"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A ASCENSÃO DOURADA

 

Neto com os Douradinhos mascotes (Foto José Lemos)

José Antonio Lemos dos Santos

     Sou do tempo em que o futebol era tido como coisa de “malandro”, de quem não queria estudar, “matador” de aulas e coisas assim. Maldade. Era apenas paixão pela bola, fosse ela uma laranja, tampinha de garrafa, bolinha de meia ou de papel. Como era muito ruim de bola eu só jogava com os amigos nas ruas próximas de casa, descalços em piso de chão batido, às vezes em ladeira e com alguns afloramentos de cristal que uma hora ou outra tiravam a tampa de um dedão do pé, logo socorrido com um jato certeiro de urina no local. E seguia o jogo até a bola sumir no breu da noite. A não ser que as mães chamassem antes, de cinto na mão para tomar banho, jantar e aguardar a tv entrar no ar. 

     O esporte, todos, é uma das formas mais elevadas de manifestação da vida saudável e no Brasil, em especial o futebol. Longe da equivocada ideia da malandragem, hoje o futebol envolve um dos mais ricos mercados de trabalho no mundo e sem dúvidas deve ser incentivado junto aos demais esportes como alternativa de vida à juventude brasileira, tão assediada pelos falsos brilhantes dos descaminhos da vida. E o esporte é o melhor e o mais natural antídoto. A ascensão e permanência do Cuiabá Esporte Clube na elite do futebol brasileiro é um alento nesse sentido. Apesar da pandemia, o entusiasmo com que o público abraçou com civilidade e alegria o clube em 2020 e 2021 demonstra a paixão que pode despertar um trabalho bem organizado em torno do esporte, não só em Cuiabá, mas em todo Mato Grosso. As crianças, adolescentes e mesmo adultos, já exibem orgulhosos a camisa da nova paixão local, adotando ídolos daqui ou que vieram de fora, mas todos de carne e osso como qualquer um dando ao jovem a ideia de que podem ser iguais a eles desde que dedicados ao esporte e zelosos com o próprio corpo. Não mais aqueles feixes de elétrons televisivos intangíveis, distantes. Agora ídolos locais possíveis de serem imitados tais como o pioneiro Traçaia ou o atual Rafael Tolói da “azurra”, David Moura no judô, Felipe Lima na natação, Ana Sátila na canoagem etc. Mato Grosso pode ter muitos mais, basta o estímulo oficial que a meninada vai atrás.

     A ascensão do Cuiabá aconteceu pela competência e coragem de seus proprietários e sua diretoria, aproveitando a fantástica Arena Pantanal, recuperada em boa hora pelo governo estadual. Este sucesso do Dourado com o público subitamente apaixonado aponta na direção de uma política estadual para os esportes tendo como polos difusores iniciais a própria Arena, o Aecim Tocantins, o estádio do Liceu Cuiabano, o belíssimo COT, o Parque Aquático e Ginásio na UFMT. Investir no esporte, nos tempos atuais é o caminho mais curto, barato e seguro para a salvação da juventude das garras das drogas, do tráfico, roubo, assassinatos e, também do suicídio, a mais nova praga.     

     Excepcional exemplo, a conquista da Copa passada pela França não foi por acaso como um “dom natural” dos franceses para o futebol, mas resultou de uma política de estado deflagrada em fins dos anos 70 após três eliminações sucessivas do “scratch” gaulês. O governo francês criou um instituto para o desenvolvimento específico do futebol, com centros de treinamento nas periferias das maiores cidades. Política séria, de longo prazo, sem pensar nas próximas eleições, mas no bem do povo francês. Mais que títulos, produziram cidadãos atletas como Matuidi e Mbappé, dentre os outros. Na Croácia, houve algo semelhante quando nos idos de 90 seu primeiro presidente priorizou o esporte para levantar o país após uma guerra. Terceiro lugar na Copa de 98 e vice na de 2018, um país destruído e com quase a mesma população de Mato Grosso. Assim, o sucesso do Dourado bem poderia ser o prenúncio de uma ascensão dourada também para a juventude mato-grossense. 


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

SECRETARIA DAS CURAS

José Antonio Lemos dos Santos 

     Aproveito a bela campanha do Cuiabá na série B do Campeonato Brasileiro para refletir sobre a importância dos espaços urbanos públicos destinados ao lazer e às práticas esportivas, em especial agora com a triste experiência da pandemia exigindo novas formas de convivência da população com seu entorno e valorizando o uso seguro dos espaços abertos ao sol, ao ar e à natureza. O esporte e o lazer sadios são as mais expressivas formas de manifestação da vida em sua plenitude, corpo, mente e alma. Ao tratar as cidades o principal objetivo deveria ser a qualidade de vida de seus cidadãos, buscando condições físicas, psicológicas e ambientais para uma gente saudável e feliz. A cidade como um gerador contínuo de vida saudável com o povo voltando à vida e revificando a cidade. Tudo na cidade deve existir em função da qualidade de vida da população que lhes dá origem e sentido. E não o inverso. 

     É óbvio que um dos pilares da qualidade de vida urbana é a saúde da população. Saúde é vida e ter um povo saudável é mais de meio caminho andado no rumo dos altos padrões urbanos. Infelizmente as estruturas públicas responsáveis pela saúde no Brasil e mesmo no mundo, apesar da abnegação e resistência de grande parte de seus profissionais, estão elas próprias bastante doentes, refém dos poderosos lobbies industriais e de corporações profissionais, dedicando-se mais à rentável cura das doenças do que à manutenção e promoção da saúde. Meio brincando, meio a sério, digo aos amigos que se fosse candidato a prefeito (felizmente não o sou), o ponto alto de minha plataforma seria a criação de uma “Secretaria das Curas” destinada apenas à uma das mais sublimes atividades humanas que é a de tratar as doenças, atropelamentos, feridos diversos, cuidar de hospitais, remédios, etc., liberando assim a atual Secretaria da Saúde para cuidar só da Saúde, sua função primordial como diz seu próprio nome, permitindo o protagonismo também a outros profissionais fundamentais da área como fisioterapeutas, educadores físicos, nutricionistas e outros, hoje caudatários de um modo geral no tratamento das doenças, assim como profissionais de outras áreas como médicos e engenheiros sanitaristas, biólogos, botânicos, psicólogos e outros, e em especial os urbanistas. 

