"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O CENTRO GEODÉSICO

Turistas no Centro Geodésico da América do Sul durante a Copa (Foto:José Lemos)
José Antonio Lemos dos Santos
     A história de Centro Geodésico da América do Sul não veio do nada, tem uma origem e tem gente muito mais capaz que eu para contá-la. Dadas as desinformações danosas a Cuiabá e ao estado, arvoro-me a contar o que aprendi nestes quase 40 anos em que trato o assunto em artigos e debates. De início recorro ao geógrafo Aníbal Alencastro, maior estudioso da matéria, que cita Joseph Barbosa de Sá, do século XVIII:“Achace esta Villa assentada na parte mais interior da América Austral, em altura de quatorze graos não completos ao Sul da linha do Equador, quase em igoal paralelo com a Bahia de Todos os Santos, pela parte Occidental com a cidade de Lima, capital da Província do Peru, em distancia igoal de huma e de outra, costa setecentos e sincoenta légoas que sam as mil e quinhentas que tem latitude nesta altura deste continente, assentada a beira do rio Cuyabá ...”.
     Muito embora se refira a uma centralidade geográfica definida através de medidas (“graos”), sem dúvida é com Barbosa de Sá que começa essa história. Cabe aqui uma distinção entre centro geodésico e centro geográfico. Data vênia dos especialistas, grosso modo, centro geográfico de um território seria o ponto médio entre suas latitudes e longitudes extremas. Já centros geodésicos são marcos físicos onde estão registradas as coordenadas e altura daquele ponto, integrados numa rede planetária e destinados a embasar de maneira uniforme serviços cartográficos, topográficos, cadastrais e outros. Existem muitos pelo mundo e em Cuiabá um deles é o demarcado pela Comissão Rondon em 1909 na Praça Moreira Cabral, antigo Campo D’Ourique.
     Aconteceu que Rondon ao fazer o primeiro mapa de Mato Grosso ao milionésimo ele se utilizou daquele ponto geodésico como referência inicial ao qual se amarraram todos os demais pontos demarcados à medida do avanço dos trabalhos de mapeamento. Mais tarde, em 1927, o mesmo Rondon foi incumbido de retificar as fronteiras terrestres brasileiras com todos os países da América do Sul e de novo este marco serviu como referência “zero” para este hercúleo trabalho que, segundo Alencastro, percorreu “um total de 17.366 Km, com implantação de marcos que até hoje lá estão firmes e sólidos não ocorrendo nenhuma dúvida quanto aqueles limites de fronteira até hoje”. Depois, ainda segundo Alencastro, em 1934 “Rondon foi o árbitro do “Conflito de Letícia” harmonizando as fronteiras entre a Colômbia e o Peru, e o marco em Cuiabá continuou servindo de referência inicial.
     Por último recorro ao saudoso professor Lenine de Campos Póvoas que em sua residência explicou pessoalmente a mim e ao então deputado José Lacerda que anos depois foi elaborado o mapa da América do Sul, também tendo como referência os trabalhos de Rondon. Daí e mais a centralidade identificada por Barbosa Sá no século XVIII, surgiu a expressão “Centro Geodésico da América do Sul”, que em 1972 virou lei e por isso deve ser escrito respeitosamente com iniciais maiúsculas.
     No último dia 23 de janeiro de 2020 o governo do estado criou o “Monumento Natural Centro Geodésico da América Latina”. Louvável a criação da Unidade de Proteção Integral para a beleza cênica e a biodiversidade local, bem como o fomento ao turismo, mas América Latina é uma coisa e América do Sul é outra. O risco é expor ao descrédito dois recursos turísticos extraordinários de Mato Grosso: a beleza do mirante na Chapada e todo o significado do “Centro Geodésico da América do Sul” de Rondon no Campo D’Ourique. Tenho elogiado o governador em muitas de suas ações como as referentes ao gás, aos cuidados com a Arena Pantanal e à retomada das obras da Copa. Mas este “centro geodésico da América Latina” juro que ainda não entendi.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

MEIO SÉCULO DE INTERNET

Resultado de imagem para internet
José Antonio Lemos dos Santos
     Nesta terça-feira comemoramos os 50 anos de uma das maiores revoluções conseguidas pela humanidade, meio século a partir do dia 29 de outubro de 1969 quando se deu a primeira transmissão de dados entre dois computadores remotos, considerada como o primeiro e-mail na face da Terra. Era para ser a palavra LOGIN, mas no meio da transmissão deu “pau” no computador receptor e só foi LO, um pedaço da palavra que se pretendia mandar. Mesmo assim, um dos maiores sucessos da história do homem. Nasceu a Internet, hoje parte indissociável da vida dos homens, impossível pensar o mundo atual sem ela.
     Lembro lá pela década de sessenta que os jornais “de fora”, em geral do Rio de Janeiro, só chegavam a Cuiabá ao final das tardes pela antiga VASP e eram vendidos em uma única papelaria que ficava na Praça da República. A fila começava a se formar cedo e quando chegavam os jornais era aquele empurra-empurra para cada um pegar o seu. Nas segundas-feiras a afluência era muito maior, pois os jornais traziam um caderno esportivo com as reportagens sobre os jogos do domingo, dia anterior, com as fotos dos lances dos nossos times, até então só imaginados pela narração dos “speakers” e comentaristas. Só no mês seguinte iríamos ver em filmes trechos do jogo no “Canal 100”, noticioso que antecedia às sessões do Cine Teatro Cuiabá.
     O mundo tinha centro e periferia, e nós éramos periferia da periferia, ou “o fim do mundo” como falavam, situação que mais valoriza figuras como Rondon, Dutra e outros que, apesar das dificuldades, conseguiram vencer nos grandes centros. A dificuldade não era só quanto aos jornais, mas em relação a quaisquer novidades em todos os campos. O rádio era a grande conexão. Para fazer um interurbano a pessoa tinha que esperar às vezes por um dia inteiro, ou até mais para conseguir a ligação. Quando ainda dava aulas alertava sempre os alunos que hoje só é periferia quem quer, pois a Internet, a Grande Rede sem cabeças, acabou com essa dicotomia cruel. As informações estão disponíveis on-line e de graça na grande maioria dos casos. Sem sair de casa você pode fazer cursos ou compras em qualquer lugar do mundo, acessar livros, filmes ou shows e ficar a par de tudo o que está acontecendo praticamente na hora e no mundo inteiro.
     O homem original nasceu com cabeça, tronco e membros, evoluiu para cabeça, tronco e rodas, depois as rodas ganharam asas e agora somos cabeça, tronco e Internet. Com ela podemos estar e conversar com pessoas em diversos lugares do mundo sem sair do lugar, temos as respostas de tudo na palma das mãos e temos amigos com os quais conversamos todos os dias sem muitas vezes sequer saber se é homem ou mulher, idoso ou jovem, branco ou negro, alto ou baixo. “Disbodyment” é uma palavra nova que descreve bem a situação da “descorporização” do homem e das coisas. Grandes lojas e agências bancárias, por exemplo, tiveram seus “lay-outs” redefinidos e reduzidos. Antes da Internet cada pessoa era praticamente a ir a uma agência bancária ao menos 2 vezes por semana para procedimentos hoje feitos pelos celulares.
     Minha geração teve o privilégio de viver antes e depois da Internet e da computação de um modo geral. Quem não teve que datilografar um texto numa máquina de escrever não pode avaliar corretamente o fantástico que é um editor texto nos dias de hoje. Quem não viveu o mundo anterior à Internet não consegue uma avaliação correta do milagre do mundo de hoje. E muito mais coisas estão vindo. Tenho inveja dos jovens que viverão o que ainda virá. Mas também receio por eles: a onipresença e a onisciência com as quais hoje flertamos está a um passo da soberba presunção de onipotência.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

