"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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terça-feira, 24 de dezembro de 2019

O PIB CUIABANO


José Antonio Lemos dos Santos
     Não deveria ser, mas é surpresa para muita gente toda vez que o PIB anual de Cuiabá é anunciado. Em meados deste mês de dezembro, o IBGE publicou o Produto Interno Bruto (PIB) dos estados e municípios brasileiros para o ano de 2017. Qual a importância desse tal PIB para uma cidade e seus cidadãos? O PIB é a soma dos valores de todos os bens e serviços produzidos em uma unidade federativa (país, estados e municípios). Na definição já temos boa parte da resposta. Em qualquer regime que possamos viver a qualidade de vida do cidadão é fortemente determinada pela qualidade de vida que ele puder “comprar”, seja diretamente ou através de subsídios do estado. Para esta troca ser realizada é preciso haver produção gerando empregos, renda de qualidade e disponibilidade orçamentária nos governos. A melhoria dos padrões de vida (geladeiras, sapatos, saneamento, segurança, hospitais, escolas etc.) vêm da renda com aquilo que é produzido e então, produzir mais e melhor é uma de suas condições básicas, ainda que não a única. E o PIB mede o quanto se produz, daí sua importância.
     O PIB de Cuiabá em 2017 foi de R$ 23,3 bilhões, o 32º entre os municípios do país, crescendo a 5% em relação ao de 2016, com uma renda per capita de R$ 39,5 milhões, superior à do Brasil (R$ 31,7 milhões) e a 8ª maior entre as capitais brasileiras. Destaca-se que este PIB de Cuiabá é superior ao de estados como Acre, Amapá e Roraima. Considerada sua Região Metropolitana chega-se a um PIB bruto de R$ 31,9 bilhões mais de 3 vezes o PIB de Rondonópolis (R$ 9,6 bilhões), o segundo maior do estado.  Interessante é que para o senso comum dos mato-grossenses em geral e mesmo dos cuiabanos em particular, Cuiabá é um município que não produz e que vive a reboque dos demais municípios do estado, uma concepção que vem da falsa ideia de que só a economia primária é de fato produtiva, compreensível em um estado campeão nacional na agropecuária e um dos maiores produtores e exportadores de alimentos no mundo. 
     Ademais a economia primária tem este nome justamente por estar na base de todos os demais segmentos produtivos tidos como superiores só  por estarem apoiados sobre ela. Contudo a produção primária não se desenvolve sozinha e sua própria evolução e diversificação exige atividades complementares especializadas para trocas, armazenamento, beneficiamento, reprodução e inovação do conhecimento (tecnologia) e apoios diversos a seus produtores. Por isso a 5 mil anos aconteceu a Revolução Urbana com o surgimento das cidades como consequência e complementação da Revolução Agrícola ocorrida a 5 mil anos antes. Desde então as cidades evoluíram e pela complexidade de suas funções regionais se organizaram em redes hierarquizadas, hoje redes globais, porém sempre tendo como base as atividades primárias. Assim, todas as cidades em última instância dependem da produção primária, mas sem elas a produção primária voltaria às suas origens. Campo-cidade, um caso de relação simbiótica de grande êxito.
     No caso de Cuiabá, ela é dependente, mas, ao mesmo tempo é o maior polo urbano de apoio à produção do estado, ou seja, é a capital (cápita, cabeça, topo de rede) do agronegócio como muito bem identificou o governador Mauro Mendes quando prefeito da cidade. Hoje é o centro de uma das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta, e assim deve ser vista e avaliada. Deste ponto de vista, os novos dados do PIB para Cuiabá não surpreendem, ao contrário, devem ser absorvidos como subsídios para seu planejamento no âmbito de sua Região Metropolitana de forma a melhor cumprir suas funções regionais com benefícios para sua população e para todos os mato-grossenses.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

