito de Cuiabá apresentou amplo projeto destinado a revitalizar urbanisticamente a região da Beira-Rio no antigo bairro do Porto. Sem entrar no mérito do projeto técnico que sempre envolve pontos sujeitos a questionamentos e ajustes, inclusive de ordem ambiental e de patrimônio histórico, no geral gostei da proposta, pois significa que a atual administração assumiu posição em direção ao futuro, propondo-se a projetos que desenvolvam as potencialidades da cidade. Cuiabá é uma jovem de 300 anos que tem um passado riquíssimo, um presente altamente dinâmico, mas que também tem um futuro extraordinário a ser desenvolvido. Centralizando uma das regiões mais dinâmicas do planeta e vivendo sob a alta pressão positiva das demandas regionais, Cuiabá tem no equacionamento de suas perspectivas e potencialidades de futuro a única alternativa de desenvolvimento sustentável e seguro, inclusive, de solução de suas carências atuais, entre estas o respeito e a valorização do passado. 
     Parece ser uma decisão fácil, mas não é. Projetar o futuro implica em escolhas, priorizações e decisões que de um modo geral implicam em polêmicas. Nunca agrada a todo

mundo. Fingir que está tapando buracos, apagando incêndios é muito mais fácil, pois passa a ideia de um governo trabalhador, que arregaça as mangas, quando na verdade está apenas enxugando gelo, jogando para a plateia, não resolvendo os problemas do presente e deixando escapar as potencialidades do futuro. E Cuiabá tem muitas potencialidades a ser desenvolvidas diretamente pela prefeitura ou cobradas por esta à outras instâncias de governo ou mesmo à iniciativa privada. Sua centralidade regional talvez seja a mais importante, o lugar mágico cujas enormes vantagens comparativas a impulsionam para cima. Potencializada renderia muito mais, sem risco de ser perdida para outros polos que trabalham nesse sentido. A Copa do Pantanal é a potencialidade mais urgente e a vontade do prefeito em concluir o Projeto Porto até a Copa é também um sinal de que a prefeitura finalmente assumiu o mega evento, até então meio desprezado pelo município. Temos ainda o Centro Geodésico da América do Sul, o gás natural abundante, o Porto Seco, o aeroporto internacional, a convergência de 3 BRs, a barragem de Manso com suas múltiplas finalidades, a ferrovia a 200 km e, em breve, uma das poucas arenas do país, viabilizadora de grandes eventos nacionais e internacionais. 
     O rio Cuiabá é uma das maiores potencialidades da cidade, neste caso oferecida de graça pela natureza, como o Coxipó e os 21 córregos que a cortavam irrigando o verde, distribuindo frescor e enriquecendo a paisagem. O rio Cuiabá é o maior equipamento urbano da Grande Cuiabá, bem ao centro da região metropolitana, de uma imensa potencialidade abrangendo história e cultura, o abastecimento alimentar, tanto de peixes como de água, saneamento, composição climática e paisagística, fauna, flora, turismo, bem como o lazer ativo e contemplativo para todos os gostos, do popular ao sofisticado.
     Incrível mas a cidade virou as costas para essa imensa riqueza. O rio precisa ser resgatado em sua integridade, não só por Cuiabá, mas também por Várzea Grande. Não se trata de tarefa fácil, mas é possível e não pode ser esquecido que algumas boas tentativas já foram feitas ao menos desde a década de 70 com a própria implantação da Beira-Rio, também corajosa e polêmica à época. A descontinuidade administrativa tem sido o principal obstáculo. A cada abandono o retrocesso é imenso. Como assegurar que este projeto uma vez implantado seja cuidado e respeitado com o mesmo carinho pelas administrações posteriores? 

(Publicado em 03/09/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CUIABÁ, A PÉROLA E OS PORCOS

