"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

22 ANOS DO AQUÁRIO MUNICIPAL

 


José Antonio Lemos dos Santos

     No próximo dia 5 de fevereiro o Aquário Municipal de Cuiabá completaria 22 anos de sua inauguração. Há alguns anos desativado para modernização e ampliação, mas com as obras paralisadas e sem sinais de reativação próxima ou distante, lembro com muita tristeza que o Aquário Municipal foi um dos equipamentos urbanos mais queridos da população, sendo inclusive adotado como um dos cartões postais da cidade. É um dos projetos que mais me agradou desde sua elaboração no antigo Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Urbano (IPDU) até nas frequentes visitas quando ainda em funcionamento, compartilhando a alegria das crianças surpresas com os peixes colocados bem à altura de seus olhos ou vendo a disputa entre eles pela ração que jogavam no tanque externo. Satisfação visível também no semblante dos pais e avós, extasiados com a felicidade dos pequenos, ou mesmo eles encantados com alguma espécie que só tinham visto no prato, mas nunca ao vivo, nadando, exibindo toda sua beleza aquadinâmica. 

(imagem:gazetadigital)
     O Aquário empolgou a todos desde o início. O então prefeito Roberto França iniciando seu primeiro mandato aprovou a proposta de revitalização da Beira-Rio que vinha das administrações anteriores, mas entendeu que no projeto do Museu do Rio faltava o personagem principal, o peixe. Foi então projetado um aquário anexo ao Museu onde estivessem todas as espécies de peixes do rio Cuiabá e pantanal. O tempo era escasso, os recursos também e as referências para o projeto iam sempre além da capacidade da prefeitura. Com o arquiteto Ademar Poppi e sua equipe, em especial a arquiteta Ruth Dorileo, optou-se por um partido arquitetônico adequado àquelas condições mínimas e que serviu de referência para projetos similares em outras cidades.

     Além do projeto, é inesquecível a maratona para coleta dos exemplares que ocupariam o aquário. No dia da inauguração ainda tinha gente mergulhando no Pantanal atrás de um certo camarão e uma espécie de acará que faltavam. A poucas horas da inauguração o prefeito trazia pessoalmente de seus tanques criatórios piraputangas e pacus, alguns dos quais viveram enquanto viveu o Aquário. Todos animados na prefeitura e em especial no antigo IPDU, sempre com a presença de Teruo Izawa, um apaixonado por aquários e peixes, o anjo do Aquário, que se doava para mantê-lo funcionando, mesmo à míngua, até não dar mais. Faleceu sem nunca ter recebido o justo reconhecimento da prefeitura por esta dedicação.

     Há 22 anos milhares de pessoas estiveram na inauguração do Aquário, que recebeu em sua primeira década mais de 1 milhão de visitantes. Agonizando, ainda recebia uma média de 100 visitantes por dia. Poderia funcionar melhor, mas sua manutenção foi equacionada como uma estrutura autossustentável junto ao Museu do Rio, através da venda de lembranças relacionadas ao Aquário, ao rio e sua cultura ribeirinha, como chaveiros, bonés, camisetas, fotos, vídeos, livros diversos, receitas etc. Contudo por filigranas jurídico-burocráticas essa experiência nunca foi sequer tentada. 

     O entusiasmo construtivo da Copa reacendeu a esperança para o Aquário agonizante. O então prefeito, Mauro Mendes, hoje governador, chegou a anunciar para o grande evento internacional, mesmo sem compromisso com a FIFA, uma nova Beira-Rio com o projeto Orla do Porto, constando a ampliação e modernização do Aquário. A Orla do Porto foi à frente e inaugurada, mas o Aquário ficou pelo caminho. Agora temos o prefeito Emanuel Pinheiro e seu vice José Roberto Stopa, que prometeram a conclusão do Aquário. Já ressuscitaram o Cae-Cae e o Dutrinha, agora começam nova restauração da Orla do Porto. Estariam nesse pacote o Aquário e o Museu do Rio, seu complemento imprescindível, resgatando o belo cartão postal para a cidade?