FERROVIA PARA LEVAR E TRAZER

Imagem: TribunaMT

José Antonio Lemos dos Santos
     Ao discutir a ferrovia em Mato Grosso quase sempre, ou sempre, pensamos nela como uma esteira para exportação da produção estadual. Algo como aquelas imensas composições ferroviárias transportando minério dia e noite para ser processado em outras regiões do mundo ou do país. Porém, nada tão diferente. De certo modo o minério está quase pronto na natureza, e produzir é extraí-lo das minas, hoje com máquinas e pouca mão de obra, quase sem qualquer agregação de valor no local de origem. A tendência é esse trabalho seguir até o esgotamento das minas, só deixando cicatrizes como lembrança da riqueza levada com seus benefícios para outras terras.
     A história de Cuiabá do ciclo do ouro é exemplar com toda sua riqueza sendo rapidamente transferida para Portugal e de lá para a Inglaterra onde ajudou a financiar a Revolução Industrial. Exaurido o ouro, a cidade quase virou uma cidade fantasma, o que só não aconteceu por razões estratégicas da coroa portuguesa envolvendo a rediscussão do Tratado de Tordesilhas então definidor dos limites entre as terras da Espanha e Portugal no continente.
     A riqueza agropecuária de Mato Grosso não é extraída de minas, não está pronta. Ela tem que ser produzida com o trabalho exaustivo e cada vez mais competente de muita gente que transforma a terra, a água e o sol em alimentos que ajudam a matar a fome do mundo. E essa gente vive na região produtora nas próprias fazendas ou em cidades, novas ou não, cada vez mais belas e sofisticadas. O grande diferencial é que essa gente que produz e mora em Mato Grosso tem o direito a ascender em qualidade de vida à medida que produzem, e este direito é a razão fundamental para que produzam tanto. Ninguém dá seu suor e de sua família, as vezes o próprio sangue, produzindo só para sustentar a balança comercial do Brasil. O objetivo primeiro é produzir um excedente econômico cada vez maior para ter uma qualidade de vida também cada vez maior. O resto é consequência.
     Asseguradas as condições básicas para a sobrevivência, a qualidade de vida passa a ser a casa nova ou ampliada equipada com as facilidades domésticas modernas, padrões urbanos mais elevados, materiais de construção, o automóvel novo, estradas seguras, alimentos, vestuário, etc. A produção do excedente acontece para ser dada em troca desses benefícios, na maioria das vezes produzidos ou dependentes de insumos produzidos em outras regiões com necessidade de transporte até seu legitimo consumidor. Mesmo para continuar produzindo, e produzir mais e melhor, é preciso importar insumos diversos, combustíveis, máquinas agrícolas, fábricas, etc., que também precisam ser transportados até seus locais de utilização.
     Mais produção, maior a renda per capita e, em consequência, maior o consumo em quantidade e sofisticação, em grande parte com origem fora da região ou do país. Daí que a ferrovia para Mato Grosso não pode ser uma esteira só para levar a produção, mas também, para trazer o desenvolvimento e qualidade de vida com segurança, menores fretes e menores preços. Essa carga que vem, converge para Cuiabá como o maior centro consumidor, produtor e distribuidor do estado e foi estimada pela Rumo, atual sucessora da Ferronorte, em 20 milhões de toneladas/ano, igual em peso a toda produção de grãos de Goiás e bem maior que a de Mato Grosso do Sul. A extensão da ferrovia até Cuiabá e dela aos portos amazônicos e do Pacífico é a mais viável e urgente das ferrovias. Não pode ser avaliada só como exportadora da riqueza de Mato Grosso, mas também como indispensável à promoção da qualidade de vida de quem a produz, sem o que não teria o menor sentido.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