José Antonio Lemos dos Santos



      Desde que Cuiabá ganhou a sede da Copa do Pantanal repeti algumas
vezes que esse privilégio e responsabilidade teria sido um estratagema
do Senhor Bom Jesus de Cuiabá para dar uma sacudida nos cuiabanos,
governantes e governados, para que se liguem no momento especial que a
cidade vive, agora polo de uma das regiões mais dinâmicas e produtivas
do planeta, visando a festa do Tricentenário em 2019, esta sim a maior
efeméride cuiabana no século. E parece que esse plano começa a dar
certo. A Copa resgatou o futuro no imaginário cuiabano, virando sua
cabeça cidadã para a frente e para o alto.
     O que ainda resta alcançar é a distinção entre a cidade e os
problemas que a cidade enfrenta. Na verdade ela é vítima de um
sistema de gestão urbana defasado, ilegal e corrupto, por isso
incompetente. A má gestão pública fez a cidade deficitária em
infraestrutura, equipamentos e serviços urbanos que deixaram de
acompanhar seu dinamismo. As novas administrações municipais de
Cuiabá e Várzea Grande trazem esperança de superação para esta
situação crítica. A cidade embora tricentenária revitalizou-se e
está em pleno desenvolvimento como uma adolescente saudável que não
pode ser criticada por necessitar de vestuário novo e maior a cada
momento. Cuiabá está viva e moderna como atestam os avanços trazidos
pela iniciativa privada em empreendimentos de grande porte e alta
sofisticação no ramo imobiliário, no comércio, saúde, educação, lazer
e indústria de um modo geral, que não podem passar despercebidos.
     A Grande Cuiabá é sim uma velha e linda senhora muito maltratada,
mas que rejuvenesceu-se no desenvolvimento regional que ajudou a
construir. Só precisa ser tratada de forma digna por aqueles a
quem cabe cuidá-la, suas autoridades públicas, em especial as dos
municípios que a compõem. Cuiabá é como uma pérola que escapou às
mãos da cidadania e ficou à mercê dos porcos. Há que ser resgatada
e trabalhada em todas as suas facetas de potencialidades e beleza.
Nela está o centro da América do Sul, por exemplo. Uma noite dessas
passei lá e nem a luminária do poste de rua em frente estava acesa.
Tem seu centro histórico tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional,
com um peculiar traçado urbanístico e belos exemplares arquitetônicos,
também desprezado e abandonado. Tem em seu sítio urbano o privilégio
de 2 rios e 21 córregos, riqueza florística, faunística, paisagística
e de composição climática para os quais demos as costas, assim como
também nem notamos que a cidade é caprichosamente emoldurada pelas
silhuetas da Chapada e do Morro de Santo Antonio. Nas proximidades
Cuiabá potencializa ainda o Pantanal, a Chapada dos Guimarães, as
termas de São Vicente, as grutas de Nobres e o lago de Manso.
     Além das belezas e potencialidades naturais a cidade desfruta
de posição estratégica em termos da logística continental e nacional.
É o encontro natural dos caminhos. Cuiabá viabilizou a chegada e o
avanço das rodovias, aerovias e da ferrovia em Mato Grosso e tem
tudo para centralizar o moderno sistema intermodal de transportes 
que o estado tanto precisa. Tem Manso como equipamento de proteção
urbana contra as maiores cheias e sua grande caixa d’água a 100
metros de altura permitindo-lhe um abastecimento por gravidade seguro
e contínuo, mas desprezada. Como também está desprezada a energia
abundante, limpa e barata do gás trazido por um gasoduto que custou
US$ 250,0 milhões. Todas essas maravilhas, naturais ou construídas,
compõem a beleza e a potencialidade real de Cuiabá. Desprezadas aqui,
seriam exploradas por qualquer cidade minimamente gerida como fonte de
emprego, renda e qualidade de vida para sua população. Mas, que fazer?

terça-feira, 30 de outubro de 2012

NOVO PREFEITO, NOVA CIDADANIA

José Antonio Lemos dos Santos

     Como se repete a cada dois anos, domingo passado tivemos a grande festa da democracia no Brasil, agora com a eleição dos novos prefeitos nas 50 cidades brasileiras que ficaram dependentes do segundo turno nestas eleições municipais de 2012. As eleições democráticas são antes de tudo um amplo processo de reflexão da sociedade sobre seu presente e seu futuro, reafirmando ou corrigindo rumos e concluindo com a escolha daqueles que serão responsáveis por sua condução nos próximos anos. Trata-se de momento especial em que a sociedade debruça sobre seus problemas e potencialidades, avalia os caminhos a seguir e, sobretudo, amadurece seus conceitos sobre a democracia, ajudando a aperfeiçoá-la. Não há derrotados ou perdedores, só vencedores. 
     Nas minhas não poucas eleições já vividas arrisco-me a dizer ter sido esta a mais madura de todas, naturalmente com muitos detalhes a corrigir e até alguns erros grosseiros como aquela falha de comunicação da própria Justiça Eleitoral no primeiro turno que forçou a suspensão da apuração dos votos em Cuiabá por algumas horas. No mais tivemos de um modo geral um show de civismo por parte da população, seja ao longo dos comícios e debates, seja na tranquilidade do pleito, das apurações e das comemorações pós-eleitorais. Tive a impressão de que mesmo a escolha dos candidatos se deu de forma mais amadurecida no Brasil inteiro, por exemplo, com a significativa redução de sensibilidade aos apelos de figuras midiáticas como ex-jogadores, artistas, radialistas e apresentadores de TV que tradicionalmente disparavam como os mais votados em todas as eleições. Parece que enfim começamos a perceber a diferença de atribuições entre as funções. Mesmo na eleição majoritária pode ser notada uma maior cautela, uma espera maior para definição, sem aquele oba-oba imediato semelhante a torcidas de futebol, muito característico das eleições do passado.
     Cuiabá teve talvez, em seu conjunto, o melhor grupo de candidatos a prefeito de sua história. Chegaram ao segundo turno um político e um empresário de grandes qualidades e inovadores em suas áreas. Foi eleito Mauro Mendes, já temperado pelo fogo de duas eleições, e agora com o mérito de suplantar na escolha popular a Lúdio Cabral uma nova figura na política local, carismático e dono de uma performance exemplar na Câmara de Vereadores. O novo prefeito assume Cuiabá no melhor momento de sua história, com a responsabilidade de ajudar a prepará-la e conduzi-la sob o foco dos holofotes de uma Copa do Mundo, bem como de encaminhar os preparativos para o Tricentenário, seu mais significativo evento no século. Caberá a ele o papel de maior autoridade municipal, líder condutor de Cuiabá na solução de seus problemas e, principalmente, no desenvolvimento de todas as imensas potencialidades que o futuro lhe oferece como lugar central de uma das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta. Não só consertar os problemas da cidade do passado, mas corrigi-los à luz da construção da cidade do futuro. Não só cuidar das responsabilidades do âmbito municipal, mas cobrar os direitos de Cuiabá nas instâncias em que estiverem. O aeroporto, o gás, a ferrovia, o Porto-Seco, a duplicação rodoviária até Rondonópolis e Posto Gil, projetos fundamentais ao futuro de Cuiabá, não podem continuar abandonados politicamente. 
     a escolha do prefeito é a ponta do iceberg eleitoral. O mais importante é o amadurecimento cívico que os processos eleitorais trazem com a reflexão da sociedade sobre seu destino. Mais que um novo prefeito, parece surgir enfim uma nova cidadania, menos passiva, que aplaude, propõe e ajuda as autoridades, mas que também critica, cobra e fiscaliza. Boa sorte Cuiabá, e que venha o futuro! 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