     Arriscando avançar nesta concepção, cuidar da saúde seria o desenvolvimento efetivo de programas de saneamento, resíduos sólidos, abastecimento de água, arborização pública e calçadas, proteção aos mananciais hídricos, educação nutricional, transporte coletivo digno, criação de centros esportivos, parques e academias públicas com profissionais especializados ministrando atividades coletivas, estímulos a torneios saudáveis diversos com inicialização à práticas esportivas com prêmios, bolsas, e mesmo a profissionalização, valorizando e estimulando o jovem atleta. Essenciais seriam programas de estímulo ao uso dos espaços públicos com agendamento de atividades artísticas e esportivas com apresentações de corais de empresas e órgãos públicos, escolas de dança, pintura, música, capoeira etc. As ações dedicadas à cura seguiriam na nova secretaria na expectativa de uma progressiva redução na sua demanda com as ações voltadas à saúde.

     Vejam o sucesso dos parques da cidade junto à população e seria bom que as autoridades notassem isso. O que significa esse intenso uso dos parques da cidade em termos de redução na demanda de jovens e adultos sobre nosso sistema de “saúde”? Para cada atleta exemplar, tipo Felipe Lima, Davi Moura, Michael, Fábio, Jael e Ana Sátila, para cada time local nos diversos esportes ascendendo no ranking nacional, quantos jovens deixam o caminho da droga, da violência, liberando leitos em hospitais, celas nos presídios e túmulos nos cemitérios?

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

O SECRETÁRIO E A ARENA

Praça externa da Arena Pantanal em uso pela população.
(foto: Rodrigo Barros)
José Antonio Lemos dos Santos
     Alvíssaras! Após 5 anos da Copa do Pantanal veio enfim na semana passada uma manifestação de simpatia pela Arena Pantanal por parte do governo estadual em artigo do secretário Allan Kardec, da Cultura, Esporte e Lazer. Convém lembrar que a Arena Pantanal foi considerada à época da Copa como a sétima arena mais espetacular do mundo por um jornal espanhol, seu projeto foi matéria elogiosa da revista chilena Hábitat Sustentable, referência no assunto na América Latina, e até no New York Times. Também foi considerada a primeira em funcionalidade entre todas as arenas da Copa após pesquisa com os jornalistas estrangeiros presentes no grande evento no Brasil. Mas esta joia preciosa de Mato Grosso só vinha sendo vista pelo governo como um “abacaxi” e nunca por suas enormes potencialidades.
     O artigo do secretário confirma uma salutar mudança de atitudes pelo atual governo em relação à Arena do Pantanal que já é sentida a algum tempo pelos que a frequentam, como por exemplo a não autorização de shows e a suspensão de partidas não oficiais, a volta dos telões e do sistema de som, e os cuidados com o gramado e sua reforma progressiva de forma compatível com os campeonatos em andamento.
    Concordo com o secretário quando pergunta no artigo, se pode ser “interessante para uma empresa assumir” a administração da Arena, “por que não pode ser também para o Estado?” Para mim tanto faz ser controle público ou privado, desde que o interesse público prevaleça.  O fundamental é que o estado defina qual o interesse público para com a Arena. O que queremos dela? Jamais soube da discussão desta questão no caso da Arena, entretanto, antes dela já se discutia sua privatização ou manutenção com o estado. A Arena Pantanal tem enormes potenciais a oferecer para o desenvolvimento do estado em vários setores e eles devem nortear as decisões sobre seu o futuro. 
     O esporte é uma das formas mais sublimes de manifestação da vida. Vida é saúde, e praticar esporte é cultivar a saúde. O esporte, em especial o futebol no Brasil, é hoje um dos principais mercados de trabalho no mundo. Trata-se de uma das melhores alternativas às drogas, crimes e violência para nossos jovens, bem como aos hospitais, remédios e a túmulos precoces aos adultos. A Arena Pantanal que já é o único estádio do país a abrigar uma escola com mais de 300 alunos e já recebe mensalmente milhares de pessoas em sua praça externa para atividades físicas diversas, tem tudo para ser uma grande plataforma propulsora da vida no estado através do esporte, sua vocação pública mais nítida. Priorizado o futebol – com espaços para os clubes contarem suas histórias, venderem seus materiais e ingressos, bem como roteiros acompanhados para seus visitantes - a Arena Pantanal abriria seu espaço restante para os demais esportes (boxe, xadrez, ginástica, etc.) com suas federações e ligas, e seus espaços de treinos compatíveis, academias, lojas de materiais esportivos, clínicas, farmácias e restaurantes especializados, podendo ainda ser alugada com antecedência para shows e outros eventos nas janelas do calendário futebolístico, assegurada a preservação do gramado.
     Além da atração turística que é, a Arena Pantanal articulada ao COT, miniestádios e projetos como o “Bom de Bola Bom de Escola” poderia ser o centro de um programa múltiplo de esportes, mas também de saúde, educação e segurança pública, a ser expandido para todo o estado. Mantida com taxa de utilização dos seus espaços (aluguel) a preços dos custos da manutenção, a Arena teria assim uma utilização digna, sustentável e socialmente correta.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