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O ANO DO TRICENTENÁRIO

Cuiabá Sob o Duplo Arco-Íris 14/01/19 Foto: Cássia Abdalah
José Antonio Lemos dos Santos
     Enfim chegou 2019, um ano que parecia não chegar nunca, tantas as atribulações vividas em 2018 especialmente no Brasil pelo seu grave momento político, e mesmo no mundo com EUA e Coréia do Norte arreganhando-se os dentes com ameaças nucleares que felizmente deram em nada. 2019 enfim chegou trazendo para o Brasil os novos governos, federal e estaduais, e novos parlamentos, escolhidos após duras eleições renovadoras de esperanças e apreensões para o país.
     Para Cuiabá 2019 vai além, afinal é o ano do Tricentenário aguardado há anos com grande expectativa pela população. A efeméride marca a fundação de uma cidade especial nascida do ouro e  que nestes seus 300 anos viveu mais momentos de isolamento, sofrimento e luta do que de ostentação e opulência, sacrifício que contudo lhe rendeu uma história rica em episódios de heroísmo e bravura com vultos de destaque mundo afora, um modo de viver plasmado pelo calor sadio e uma cultura fascinante que vai do erudito ao popular, de José Magno ao rasqueado e lambadão, passando pela culinária, o guaraná e o tereré, mitos e lendas. Porém o principal produto é a simpática figura do cuiabano folclórico de linguajar exclusivo, simplório, pacato, festeiro, criador de apelidos como ninguém e, sobretudo, hospitaleiro.
     Hoje a cidade é uma metrópole dinâmica, centro de uma das regiões mais produtivas do planeta. A história que vem dos garimpos originais e chega até hoje apontando para um futuro exuberante é o pano de fundo da grande expectativa cuiabana. Para os especialistas era importante que a data não fosse marcada só pelos festejos, mas que a própria urbs se estruturasse elevando seus padrões de qualidade de vida conforme as novas funções regionais, nacionais e globais a que se destinava com a esperada polarização de uma das principais fontes de alimentos do mundo. Assim, na década de 80 um grupo de profissionais capitaneados pelo IAB-MT, APA-MT, CREA-MT, UFMT e Câmara Municipal deflagrou um movimento visando institucionalizar o planejamento urbano estrutural de longo prazo em Cuiabá e preparar a cidade para os saltos de desenvolvimento que viriam. Este processo inseriu um capítulo dedicado à Política Urbana na Lei Orgânica Municipal de 1989. O horizonte de planejamento era de 30 anos, portanto, 2019, já pensando no Tricentenário, tendo ainda como meta mais curta a virada do século, sistema este que durou só até o segundo quinquênio dos anos 2000.
     Deixou, todavia avanços como a criação do IPDU, do Conselho de Desenvolvimento Urbano e da SMADES, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e suas leis, como as do Uso e Ocupação do Solo Urbano e da Hierarquização Viária, bem como vários projetos pontuais como o Parque Mãe Bonifácia, o finado Aquário e o Centro de Eventos do Pantanal. A ideia urbanística básica era a cidade crescer para dentro, adensá-la e compactá-la, reduzindo custos operacionais, otimizando infraestrutura e facilitando a mobilidade urbana. Com a desativação do sistema voltamos ao pragmatismo das soluções imediatas, que também legou projetos pontuais importantes como os parques das Águas e Tia Nair.
     Nas últimas décadas iniciativas isoladas trataram do assunto em matérias jornalísticas, seminários, palestras, artigos publicados, destacando os eventos bianuais denominados “Edificar” produzidos pelo Sinduscon-MT e Secovi-MT e a criação pela prefeitura de uma secretaria especial para o Tricentenário. Porém, apesar de tudo, o grande diferencial foi a Copa, inesperada e para mim um artifício do Bom Jesus de Cuiabá para ajudar no preparo de sua cidade para seu tricentésimo aniversário. Enfim 2019, um marco para uma bela história.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O AQUÁRIO MUNICIPAL