O ESTÁDIO DO LICEU

Estádio do Liceu Cuiabano (Foto José Lemos)
José Antonio Lemos dos Santos
     Sábado passado à tarde (31/09) vinha pela Getúlio Vargas e ao passar pela bela fachada Art Decô do estádio do Liceu Cuiabano vi os portões do campo abertos. O sol e o calor estavam de rachar e, como ralos flocos de neve no início dos invernos de outras terras, completando o ambiente caiam do céu flocos cinzentos da vegetação incinerada pelo fogaréu que nos cerca nesta época do ano. Meio abandonado o espaço, resolvi entrar. Fotografei. Logo muitas recordações. Fiz parte do antigo ginasial naquele maravilhoso colégio e dele guardo muitas lembranças boas de colegas, professores, funcionários e de algumas armações comuns à adolescência. Ruim de bola, usei o campo mais nas aulas de Educação Física.
     Mas o estádio me traz outras indeléveis lembranças. Por exemplo, foi no Liceu que assisti pela primeira vez a um jogo de futebol em um estádio, com times de futebol organizados participando de um campeonato oficial. Eu devia ter entre 9 e 10 anos e disputavam Clube Atlético Mato-grossense versus Mixto Esporte Clube, clássico local apelidado de CAM-MEC. Era manhã de um domingo, o estádio lotado apesar da concorrência do inesquecível “Domingo Festivo na Cidade Verde”, de Adelino Praeiro e Alves de Oliveira, programa musical e de variedades ao vivo no Cine Teatro, de enorme sucesso. Não me lembro o placar final, o de menos diante do deslumbramento vivido, mas lembro dos craques Bianchi e Portela, um de cada lado, e até hoje ressoa em meus ouvidos uma falta cobrada da intermediária pelo Bianchi. A bola passou por cima da meta e acertou uma das barras de ferro que existiam atrás do gol em uma estrutura (demolida) destinada à Educação Física, barra que ficou zunindo por um tempo como a frágil corda de um instrumento musical. E até hoje zune entre as minhas melhores lembranças.
     Do passado para o presente, vimos por algum tempo uns alunos do Liceu Cuiabano em portas de bancos e nos cruzamentos mais movimentados das proximidades vendendo rifas para ajudar o time deles a participar de campeonatos fora de Cuiabá. Não os tenho visto ultimamente. Espero que não tenham sumido por desistirem do seu esporte por falta de apoio, seria triste já que uma das alternativas ao esporte é a droga. Mas o caso do estádio do Liceu e o dos jovens atletas são gêmeos e vêm do descaso dos nossos sucessivos governantes para com o esporte.
Arquibancadas do estádio do Liceu Cuiabano (Foto José Lemos)
     E dizem que Cuiabá não tem estádios e que por isso todos os jogos em todas as categorias do futebol profissional e amador, e mesmo do nosso ótimo e promissor futebol americano, têm que ser realizados na espetacular Arena Pantanal, sacrificando seu precioso gramado de Copa do Mundo que devia ser peça de propaganda positiva de Cuiabá e Mato Grosso nas transmissões pela TV e Internet e não objeto de comentários depreciativos. Não seria o caso de juntar as duas coisas e o governo estadual, que agora finalmente vem dando alguma atenção à Arena Pantanal, viabilizar uma reformazinha no estádio do Liceu Cuiabano e nos horários não utilizáveis pela própria escola alugá-lo às federações para a realização de seus jogos de menor afluência de público? Outro dia aconteceu um jogo na Arena com um público de 12 pessoas! Deve ter custado caro ao mandante do jogo e mais ao gramado.
     Mas, esta proposta só fará sentido se o resultado do aluguel for de fato destinado à promoção das diversas modalidades esportivas no Liceu Cuiabano, o mesmo que por um tempo se chamou Colégio Estadual de Mato Grosso e que em sua história formou figuras exponenciais como o Marechal Rondon, reconhecido internacionalmente como um dos vultos mais importantes da Humanidade e o Marechal Dutra que de menino pobre vendedor de bolinhos em nossas ruas chegou à presidente da República.

segunda-feira, 12 de março de 2018

CAMPEÃO DO MUNDO

BREEAM AWARDS2018
José Antonio Lemos dos Santos
     Até o ano passado enquanto fui professor da ativa sempre insisti com os alunos e colegas no entendimento de que no mundo da internet só é periferia quem quer. Não tem mais aquela velha desculpa de morar longe dos grandes centros culturais, industriais, distante das bibliotecas, das inovações tecnológicas, etc., que sem dúvida foi bastante válida durante muito tempo para muitos, mas que hoje com a internet não faz mais o menor sentido. Até a pouco tempo era compreensível a expressão “vou ao Rio ou a São Paulo tomar um banho de civilização”. Hoje a internet traz a civilização e o mundo para todo mundo e leva todo mundo para o mundo e a civilização, desde que cada um queira de fato. Mas mesmo sem a internet tinha gente que rompia a distância e o isolamento e ia ao encontro do mundo, alguns até para conquistá-lo, como Dutra ou Rondon que saíram de Cuiabá com todas as dificuldades para construir seus destinos, um chegou a presidente do Brasil e o outro é considerado em outros países, EUA por exemplo, como um dos maiores vultos da espécie humana.
     Baixando um pouco a bola, na semana passada, último dia 6 de março, em Londres aconteceu a premiação mundial de construções sustentáveis, BREEAM AWARDS 2018, destacando o Centro Sebrae de Sustentabilidade, em Cuiabá, e seu criador o arquiteto conterrâneo José Afonso Botura Portocarrero. Foram premiados como Melhor Edificação Sustentável em Uso nas Américas, por juri técnico e Melhor Prédio Sustentável da Premiação, em júri popular mundial por meio de votos digitais, tendo concorrido com edifícios das três Américas, Ásia e Europa. O BREEAM criado em 1992 na Inglaterra foi o primeiro método para avaliação de sustentabilidade em edifícios e hoje é uma das certificações de maior prestígio no mundo.
     Uma premiação deste porte traz por si só um impacto arejador no ambiente cultural do estado mas impacta também ao premiar um projeto que traz a interação daquilo que é mais contemporâneo em termos de tecnologia com lições fundamentais de sabedoria da arquitetura indígena coletadas pelo arquiteto Portocarrero e reunidas no seu livro “Tecnologia Indígena em Mato Grosso”, também premiado em outra ocasião. A interação de conceitos globais e locais, moderno e milenar é a proposta contundente e sedutora do edifício premiado.
     O Centro Sebrae de Sustentabilidade promove também o verdadeiro conceito de Arquitetura, mostrando superar os limites físicos da simples construção ao transformar os espaços em abrigos de qualidade com segurança, funcionalidade e com a magia capaz de transformar um edifício em um ícone.  O Centro Sebrae de Sustentabilidade consolidou-se de fato como um ícone da sustentabilidade na arquitetura, centro difusor de conhecimentos e promotor de discussões sobre as melhores formas do homem se relacionar com seu ambiente. E o edifício em si é a sua principal mensagem, o edifício é a primeira lição.
     É preciso saudar uma instituição como o SEBRAE-MT por buscar na arquitetura de qualidade um bom começo para o desenvolvimento de seu centro de sustentabilidade. Ninguém mais adequado que o arquiteto e urbanista José Afonso Portocarrero, professor, mestre e doutor, um dos idealizadores da Secretaria do Meio Ambiente de Cuiabá e seu primeiro secretário, estudioso do edifício, da cidade e do ambiente e que foi buscar com os índios, com olhos e mentes de aprender, as lições de convivência ambiental para sua arquitetura mais recente. Só podia dar certo. Além do sucesso, reconhecimento nacional e internacional para o Centro Sebrae de Sustentabilidade e seu arquiteto.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O SENADOR ESQUECIDO