ASCENSÃO DOURADA


José Antonio Lemos dos Santos
     Sou do tempo em que futebol era coisa de “malandro”, de quem não queria estudar, matador de aulas e coisas assim. Maldade, era apenas paixão pela bola, seja ela qual fosse, uma laranja, tampinha de garrafa, bolinha de meia ou de papel. Apesar de gostar muito de futebol era muito ruim de bola e só jogava com os vizinhos nas ruas próximas, descalços em piso de chão batido, as vezes em descida, com alguns afloramentos de cristal que de quando em quando arrancavam uma tampa de dedão do pé, dor e sangramento logo curados com um jato certeiro de urina no local. E seguia o jogo, até não ver mais a bola pois as ruas das redondezas não dispunham de iluminação. A não ser que as mães chamassem antes já com cinto na mão para tomar banho e jantar. Em época de provas, a intimação vinha ainda mais cedo para estudar.
     O esporte é uma das formas mais elevadas de manifestação da vida saudável. Todos os esportes, mas no caso do Brasil, em especial o futebol. Longe daquela equivocada ideia da malandragem, hoje o futebol envolve um dos mais ricos mercados de trabalho no mundo e sem dúvidas deve ser incentivado junto com outros esportes, como uma alternativa de vida à juventude brasileira, tão assediada e atraída pelas aparentes facilidades dos descaminhos. O esporte é a melhor e mais natural direção para o jovem. Basta soltar uma bola na frente de uma criança mal sabendo andar (menino ou menina) para ver o que acontece.
     A ascensão do Cuiabá Esporte Clube à série B do campeonato brasileiro, tendo como palco a ainda extraordinária Arena Pantanal (apesar dos esforços de seus responsáveis em contrário) é um alento nesse sentido. O público presente com civilidade e alegria em enorme quantidade nas partidas finais demonstra a paixão que pode despertar um trabalho bem organizado em torno do esporte, não só em Cuiabá, mas também em outras cidades, como já existe o belo exemplo do Luverdense. Junto com os pais vêm as crianças e adolescentes. Logo estão com a camiseta de seus clubes adotando seus ídolos locais, palpáveis, não aqueles feixes televisivos de elétrons inatingíveis, distantes, mas gente daqui, algumas vezes de seus bairros, ou que veio para trabalhar em clubes daqui, de carne, osso e sangue como cada um deles. Dá a ideia de que podem ser iguais a eles desde que dedicados, esforçados e zelosos com o próprio corpo. São modelos locais possíveis de serem seguidos e alcançados tais como o pioneiro Traçaia e os atuais Jael, Valdívia, ou David Moura no judô e Felipe Lima na natação, dentre outros. Mato Grosso pode ter muitos mais, basta apoio e estímulo que a meninada vai atrás, desguiando-se das trilhas do mal.
     A ascensão do Cuiabá e seu sucesso com o público subitamente apaixonado pelo Dourado aponta uma direção não desprezível. Investir no esporte é essencial para os tempos de hoje, é o caminho mais curto, barato e seguro para a salvação da juventude hoje exposta à atração dos belos portais sem retorno das drogas, tráfico, roubo, assassinatos e também do suicídio, a mais nova praga. Uma vez construída a Arena Pantanal com o dinheiro de todos os mato-grossenses, não pode mais ser considerada como um peso para os governantes, mas como alavanca para uma política esportiva estadual envolvendo a Educação e Saúde com importantes reflexos positivos nas áreas da Segurança Pública e Turismo. A Arena como um Palácio dos Esportes, privatizado ou não, com espaços para salas de aulas e treinamento das diversas modalidades esportivas, destinadas aos promissores atletas selecionados em todo o estado. Uma fábrica de medalhistas e cidadãos. Em plena eleição para o governo estadual, seria demais que algum dos candidatos, ou todos eles incorporassem um audacioso projeto nesse sentido?

segunda-feira, 16 de julho de 2018

VIVE LA RÉPUBLIQUE!


Foto Divulgação
José Antonio Lemos dos Santos
     A Copa do Mundo deste ano não havia me entusiasmado. Até gostei da seleção brasileira, torci, mas quase burocraticamente. Talvez a Copa do Pantanal, com seu sucesso, seus problemas e suas polêmicas nos tenha supitado com o assunto. No entanto a importante vitória do Cuiabá diante do Joinville sábado passado na Arena Pantanal, renovou o interesse e novas luzes iluminaram a Copa destacando alguns aspectos que valem refletir aqui na nossa pátria mãe gentil.
     A conquista da França agora na Rússia não se deu por acaso como um “dom natural” dos franceses para o futebol, ainda mais sendo o futebol,  chamado “esporte bretão” na locução dos antigos “speakers” brasileiros, um esporte inventado pela gente do outro lado da Mancha, pelos quais o francês não nutre grande simpatia. A conquista de 2018 é resultante de uma política de estado, deflagrada em fins dos anos 70 após três eliminações sucessivas do “scratch” gaulês. O governo francês criou um instituto para o desenvolvimento específico do futebol, com centros de treinamento nas periferias das maiores cidades. Política séria, de longo prazo, sem pensar nas próximas eleições, mas no bem do povo francês. De lá saíram para a seleção  Pavard, Varane, Umtiti, Matuidi, Pogba, Giraud e Mbappé. Que tal?
Foto: Daniel P. Lemos dos Santos
     Uma política assim parte da visão do esporte como uma das formas mais sublimes de expressão da vida, todos os esportes, mas em especial o futebol, pela paixão que desperta não só entre brasileiros, mas, quer queiram quer não, no mundo inteiro, mesmo nas nações mais desenvolvidas. Nunca vi a Champs-Élyssés cheia daquele jeito como vi no domingo. O esporte tratado como política séria, catalisadora da juventude agregando-lhe ao mesmo tempo educação, saúde, inclusão social e racial, e uma alternativa digna de futuro em um dos maiores e mais promissores mercados de trabalho no mundo, neutralizando as alternativas das drogas, da violência e da exclusão. Em troca a sociedade recebe benefícios imediatos em segurança e saúde públicas, e, mais importante, garante futuras gerações de cidadãos com melhores níveis de vida e preparadas para conduzir seus próprios destinos.
     Mesmo sem muitas informações de lá, na Croácia também teve algo semelhante quando nos idos de 90 seu primeiro presidente disse que o esporte seria a primeira coisa capaz de levantar um país depois de uma guerra. Terceiro lugar na Copa de 98 e agora vice-campeão mundial. Um país quase com a mesma população de Mato Grosso e recém destruído pelas guerras. O Brasil e Mato Grosso deveriam seguir o mesmo caminho. Um dos objetivos do Brasil ter investido na Copa de 2014 era esse, ao menos nos discursos. Mas ficou nos discursos. O atual governador de Mato Grosso chegou a prometer em campanha a construção de quatro centros de formação de atletas, com registro em cartório. Também ficou na promessa, mesmo com a Copa tendo deixado a Arena Pantanal, que poderia ter se transformado na cabeça de um sistema estadual de formação de atletas, complementado pelos COT’s inacabados e as diversas iniciativas existentes pelo interior do estado. David Moura, Felipe Lima, Ana Sátila puxariam como exemplos um programa desses.
     Mas o melhor desta Copa da Rússia foi o atacante campeão Griezmann concluir sua entrevista após o jogo final bradando “Vive la République!” O técnico fez o mesmo. Entendi que para eles a República, a res-publica, o bem comum de todos os franceses é mais importante que a própria França. Ou melhor, a França é a República.  Esta é a grande diferença para um país onde o que vale são interesses pessoais ou de grupos em detrimento do bem comum, de uma República que não significa nada e que precisa ser reproclamada com urgência. Viva os campeões!

