"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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quarta-feira, 11 de maio de 2011

A VOLTA DA SUDECO

José Antonio Lemos dos Santos

     Minhas tentativas como articulista iniciaram em outubro de 1982 no extinto O Estado de Mato Grosso, numa série de quatro artigos denominados “Cuiabá e a sede da Sudeco”, tendo como padrinho e incentivador o saudoso Archimedes Pereira Lima. Falava da possibilidade da Sudeco se instalar em Cuiabá, pois o órgão devia por lei ter sua sede em sua área de jurisdição, da qual Brasília não fazia parte. Lembrava ainda que quando criada, em 1967, era tido como certo que sua sede seria em Cuiabá, capital mais central na área de atuação do órgão, que então envolvia Rondônia, Mato Grosso e Goiás, estes ainda íntegros. Ademais, manter sua sede em Brasília era manter um órgão criado para ser descentralizador junto à matriz que se pretendia descentralizar, uma contradição que prejudicou a consolidação política do órgão. Contudo, sob a alegação de que em Cuiabá não “assentava” aviões a jato, que o sistema telefônico interurbano ainda era na base do rádio, e outras desculpas dessas, a sede ficaria provisoriamente em Brasília, e lá ficou até que Collor a extinguisse, sob o silêncio complacente de nossas autoridades e representantes federais. Este foi um dos dois motivos – que me orgulham - pelos quais depois fui exonerado do antigo Ministério do Interior. Aliás, assim também perdemos a sede do Comando Militar do Oeste, instalado em Campo Grande em 1986 com meta de se transferir para Cuiabá em 1990.
     No último dia 5 foi publicada no Diário Oficial da União a recriação da Sudeco, cujos detalhes ainda não me inteirei. Em tese acho boa a medida e nem podia ser diferente, pois na época de sua extinção fiz alguns artigos contrários. A Sudeco foi usada como “boi-de-piranha”, sacrificada em favor da preservação das poderosas Sudam e Sudene, sobre as quais pesavam inúmeros escândalos, em especial sobre incentivos fiscais, que a Sudeco não dispunha. Penso que a Sudeco teve papel preponderante na formação do que é o atual Centro-oeste, incluindo Rondônia e Tocantins, e muito especialmente na formação da potencia que é Mato Grosso hoje. A Sudeco planejava a região como um todo, organizando os investimentos federais em fortes programas especiais de desenvolvimento regional, sob a visão e fiscalização de um Conselho Deliberativo composto pelos governadores e outros representantes de cada estado. Assim os recursos federais eram articulados em função de grandes objetivos estratégicos, adquirindo uma sinergia potencializadora, e não de forma isolada e às vezes até contraditória, como acontece hoje.
     O salto diferenciado de desenvolvimento que Mato Grosso apresenta, cuja origem é atribuída por alguns à divisão do estado, na verdade está enraizada no trabalho da antiga Sudeco. É claro que tudo começa com Brasília que fez o Brasil voltar-se para o seu interior, dando início ao espetacular desenvolvimento regional. Cuiabá teve sua população duplicada na década de 60. Através de programas como o Prodoeste, Prodepan, Polamazônia, Polocentro e Polonoroeste, a Sudeco organizou e implantou uma infra-estrutura econômica e social básica, impulsionando o processo desenvolvimentista que já ocorria célere na região. As cidades e municípios que começavam a surgir, em especial no norte do estado, queimavam etapas em sua evolução, pois recebiam a fundo perdido projetos complementares de infra-estrutura urbana, como redes de água e energia, estradas, silos, geradores, criando a base sobre a qual se assenta o extraordinário desempenho que Mato Grosso tem mostrado ao país e ao mundo. Que a nova SUDECO beba nas águas da boa experiência da sua antecessora, resgatando aquele poderoso órgão de desenvolvimento regional que jamais deveria ter sido extinto.

terça-feira, 1 de outubro de 1991

O PARQUE DA CIDADE E O COMANDO MILITAR DO OESTE

 

Parque Mãe Bonifácia (foto:odocumento.com.br)

José Antonio Lemos dos Santos

     Em gentil atenção ao nosso artigo da semana passada, o vereador Vicente Vuolo enviou cópia do seu projeto sobre o Parque da Cidade, esclarecendo que ele não estabelece a área do 44' BIM como o local de sua futura instalação. Esta área entra na justificativa do projeto apenas como uma sugestão, sendo proposta uma Comissão para a escolha da localização mais adequada, a qual terá total liberdade para optar por uma outra área, se isto for necessário à viabilização do reencontro urbano da população com a natureza. 