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José Antonio Lemos dos Santos
     Com a alma lavada pelas vitórias do Cuiabá e Luverdense em seus jogos de estreia pela Copa do Brasil e Copa Verde respectivamente, lembro com uma pontinha de tristeza do Aquário Municipal de Cuiabá que neste dia 5 de fevereiro completaria 18 anos de sua inauguração. Atualmente desativado para modernização e ampliação, mas com as obras paralisadas, o Aquário Municipal foi um dos equipamentos urbanos mais queridos da população, sendo inclusive adotado como um dos cartões postais da cidade. É um dos projetos que mais me agrada desde sua elaboração até nas minhas frequentes visitas, quando ainda funcionava,  compartilhando a alegria das crianças surpresas com os peixes colocados bem à altura de seus olhos ou disputando a ração que jogavam no tanque externo. Satisfação visível também no semblante dos pais e mães, avos e avós, extasiados com a felicidade dos pequenos, ou mesmo encantados com a visão de uma espécie que só conheciam numa travessa ou grelha como protagonista da culinária cuiabana, mas nunca ao vivo, nadando, exibindo toda sua beleza plástica hidrodinâmica. 
     O Aquário empolgou a todos desde o início. O então prefeito Roberto França iniciando seu primeiro mandato aprovou a proposta de revitalização da Beira-Rio e do Porto que vinha das administrações anteriores, mas entendeu que no projeto do Museu do Rio faltava o personagem principal, o peixe. Foi então projetado um aquário anexo onde pudessem estar expostas todas as espécies de peixes do rio Cuiabá e pantanal. O tempo era escasso, os recursos também, com curto prazo para aplicação, e as referências para o projeto iam sempre além do que podia a prefeitura. Com o arquiteto Ademar Poppi encontramos um partido arquitetônico adequado àquelas condições, que acabou servindo de referência para projetos similares em outros estados.
     Além do projeto, é inesquecível a maratona para coleta dos exemplares que ocupariam o aquário. No dia da inauguração o professor Francisco Machado ainda mergulhava no Pantanal atrás de um certo camarão e uma espécie de acará que faltavam. A poucas horas da inauguração o prefeito trazia pessoalmente de seus tanques criatórios as piraputangas e pacus, alguns dos quais viveram enquanto viveu o Aquário. Todos animados na prefeitura e em especial no antigo IPDU, tudo sempre com a presença de Teruo Izawa, um apaixonado por aquários e peixes, o anjo do Aquário, que se doou para mantê-lo funcionando até não dar mais. Nunca recebeu o merecido reconhecimento da prefeitura.
     Milhares de pessoas estiveram na inauguração do Aquário, que recebeu em seus 10 primeiros anos mais de 1 milhão de visitantes. Agonizando ainda recebia uma média de 100 visitantes por dia. Poderia ser melhor, mas sua manutenção nunca foi equacionada desde o início. Foi idealizado como uma estrutura auto-sustentável junto ao Museu do Rio, sustentabilidade que viria da venda de lembranças relacionadas ao Aquário, ao rio e sua cultura, como chaveiros, bonés, camisetas, fotos, vídeos, livros diversos, receitas, etc. Nem foi tentada. Buscou-se também parcerias com as secretarias de educação do município e do estado, em troca do baita equipamento didático muito utilizado por escolas de Cuiabá e do estado nos primeiros 10 anos. Buscou-se ainda as faculdades de veterinária, sem êxito.
     Ao final a esperança podia estar no milagre da Copa. O prefeito dos belos parques, Mauro Mendes, chegou a anunciar para a Copa, mesmo sem compromisso com a FIFA, uma nova revitalização da Beira-Rio com o projeto Orla do Porto, constando a ampliação e modernização do Aquário. A Orla do Porto é um sucesso, mas o aquário parou pelo caminho. Talvez ainda possa ser um presente para o Tricentenário? 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