segunda-feira, 19 de março de 2018

A ARENA E OS LAUDOS

Foto EdsonRodrigues/Secopa

José Antonio Lemos dos Santos
     Recordo minha surpresa quando vi a Arena Pantanal resplandecente em seu primeiro teste de iluminação. Foi da varanda de meu apartamento. Maravilhado com aquela imagem fantástica subitamente engastada entre as luzes da noite cuiabana escrevi o artigo “A nave pousou”, em 25 de março de 2014, há 4 anos. Não me ocorria melhor comparação do que uma espaçonave daquelas de Spielberg ou talvez Flash Gordon. Espetacular! Aliás, foi considerada uma das arenas mais espetaculares do mundo pelo jornal espanhol El Gol Digital, de Bilbao, cidade que entende do assunto pois abriga alguns dos mais importantes exemplos da arquitetura contemporânea.
     “Mas para essa nave voar e trazer seus benefícios é preciso antes entendê-la e aprender pilotá-la” previa o artigo, aprofundando em reflexões sobre suas enormes potencialidades e dificuldades. As arenas modernas não são só um estádio de futebol, mas um equipamento multiuso, um novo tipo de edifício resultante das demandas e possibilidades do mundo moderno com o avião a jato, a internet, a fibra ótica e a TV via cabo e satélite. São filhas do tempo atual, irmã da nossa fantástica agropecuária high tech, que alimenta boa parte do mundo e segura a balança comercial brasileira. São complexas plataformas midiáticas globais para eventos que extrapolam o interesse local e podem chegar ao nível da audiência planetária, como numa Copa do Mundo ou num show do Rolling Stones, através da TV via satélite.
     A viabilidade das arenas está em plateias nacionais ou mundiais via direitos de transmissão, publicidade e pacotes de viagens, não mais só pelas bilheterias locais. Assim, transformam-se em poderosas ferramentas de desenvolvimento não só na área do esporte, mas no turismo, educação, saúde e até na segurança pública, tema tão cruel e desafiador no Brasil atual. O esporte é uma das formas mais sublimes de expressão da vida e, investir no esporte é investir na vida saudável, pois o corpo é seu principal instrumento, sem espaço para as drogas e os outros descaminhos da violência, do crime e da degradação humana. Além disso, o esporte é uma das mercadorias mais valorizadas e consumidas no planeta, um mercado de trabalho fascinante aos jovens acenando-lhes como um caminho de realização profissional e pessoal, o único competitivo frente às tentações fáceis do mundo do crime.
     Assim, a Arena Pantanal me atrai não só como arquitetura, mas como uma poderosa arma de desenvolvimento social que nos  custou muito caro e urge ser aproveitada. Só que as arenas são instalações enormes, sofisticadas e complexas. Eram previsíveis muitas dificuldades de gestão, em especial para a Arena Pantanal, evidenciando desde logo a necessidade de criação de uma estrutura especializada para sua gestão, privatizada ou não. De outra forma, como garantir uma agenda mínima de eventos esportivos, culturais e outros de interesse nacional ou internacional capazes de viabilizar o complexo? E como garantir o constante funcionamento, limpeza e manutenção desse equipamento que envolve grandes extensões de pisos, milhares de assentos, instalações sanitárias, placas solares, redes de TIC, iluminação interna e externa, sonorização, telões, catracas eletrônicas, sistemas de segurança, e mesmo o gramado, seu principal palco, que deve permanecer sempre dentro dos elevados padrões internacionais?
     Qual o quê! Apesar de algumas interessantes iniciativas avulsas no último ano, é triste ver que até hoje os responsáveis pela Arena Pantanal não conseguem providenciar os simples laudos técnicos anuais para seu funcionamento contínuo, como faz qualquer boteco ou bolicho de ponta de rua. Triste, parece que nossa nave pousou em terra errada.