OlharDireto
José Antonio Lemos dos Santos

     Lavado e enxaguado nas águas da vitória do Cuiabá contra o Salgueiro, recordo que toda cidade é um centro produtor, mas sua produção extrapola os bens e serviços. Seu principal produto é a sua gente e a qualidade de seu povo é a melhor medida do sucesso de uma cidade. As cidades lembram seus vultos como modelos para continuar a produzi-los em todas as áreas da vida. Nos meus tempos de grupo escolar, estudávamos suas biografias aprendendo a respeitá-los, e por eles aprendemos a respeitar nossa gente, a boa cepa de onde surgiram.
     Triste como algumas grandes figuras mato-grossenses foram esquecidas pela história. Dia 22 de agosto é aniversário de nascimento de Antonio Francisco Azeredo, lembrado como Senador Azeredo, nome do tradicional colégio do Porto, antigo “Peixe-Frito” da saudosa professora Delza Saliés e tantas. Não fossem Rubens de Mendonça e a Internet, seria impossível falar sobre este cuiabano, nascido em 1861 e que chegou a Presidente do Senado Federal por mais de 15 anos, até ser deposto pela revolução de 30 e exilado na Europa. Até outro dia era o primeiro dos homenageados na Galeria de Bustos do Senado.
     Sobre o Senador Azeredo, porém, até na Internet as referências são mínimas, vestígios encontrados em sites que tratam de outras personalidades e outros assuntos. Contudo, nesse pouco dá para perceber uma personalidade que merecia maior atenção dos mato-grossenses. Abolicionista e republicano, segundo Rubens de Mendonça ele trabalhou no jornal “Gazeta da Tarde” de José do Patrocínio, antes de comprar um pequeno jornal carioca denominado “Diário de Notícias”, que logo transformou em um dos maiores e mais influentes jornais do país, no qual colocou como redator, nada mais nada menos do que Rui Barbosa. Foi eleito Deputado à Constituinte e à Primeira Legislatura por Mato Grosso, chegando a ser o Primeiro Secretário da Câmara, até que assumiu o Senado no lugar de Joaquim Murtinho, quando este, também cuiabano, saiu para ser Ministro da Viação e da Fazenda e entrar na História como o maior estadista do Brasil na Velha República. Senador por quase trinta anos, e presidindo a Casa por muitos anos, Antonio Francisco Azeredo deu posse a alguns Presidentes da República. Foi também escritor, não apenas de seus discursos, mas de algumas obras que hoje despertariam interesse. Foi também comendador da Legião de Honra da França, e condecorado em diversos outros países.
     Sua maior obra para os mato-grossenses e cuiabanos em especial, foi, como fizeram alguns outros, ter levado a figura de um conterrâneo a posições de tão grande destaque e influência na vida nacional. Sua vida deveria ser mostrada como exemplo aos jovens locais que resistem às tentações dos descaminhos, acreditam em si e nas perspectivas positivas da vida, e vão à luta apesar das dificuldades, como um dia fez o jovem Antonio Azeredo. Como Rondon, Dutra e outros, Antonio Azeredo também teve sua grande oportunidade ao cursar um colégio militar, na época talvez a única chance de subir na vida para os jovens mato-grossenses.
     A este propósito recordo que em 1957 a Prefeitura de Cuiabá doou o terreno do antigo “campo de aviação”, hoje ocupado pela Vila Militar, para que ali fosse construído o Colégio Militar de Cuiabá. Se tivesse virado realidade, quantos outros milhares de jovens mato-grossenses teriam sido beneficiados? Cuiabá não deveria voltar a pensar no assunto? O belo prédio do 44º BIM, construído por Dutra seria uma boa alternativa para um Colégio Militar com nome de seu construtor e um memorial como centro de referência à sua história.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

CENTRO DA AMÉRICA

Turistas no Centro Geodésico - Foto José Lemos 

José Antonio Lemos dos Santos

Aqueles que nesta série de artigos me dão o privilégio semanal de suas leituras me perdoem, mas renovo a explicação introdutória de que estou aproveitando a ocasião das eleições municipais e da elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado do Vale do Rio Cuiabá (PDDI/VRC), para destacar alguns importantes fatores positivos capazes de impulsionar o desenvolvimento da Baixada Cuiabana. Fatores que estão aí prontos para serem usados com inteligência. Lembro neste artigo o Centro Geodésico da América do Sul, assim como já lembrei outros potenciais geradores de emprego e renda disponíveis no Vale do Rio Cuiabá e que estão de um modo geral abandonados ou subutilizados. Entre outras fontes, busco inspiração nos diversos artigos em que tratei do tema, desde o publicado em 1986 no saudoso “O Estado de Mato Grosso”, capeando caderno especial sobre o assunto, no qual diversas autoridades da época manifestaram-se a favor em sua quase totalidade.
     Estivesse o centro geodésico em qualquer outra cidade do Brasil, há muito seria atração turística importante, promovendo a qualidade de vida de sua gente, ainda mais nesta época em que a integração do continente é tão propalada por motivos desde ideológicos, diplomáticos, comerciais ou culturais, até aos atuais projetos logísticos transoceânicos. Cuiabá tem a exclusividade do marco geodésico continental no antigo Campo D’Ourique, em frente à atual Câmara de Vereadores de Cuiabá identificado pelo Marechal Rondon, reconhecido mundialmente como um dos maiores personagens da humanidade, a ponto de ser indicado ao Nobel da Paz por Einstein e outras entidades científicas internacionais. Seria até hoje o único brasileiro a receber tal honraria. Não recebeu por ter falecido justo no ano da premiação e naquele tempo não havia a premiação post-mortem.
Deville

     A ideia era, e ainda é, criar naquele espaço um centro referencial para a cultura sul-americana, aproveitando com as devidas adaptações a atual sede da Câmara, que deveria ser deslocada – e um dia será - para lugar mais destacado e acessível, como aliás chegou a propor Blairo Maggi, então governador, quando da transferência da Assembleia Legislativa para o CPA. Um lugar onde se desenvolvessem estudos, exposições, congressos, festivais e outras atividades sobre as manifestações populares do continente como, por exemplo, cursos das diversas línguas atuais e pré-colombianas (quíchua, aimará, guarani e outras), gastronomia, danças, oficinas de ensino e de fabricação de instrumentos musicais como a belíssima harpa paraguaia, o charango, as flautas andinas, a nossa viola de cocho, etc. Podia até iniciar com uma festa anual simples, aproveitando as colônias locais em um grande abraço sul-americano, em comemoração à cultura popular do continente com barracas de cada país, música, dança, comidas típicas.
     Mas é preciso pensar grande, à altura do significado mágico daquele pedaço de terra no antigo Campo D’Ourique. É fundamental que os setores governamentais e empresariais queiram e se articulem, em especial o setor turístico e hoteleiro, este com capacidade ociosa pós-Copa. O voo regular para a Bolívia está prometido para dezembro. Junto às belezas do Pantanal, Chapada e Nobres, das termas de São Vicente, do Memorial Rondon, da Amazônia, do Cerrado e das fantásticas paisagens da agropecuária high-tech, com seus rebanhos, algodoais, campos de girassol e de soja, um centro cultural sul-americano no centro da América do Sul transformará Cuiabá em um pacote de atrações muito vantajoso ao investimento do turista nacional e internacional. Empregos, renda e desenvolvimento, principalmente cultural, é o que Cuiabá e Mato Grosso ganharão. Um dia acontecerá. Por que não agora?
Publicado em 17/09/2016 pela Página do Enock, MidiaNews, Diário de Cuiabá, FolhaMax site do CAU MT, HiperNotícias, ...)

COMENTÁRIOS
No HiperNotícias:
Carlos Nunes - 19/09/2016
"Há controvérsias...o profº Lenine Póvoas, num curso sobre História de MT, que deu certa vez na Academia Matogrossense de Letras, afirmou categoricamente que: campo D'Ourique nunca foi centro geodésico coisa alguma. Nos seus registros históricos constava que confundiram "alhos com bugalhos". Quando Rondon foi escalado para medir a região de MT, fazer mapas, etc, tinha que escolher o marco ZERO da medição, e escolheu aquele lugar, como poderia ter escolhido outro. Então confundiram e afirmaram que lá era o centro geodésico da América do Sul. Como calcular o centro geodésico atualmente? Bem, com essa modernidade atual da tecnologia fica fácil, deve ter um método confiável que mostra onde fica realmente."