2018, A ENCRUZILHADA

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pipocasalpimenta.blogspot.com
José Antonio Lemos dos Santos
     Os anos geralmente chegam trazendo ótimas ou no mínimo boas expectativas de futuro. 2018, contudo, chega com a cara um pouco diferente prevendo alguns gargalos sérios para o mundo e principalmente para o Brasil. O mundo com a volta da perspectiva de um confronto nuclear de terríveis consequências para a humanidade, já o Brasil com dois eventos desafiadores para suas instituições nacionais que terão que dar provas de grande maturidade ou, no mínimo, de um grande esforço de amadurecimento, indispensável à consolidação do país como nação civilizada e democrática.
     O risco do confronto nuclear não seria de atemorizar tanto, ainda que seja muito grande o risco da proximidade entre botões nucleares e dedos guiados por cabeças de sanidade duvidosa. Botões são antigos, hoje talvez baste uma tecla “enter” para dar início a um apocalipse pós-moderno. Não haveria o que temer como prognosticou Mao Tsé-Tung na primeira Guerra Fria, diante da ameaça dos EUA e Rússia se engalfinharem com suas bombas nucleares e destruírem o mundo junto. Nessa época eu era adolescente e o medo que pairava no planeta era real quando Mao chamou os “machões” nucleares de “tigres de papel”. Na época a maioria não entendeu, nem eu. Só entendi agora com os poderosos EUA sendo desafiados pela Coreia do Norte, esta naturalmente também montada em um arsenal, ou digamos, em um estoque não tão grande assim de mísseis atômicos. Bomba atômica só é poderosa contra adversários que não as têm. Quando o outro também tem, aí a história é outra. O arrogante nuclear coloca o rabo entre as pernas e a perspectiva da hecatombe se reduz a um “galinhaço” acovardado como o que estamos assistindo. Ainda bem, pois assim temos assegurados os 365 dias de 2018 para cuidarmos de nossos próprios gargalos.
   Já no Brasil os riscos são mais iminentes. Ainda em janeiro haverá o julgamento em segunda instância do ex-presidente Lula, que poderá ou não liberar sua candidatura à presidência da República, em pleito marcado para outubro próximo. São dois momentos que exigirão não só das instituições nacionais, mas de todo povo brasileiro grande maturidade cívica e elevada consciência democrática e republicana para que sejam viabilizadas as decisões constitucionalmente corretas sendo aceitos civilizadamente quaisquer que sejam os resultados advindos dos tribunais e das urnas. A radicalização de posições no qual o país se embrenha pode leva-lo ao caos, isto é, nem para um lado nem para outro, mas para sua destruição enquanto nação. Uma encruzilhada.
     Para Mato Grosso renova-se o grande desafio das eleições majoritárias para governador e senador, bem como as ardilosas eleições proporcionais que exigem especial atenção do eleitor para não votar em um bom candidato e eleger um outro indesejável, ajudando assim a reproduzir este nefasto quadro político que envergonha a nação e sacrifica seu povo. Quanto a Cuiabá a agenda deveria ser a preparação para o seu Tricentenário com projetos que permitam à cidade alcançar melhores padrões urbanos e maior qualidade de vida. O que resta, porém é concluir as obras da Copa, em especial o aeroporto, as trincheiras, os COT’s e a Arena Pantanal, mesmo sem o VLT, e outras obras também inconclusas tais como o novo Aquário Municipal, o novo Pronto Socorro Municipal, a UPA do Verdão, os hospitais Júlio Muller e o Regional da UFMT, as duplicações para Guia, Chapada e São Vicente. Seria um bom pacote. Aproveitando o ano eleitoral, o grande desafio será a viabilização de uma cobrança forte e efetiva da cidadania organizada pois o tempo é curto e os órgãos responsáveis lentos, mesmo para a conclusão de obras que já deviam estar concluídas a muito tempo.