ORGULHO E CONSTRANGIMENTO

Portal do Agronegócio
José Antonio Lemos dos Santos
     Deixei para depois das comemorações este artigo sobre os 270 anos de Mato Grosso passado no dia 9 de maio último. Mas a espera era para ser de apenas 5 dias e não mais. A ideia era deixar passar as festividades oficiais para então comentá-las destacando o empenho do governo em divulgar a data e comemorar com o povo o orgulho em construir um estado campeão nacional na agropecuária, a tempos um dos principais responsáveis pelo que tem de positivo no PIB brasileiro e pelos elevados saldos anuais na balança comercial do país.  Orgulho em produzir alimentos e não armas e de ser uma das regiões do planeta que mais ajudam a matar a fome da população mundial. Só que não houve comemoração alguma, apenas algumas propagandas institucionais, quase que burocráticas. Por que? Aí me enrolei e fui tentar uma explicação.
     O dia 9 de maio foi instituído como aniversário de Mato Grosso pela lei 8.007/2003 de autoria do então deputado João Malheiros, sancionada pelo então governador Blairo Maggi. Por incrível que pareça não havia uma data congregadora de todos os mato-grossenses em função de seu torrão natal comum. Comemorava-se, quando se comemorava, junto com o aniversário de Cuiabá numa combinação bem expressiva da relação histórica umbilical entre o estado e sua capital, mas que foi perdendo o sentido à medida que o território mato-grossense foi ocupado pela salutar imigração oriunda das mais díspares regiões brasileiras, com outras culturas, outros costumes, ainda sem quase nenhum contato com a história da nova terra em que se instalava. Por que alguém recém-chegado lá em alguma extremidade de Mato Grosso comemoraria o aniversário de Cuiabá, ainda que a capital, mas uma cidade distante com pouco ou nenhum contato com a nova realidade desbravada?
     As conversas sobre a definição de uma data histórica para se comemorar o aniversário de Mato Grosso começaram na virada do século através de um grupo de discussão na Internet do qual tive a honra de participar junto a um punhado de mato-grossenses de coração, jovens e menos jovens, entre os quais o próprio deputado, preocupados com a integração e unidade estadual diante das revitalizantes levas imigratórias que se instalavam em Mato Grosso com suas bagagens histórico-culturais próprias, apenas se justapondo espacialmente sem qualquer liame integrador entre si e entre estas e a cultura local. O que tinham em comum esses novos mato-grossenses além de uma enorme esperança e da perspectiva de muito trabalho e dificuldades para transformar na sua nova moradia e fonte de vida aquele território até então quase inóspito, vazio e desconhecido aos seus olhos? Depois de muitos debates, discussões e até algumas desavenças sempre em alto nível, chegou-se ao dia 9 de maio de 1748 como o marco zero de Mato Grosso quando o Rei de Portugal Dom João V assinou Carta Régia criando duas Capitanias, “uma nas Minas de Goiás e outra nas de Cuiabá”.
     A Capitania das Minas de Cuiabá virou Capitania de Mato Grosso, e agora é o Estado de Mato Grosso, esse gigante produtivo graças à perseverança, coragem e trabalho de sua gente. O estado que mais cresceu no Brasil em 2017 com seu PIB avançando 11,2%, mais de 10 vezes o do PIB nacional e bem mais que o da China!  Tão extraordinário esse desenvolvimento que certamente constrangeu nossos governantes. Com que cara comemorar a pujança produtiva do estado com o governo em constante crise financeira, com dificuldades extremas para manter sua máquina administrativa e impossibilitado em atender aos investimentos e serviços que o próprio desenvolvimento exige e a sociedade cobra e tem direito? Será que isso explicaria a pífia comemoração?