CUIABÁ, O LÍDER NECESSÁRIO

José Antonio Lemos dos Santos
C
     Ainda deveria tratar a questão da Policlínica do Verdão saudando o prefeito Francisco Galindo por sua mensagem à Câmara de Vereadores revogando a Lei autorizativa para a venda daquele equipamento, mas ao mesmo tempo criticá-lo por fazê-lo de uma forma “casada” com outra autorização, agora para venda da área do Terminal Atacadista. Ou vende uma, ou vende outra. Por que essa pressa na venda de uma das áreas de maior valorização em Mato Grosso, ao lado da Arena Pantanal, um dos palcos da Copa? Porém, mesmo importante, o assunto não supera o caráter decisivo do segundo turno na escolha do prefeito da cidade.
     Ainda que o quadro tributário privilegie as esferas estadual e federal, desequilibrando assim o poder político, apesar disso pode-se dizer que o nível municipal é o mais importante para o cidadão, pois é nele que acontecem as coisas que lhe dizem respeito diretamente. A união e os estados não existem concretamente, os municípios sim. É na porta dos prefeitos que os cidadãos batem na hora das dificuldades. Assim, se houvesse uma escala de importância entre as eleições dava para concluir que as municipais são as mais importantes, ademais por influenciarem as eleições estaduais e federais subsequentes.
     Preocupa-me o processo reducionista da importância do prefeito, em especial no caso de Cuiabá, talvez em decorrência de que por algum tempo tenham sido nomeados. O prefeito foi reduzido a uma espécie de gerente de obras e serviços públicos, salvo em raríssimas exceções de um ou dois prefeitos. Para muitos trata-se de uma posição confortável já que permite-lhes o jogo de empurra-empurra entre os poderes, deixando o coitado do cidadão sem saber a quem recorrer: ao prefeito, governador ou ao presidente? ou agora à presidenta? Ao vereador, deputados estaduais, federais ou senadores? Sem dúvida, uma situação confortável para aquelas autoridades com menor espírito republicano.
     Na estrutura institucional dos poderes nacionais, todos os poderes devem ser exercidos em nome e proveito do cidadão, logo, todos são responsáveis pelos interesses do povo. Assim, o prefeito municipal é uma autoridade, um poder político, não só um gerente para tapar buracos ou fazer funcionar os serviços de saúde, saneamento ou de trânsito. É muito mais que isso. Ele é legalmente o maior líder do município para conduzir seus destinos, um estadista, e dessa obrigação não pode escapar. Todos os assuntos que interessem diretamente à vida do munícipe são da incumbência política dos prefeitos. Se estiver dentro da alçada administrativa do município, é nela que deverá agir. Se estiver na alçada do governo estadual ou federal, deve arregaçar as mangas e o gogó e correr atrás, brigar, lutar por aquilo que seu município tem direito. Até mesmo na esfera privada, como no caso de políticas de atração de empresas para geração de empregos.
     Cuiabá vive o melhor momento de sua história, centralizando uma das regiões mais dinâmicas no mundo, um papel regional que é decisivo em sua formação e desenvolvimento. Muitos assuntos de seu interesse estão na escala regional, fora do território municipal e da alçada administrativa da prefeitura, mas não fora da responsabilidade política do prefeito, líder condutor dos destinos do município. Entre outros, é o caso da ferrovia, da ampliação do aeroporto, da duplicação rodoviária até Rondonópolis e Posto Gil, do aproveitamento do gás e da Copa do Pantanal. Os futuros prefeitos de Cuiabá e os atuais candidatos não podem continuar fingindo não ver assuntos tão determinantes para o futuro da cidade e para a qualidade de vida de sua gente. No segundo turno teremos afinal um debate entre estadistas? ou entre gerentões, inferiores à cidade que querem governar?

(Publicado em 16/10/2012 pelo Diário de Cuiabá)