domingo, 26 de março de 2017

O VALE DO CUIABÁ

OlharDireto

José Antonio Lemos dos Santos

O dia 27 de março marca o aniversário da Ponte Sérgio Motta, que preferia denominada Ponte Dante de Oliveira, sem nenhum demérito ao ex-ministro que empresta seu nome a tão bela e importante construção, e que também foi homenageado pelo então ex-prefeito Roberto França dando nome ao complexo cultural formado pelo Museu do Rio e o antigo Aquário Municipal. Este ano comemoramos, ou pelo menos deveríamos comemorar os 15 anos de sua inauguração. Minha preferência de denominação vem das dificuldades do então governador para justificar sua tecnologia inovadora mais onerosa e acabou pagando por isso na eleição seguinte quando seu adversário disse que com o dinheiro gasto naquela ponte ele construiria 3 ou 4 pontes convencionais. Imagino que o adversário vencedor naquela eleição reveria sua argumentação hoje já que passou pelos dissabores de pesadas críticas ambientais em nível nacional e evoluiu muito nessa área. O Dante, como sempre, estava na frente com ideias, obras e proposições que até hoje muita gente importante não entendeu, mesmo alguns de seus auxiliares na época.
     Trata-se da primeira ponte estaiada do Brasil feita em pré-moldados de concreto e a terceira estaiada de um modo geral no país. Ponte urbana, sobre rio, creio que tenha sido a primeira. E qual a necessidade dessa inovação de valor mais elevado? Justamente o meio ambiente. A tecnologia dos estais permite a construção sem que se toque na água ou no leito do rio. Nosso renitente complexo de pequi roído não nos permite enxergar algumas maravilhas de nossa própria terra, e assim a maioria de nós jamais percebeu que a ponte de fato não toca o rio Cuiabá, que passou incólume mesmo durante sua construção. Essa preocupação não aconteceu com as novas pontes sobre o mesmo rio, cujos paliteiros de pilares fincados no rio estão lá para todos verem. Oxalá as novas e importantes pontes projetadas para o rio Cuiabá pelo atual governo levem em conta tão precioso tema.
     Ademais da questão ambiental as pontes urbanas são consideradas monumentos urbanos ou ornatos citadinos, muitas transformando-se em cartões postais das cidades. Golden Gate, Hercílio Luz, Brooklyn, são alguns exemplos, bem cuidadas, iluminadas e promovidas, são visitadas, fotografadas e ajudam atrair turistas, trabalho, emprego, renda e qualidade de vida. Aos 15 anos a Ponte Sérgio Motta está lá cumprindo muito bem sua missão precípua de atravessar pessoas e cargas de um lado para o ouro do rio, mas desprezada enquanto monumento urbano ou cartão postal que é, sem qualquer iluminação cenográfica, sem nenhum projeto urbanístico para suas áreas de entorno e com manutenção precária a ponto de algum tempo atrás uma prefeitura achando que a ponte precisava de uma pintura, providenciou o serviço, em cor diferente, mas só até o meio da ponte, que seria o limite do município. Teria sido uma sutil provocação ao governo pela falta dos devidos cuidados? Gastar em uma obra de arte maravilhosa e depois regatear recursos para sua manutenção e iluminação como elemento de atração turística é desperdício de dinheiro público. O mesmo acontece com a premiada Arena Pantanal, apagada e com manutenção precária.
     Mais que um ornato citadino ou a transposição de um rio, como  elo de união a Ponte Sérgio Motta poderia ser um monumento à nova Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá, que no momento realiza seu Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI) despertando a expectativa de ser um divisor de águas na história dos municípios do Vale do Cuiabá, trabalhando não apenas seus passivos, mas em especial suas perspectivas de desenvolvimento, entre as quais como principal polo regional de verticalização da economia mato-grossense.