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

POLO DA VERTICALIZAÇÃO

Imagem Jornalggn
José Antonio Lemos dos Santos

     A proposta de Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado para a Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá (PDDI/RMVC) em apreciação pelo Conselho de Desenvolvimento Metropolitano (CODEM), predestina-se a ser uma guinada positiva na curva do protagonismo da Baixada Cuiabana no desenvolvimento de Mato Grosso. A proposta elaborada pelo prestigioso Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM) merece atenção aprofundada não só das prefeituras e câmaras de vereadores envolvidas como também dos diversos segmentos organizados da sociedade civil desses municípios que poderão se ver como um time regional, irmãos de águas lutando em conjunto por interesses comuns.
     Tratando-se de um plano de desenvolvimento é evidente que “desenvolvimento” é sua palavra-chave, ainda que desgastada por tanto uso. Desenvolvimento nada mais é do que o contrário de envolvimento, daí des-envolvimento. Simples assim, fugindo ao “tecnocratês” desenvolver é tirar o envoltório ou desembrulhar. Desenvolver uma região é desamarrar, soltar suas potencialidades para que evoluam em plenitude visando a melhoria da qualidade de vida da população. Situado no exato centro do continente sul-americano, com localização estratégica em termos do estado, país e continente, e cerca de um terço da população estadual, o Vale do Rio Cuiabá é um pacote de potencialidades que vão desde o turismo, até sua vocação de grande encontro continental de caminhos, passando pela prestação de serviços político-administrativos, de comércio, saúde, educação, cultura e assistência técnica, que já lhe rendem o maior PIB de Mato Grosso.
     O substancial documento apresentado ao CODEM, quando trata do desenvolvimento econômico o faz através do Programa Economia Regional Dinamizadora desdobrado em componentes denominados Desenvolvimento de Cadeias Produtivas e Redes de Serviços; Alimentando a Metrópole e Plataforma Metropolitana de Logística Integrada, acertados porém muito restritos aos limites da própria região. Como sabemos uma metrópole é um lugar central produtor de bens e serviços voltados a uma região que lhe dá origem e sentido, que no caso da Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá (RMVC) é muito ampla superando os limites do estado. Esta hinterlândia abriga uma das regiões mais produtivas do planeta em termos de agricultura e pecuária avançadas, mas que ainda sobrevive da exportação de matérias primas sem praticamente qualquer agregação de valor. Agregar valor à produção estadual é um dos maiores senão o maior problema do estado e este é também o maior dos espaços para desenvolvimento da nossa região metropolitana.
     Complementando a importante proposta da Plataforma Metropolitana de Logística Integrada, o PDDI/RMVC poderia contemplar como um componente específico de seu Programa Economia Regional Dinamizadora um corajoso projeto de estruturação da região como polo de verticalização da economia estadual com parques locais especializados, aproveitando tratar-se da principal economia de aglomeração do estado, com farta disponibilidade de mão de obra e estrutura de capacitação profissional, energia, ampla rede hoteleira, bancária e de prestação de serviços diversos. Assim, a par dos beneficiamentos que a produção primária possa ter próximas às suas bases, a RMVC se consolidaria como um polo de produção mais exigente de mão de obra e de complementariedade técnico-industrial, com o boi sendo transformado em sapatos e bolsas, o algodão virando roupas e a soja, girassol e madeira ampliando suas gamas de possibilidades industriais no estado.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

UMA AGENDA PARA 2014

Olhardireto

José Antonio Lemos dos Santos

     O ambiente de extremo dinamismo e produtividade vivenciado por Mato Grosso e Cuiabá, amplificado pelos investimentos públicos e privados trazidos pela Copa, que destaquei de maneira tão entusiasmado e otimista nos artigos de fim de ano, de forma alguma pode ser entendido como o final de um processo bem-sucedido e um convite à acomodação em algum berço esplêndido que sequer existe. Evidente que a geração de riquezas expressada na liderança nacional da produção agropecuária, no crescimento do PIB, saldos comerciais, renda per capita, etc., é apenas uma etapa de um processo cujo fim deve ser a melhoria da qualidade de vida do povo que produz todo esse sucesso com seu trabalho, empreendedorismo, confiança e sacrifícios. 
     É importante festejar o sucesso econômico e a geração de um excedente produtivo que permita ir além da simples subsistência. É a produção de um excedente de riquezas que permite acrescentar qualidade de vida a uma população. A produção é básica e deve ser festejada sim. Ainda mais o trabalhador mato-grossense, patrão e empregado de todos os pontos da cadeia produtiva, que conseguiram a proeza de transformar uma terra que aos míopes parecia improdutiva em uma das regiões mais produtivas do planeta, apesar de todas as dificuldades, da falta de apoio dos governos em termos de pesquisa, logística, serviços de saúde, educação, etc.. É um milagre, o milagre do trabalho. Acho que Cuiabá como principal polo dessa fantástica cadeia produtiva deveria até organizar uma grande festa anual da produção mato-grossense.
     A riqueza produtiva exuberante e tão visível nos engarrafamentos que provoca nos principais canais de exportação do país dá por fim ao tradicional discurso da pobreza que sempre funcionou como um álibi para os maus políticos quando se tratava de levar qualidade de vida à população. Agora não. Somos ricos com superávits mensais de mais de US$ 1,0 bilhão, em crescimento do PIB, nos importantes investimentos para a Copa, VLTs, BRTs, etc. Riqueza tem, quando se quer aparece, quando se quer faz, é a grande lição da Copa. Só que enquanto a produção da riqueza é necessariamente coletiva, o seu compartilhamento além das quireras é Político, com “P” maiúsculo, e só se dará através da cobrança construtiva e positiva da sociedade, objetiva e eficiente, através de suas organizações empresariais, profissionais e comunitárias diversas, impulsionadas pela participação constante da cidadania. Produzir é difícil e deve ser festejado, mas transformar a produção em qualidade de vida justa e sustentável é muito mais difícil e tem que vir da cobrança e do interesse cidadão. Não mais esperar El-Rey ou entrar na ladainha da politicagem enganadora e corrupta. 
     Daí a necessidade de se imaginar uma agenda da cidadania para Cuiabá e Mato Grosso, que deve ser pensada junta, pois não existiria este Mato Grosso unido e campeão sem sua capital e nem esta Cuiabá dinâmica e vibrante, jovem tricentenária, sem este Mato Grosso forte. A tarefa é ampla diante da velocidade das transformações do momento e do imenso futuro que se vislumbra cheio de perspectivas e potencialidades. É estratégico pensar 2014 à luz de pelo menos três horizontes de aproximações: no futuro imediato visando à otimização da Copa do Pantanal, no curto prazo tendo como referência as comemorações do Tricentenário, daqui a 5 anos, e a médio e longo prazos, consolidando Mato Grosso e Cuiabá em termos da sociedade justa, sustentável e com elevados padrões de vida, que todos sonhamos. E tudo passa pelas nossas ações ou omissões neste 2014 recém iniciado, que promete grandes emoções. Criticar, cobrar, também aplaudir e comemorar. Mas isso tudo não cabe em um só artigo. Viva 2014! 
(Publicado em 07/01/2014 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