sábado, 15 de abril de 2017

MICROPRIVATIZAÇÃO DA ARENA


CircuitoMT

José Antonio Lemos dos Santos

     Sempre que posso vou à Arena Pantanal torcer pelos times mato-grossenses e domingo passado fui assistir Dom Bosco e Sinop, às 10 horas da manhã. Apesar do horário alternativo aparentemente impróprio “para a prática do esporte bretão” como diriam os antigos “speakers” do futebol brasileiro, foi um grande jogo de futebol. Liberada a ala Leste, o lado da sombra matinal, deu também para comprovar o acerto do arquiteto Sérgio Coelho em deixar vazados os cantos das arquibancadas para aproveitamento do efeito chamado na arquitetura de “ventilação cruzada” favorecendo uma leve brisa ao longo de todo o jogo. Na sombra com um ventinho e a parada técnica para os jogadores, o horário diferenciado também me pareceu aprovado.
     Outra satisfação foi ver lá o atual responsável pela Arena, o secretário-adjunto de Esportes Leonardo de Oliveira com a camisa do Dom Bosco em meio à torcida. A satisfação vem do fato de hoje ser raro um político frequentar locais com muita gente, no meio do povo, torcendo tranquilo, isto é, tranquilo na medida do possível já que seu time esteve sempre correndo atrás no placar e acabou perdendo. E no intervalo tivemos oportunidade de conversar com ele mostrando através do vidro as carteiras escolares ocupando alguns dos camarotes compondo uma nova escola para 300 alunos em tempo integral com iniciação em diversas modalidades esportivas, escola acertadamente chamada de “José Fragelli”. Uma manhã proveitosa para um fã da Arena desde sua construção. Enfim alguém pensando corretamente o futuro de nossa premiada Arena, o que até hoje não ia além do chavão “privatizar ou não”, como se essas opções bastassem para o sucesso ou condenação da belíssima praça esportiva. A ideia poderá literalmente fazer escola.
Júnior Silgueiro/SeducMT

     Minha satisfação foi ampliada pois em um artigo em fevereiro ousei fazer uma sugestão para Arena, o Palácio dos Esportes, que vai no mesmo rumo deste que o estado está propondo, a Arena-Educação. São projetos convergentes que me animam a ousar detalhar um pouco a proposta do Palácio dos Esportes, talvez somando alguma coisa com a Arena-Educação. Grosso modo, o Palácio dos Esportes seria similar a um shopping especializado em esportes, gerenciado pelo próprio governo ou terceirizado para empresa com experiência na administração de shoppings. Com um projeto de estado perfeitamente definido se pode falar em terceirização ou privatização. Mantida a prioridade para o futebol das bolas redonda e oval, nele estariam espaços para os clubes venderem seus produtos, museu do esporte mato-grossense, sala para turistas, ligas e federações esportivas, salas para iniciação e treinamento de diversas práticas esportivas e de exercício corporal. Parte permanecendo com o estado para a escola e outros projetos esportivos de interesse social e parte alugado para academias particulares diversas, indo desde o balé, ioga, xadrez, ginástica, passando pelo skate, patinação, até o Boxe, Judô, Karatê, Taekwuondo, etc. Vai até o aluguel de espaços para academias de ginástica, comércio de material esportivo, clínicas de fisioterapia e nutrição. Com a Arena “microprivatizada”, seu sucesso geraria recursos para sua manutenção e financiamento de parte da política estadual de esportes.
     Nesse projeto se integrariam progressivamente os novos COT’s, mini-estádios e ginásios espalhados pelo estado, hoje abandonados em sua maioria. As duas propostas parecem prever a Arena e o Ginásio Aecim Tocantins, sempre iluminados e bem cuidados, como cabeças de um projeto esportivo para Mato Grosso, com sua escola recebendo alunos que se destaquem esportivamente em todo o estado, tirando os jovens da violência e das drogas, e preparando atletas e cidadãos para o futuro. 

sábado, 4 de março de 2017

MINISTÉRIO DA DOENÇA

Imagem José Lemos

José Antonio Lemos dos Santos

     O entusiasmo deste artigo lembra o grande Odorico Paraguaçu de Dias Gomes e vem com “a alma lavada e enxaguada nas águas” das vitórias do Luverdense e do Cuiabá sobre os favoritos times da série “A”, lá em suas casas, Florianópolis e Campinas. A satisfação é maior pois essas vitórias premiam os trabalhos sérios de organização e planejamento de longo prazo desenvolvidos por esses clubes, já sendo destacados pelas ótimas performances na série “B”, conquista da Copa Verde e a primeira participação em um torneio internacional oficial, a Copa Sul-americana. Que sirvam de exemplo para outros clubes daqui.
     Aproveito essas vitórias para mais uma vez falar sobre a importância dos espaços urbanos públicos destinados ao lazer e às práticas esportivas. O esporte e o lazer sadios são das mais expressivas formas de manifestação da vida em sua plenitude de corpo e mente. E quando tratamos de cidades nosso principal objetivo deve sempre ser a qualidade de vida de seus cidadãos, oferecendo condições físicas, psicológicas e ambientais para a existência de uma gente saudável e feliz. As avenidas, viadutos e trincheiras, metrôs, VLTs e automóveis, fábricas, shoppings, tudo deve existir em função da qualidade de vida à população que lhes dá origem e sentido.
     É claro que um dos pilares da qualidade de vida urbana é a saúde da população, saúde é vida e ter um povo saudável é mais de meio caminho andado no rumo dos altos padrões urbanos. Infelizmente as estruturas públicas no Brasil responsáveis pela saúde estão elas próprias bastante doentes, refém dos poderosos lobbies da indústria farmacêutica e de equipamentos médico-hospitalares, e de corporações profissionais, dedicando-se mais à rentável cura das doenças do que à manutenção e promoção da saúde. Daí para explicar melhor a importância dos tais espaços públicos, meio brincando, meio a sério, falo com alunos e amigos, entre eles alguns médicos, que uma das prioridades do país deveria ser a criação de um “ministério da doença” com secretarias correspondentes nos municípios destinadas apenas às doenças, cuidar de hospitais, UPAs, remédios, etc., liberando assim o atual Ministério da Saúde e as secretarias municipais de saúde para cuidar só da saúde, sua função primordial como diz seu próprio nome.
     Nessa concepção, cuidar da saúde seria justamente o desenvolvimento de programas tais como de saneamento e abastecimento de água, de ações preventivas junto às famílias, criação de centros esportivos, parques e academias públicas com profissionais especializados orientando atividades coletivas, programas de orientação nutricional, estímulos a torneios estudantis e universitários com inicialização à práticas esportivas diversas e com prêmios, bolsas, e mesmo a profissionalização, valorizando e estimulando o jovem atleta. Em paralelo, seguiriam às ações de cura, melhorando seus serviços na expectativa de uma progressiva redução da entrada de pacientes em decorrência das ações voltadas à saúde.
     Outro dia governador e o prefeito de Cuiabá anunciaram o Parque Dante de Oliveira como um dos presentes à cidade em seu Tricentenário. É ótimo o sucesso dos parques da cidade junto à população e melhor ainda que as autoridades notem isso. O que significa esse intenso uso dos parques da cidade em termos de redução na demanda de jovens e adultos sobre nosso “sistema de saúde”? Exemplos que são, para cada Felipe Lima, cada Davi Moura, Igor Mota e Ana Sátila, para cada Luverdense, Cuiabá ou Cuiabá Arsenal ascendendo no ranking nacional, quantos jovens deixam o caminho da droga, da violência, liberando leitos em hospitais, celas nos presídios e túmulos nos cemitérios?