sábado, 28 de janeiro de 2017

AQUÁRIO MUNICIPAL

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José Antonio Lemos dos Santos

     Às vésperas do dia 5 de fevereiro quando se comemoraria os 17 anos do Aquário Municipal de Cuiabá, impossível não lembrar um pouco da história daquele equipamento público, em especial, por conta do projeto Orla do Porto em desenvolvimento pela prefeitura municipal, iniciado na administração anterior. Um dos equipamentos urbanos mais queridos da população, sendo inclusive adotado como um dos cartões postais da cidade, o Aquário é um dos projetos que mais me agradou, desde sua elaboração até a continuidade de visitação intensa nos seus primeiros 10 anos, quando ainda era bem tratado, com a alegria das crianças, surpresas diante dos peixes colocados bem à altura de seus olhos ou disputando a ração que jogavam no tanque externo. Satisfação estendida aos semblantes dos pais e mães, avos e avós, acompanhantes extasiados com a felicidade de seus pequenos, ou mesmo encantados com a visão de uma espécie que, mesmo adultos, ainda não tinham conhecido ao vivo, cuja beleza plástica nunca haviam percebido a não ser na panela como protagonista de muitas das maravilhas da culinária cuiabana. Um passeio que também era uma aula para crianças e adultos.
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     O aquário entusiasmou todos desde que surgiu a ideia. O então prefeito Roberto França iniciando seu primeiro mandato aprovou a proposta da primeira revitalização da Beira-Rio e do Porto que vinha das administrações anteriores, mas entendeu que no projeto do Museu do Rio faltava o personagem principal, o peixe. Determinou então que fosse projetado um aquário anexo, onde pudessem estar expostas todas as espécies de peixes do rio Cuiabá e pantanal. O tempo era escasso pois os recursos tinham prazo para aplicação e as referências para de projeto estavam sempre além do que podia a prefeitura. Com o arquiteto Ademar Poppi chegamos a um partido arquitetônico exequível para as condições e em agradável harmonia com o Museu neoclássico e o próprio rio que lhe dava sentido. Durante alguns anos o Aquário de Cuiabá foi referência para projetos similares de pequeno porte em outros estados.
     E depois do projeto, a construção e a maratona para coleta dos exemplares de todas as espécies da bacia pantaneira que iriam ocupar o aquário. No dia da inauguração o professor doutor Francisco Machado ainda mergulhava no Pantanal atrás de um certo camarão e uma espécie de acará que faltavam. A poucas horas da inauguração o prefeito trazia pessoalmente de seus tanques de criação as piraputangas e pacus. Ao mesmo tempo técnicos e funcionários do antigo IPDU produziam os últimos detalhes, tudo sempre com a presença de Teruo Izawa, o anjo do Aquário, que nunca deixou seus peixes, muitas vezes sem ganhar nada, sem jamais receber o justo e merecido reconhecimento da prefeitura.
     Milhares de pessoas estiveram na inauguração do Aquário, que recebeu em seus primeiros 10 anos mais de 1 milhão de visitantes. Sua manutenção nunca foi equacionada na prática, apesar de idealizado como uma estrutura autossustentável junto ao Museu do Rio, sustentabilidade que viria da venda de lembranças relacionadas ao rio e sua cultura, como chaveiros, bonés, camisetas, fotos, livros diversos e CDs, etc., e de parcerias com as secretarias de educação do município e do estado em troca do baita equipamento educativo disponibilizado. Buscou-se ainda as faculdades de veterinária da cidade. Faltou definição do órgão municipal que se responsabilizasse pela continuidade de funcionamento do Aquário e insistisse na sua sustentabilidade. Agora o antigo Aquário Municipal é envolvido por um projeto maior, mais ambicioso, ainda em execução. Que seu sucessor lhe esteja à altura, aprenda com seus erros e vá além propiciando também muitas alegrias e conhecimentos aos turistas e à população cuiabana de todas as idades.