BEM-VINDAS

José Antonio Lemos dos Santos
     
escanteio.com.br

Bem-vindas as torcidas do Chile, Colômbia, Japão, Coréia do Sul, Rússia, Bósnia, Nigéria e Austrália com suas seleções de futebol, privilegiadas em jogar pela Copa do Mundo de 2014 em pleno coração da América do Sul, abraçadas por este calor cuiabano sadio, mistura inimitável do clima pantaneiro, amazônico e do cerrado. Talvez nem saibam que estarão no centro geodésico sul-americano, terra onde nasceu o presidente Eurico Gaspar Dutra que trouxe a Copa de 50 para o Brasil e construiu o Maracanã, fazendo do futebol essa paixão nacional encantadora. Que tenham boa sorte na novíssima Arena Pantanal. 
     Bem-vindas as mudas da grama Bermuda Tifgrand que enfim chegaram para compor o tapete verde do novo palco do esporte mato-grossense e brasileiro. Segundo as notícias, seguindo as mais modernas técnicas foram plantadas em 16 horas, do final da tarde do último dia 5 até o início da manhã do dia seguinte. Que elas possam ser tão bem sucedidas quanto às do antigo Verdão, daquele gramado que foi considerado por muito tempo o melhor do Brasil junto com o do Serra Dourada. 
     Bem-vindas as obras públicas e privadas já inauguradas, em liberação parcial ou para breve inauguração. Grandes lojas, shoppings, hotéis, fábrica de cimento, Internet 4G, condomínios horizontais e verticais, viadutos, pontes, trincheiras, novas vias, as obras do aeroporto e da Arena Pantanal, e mesmo as do VLT com seu primeiro carro já em Cuiabá, maravilham e aliviam o cidadão à medida que ganham forma definitiva ou são inauguradas. O mesmo cidadão que amargou e amarga muitos transtornos no seu cotidiano urbano começa a perceber que enfim a borboleta, ainda com muito esforço, começa a deixar sua fase de pupa, dando mostras que a cidade ficará melhor e mais bonita. 
     Bem-vinda mais uma vez a extraordinária competência da agropecuária de Mato Grosso em toda sua cadeia produtiva, de norte a sul, patrões e empregados, que, vencendo todas as dificuldades, conseguiu emplacar um superávit em seu comércio exterior de US$ 13,3 bilhões de janeiro a novembro, só perdendo para Minas, estado superexportador de minérios. Mais de US$ 1,2 bilhão de dólares por mês é o que Mato Grosso trouxe limpinhos de divisas para o Brasil que no mesmo período teve um déficit de US$ 91,464 milhões de dólares, apesar dos bilhões de dólares trazidos pelos mato-grossenses e mineiros. O que Mato Grosso gerou de divisas este ano daria para quase uma dezena de ferrovias Cuiabá-Santarém, esticadas até Rondonópolis! E quanto renderia em escolas, hospitais, melhores salários e aperfeiçoamento de funcionários? Em troca de toda essa produção recebemos muito pouco do governo federal. Não fosse a Copa ... Mas esse é outro assunto.
     Bem-vinda a ferrovia que chegou a Rondonópolis e agora já está a 200 km de Cuiabá e a 560 Km de Lucas do Rio Verde depois de se estender desde as barrancas do rio Paraná, em uma das mais memoráveis lutas do povo cuiabano, liderado pelo eterno senador Vuolo. E bem-vindo o trimilionésimo passageiro anual do Aeroporto Marechal Rondon, previsto nas minhas contas para chegar neste final de dezembro. 
     Bem-vindas as festas de fim de ano. É nessa perspectiva de esperança renovada a cada ano pelo Natal que o mato-grossense acredita que sua qualidade de vida será cada vez mais compatível com toda a riqueza que produz, hoje ainda tão distante. Bem-vinda a mais bela das festas, as festas natalinas, lembrando o nascimento de Jesus, aquele que trouxe a boa nova da comunhão entre os homens e a perspectiva de uma nova vida, melhor, mais fraterna e justa para todos. Boas Festas! 
(Publicado em 17/12/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