José Antonio Lemos dos Santos - 22/09/2016
Prezado Carlos Nunes, agradeço o privilégio da leitura e a gentileza de seu comentário, que ajuda muito a esclarecer esse importante valor de Cuiabá. Antes de tudo, meu repeito à lembrança do saudoso professor Lenine Póvoas. Como sabemos, grosso modo um marco geodésico é um ponto materializado no terreno que assinala uma posição cartográfica precisa. No Brasil e no mundo são milhares ou milhões que juntos formam a rede geodésica. Aqui mesmo tem muitos (ex. na Praça Luis de Albuquerque, no Jardim Alencastro, no mirante da Chapada, etc.). Mas sobre esse assunto cabe lembrar o prof. Aníbal Alencastro que diz que a história desse marco começa com Joseph Barbosa de Sá que no século XVIII já afirmava sobre Cuiabá que: “Achace esta Villa assentada na parte mais interior da América Austral, em altura de quatorze graos não completos ao Sul da linha do Equador, quase em igoal paralelo com a Bahia de Todos os Santos, pela parte Occidental com a cidade de Lima, capital da Província do Peru, em distancia igoal de huma e de outra costa setecentos e sincoenta légoas que sam as mil e quinhentas que tem latitude nesta altura deste continente,...”. Conta ainda Alencastro que Rondon sabendo da informação de Barbosa Sá mandou calcular o tal ponto e em 1909 instalou o importante marco como apoio referencial aos seus trabalhos de implantação da Linha Telegráfica ligando o Rio de Janeiro a Mato Grosso e Amazonas e que depois também serviu de base para o trabalho de consolidação das fronteiras brasileiras e de “marco zero” para a elaboração do primeiro mapa do Brasil ao milionésimo, duas outras hercúleas tarefas cumpridas por Rondon de forma extraordinária. Posteriormente foi realizado o mapa da América do Sul que adotou como base o mapa do Brasil ao milionésimo elaborado por Rondon e seus técnicos, o qual teve como centro para todas suas medidas o marco geodésico instalado no antigo Campo D’Ourique, o marco zero, o centro de todas as distâncias.. Por isso é considerado o Centro Geodésico da América do Sul. Muitos confundem, aí sim, com o centro geográfico, mas este também informado por Barbosa Sá e confirmado geodesicamente naquele local pela equipe de Rondon. Por isso, Cuiabá tem sim o privilégio de ter o Centro Geodésico da América do Sul.





terça-feira, 27 de maio de 2014

O CENTRO DA AMÉRICA NA COPA


DevilleStarClub

José Antonio Lemos dos Santos

     Outro dia me perguntaram qual seria o primeiro lugar em Mato Grosso ao qual eu levaria um turista. Respondi de imediato: ao centro da América do Sul. Certo que existem muitos outros lugares para levá-lo, mas este seria o primeiro. A pessoa, surpresa, estranhou dizendo que lá não tem nada, não estaria preparado para receber o turista. Aí foi minha vez de estranhar: como não tem nada? Ali tem o centro geodésico de um continente. Aquele é um lugar especial único no mundo e bastaria por si só, apenas assinalado por de um marco indicativo, como o que existe no local. Não fosse o edifício que hoje serve à Câmara de Vereadores, o ideal seria uma grande praça, livre, só com o obelisco para fotos dos turistas, festas, cantos, danças e outras manifestações espontâneas ou oficiais reverenciando o fato de vivermos no mesmo continente, irmãos e hermanos no mesmo barco continental.
     Locais especiais como esse têm em si mesmo um potencial de emoção que segura o visitante, podendo ser um poderoso atrativo a mais ao turista. Basta que esteja limpo, seguro, bem iluminado e que sua existência seja informada ao turista. Importante, por favor, que as autoridades não permitam a instalação no local de barracas, tendas para venda do que quer que seja, ao menos durante a realização da Copa. Nem banheiros químicos. Outro dia levei um parente visitante, e para minha surpresa, estava lá um galpão escorado no obelisco do centro da América do Sul. Desrespeito. Fiquei sem graça. O local não precisa de mais nada, basta respeitá-lo e promove-lo. As agências de turismo e a rede hoteleira poderiam ter visitas programadas a serem oferecidas a preços módicos aos turistas. Ao menos na Copa. 
     O marco recebeu recentemente de Jaime Lerner um tratamento arquitetônico, que justamente buscou destacá-lo através da limpeza de sua área mais próxima, aliás da mesma forma como já havia proposto o arquiteto Ademar Poppi no finado IPDU da prefeitura municipal. Como o edifício da Câmara não impede a visitação ao centro geodésico e já está lá, ainda tenho esperança de vê-lo gerando emprego, renda e cultura para a população, transformado em um centro de cultura sul-americano, sobre o qual venho escrevendo desde 1982. 
Foto José Lemos

     Segundo o professor Anibal Alencastro a história desse marco começa com Joseph Barbosa de Sá que no século XVIII já afirmava sobre Cuiabá que: “Achace esta Villa assentada na parte mais interior da América Austral, em altura de quatorze graos não completos ao Sul da linha do Equador, quase em igoal paralelo com a Bahia de Todos os Santos, pela parte Occidental com a cidade de Lima, capital da Província do Peru, em distancia igoal de huma e de outra costa setecentos e sincoenta légoas que sam as mil e quinhentas que tem latitude nesta altura deste continente,...”. 
     Em 1909, a Comissão Rondon, responsável pela implantação da Linha Telegráfica ligando o Rio de Janeiro a Mato Grosso e Amazonas, instalou o importante marco como apoio referencial aos seus trabalhos, e que depois também serviu de base para o trabalho de consolidação das fronteiras brasileiras e de “marco zero” para a elaboração do primeiro mapa do Brasil ao milionésimo, duas outras hercúleas tarefas cumpridas por Rondon de forma extraordinária. Posteriormente foi realizado o mapa da América do Sul que adotou como base o mapa do Brasil ao milionésimo elaborado por Rondon e seus técnicos, o qual teve como centro para todas suas medidas o marco geodésico instalado no antigo Campo D’Ourique. Não temos o direito de negar aos visitantes em geral, e aos da Copa em particular, o privilégio de visita-lo e tocá-lo, no coração do continente sul-americano. 
(Publicado em 27/05/2014 pelo Diário de Cuiabá, ...)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A COPA E O CENTRO DA AMÉRICA

viagem.uol

José Antonio Lemos dos Santos

     Desde que surgiram em 1851 com a Exposição Universal de Londres, os grandes eventos internacionais objetivam promover a venda de alguma coisa. Na época era fazer uma mostra da produção da indústria inglesa, reunindo em um só lugar produtos, produtores e consumidores de todo o mundo. A grande atração acabou sendo o próprio edifício onde se realizou o evento, o Palácio de Cristal, de dimensões jamais vistas, todo em estrutura metálica e vidro, abrindo caminho para a nova arquitetura que mais tarde se consolidaria como Arquitetura Modernista. Quando Dutra, o presidente cuiabano, construiu o Maracanã e trouxe a Copa do Mundo de 1950, seu objetivo era mostrar ao mundo um novo país que deixava de ser rural começando a ser industrializado, apto a receber as atenções dos investidores internacionais. 
     Agora ao estender a Copa 2014 para o Pantanal e Amazônia o Brasil buscou mostrar ao mundo as belezas desses ecossistemas e promover seu potencial turístico em nível internacional, objetivo, aliás, que parece ter sido marginalizado pelos próprios gestores da Copa. Em comparação às obras da mobilidade urbana, tão importantes para Cuiabá, pouca coisa foi desenvolvida no turismo. Sorte é que as atrações naturais de Mato Grosso são tão poderosas, que mesmo marginalizadas nas atenções oficiais, elas mesmo se promovem, aliás, como sempre fizeram. Nesta reta final para o grande evento, fundamental é que os governos não atrapalhem e que invistam ainda no que puder ser feito em termos segurança, informação e conforto ao turista. É o que dá! 
     Além do Pantanal, Mato Grosso tem as belezas naturais do Cerrado e da Amazônia, assim como – por que não? - as belezas das paisagens artificiais das grandes plantações e dos grandes campos criatórios, ricos em capital, tecnologia e polêmicas, sérias e não sérias, como as que sempre acompanham os avanços pioneiros. Porém, dentre todas as joias turísticas de Mato Grosso a de maior potencial é o centro geodésico da América do Sul, que, no entanto, não é lembrada nas programações para a Copa. O centro do continente sul-americano só existe um, está aqui e precisa ser explorado como gerador de empregos, renda e cultura. De quebra ainda leva junto o nome de Rondon, pantaneiro reconhecido mundialmente como um dos maiores vultos da história humana, que identificou e demarcou aquele lugar mágico. Por falar em Rondon, não dava para preparar alguma referência lá no local onde nasceu, talvez na parte já levantada de seu memorial em Mimoso? 
     Voltando ao centro da América do Sul, não temos o direito de negar a um turista que vem lá do outro lado do mundo ao menos a informação de que ele esteve no centro exato de um continente e a possibilidade de registrar essa sua presença em uma foto certificada a ser pendurada em alguma das paredes de sua memória. Seria tão difícil preparar uma estrutura para fotos e certificados oficiais assinados pelo prefeito, com visitas agendadas pelos hotéis logo à entrada do hóspede, e cobrados a preços módicos à sua saída? Seria difícil conseguir que cada delegação fizesse uma visita com foto oficial junto ao obelisco? Haveria melhor divulgação? Meu primeiro artigo sobre assunto é de 1986 no saudoso O Estado de Mato Grosso, propondo no local um centro de cultura sul-americana. Quem sabe para o Tricentenário? Hoje, a poucos meses da Copa é impossível pensar além desses serviços de registro de presença. Em termos do espaço, o tratamento dado por Jaime Lerner está ótimo, nada a construir, só adicionar uma bela iluminação cenográfica, apoio técnico de qualidade ao turista, manutenção e limpeza constantes. O mais importante é o centro da América do Sul, atestado por Rondon. Isso só Cuiabá tem. 
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 18/02/2014)