domingo, 29 de dezembro de 2013

CUIABÁ NO "EL PAIS"

(Publicado no Repórter MT)
Reportagem assinada pelo jornalista Afonso Benites, do jornal El País, da Espanha, destaca Cuiabá como uma cidade onde sobram bares e falta lazer. A matéria diz ainda que a Capital "ganhou na loteria" ao ser escolhida como uma das sedes para a Copa do Mundo de 2014 e que a cidade, juntamente com Várzea Grande, virou um gigantesco canteiro de obras. Confira abaixo a reportagem na íntegra. 


AFONSO BENITES
EL PAÍS


Uma cidade quente, com pessoas acolhedoras e animadas que cresceu sem planejamento urbano. Um centro histórico descuidado que parece ser muito diferente de bairros de classe média que reúnem bares e restaurantes conceituados. Seu maior presente, às vésperas de seu terceiro centenário, foi ser indicada para sediar quatro partidas da Copa do Mundo de 2014. 

Essa é Cuiabá, no Mato Grosso, encravada no centro geodésico da América do Sul, no Centro Oeste Brasileiro. A capital mato-grossense é uma das portas de entrada para o Pantanal (que se divide em dois Estados brasileiros, MT e MS, além da Bolívia e do Paraguai). 

Por ter uma temperatura média de 32o C, é uma das cidades que mais consome cerveja no país. Até por isso, seus bares são tão agitados e há uma crescente e interessante indústria artesanal dessa bebida. Nos últimos cinco anos apareceram cerca de 30. 

As duas regiões mais agitadas na noite cuiabana são a praça Popular, que apesar do nome, concentra bares e restaurantes mais tradicionais e elitizados, e a praça da Mandioca, que tem espaços mais alternativos. 

Agora, se sobram opções de gastronomia e bebidas - são mais de 1.000 bares e restaurantes em uma cidade com pouco mais de 500 mil habitantes -, faltam as atrações culturais. Não há museus com grandes acervos, galerias de fotos ou exposições permanentes, como em grandes cidades brasileiras. 

Um dos poucos atrativos é o Sesc Arsenal, um prédio do século XIX, que, no período imperial, armazenava as armas dos militares de todo o Mato Grosso. Nesse local, há várias apresentações culturais. A outra opção para conhecer um pouco da região é o aquário municipal de Cuiabá, com algumas espécies de peixes do Pantanal e um tanto mal cuidado. 

Quem for hoje à Cuiabá, provavelmente encontrará um município muito diferente do que verá nas vésperas da Copa. Nunca houve tantas obras em um período tão curto. Só no trânsito, com a construção de pontes, viadutos, estradas, foram 23 intervenções ao custo de quase 300 milhões de reais. Isso sem contar a construção de um novo estádio, a Arena Pantana,l e de campos para treinamento. Atualmente, Cuiabá, e a vizinha Várzea Grande, onde está o único aeroporto para grandes aeronaves da região, são um gigante canteiro de obras. 

Mas quem se deslocar até lá não deve ficar apenas na cidade. As principais opções turísticas naturais mais próximas são Nobres (a 120 km com um vasto parque aquático), além de Poconé e Cáceres (no meio do Pantanal, a cerca de 105 e 175 km de distância, respectivamente). 

Nobres, perto da ex-badalada Chapada dos Guimarães, na Serra do Tombador, tem diversas cachoeiras e rios. Seu objetivo é se tornar um dos principais polos turísticos da região central do Brasil nos próximos anos. Os problemas são a reduzida quantidade de pousadas e hotéis. Os passeios lá custam entre 10 e 200 reais. 

No Pantanal, nem tudo é tão barato. O preço de um hotel em Poconé, por exemplo, pode chegar a 420 reais por noite em uma suíte simples. Os mato-grossenses costumam dizer que essa é uma região que só os gringos conseguem visitar. É também uma cidade rica em festas populares. O folclore e a cavalhada de Poconé, em junho, reúnem cerca de 10 mil pessoas por dia. 