DNIT, MATO GROSSO E CUIABÁ

José Antonio Lemos dos Santos

     Nem a merecida vitória do Luverdense sobre o campeão do mundial na semana passada em Lucas do Rio Verde, nem a liderança do Mixto na série “D” do campeonato nacional foram suficientes para conter minha indignação como mato-grossense e cuiabano contra o DNIT que agora, às vésperas da Copa, resolveu entrar em greve não pagando as obras da travessia urbana na capital de Mato Grosso compromissadas de data marcada com o mega evento planetário e tão importantes para a vida da cidade. Uma greve parcial é claro, pois o pagamento dos salários dos funcionários do órgão deve estar seguindo normalmente. Semana passada, junto com a alegria que nos deu o Luverdense – e não importa o que acontecer amanhã no jogo de volta no Pacaembu - veio a notícia de que a Trincheira da Jurumirim está paralisada há 3 meses por falta dos repasses do DNIT, irresponsabilidade federal que vem sendo coberta com recursos do estado, o qual não tem condições de prestar este socorro em todas as obras do complexo da travessia durante tanto tempo.
     Sucedâneo do antigo DNER, o DNIT é o órgão responsável pela precária e caótica logística de transportes no Brasil, muito pior em Mato Grosso. Na verdade o DNIT representa a continuidade histórica de décadas de pouco caso e menosprezo para com Mato Grosso por parte do governo federal na área de transportes. Basta lembrar a situação da Cuiabá-Santarém, não concluída até hoje depois de mais de 4 décadas de seu lançamento. Aliás, grande parte do que existe hoje foi feita pelo governo estadual que assumiu a obrigação federal e pavimentou por conta própria a BR-163 de Cuiabá a Sinop, e a BR-070 de Barra do Garças a Cáceres, passando pela capital. Foi na época do então governador Júlio, usando recursos conseguidos pelo seu antecessor Frederico, viabilizados pelo então senador Roberto, todos Campos, embora sem parentesco entre eles como diz a história. Lembro que o então presidente João Figueiredo chorou ao discursar em Sinop ao inaugurar o asfalto até Cuiabá. Emocionado ficou de ressarcir o estado pela grande obra e até hoje nada, a não ser a dívida e seus juros. 
     Seguindo a tradição, o DNIT é o órgão que conseguiu gastar 8 anos para concluir 13 Km de duplicação na Serra de São Vicente. Quanto tempo demorará o mesmo serviço entre Rondonópolis e Posto Gil? Será que a greve também paralisa estas obras? Quantos terão ainda que morrer em nossas rodovias? Ao mesmo tempo a ferrovia não sai de Rondonópolis rumo a Lucas a apenas 560 km, o povo morre, o produtor sofre, o meio ambiente degrada e o estado campeão nacional em produção agropecuária perde na competitividade de seus produtos que se desperdiça pelos caminhos. É o DNIT que nos humilha cada vez que um usuário de qualquer das BRs comenta que é só sair de Goiás ou Mato Grosso do Sul e entrar em Mato Grosso que as estradas acabam. Lá fora um tapete, aqui o descaso. Só nos resta engolir seco a sem-graceira. 
     Agora com a Copa, apareceu a oportunidade do Dnit realizar alguma coisa também importante por Mato Grosso, nem que seja pela obrigação moral da fazer bonito perante os olhos globais. A travessia urbana com as obras de interseção na antiga Perimetral e o novo Rodoanel são projetos de imenso impacto para Cuiabá. Justamente agora o DNIT entra em greve. Estranha-me também não se ouvir de nenhum dos nossos representantes políticos locais, estaduais e federais, ou outras lideranças qualquer protesto. Deixaram chegar a 3 meses este absurdo que significa mais que atraso nas obras, mas prejuízos para empresários, desconforto e sofrimento para a população. A pequena, pacata e simplória Cuiabá ganhou com a Copa um grande premio lotérico e tem direito a recebê-lo. Parece que ainda tem gente contra isso.