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terça-feira, 21 de maio de 2013

LUVERDENSE, CÂMARA E AMÉRICA DO SUL

Foto José Lemos

José Antonio Lemos dos Santos

     Viva o Luverdense que na semana passada em Salvador eliminou da Copa do Brasil o poderoso Bahia, time da série “A” do Campeonato Brasileiro, jogando com o regulamento de forma amadurecida em uma exibição de gala reconhecida pelos narradores da TV soteropolitana digna da beleza da nova Arena Fonte Nova. Um feito memorável para um time de um estado que é criticado por acolher uma das sedes da Copa do Mundo sem ter um time entre os da elite do futebol brasileiro. O Mixto também já havia vencido no Dutrinha o Vitória, também classe “A” e campeão baiano. E olha que o Luverdense foi o terceiro colocado no campeonato de Mato Grosso, mostrando que o mato-grossense gosta mesmo do futebol e está a altura da fantástica Arena Pantanal. Aliás, quando os cotovelos doloridos criticam os 42 mil lugares da nova Arena, sempre esquecem que o antigo Verdão tinha 55 mil lugares, e lotava. 
     Mas neste artigo quero tratar da proposta do presidente da Câmara Municipal de Cuiabá de construção de uma nova sede para o legislativo cuiabano que, embora sem esta intenção, caminha no mesmo rumo da antiga ideia de um centro de cultura sul-americana a ser criado no exato centro geodésico da América do Sul, como uma alternativa de ocupação digna daquele espaço e de aproveitamento de um dos mais ricos potenciais geradores de emprego e renda para Cuiabá. Recorda diversos artigos em que tratei do tema, desde o publicado em 1986 no saudoso “O Estado de Mato Grosso”, capeando caderno especial sobre o assunto. 
     A ideia era, e ainda é, criar naquele espaço um centro referencial para a cultura sul-americana. Um lugar onde se desenvolvessem estudos, exposições, congressos, festivais e outras atividades sobre as manifestações populares autênticas do continente como, por exemplo, cursos das diversas línguas pré-colombianas (quíchua, aimará, guarani e outras), a gastronomia, danças, oficinas de ensino e fabricação de instrumentos musicais como a belíssima harpa paraguaia, o charango, as flautas andinas, a nossa viola de cocho, etc. Talvez até um local para encontros comerciais e cúpulas políticas continentais. No mínimo poderia ser feita uma festa anual simples comemorando, em um grande abraço sul-americano, a cultura popular do continente com barracas de cada país, musica, dança, comidas típicas, lembrando Simon Bolívar, pioneiro da integração continental. 
     Estivesse o centro geodésico em qualquer outra cidade, há muito seria atração turística importante, gerando renda e cultura em favor de sua gente, ainda mais nesta época em que a integração do continente é tão propalada e a qual o governo federal parece dedicar especial carinho. Cuiabá tem a exclusividade de ter o marco geodésico continental instalado pelo Marechal Rondon, reconhecido mundialmente como um dos maiores personagens da humanidade, e um espaço físico praticamente pronto para ser ocupado. 
Foto José Lemos

     Mas é preciso pensar grande, isto é, pensar à altura do significado mágico daquele pedaço de terra do antigo Campo D’Ourique. Nesse sentido, seria preciso buscar o apoio do Itamaraty na criação de uma fundação de caráter internacional, com apoio das embaixadas dos países do continente. Junto às belezas do Pantanal, da Chapada, das termas de São Vicente, da Amazônia, da fantástica agropecuária e a visibilidade da Copa, a criação de um centro cultural sul-americano no centro da América do Sul transformará Cuiabá em um pacote múltiplo de atrações extremamente vantajoso ao investimento do turista nacional e internacional. Empregos, renda e desenvolvimento, principalmente cultural, é o que Cuiabá e Mato Grosso ganharão com o aproveitamento dessa extraordinária riqueza. Um dia acontecerá. E pode ser agora. 

(Publicado em 21/05/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O VÔLEI NO CORAÇÃO DA AMÉRICA

José Antonio Lemos dos Santos


     A partir do dia 16 passado entramos nos 1000 dias que faltam para a Copa do Mundo de 2014 e, em especial, para a nossa Copa do Pantanal. Mas nesta semana outros assuntos ofuscam a Copa. Para começar, as vitórias do Cuiabá e do Luverdense, classificados em suas respectivas séries no Brasileirão de futebol. Tem mais, o Cuiabá ficou em primeiro lugar no grupo com uma goleada no bicampeão amazonense. Vitória importante também foi a do nosso campeão brasileiro de futebol americano, o Cuiabá Arsenal, buscando o bi. Outro assunto extraordinário para Mato Grosso é o Campeonato Sul-Americano de Vôlei que teve início ontem, aqui em Cuiabá, no centro geodésico da América do Sul. Um evento com transmissão para diversos países e de grande interesse no mundo esportivo pois este é ano de mundial e aqui desfilarão seleções fortes como a da Argentina, Uruguai, Venezuela, além, é claro, da melhor seleção do mundo que é a brasileira.
      Mais que o caráter esportivo, um evento como esse tem outras dimensões. Vale como marketing para a cidade e para o estado, em especial para o turismo. Nesse sentido seria demais pensar que as seleções tenham sido convidadas a visitar o centro geodésico, deixando cada qual sua foto oficial naquele local mágico marcado por Rondon? Mas um evento esportivo desse porte tem também um caráter sócio-educativo ao expor a juventude ao salutar contato ao vivo com atletas de alto nível, também jovens e já celebridades mundiais, que têm no trabalho e na dedicação, na saúde e no preparo físico suas condições de sucesso. Os grandes eventos esportivos incendeiam o imaginário dos jovens passando a mensagem positiva de que a saúde e o trabalho também fazem sucesso e é um caminho possível. E muitos são “desviados” para o bom caminho. Que seria de milhões de nossos jovens sem os exemplos de sucesso de atletas brasileiros por este mundo afora?
     Que bom ter ido a um supermercado em Cuiabá e lá encontrar de bermuda e bambolê uma figura internacional como o Bernardinho, o maior técnico de vôlei no mundo, acessível a um aperto de mão. Ou o Rodrigão, que se não fosse pela altura passaria despercebido da maioria das pessoas, de tão simples e à vontade que se encontrava no meio das pessoas comuns. Ao jovem fica a idéia de que ele pode ser igual, pois são iguais, de carne e osso e que é só escolher o caminho.