sábado, 21 de janeiro de 2017

O PALÁCIO DOS ESPORTES

FotoRodrigoBarros2017

José Antonio Lemos dos Santos

     Quem não se preocupa com a situação atual da Arena Pantanal de mais de R$ 600,0 milhões, reconhecida internacionalmente como um dos mais importantes exemplos de arquitetura contemporânea no mundo e escolhida como a mais funcional de todas as arenas da Copa 2014 pela crônica esportiva estrangeira presente no evento? Além da falta de interesse demonstrada pelas autoridades responsáveis, há também a indefinição de qual o destino socialmente útil e sustentável dar a ela, solução não encontrada para nenhuma de suas coirmãs, inclusive o Maracanã, a tida como a mais viável delas.
     A chegada ao governo do estado do ex-prefeito Wilson Santos e de Leonardo Oliveira, jovem de ótimo DNA político e promissora carreira, ambos entusiastas do futebol cuiabano, bem como a posse do prefeito Emanuel Pinheiro que prometeu retomar o projeto “Bom de Bola, Bom de Escola” animam-me a trazer em linhas gerais uma ideia que matuto a algum tempo sobre o assunto. Ela se baseia na visível voracidade com que a população frequenta os parques públicos cuiabanos, antigos e novos, e, muito em especial, a praça da Arena Pantanal, onde crianças, jovens e menos jovens, individualmente ou em grupos, desfrutam de espaço abundante para a prática de atividades físicas. Chama a atenção famílias reunidas em quadriciclos com reboques, sorrindo, brincando, deixando de lado um pouco o sedentarismo mortal da trinca sofá, refrigerantes e TV. Quanto isso custa aos poderes públicos? Ou melhor, quanto esses equipamentos públicos economizam aos cofres públicos só em termos de saúde, por exemplo? O custo apenas das doenças cardiovasculares no Brasil é estimado na ordem de 1,74% do PIB! Transportando rusticamente essa proporção para Cuiabá teríamos um custo de R$ 310,0 milhões ao ano, metade da Arena Pantanal por ano. Só em uma doença! E a baixa capacidade respiratória e muscular, somada ao sedentarismo aumentam em 3 a 4 vez
es a prevalência desses males.
     O esporte é uma das formas mais sublimes de manifestação da vida. Vida é saúde, e o esporte é o cultivar da saúde e a fruição da vida em plenitude. O esporte, em especial o futebol no Brasil, não é mais coisa de vagabundo como alguns ainda pensam. Trata-se de uma das principais alternativas às drogas, crime e violência para nossos jovens, bem como aos hospitais, remédios e o túmulo precoce aos adultos. A ideia é transformar a Arena Pantanal no Palácio dos Esportes. Mantida a prioridade para o futebol - reservados espaços para os clubes contarem suas histórias, venderem seus materiais e ingressos, bem como espaços para os visitantes da Arena, com exposições e palestras sobre o grande edifício e o antigo Verdão - a Arena Pantanal abriria todo o seu espaço restante para abrigar os demais esportes, com suas federações, ligas, academias, oficinas, lojas de materiais esportivos. A própria Federação de Futebol poderia estar lá, desocupando a antiga Praça Benjamin Constant a ser reurbanizada à altura do Sesc Arsenal e do Dutrinha revitalizado.
     Articulada aos COT’s, Mini-Estádios e projetos como o “Bom de Bola Bom de Escola” a Arena funcionaria como o esteio de um grande programa de esportes, mas também de saúde, educação e segurança pública, que se estenderia progressivamente para todo o estado. Lá ficariam esportes compatíveis com o espaço, como o boxe, judô, Karatê, tênis de mesa, xadrez, ginástica olímpica e muitos outros. A Arena teria assim uma utilização nobre, sustentável e socialmente correta, mantida com uma adequada taxa de utilização dos usuários baseada no seu custo de manutenção e complementada com recursos do estado como investimento multisetorial de amplos resultados, não como subsídio.
(Publicado em 21/01/17 pelos sites Arquitetura Escrita e Página do Enock, em 22/01/17 pelo MidiaNews, em 22/01/17 no FolhaMax ..)
COMENTÁRIOS (Fora do Blog)
MidiaNews
JOSÉ GONÇALVES 22/01/17:
"frequento a arena pantanal e moro proximo....vou deixar registrado uma coisa aqui: se as autoridades reponsaveis não tomarem uma atitude urgente a arena no prazo de dois anos vai se tornar uma sucata, o que tem de veiculos circulando e estacionando em pisos que teriam que serem melhor cuidados, com caminhões que vão levar equipamentos batendo em arvores e postes de iluminação, batendo nas telas de proteção e destruindo as mesmas, com tendas que para serem fixadas fazem buracos no piso que depois entra agua e vai formando buracos, com pessoas que levam animais que ficam defecando por onde pessoas fazem caminhada.....tem uma serie de medidas que tem que serem adotadas e que se não forem daqui ha pouco tempo aquilo vai virar sucata."