(Publicado em 27/08/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 21 de maio de 2013

LUVERDENSE, CÂMARA E AMÉRICA DO SUL

Foto José Lemos

José Antonio Lemos dos Santos

     Viva o Luverdense que na semana passada em Salvador eliminou da Copa do Brasil o poderoso Bahia, time da série “A” do Campeonato Brasileiro, jogando com o regulamento de forma amadurecida em uma exibição de gala reconhecida pelos narradores da TV soteropolitana digna da beleza da nova Arena Fonte Nova. Um feito memorável para um time de um estado que é criticado por acolher uma das sedes da Copa do Mundo sem ter um time entre os da elite do futebol brasileiro. O Mixto também já havia vencido no Dutrinha o Vitória, também classe “A” e campeão baiano. E olha que o Luverdense foi o terceiro colocado no campeonato de Mato Grosso, mostrando que o mato-grossense gosta mesmo do futebol e está a altura da fantástica Arena Pantanal. Aliás, quando os cotovelos doloridos criticam os 42 mil lugares da nova Arena, sempre esquecem que o antigo Verdão tinha 55 mil lugares, e lotava. 
     Mas neste artigo quero tratar da proposta do presidente da Câmara Municipal de Cuiabá de construção de uma nova sede para o legislativo cuiabano que, embora sem esta intenção, caminha no mesmo rumo da antiga ideia de um centro de cultura sul-americana a ser criado no exato centro geodésico da América do Sul, como uma alternativa de ocupação digna daquele espaço e de aproveitamento de um dos mais ricos potenciais geradores de emprego e renda para Cuiabá. Recorda diversos artigos em que tratei do tema, desde o publicado em 1986 no saudoso “O Estado de Mato Grosso”, capeando caderno especial sobre o assunto. 
     A ideia era, e ainda é, criar naquele espaço um centro referencial para a cultura sul-americana. Um lugar onde se desenvolvessem estudos, exposições, congressos, festivais e outras atividades sobre as manifestações populares autênticas do continente como, por exemplo, cursos das diversas línguas pré-colombianas (quíchua, aimará, guarani e outras), a gastronomia, danças, oficinas de ensino e fabricação de instrumentos musicais como a belíssima harpa paraguaia, o charango, as flautas andinas, a nossa viola de cocho, etc. Talvez até um local para encontros comerciais e cúpulas políticas continentais. No mínimo poderia ser feita uma festa anual simples comemorando, em um grande abraço sul-americano, a cultura popular do continente com barracas de cada país, musica, dança, comidas típicas, lembrando Simon Bolívar, pioneiro da integração continental. 
     Estivesse o centro geodésico em qualquer outra cidade, há muito seria atração turística importante, gerando renda e cultura em favor de sua gente, ainda mais nesta época em que a integração do continente é tão propalada e a qual o governo federal parece dedicar especial carinho. Cuiabá tem a exclusividade de ter o marco geodésico continental instalado pelo Marechal Rondon, reconhecido mundialmente como um dos maiores personagens da humanidade, e um espaço físico praticamente pronto para ser ocupado. 
Foto José Lemos

     Mas é preciso pensar grande, isto é, pensar à altura do significado mágico daquele pedaço de terra do antigo Campo D’Ourique. Nesse sentido, seria preciso buscar o apoio do Itamaraty na criação de uma fundação de caráter internacional, com apoio das embaixadas dos países do continente. Junto às belezas do Pantanal, da Chapada, das termas de São Vicente, da Amazônia, da fantástica agropecuária e a visibilidade da Copa, a criação de um centro cultural sul-americano no centro da América do Sul transformará Cuiabá em um pacote múltiplo de atrações extremamente vantajoso ao investimento do turista nacional e internacional. Empregos, renda e desenvolvimento, principalmente cultural, é o que Cuiabá e Mato Grosso ganharão com o aproveitamento dessa extraordinária riqueza. Um dia acontecerá. E pode ser agora. 