      Disseminar o esporte entre a juventude é investir na saúde, na educação, na vida saudável e correta, na qualidade de vida. Cada centavo bem investido no esporte economiza milhares de reais na manutenção de presídios, centros de recuperação e remédios. Daí a importância de um ginásio como o Aecim Tocantins, que em seus 4 anos de existência já trouxe para Mato Grosso jogos da Liga Mundial e de Copas América de Vôlei masculino e feminino, Copa América de Basquete feminino, Campeonato Panamericano de Karatê e permitiu que Cuiabá ano passado tivesse um time na Superliga Nacional de Vôlei. De lambuja, ainda recebeu jogos avulsos das seleções nacionais de vôlei e futebol de salão, grandiosos shows e eventos diversos. O problema não é a dimensão do ginásio, como alguns alegam, assim como não será na futura Arena Pantanal. Ao contrário, suas dimensões é que atrairão outras competições como este Campeonato Sul-Americano de Vôlei. Resta entendê-los e posicioná-los adequadamente como parte superior de um sistema sócio-educativo estadual, envolvendo toda a estrutura educacional pública e privada, multiplicando escolinhas e competições em rede por todo o estado. Potencialmente o Aecim Tocantins e a futura Arena Pantanal são poderosos instrumentos na criação de novas gerações sadias de mato-grossenses. Bem-vindo o Sul-Americano de Vôlei! 
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 20/09/2011)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

BOM DEMAIS

José Antonio Lemos dos Santos



     A semana que passou foi pródiga em ótimas notícias. Sim, é verdade, também tivemos muitas más notícias, ao agrado dos que as apreciam. Mas, são as ótimas notícias que interessam. Por exemplo, Cuiabá sediará no fim deste mês o Campeonato Sul-Americano de Vôlei Masculino, valendo duas vagas para o Mundial no Japão. Empreendimento corajoso do estado que mostrará Mato Grosso e Cuiabá ao continente e a todo o Brasil, dando oportunidade aos jovens de assistirem de corpo presente aos melhores jogos e de conviverem com os ídolos do vôlei continental pelo menos por alguns dias. É de se esperar o engajamento das secretarias de educação e das faculdades de Educação-Física estimulando a participação dos alunos. Aliás, oportunidade de ouro também para fotos oficiais das seleções nacionais junto ao obelisco do Centro Geodésico da América do Sul, demarcado por Rondon.
      Ótima notícia também foi a da reativação da termelétrica de Cuiabá no próximo dia 12, pelas palavras do governador Silval. Tomara que funcione de fato na próxima segunda-feira. De qualquer forma é importante o empenho do governo do estado, agora com a parceria da Petrobrás, na reativação deste complexo de US$ 1,0 bilhão, um dos maiores empreendimentos no estado cuja paralisação há mais de 4 anos vem se constituindo em um verdadeiro acinte a Mato Grosso. Tarefa hercúlea esta reativação, em uma terra onde a maioria dos poderosos é dona de PCH’s. Nada contra as PCH’s. A termelétrica, mais que os veículos que move ou os 480 MW de energia que gera, envolve também a disponibilização do gás natural, energia limpa, barata e abundante para o funcionamento e ampliação do parque industrial do estado, em especial o da Grande Cuiabá, inestimável vantagem comparativa para o desenvolvimento e a geração de empregos e renda.
      Outra boa notícia foi o aparecimento de um projeto para a nova estação de passageiros do Aeroporto Marechal Rondon, ainda que extra-oficial, apenas em um site local de notícias, o RDnews. Como este projeto havia sido prometido pela Infraero para setembro em seu nível básico, é razoável acreditar pelas imagens que o projeto básico esteja pronto agora em setembro, como programado. Resta saber por que não foi divulgado de forma oficial pela Infraero. Palpite: estão aguardando o projeto do sistema viário adjacente ao aeroporto que por sua vez está na dependência da definição do modal de transportes, BRT ou VLT. É preocupante pois ainda será preciso desenvolver o projeto executivo para só então abrir a licitação para as obras da nova estação.
      Mas a melhor de todas é a chegada dos chineses dispostos a investir na ferrovia ligando Cuiabá a Santarém. Será que a ferrovia sairá antes da rodovia, iniciada há quase 40 anos? Seguiram com o governador Silval no resgate do importante projeto Estradeiro, indo por terra até Santarém. Este Estradeiro é uma espécie de retonificação da coluna vertebral de Mato Grosso, o eixo da BR-163, a ser reforçado com a ferrovia. Servirá à exportação da soja, mas também será a rota do Sudeste para a Zona Franca de Manaus e de entrada no Brasil para a miríade de produtos chineses. Silval Barbosa mostra sua dimensão de estadista. Mato Grosso sempre foi um estado vertical, um estado de pé, incompatível com a posição horizontal atrelada a Goiás que tentam lhe impor com a intempestiva ferrovia Leste-Oeste. Se Goiás quer fazer da BR-153 um eixo central nacional de transportes, a BR-163 com sua ferrovia paralela se imporá como um eixo longitudinal continental, passando pelo centro do continente. Aí sim, que venha a Leste-Oeste.


(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 06/09/2011)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

MARECHAL RONDON AMPLIADO

Novidade no www.blogdojoselemos.blogspot.com . Veja na coluna à ESQUERDA do blog, na 1a. Seção, chamada "Copa do Pantanal", o link "Novo Aeroporto". Enfim, ainda que tardio, apareceu um projeto para a ampliação do Marechal Rondon. Espero que goste. Comentários serão benvindos.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

SENADOR AZEREDO, 150 ANOS



José Antonio Lemos dos Santos

      A cidade é um centro de produção, só que um centro produtor que vai além da economia. Sua produção extrapola a produção de bens e serviços e seu principal produto é a sua gente. A qualidade de seu povo é a melhor medida do sucesso de uma cidade. Pelo menos já foi assim e deveria continuar sendo. As cidades lembram seus vultos como modelos para continuar a produzi-los em todas as áreas do desenvolvimento humano. Nos meus tempos de grupo escolar, estudávamos suas vidas aprendendo a respeitá-los, e através deles, aprendemos a respeitar nossa gente, a boa cepa de onde surgiram.
     Triste como algumas grandes figuras mato-grossenses foram esquecidas pela história. Ontem, 22 de agosto, completaram-se 150 anos do nascimento de Antonio Francisco Azeredo, lembrado por nós como Senador Azeredo graças ao tradicional colégio do Porto, antigo “Peixe-Frito” da saudosa professora Delza Saliés e de tantas outras. Não fossem Rubens de Mendonça e a Internet, seria impossível falar alguma coisa sobre este cuiabano, nascido em 1861 e que chegou a ser Presidente do Senado Federal por mais de 15 anos, ocupando o cargo até ser deposto pela revolução de 30 e exilado na Europa. Hoje é o primeiro dos homenageados na Galeria de Bustos do Senado.
     Sobre o Senador Azeredo, porém, até na Internet as referências são mínimas, vestígios encontrados em sites que tratam de outras personalidades e outros assuntos. Contudo, nesse pouco dá para perceber uma personalidade que merecia maior atenção dos mato-grossenses. Abolicionista e republicano, segundo Rubens de Mendonça ele trabalhou no jornal “Gazeta da Tarde” de José do Patrocínio, antes de comprar um pequeno jornal carioca denominado “Diário de Notícias”, que logo transformou em um dos maiores e mais influentes jornais do país, no qual colocou como redator, nada mais nada menos do que Rui Barbosa. Foi eleito Deputado à Constituinte e à Primeira Legislatura por Mato Grosso, chegando a ser o Primeiro Secretário da Câmara, até que assumiu o Senado no lugar de Joaquim Murtinho, quando este, também cuiabano, saiu para ser Ministro da Viação e da Fazenda e entrar na História como o maior estadista do Brasil na Velha República. Senador por quase trinta anos, e presidindo a Casa por muitos anos, Antonio Francisco Azeredo deu posse a alguns Presidentes da República. Foi também escritor, não apenas de seus discursos, mas de algumas obras que hoje despertariam interesse. Foi também comendador da Legião de Honra da França, e condecorado em diversos outros países.
     Sua maior obra para os mato-grossenses e cuiabanos em especial, foi, como fizeram alguns outros, ter levado a figura de um conterrâneo a posições de tão grande destaque e influência na vida nacional. Sua vida deveria ser mostrada como exemplo aos jovens locais que resistem às tentações dos descaminhos, acreditam em si e nas perspectivas positivas da vida, e vão à luta apesar das dificuldades, como um dia fez o jovem Antonio Azeredo, do interior distante, de uma pequena cidade, capital de um remoto estado brasileiro, século e meio atrás.
     Como Rondon, Dutra, Filinto Müller, e outros, Antonio Azeredo também teve sua grande oportunidade ao cursar um colégio militar, na época talvez a única chance de subir na vida para os jovens mato-grossenses. A este propósito recordo que em 1957 a Prefeitura de Cuiabá doou o terreno do antigo “campo de aviação”, hoje ocupado pela Vila Militar, para que ali fosse construído o Colégio Militar de Cuiabá. Se tivesse virado realidade, quantos outros milhares de jovens mato-grossenses teriam sido beneficiados? Não seria o caso de Cuiabá voltar a pensar no assunto?
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 23/08/2011)