terça-feira, 25 de março de 2014

A NAVE POUSOU

Foto: EdsonRodrigues/Secopa

José Antonio Lemos dos Santos

     Duas semanas atrás ao chegar em casa à noite fui à varanda e me surpreendi com a Arena Pantanal resplandecente em seu primeiro teste de iluminação. Tenho a regalia de uma ótima vista da cidade e nela a Arena me permitindo acompanhar sua construção desde o início. Com todo respeito ao também belo Verdão demolido, é claro que ao ver maravilhado a Arena iluminada pela primeira vez, bati logo uma foto que por deficiência do fotógrafo saiu tremida, mas, sem querer, expressando bem a emoção do momento, logo postada em meu blog.
     Tratei sempre a Arena Pantanal como uma espaçonave intergalática prestes a pousar em Cuiabá. Finalmente pousou linda, cintilante, como um objeto totalmente novo acomodando-se na malha de luzes noturnas da cidade. Agora recebe seus últimos ajustes para os inestimáveis voos que a justificaram pela imensidão das potencialidades mato-grossenses no espaço globalizado do esporte, da cultura, da educação, do turismo e, até, da saúde e da segurança públicas. O esporte é uma das formas mais sublimes de expressão da vida e, investir no esporte é investir na vida saudável, pois o corpo é sua principal ferramenta, sem espaço para as drogas e outros descaminhos, raízes da violência, do crime e da degradação humana. Além disso, o futebol é uma das mercadorias mais valorizadas e consumidas no planeta, um mercado de trabalho que fascina os jovens acenando-lhes como um caminho de realização profissional e pessoal, o único realmente competitivo diante das tentações fáceis do mundo do crime. Mente sã em corpo são.
     Mas para essa nave voar e trazer seus benefícios é preciso antes entendê-la e aprender pilotá-la. Não mais um estádio de futebol, mas uma arena multiuso como as que se instalam hoje pelo planeta, um novo tipo de edifício resultante das demandas e possibilidades técnicas do mundo moderno com o avião a jato, a internet, a fibra ótica e a TV via cabo e satélite. A arena moderna é filha do tempo atual, irmã das lan houses. São complexas plataformas midiáticas globais para eventos que extrapolam o interesse local e chegam ao nível da audiência planetária, como numa Copa do Mundo ou num show do Rolling Stones. Sua viabilidade está em plateias nacionais ou mundiais através de direitos de transmissão, publicidade e pacotes de viagens, não mais só pelas bilheterias locais. Assim, transforma-se também em poderosa ferramenta de promoção das potencialidades dos locais onde se instala. Um inovador instrumento de política de desenvolvimento.
     Só que se trata de uma estrutura grande, sofisticada e cara. Para administrá-la será preciso uma estrutura especializada e, no caso da Arena Pantanal, seria ideal que fosse gerida em conjunto com o Ginásio Aecim Tocantins. Sua gestão deve trabalhar tendo como pano de fundo as potencialidades atrativas naturais do Pantanal, Amazônia e cerrado no centro do continental, bem como as paisagens artificiais “high-tech” das “plantations” e campos criatórios mato-grossenses, disputando pelo Brasil e o mundo a agenda internacional de eventos esportivos, culturais e de negócios, com um ano ou dois de antecedência.
     O mundo hoje é midiático, globalizado e plano. Só é periferia quem quer. Quem não estiver na vitrine global, não existe, morre. As arenas estão sendo inventadas e construídas para colocar um país, uma cidade ou região aos olhos do mundo, fazendo seu marketing, mostrando o que tem a oferecer ao planeta. E Mato Grosso tem muito a oferecer. Será preciso aproveitar as experiências semelhantes já desenvolvidas no mundo e as que começam a surgir no Brasil. Aqui mesmo em Cuiabá já existe a experiência do SEBRAE com o Centro de Eventos do Pantanal, que poderia ser um bom começo neste grande desafio da Arena Pantanal. 