(Publicado em 21/05/2013 pelo Diário de Cuiabá)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

FERROVIA PARA LEVAR E TRAZER

José Antonio Lemos dos Santos

     Sempre que falamos em ferrovia em Mato Grosso sempre pensamos na ferrovia para levar, quase nunca na ferrovia para trazer, talvez pela nossa história de país colonizado, de cidade colonizada, onde tudo produzido era sugado pelos colonizadores. Cuiabá produziu muito ouro e todo ele foi sugado para fora do Brasil sem deixar nada de consolidado aqui. Esse ouro, junto com o de Minas e de Goiás acabou indo para a Inglaterra, ajudando a financiar a Revolução Industrial. Cuiabá só sobreviveu ao fim do ouro pelo fato de ser o último bastião português além de Tordesilhas, em pleno território então espanhol. Cuiabá resistiu e aqui permaneceu solitária como zelosa guardiã, célula-mater da ocupação de todo o imenso oeste brasileiro, e hoje é o polo de apoio de uma das regiões mais dinâmicas do planeta.
     Todos os caminhos têm ida e volta, os de ferro também. E Cuiabá por estar no exato centro continental consolidou-se com um grande encontro de caminhos e sua vocação natural é o de transformar-se em breve no grande entroncamento intermodal central do continente. Mato Grosso é o maior produtor agropecuário do Brasil, sua produção ajuda a alimentar o país e o mundo. Tem carga e muita carga para o consumo interno nacional e para exportação. É claro que essa produção tem que deixar o estado e ir aos centros consumidores no país ou fora dele. Aliás, este constitui o principal gargalo do desenvolvimento ainda maior da agropecuária mato-grossense: a sua logística de transportes. Por ser um estado centro-continental fica distante dos portos para a exportação e dos principais centros consumidores do país e suas condições atuais de monomodalidade no transporte rodoviário reduz a competitividade de seus produtos com fretes e perdas elevadas, além da degradação ambiental e destruição de vidas humanas nas incríveis “roletas-russas” que viraram nossas rodovias. A questão dos transportes em Mato Grosso tem que ser resolvida urgente.
     Cabe, porém, perguntar: por que produzimos? Por que o mato-grossense produz tanto e cada vez? Certamente pelo desejo de elevar sua qualidade de vida. É claro que todos nós produzimos para ter mais acesso às comodidades, aos bens e serviços que o mundo moderno disponibiliza, produzidos na sua grande maioria em outras regiões do Brasil e do mundo. Infelizmente eles ainda não são transportados pela internet e ainda chegam até nós pelos mesmos caminhões que levam nossa produção. Também sai caro, poluí e mata. Daí a importância da ferrovia de trazer, muito embora esta não se viabilize sem a de levar. Arrisco-me a dizer, entretanto, que a ferrovia de trazer seja a mais importante, pois é ela quem traz a qualidade de vida para o povo, objetivo final da produção e principal viés de qualquer tipo desenvolvimento.
     Por isso a ferrovia em Mato Grosso deve ser pensada tanto para levar a produção como para trazer o desenvolvimento a todos os mato-grossenses. Jamais apenas uma esteira transportadora de grãos. E para que a ferrovia distribua o desenvolvimento por todo o estado ela tem que passar por Cuiabá e Várzea Grande, o maior polo consumidor e distribuidor do estado, subindo a seguir o eixo da BR-163 até Santarém, espinha dorsal do estado, com derivações a leste e oeste, como a FICO, ou variantes para Tangará, Diamantino e para Cáceres. A ferrovia vai baixar o custo dos fretes para a saída dos produtos mato-grossenses, mas também baixará os custos dos insumos para a indústria e a própria agropecuária, e, principalmente, aumentará a oferta com preços reduzidos dos diversos bens e mercadorias a serem consumidos pela população mato-grossense, melhorando em muito sua condição de vida, o verdadeiro desenvolvimento. Esta é a ferrovia que interessa.

(Publicado em 25/09/2012 pelo Diário de Cuiabá)