terça-feira, 25 de maio de 2010

RONDON, DUTRA E O TOCO

José Antonio Lemos dos Santos


     Tirando as últimas operações da Polícia Federal e o golpe “gramatical” no projeto de lei da ficha limpa, a semana que passou foi de ótimas notícias. A primeira ouvi no rádio e dizia que o governador Silval Barbosa acatou proposta da Agecopa, levada pelo seu diretor Carlos Brito, de incluir o Memorial Rondon em Mimoso no programa de obras da Copa do Pantanal 2014. Nada mais acertado. Rondon merece a homenagem e o projeto do arquiteto José Afonso Portocarrero – um apaixonado pela cultura indígena e por Rondon – está arquitetonicamente à altura do homenageado. Contemporâneo em sua pós-modernidade regionalista, instigante em sua utilização de elementos da linguagem indígena e em sua solução de composição ambiental, o edifício proposto é capaz de por si só ser um elemento de atração turística, não bastassem a beleza natural em que está inserido e a obra do nosso Marechal da Paz, cuja memória abrigará.
     A outra boa notícia foi a leitura no Plenário da Assembléia Legislativa do artigo da semana passada intitulado “O presidente esquecido”, minha homenagem ao presidente Dutra no dia em que deveríamos comemorar seu aniversário. O deputado João Malheiros fez a leitura, solicitou sua inclusão nos Anais da Casa e ainda apresentou Indicação ao executivo pedindo a construção de um memorial ao ex-presidente na praça do novo Verdão. Seria não só uma homenagem local ao ex-presidente nascido em Cuiabá, mas também a aquele que trouxe para o Brasil a primeira Copa do Mundo, a de 1950. O local favorece ao turista o conhecimento de uma passagem da história do futebol brasileiro, bem como permite a Cuiabá e Mato Grosso mostrarem ao mundo a importância de um de seus mais ilustres filhos.
     Por última lembro a obra de pavimentação do local onde foi retirado o toco de arueira que por quase duas décadas desafiava a civilidade cuiabana e a governabilidade municipal, passando por vários prefeitos. Tratei dele em alguns artigos e ficava ali na curva que faz a conexão entre a Travessa Tuffik Affi e a Avenida Tenente Coronel Duarte, no coração metropolitano, principal entrada de Cuiabá. Apesar de aparentemente simples, esta retirada tornou-se de uma complexidade inimaginável, envolta nos meandros do barroquismo jurídico-administrativo tupiniquim, a ponto de tê-la saudado em artigo como o principal presente para Cuiabá em seu último aniversário. O mourão de arueira era a ponta de um problema que envolvia também algumas edificações precaríssimas no local. A retirada e a pavimentação realizadas pela Prefeitura concluem um projeto de 1996 do IPDU. Viva! Mesmo que muito possivelmente desatualizado em seu dimensionamento e geometria, já permitiu de imediato uma melhor fluidez no local. Por outro lado, a desocupação da área melhorou significativamente a qualidade daquele espaço urbano, ainda que sem nenhuma espécie de tratamento urbanístico. Pena que a área tenha sido vendida.
     Uma cidade que precisa se preparar para a festa de seus 300 anos, e que no meio do caminho tem a responsabilidade de representar bem o Brasil como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, não pode mais conviver com situações como esta. Cuiabá é o centro de uma das regiões mais dinâmicas do planeta, reflete e impulsiona esse dinamismo, transformando-se com muita rapidez. Não pode mais depender de soluções tão demoradas. Ao menos desde a Roma dos Papas no Renascimento, o mundo firmou o conceito da desapropriação pública, sacramentando o princípio de que os assuntos de interesse da cidade são privilegiados e devem ser exercidos por suas autoridades em favor bem comum.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 25/05/2010)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CENTRO DE CULTURA SUL-AMERICANA

José Antonio Lemos dos Santos

     A proposta do presidente da Câmara Municipal de Cuiabá de construção de uma nova sede para o legislativo cuiabano leva ao resgate da antiga idéia de um centro de cultura sul-americana a ser criado no exato centro geodésico da América do Sul, como uma alternativa de ocupação digna daquele espaço e de aproveitamento de um dos mais ricos potenciais geradores de emprego e renda em Cuiabá. Recorda artigos em que tratei do tema, como o publicado em 1986 em “O Estado de Mato Grosso”, capeando caderno especial sobre o assunto no qual expus a preocupação: “Vamos imaginar que a tendência se confirme e a nossa Assembléia Legislativa seja deslocada para outro ponto da cidade. Teríamos a desocupação do prédio onde ela se instala atualmente. E daí? Como vai ser utilizado? Poderia ser a Câmara de Vereadores de Cuiabá, a qual entretanto já está com sua sede em construção. Naturalmente que o prédio vai ser ocupado de alguma forma. Por que não começarmos a pensar numa forma de utilização que esteja à altura da carga simbólica que envolve aquele espaço?”.
     A partir desta pergunta o artigo rascunha a idéia do centro cultural sul-americano, e é seguido por opiniões de personalidades locais, quase todas favoráveis. Aparentemente apenas um exercício de futurologia com uma bola de cristal sortuda, mas que as décadas mostraram ser mais que isso. A idéia era, e ainda é, transformar aquele espaço em um centro referencial para a cultura sul-americana. Um lugar onde fossem desenvolvidos estudos, cursos, exposições, congressos, festivais e outras atividades sobre as manifestações populares autênticas do continente como, por exemplo, as diversas línguas (o quíchua, o aimará, o guarani e outras), a gastronomia, danças, oficinas de ensino e fabricação de instrumentos musicais como a belíssima harpa paraguaia, o charango, as flautas andinas, a nossa viola de cocho, etc. Talvez até um local para encontros comerciais e de cúpulas políticas continentais. No mínimo poderia ser promovida uma festa anual comemorando, em um grande abraço continental, a cultura popular do continente com barracas de cada país, musica, dança, comidas típicas, a ser realizada em julho, mês natalício de Simon Bolívar, idealizador pioneiro da integração continental.
     Estivesse o centro geodésico em qualquer lugar, há muito estaria rendendo em favor de sua gente como uma atração turística importante, ainda mais nesta época em que a integração do continente avança, a qual o governo federal parece dedicar especial carinho. Cuiabá tem o principal, que nenhuma outra cidade tem, o marco geodésico construído pelo Marechal Rondon, reconhecido mundialmente como um dos mais ilustres personagens da humanidade, e um espaço físico praticamente pronto para ser ocupado. Tem ainda colônias de quase todos os países do continente que, inclusive, em fins dos anos 80 realizaram uma festa, simples, mas animada, em torno do marco geodésico. E tem ainda o interesse do governador Blairo Maggi, manifestado na mudança da Assembléia para o CPA, quando quis dar esta finalidade à antiga sede, impedido pela ocupação do edifício pelos vereadores.
     Junto com as belezas do Pantanal e da Chapada, com as termas de São Vicente, e a visibilidade da Copa, a criação de um centro cultural sul-americano no exato centro geodésico da América do Sul transformará Cuiabá em um pacote múltiplo de atrações extremamente vantajoso ao investimento do turista nacional e internacional. Empregos, renda e desenvolvimento, principalmente cultural, é o que Cuiabá e Mato Grosso ganharão com o aproveitamento dessa extraordinária riqueza latente. Um dia acontecerá. E pode ser agora.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 22/10/2009), excepcionalmente numa quinta-feira)