     Estas informações destacam ainda mais a importância do projeto do jovem vereador, pois, mesmo vetado, serviu para evidenciar o quanto de expectativa existe na cidade por um parque como o proposto, servindo também para mostrar que o Exército não pode continuar sendo visto como uma instituição inacessível aos interesses das comunidades onde se instala, dispondo-se a conversar sobre o assunto. Por sua vez amplia a validade de uma contraproposta ao próprio Exército em termos de sua área no "Mãe Bonifácio": uma área também central, de dimensões maiores às do 44' BIM, com acesso facílimo pela Perimetral e bem conservada em sua vegetação natural. Lá o Parque da Cidade já estaria praticamente pronto, bastando alguma limpeza e uma infraestrutura leve de manutenção e apoio que pode ir sendo instalada aos poucos. Um parque é antes de tudo uma área verde, o resto é complemento. 

     A questão do Parque da Cidade, me fez lembrar um assunto que merece especial atenção: por ocasião da instalação do Comando Militar   do Oeste em Campo Grande a imprensa noticiou, com destaque, que a sede daquele Comando em 1990 estaria instalada em Cuiabá. Como já aconteceu uma situação semelhante com a finada SUDECO, — que também se instalou "provisoriamente", em Brasília, lá ficando até sua extinção —, guardei os recortes do noticiário para ver em que pé as coisas iam ficar. A instalação em Campo Grande se deu em 1986, 9 de janeiro, e de lá para cá não tive conhecimento de nenhum desmentido, fazendo-me supor que meus recortes ainda continuam válidos. O Comando não veio até hoje e. o que é pior, não vi manifestação alguma no sentido de perguntar, cobrar. ou qualquer outra atitude que fosse no sentido da viabilização, ou sequer, do esclarecimento de tão importante notícia. 

     Apesar da lembrança não pretendia escrever sobre o assunto, para não misturar as coisas quando tudo parece ir tão bem em relação ao nosso primeiro parque urbano. Entretanto, na semana passada a imprensa nacional divulgou uma outra notícia dando conta que o Exército pretende fiscalizar diretamente a "fronteira andina do país", do Paraná até Roraima, para impedir a penetração dos tóxicos. Nesse caso o Comando Militar do Oeste teria importante papel a desempenhar pois sua atribuição vai de Mato Grosso do Sul até Rondónia, quase a metade da tal fronteira a ser defendida. Vencer a guerra contra as drogas talvez seja hoje o projeto nacional de maior prioridade para a população brasileira, em cujas batalhas assiste impotente à imolação de sua juventude. A entrada do Exército Nacional nessa luta é a única esperança que pode ser vislumbrada. 

     Tanto para o bem como para o mal Cuiabá tem localização estratégica nesse vasto campo de batalha um território marcado em seus limites pelo suor e pelo sangue de sua gente. em episódios como as defesas de Dourados e de Barão de Melgaço, da Retomada de Corumbá, ou da epopeia de Rondon. Cuiabá poderia retomar patrioticamente o assunto. dispondo-se a oferecer todas as facilidades possíveis para que o Comando Militar do Oeste reavaliasse suas conveniências e possibilidade de vir se instalar no centro do seu palco de operações. A indiferença em relação à possibilidade de instalação de um Comando Militar em nossa cidade, pode ter sido explicada por certos receios que, justificados ou não, cercavam a imagem de nossas Forças Armadas. Nestes novos tempos, deixar de abordar este assunto pode até dar a impressão de pouco caso, como se a presença de um quartel a mais ou a menos, ainda que Quartel General, não fizesse diferença alguma na vida de uma cidade como a nossa. Certamente esta impressão não é verdadeira. Se for bom para o Brasil que o Comando Militar se instale em Cuiabá, para Cuiabá e para os cuiabanos será melhor ainda. 

(Publicado pelo extinto JORNAL DO DIA, em 01/10/1991)