(Publicado em 25/03/2014 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

CUIABÁ EM FESTA

José Antonio Lemos dos Santos


     Já comentei em artigo anterior que o esporte em seu sentido mais verdadeiro é uma das formas mais elevadas de celebração da vida, uma das expressões em que a vida se manifesta de forma mais intensa. O principal requisito para a prática esportiva é a vida saudável, e quem quiser ser esportista tem que cuidar da saúde. Daí porque entendo que investir em esporte é uma das alternativas mais eficazes de se investir em saúde. É claro que os investimentos na cura ou recuperação da saúde são prioritários, mas é muito mais barato e melhor investir na promoção e manutenção da saúde através dos esportes e outras práticas do que na cura das doenças. É fácil imaginar que a cada real investido na promoção dos esportes, de forma séria e bem planejada, corresponda uma redução de gastos em quantia bem superior ao investido. E os efeitos diretos e indiretos de bons programas públicos de incentivo aos esportes chegam também a outras áreas como Educação, Cultura e Segurança Pública, no mínimo.
     Assim, se esporte é saúde e saúde é vida, Cuiabá está cheia de vida, pelo menos nas últimas semanas. A cidade que em sua preparação respira e transpira a Copa do Pantanal está em festa, pois desde domingo passado sedia as Olimpíadas Escolares, o maior evento nacional na modalidade envolvendo mais de 6 mil pessoas, entre atletas, técnicos, profissionais diversos de apoio, dirigentes, observadores nacionais e internacionais, estudiosos, imprensa especializada. A abertura no Ginásio Aecim Tocantins foi um espetáculo, os hotéis estão lotados e o Centro de Convenções, transformado em Centro de Convivência, fervilha em alegria e juventude. E dizer que o palco maior do evento, o Ginásio Aecim Tocantins ainda é tido por alguns como um “elefante branco” apesar de ter viabilizado eventos como este e outros de grande porte e qualidade, tais como jogos da Liga Mundial de Vôlei, Copas América de Vôlei masculino e feminino, Copa América de Basquete feminino, Campeonato Pan-americano de Karatê, e ainda alguns jogos avulsos das seleções nacionais de vôlei e futebol de salão.
     Mas a festa esportiva em Cuiabá começou ainda no domingo anterior com o Mixto conquistando a Copa Mato Grosso, título importante para o único sobrevivente dos times tradicionais da cidade. Claro que o nosso renitente e persistente complexo de capacho vem logo dizer que o título não vale nada, que Cuiabá não tem nenhum time na série “A” e outras bobagens que seriam esquecidas caso o título não fosse ganho por algum time da cidade. Aí valeria, em especial para dizer que o futebol cuiabano acabou, que está perdendo para o interior, desconhecendo que Mato Grosso desenvolveu muito, sendo natural o surgimento de grandes equipes em outras belas e poderosas cidades do estado. Para o mixtense, o Mixto é o melhor time do mundo, independente da série em que participe. Dentro do campo, o futebol cuiabano e mato-grossense só é ruim para quem não vai ao estádio.
    Fechando a semana passada com chave de ouro, o Cuiabá Arsenal levou a melhor sobre o Coritiba Crocodiles, e é bicampeão brasileiro de futebol americano. Foi uma grande festa no Dutrinha lotado. Esse é o grande produto do esporte em suas diversas modalidades: a juventude levando longe de forma positiva o nome de Cuiabá e Mato Grosso, o melhor marketing urbano, levando também com suas taças e medalhas o exemplo para milhares de outros jovens seguirem a trilha da saúde e da vida, livrando-se das garras das drogas, dos crimes e de outros descaminhos.

(Publicado em 27/11/2012 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

UM GRAMADO PARA O DUTRINHA


José Antonio Lemos dos Santos

     O esporte em seu sentido mais verdadeiro é uma das mais elevadas formas de celebração da vida, tanto nas vitórias como nas derrotas, ambas faces de uma mesma moeda. Seu requisito básico é a máxima vitalidade exigindo assim práticas saudáveis de vida, bem como espírito coletivo, competitividade, determinação, disciplina, enfim, os tantos aspectos que devem moldar o caráter positivo dos povos. Agregador da educação e da integração cultural, o esporte hoje vai além do aspecto lúdico ou de lazer, sendo também uma das atividades comerciais mais rentáveis no mundo, portanto uma alternativa concreta de trabalho, emprego e renda em especial para a juventude.
     Dentre os esportes, o futebol é aquele com maior número de aficionados a ponto de tornar-se também um poderoso instrumento de marketing global para países, regiões e cidades. Quando Dutra, o presidente cuiabano, trouxe a Copa de 50, já pensava em mostrar ao mundo através dela que o Brasil deixara de ser rural e avançava nos rumos da industrialização e da modernidade. Assim o esporte, e o futebol em particular, por uma série de razões, deve ser tratado hoje como coisa séria, assunto de Estado, em especial como poderoso instrumento educativo e de formação dos jovens. Para Mato Grosso e Cuiabá essa concepção é mais clara, dada a proximidade do trecho de fronteira mais vulnerável do Brasil, que expõe a juventude local aos poderes do tráfico internacional e às macabras tentações das drogas com suas garras cruéis de criminalidade e violência. Creio que é nesse sentido que Cuiabá sedia este mês as Olimpíadas Escolares com milhares de jovens brasileiros em um espetáculo vital que merecia melhor promoção, principalmente entre as escolas de todo o Estado.
     O cuiabano sempre teve um grande xodó pelo futebol, talvez pelo clima que impõe atividades em espaços abertos. Acertadamente em Cuiabá as sucessivas administrações municipais desenvolvem importantes projetos na área tais como o Miniestádios, Bom de Bola-Bom de Escola, Pixote, Peladão e assim, a par de oferecer uma ótima alternativa de lazer para a juventude, a prefeitura implanta um verdadeiro canteiro de craques. Esses jovens atletas que surgem precisam ter clubes onde desenvolver suas potencialidades como profissionais. Na falta, muitos vão para outros estados e países. Outros não têm a mesma sorte, às vezes simplesmente por não estar no lugar certo na hora certa. Para muitos destes, a alternativa é a frustração e o descaminho.
     A prefeitura avançaria ainda mais nessa área apoiando os clubes profissionais de futebol de Cuiabá. Do jeito que está é como dar boa formação técnica aos jovens, mas não fomentar a instalação de empresas para empregá-los. Bastam o apoio institucional e logístico e a manutenção do único estádio da cidade, o Dutrinha, adquirido pela prefeitura sob a alegação de que seria reformado. Até hoje, nada. Finda a temporada 2012, este é o momento certo para reformar o gramado, hoje a mais urgente carência do futebol cuiabano. Com autoridade de quem vai ao estádio em quase todos os jogos, para mim o péssimo estado do gramado eliminou o Mixto na série “D”, quase fez o mesmo com o Cuiabá na “C” e com o próprio Mixto domingo passado, prejudicando os times locais em todas as competições estaduais e nacionais de que participam. Jogar em casa aqui é desvantagem. Arrumar o gramado é urgente e barato, ainda mais para uma sede de Copa. O sucesso dos nossos times abre chances para craques locais de carne e osso, vizinhos de bairro, gente como a gente. Precisamos de mais Bogés, Fernandos e Pererecas, ídolos daqui nos quais a juventude possa se espelhar para seguir o caminho do esporte e da vida saudável, longe das drogas e dos crimes.