terça-feira, 12 de maio de 2009

MATO GROSSO 261 ANOS

José Antonio Lemos dos Santos


     No último dia 9 de maio comemoramos muito discretamente o 261° aniversário de Mato Grosso, data que lembra o ano de 1748, quando o Rei de Portugal, Dom João V, através de Carta Régia determina a criação de duas Capitanias, “uma nas Minas de Goiás e outra nas de Cuiabá”. A Capitania das Minas de Cuiabá virou Capitania de Mato Grosso e para governá-la foi designado Dom Antonio Rolim de Moura, que tomou posse e permaneceu em Cuiabá por cerca de um ano, até que a cidade de Vila Bela fosse construída. Morou no centro histórico de Cuiabá, próximo à praça que tem o seu nome e que é popularmente conhecida como Largo da Mandioca. Depois chegou a ser o Vice-Rei do Brasil, o governante maior do país na época, já que El-Rey ficava em Portugal. Seria possível pensar na restauração da casa de Rolim de Moura, criando uma nova atração turística no centro histórico?
     De lá para cá Mato Grosso fez história. “Limitando, qual novo colosso, o ocidente do imenso Brasil”, nas letras de Dom Aquino, Mato Grosso ia do atual Mato Grosso do Sul até os limites do Acre sendo a vanguarda em terras espanholas do território que atualmente é o Brasil, o qual, além de expandir, conseguiu manter e consolidar a peso de muita bravura, heroísmo e sacrifícios. Hoje é uma das regiões mais dinâmicas do planeta, e o principal pólo irradiador e de apoio ao desenvolvimento na Amazônia Meridional. Da grande produção inicial de ouro, Mato Grosso passou a produzir diamantes, borracha, ipecacuanha, carne e hoje desponta como o maior produtor do Brasil em grãos, algodão, gado e biodiesel, posicionando-se como o sétimo estado exportador do país, sendo que sozinho exporta mais que todas as outras unidades federativas do Centro Oeste juntas. No primeiro trimestre deste ano foi o responsável por 57% do saldo comercial do Brasil com o exterior, no valor de US$ 1,73 bilhão, que daria para fazer a ligação ferroviária de Cuiabá a Alto Araguaia, passando por Rondonópolis, e com o troco ainda duplicar a rodovia Rondonópolis/Cuiabá e concluir a obra do Aeroporto Marechal Rondon.
     Porém, mais que produtos comercializáveis, o principal produto de Mato Grosso é sua gente – nascidos ou de adoção - cuja qualidade se expressa em expoentes como Antônio João Ribeiro, Barão de Melgaço, Antônio Maria Coelho, Joaquim Murtinho, Rondon, Roberto Campos e os Presidentes Dutra e Jânio Quadros. Dos mais recentes, lembro da figura de Dante de Oliveira, o “Homem das Diretas”, de Ariosto da Riva, Enio Pepino, Norberto Schwantes e Manoel de Barros, o maior poeta brasileiro vivo, entre tantos. Aliás, Mato Grosso já deu ao Brasil dois Presidentes da República eleitos, o que muitos estados mais destacados na federação não fizeram sequer com um de seus filhos.
     O aniversário de Mato Grosso é oportunidade para uma grande festa coletiva, com os mato-grossenses em conjunto comemorando nosso estado, com seus símbolos, suas tradições, história, personagens, cultura, ajudando os cidadãos a se identificarem como conterrâneos, como pessoas que têm muitas coisas em comum, promovendo a amizade, a simpatia e generosidade entre eles.
     O sucesso de Mato Grosso está no trabalho de sua gente, na diversidade produtiva oferecida por sua extensão territorial e na integração crescente de todas as suas regiões. Mato Grosso unido é forte e supera todas as crises. A sinergia de uma integração cada vez maior construirá aquele Mato Grosso sonhado por todos os mato-grossenses, com menos desequilíbrios regionais e mais qualidade de vida, respeito ambiental e justiça social.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 12/05/2009)

terça-feira, 1 de outubro de 1991

O PARQUE DA CIDADE E O COMANDO MILITAR DO OESTE

 

Parque Mãe Bonifácia (foto:odocumento.com.br)

José Antonio Lemos dos Santos

     Em gentil atenção ao nosso artigo da semana passada, o vereador Vicente Vuolo enviou cópia do seu projeto sobre o Parque da Cidade, esclarecendo que ele não estabelece a área do 44' BIM como o local de sua futura instalação. Esta área entra na justificativa do projeto apenas como uma sugestão, sendo proposta uma Comissão para a escolha da localização mais adequada, a qual terá total liberdade para optar por uma outra área, se isto for necessário à viabilização do reencontro urbano da população com a natureza. 

     Estas informações destacam ainda mais a importância do projeto do jovem vereador, pois, mesmo vetado, serviu para evidenciar o quanto de expectativa existe na cidade por um parque como o proposto, servindo também para mostrar que o Exército não pode continuar sendo visto como uma instituição inacessível aos interesses das comunidades onde se instala, dispondo-se a conversar sobre o assunto. Por sua vez amplia a validade de uma contraproposta ao próprio Exército em termos de sua área no "Mãe Bonifácio": uma área também central, de dimensões maiores às do 44' BIM, com acesso facílimo pela Perimetral e bem conservada em sua vegetação natural. Lá o Parque da Cidade já estaria praticamente pronto, bastando alguma limpeza e uma infraestrutura leve de manutenção e apoio que pode ir sendo instalada aos poucos. Um parque é antes de tudo uma área verde, o resto é complemento. 

     A questão do Parque da Cidade, me fez lembrar um assunto que merece especial atenção: por ocasião da instalação do Comando Militar   do Oeste em Campo Grande a imprensa noticiou, com destaque, que a sede daquele Comando em 1990 estaria instalada em Cuiabá. Como já aconteceu uma situação semelhante com a finada SUDECO, — que também se instalou "provisoriamente", em Brasília, lá ficando até sua extinção —, guardei os recortes do noticiário para ver em que pé as coisas iam ficar. A instalação em Campo Grande se deu em 1986, 9 de janeiro, e de lá para cá não tive conhecimento de nenhum desmentido, fazendo-me supor que meus recortes ainda continuam válidos. O Comando não veio até hoje e. o que é pior, não vi manifestação alguma no sentido de perguntar, cobrar. ou qualquer outra atitude que fosse no sentido da viabilização, ou sequer, do esclarecimento de tão importante notícia. 

     Apesar da lembrança não pretendia escrever sobre o assunto, para não misturar as coisas quando tudo parece ir tão bem em relação ao nosso primeiro parque urbano. Entretanto, na semana passada a imprensa nacional divulgou uma outra notícia dando conta que o Exército pretende fiscalizar diretamente a "fronteira andina do país", do Paraná até Roraima, para impedir a penetração dos tóxicos. Nesse caso o Comando Militar do Oeste teria importante papel a desempenhar pois sua atribuição vai de Mato Grosso do Sul até Rondónia, quase a metade da tal fronteira a ser defendida. Vencer a guerra contra as drogas talvez seja hoje o projeto nacional de maior prioridade para a população brasileira, em cujas batalhas assiste impotente à imolação de sua juventude. A entrada do Exército Nacional nessa luta é a única esperança que pode ser vislumbrada. 

     Tanto para o bem como para o mal Cuiabá tem localização estratégica nesse vasto campo de batalha um território marcado em seus limites pelo suor e pelo sangue de sua gente. em episódios como as defesas de Dourados e de Barão de Melgaço, da Retomada de Corumbá, ou da epopeia de Rondon. Cuiabá poderia retomar patrioticamente o assunto. dispondo-se a oferecer todas as facilidades possíveis para que o Comando Militar do Oeste reavaliasse suas conveniências e possibilidade de vir se instalar no centro do seu palco de operações. A indiferença em relação à possibilidade de instalação de um Comando Militar em nossa cidade, pode ter sido explicada por certos receios que, justificados ou não, cercavam a imagem de nossas Forças Armadas. Nestes novos tempos, deixar de abordar este assunto pode até dar a impressão de pouco caso, como se a presença de um quartel a mais ou a menos, ainda que Quartel General, não fizesse diferença alguma na vida de uma cidade como a nossa. Certamente esta impressão não é verdadeira. Se for bom para o Brasil que o Comando Militar se instale em Cuiabá, para Cuiabá e para os cuiabanos será melhor ainda. 

(Publicado pelo extinto JORNAL DO DIA, em 01/10/1991)