A expectativa desses municípios é que a loteria, que Cuiabá ganhou ao receber a Copa, também se reverta em lucro para eles. Só é preciso que se preparem melhor.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A VOLTA DO FAN PARK

Estudo (2010) para o novo Shopping Popular (arquiteto Ademar Poppi)  www.grandecpa.com.br

José Antonio Lemos dos Santos

     A rápida intervenção do governador Silval Barbosa reafirmando a instalação do Fan Park na região do Porto fez retornar o bom-senso ao assunto. Além disso, resgatou para Cuiabá a perspectiva de um dos principais legados urbanísticos a ser deixado pela Copa do Pantanal. Desde a escolha das sedes da Copa 2014 sempre foi dito que a construção de ao menos um Fan Park em cada cidade-sede era exigência da Fifa, um parque urbano onde os jogos poderão ser assistidos em telões, dedicado aos torcedores que não consigam assistir aos jogos nos estádios, para depois ficar como uma lembrança significativa do grande evento para a cidade. Cuiabá não poderia perdê-lo.
     Essa boa invenção da Fifa veio a calhar, pois Cuiabá, apesar de ser a Cidade Verde, é carente em áreas verdes preparadas para receber seus habitantes, ansiosos por espaços estruturados para atividades ao ar livre, dissipadoras do estresse urbano. Porém, para Cuiabá o Fan Park tem um importância urbanística ainda maior. Fora a criação do novo parque urbano, com sua localização no bairro Dom Aquino, região do Porto, principal acesso da cidade, o Fan Park resolve pelo menos quatro problemas graves de Cuiabá. Primeiro, soluciona a antiga questão da transferência de seu Parque de Exposições, cuja localização ficou inadequada ao próprio funcionamento do Parque, bem como à circulação viária na Grande Cuiabá. Ademais, sua contiguidade ao trajeto do VLT e à uma de suas principais estações possibilita o tratamento conjunto da área dando um tratamento digno ao principal acesso viário do município e centro geográfico da metrópole cuiabana, também revitalizando histórico bairro do Porto, dois problemas antigos da cidade. Mas a maior das possibilidades é a da volta da cidade para o rio Cuiabá e sua recuperação como seu mais importante equipamento urbano, fonte de água e alimento, espaço de lazer ativo e contemplativo, elemento marcante na composição climática, ambiental e paisagística da cidade, além de patrimônio histórico por tudo que representou para a fundação de Cuiabá, para a formação de Mato Grosso e a ocupação deste vasto interior centro-continental.

Estudo para a conexão Cuiabá/Várzea Grande (arquiteto Ademar Poppi) turismomt.wordpress.com


     Arquitetura é a arte de transformar os espaços e assim por formação o arquiteto é um visionário que sempre enxerga a realidade na perspectiva de sua transformação para melhor, imaginando soluções geradoras das maravilhas urbanas construídas pelo mundo inteiro. Aqui também pode ser assim e aquela área do Porto é muito rica em potencialidades. Os projetos da Copa e a decisão do governador reacenderam as esperanças. Mesmo que não existam condições financeiras para se fazer tudo de uma só vez, pode ser elaborado um plano diretor integrando as áreas do Fan Park e a da estação do VLT (com sua nova ponte), chegando até a área do Museu do Rio, Aquário Municipal e Avenida 8 de Abril. Nele podem estar previstos o planetário, o novo Shopping Popular, praça gastronômica, monumentos, fontes e outros projetos a serem construídos à medida das possibilidades, ao longo dos anos. Enquanto não dá para fazer tudo, que seja feito logo o fundamental, isto é, o Fan Park, a reurbanização das avenidas e a transformação da arquibancada da Acrimat em uma Arena Cultural para o Siriri, Cururu e o Carnaval, complementando com o plantio de muitas árvores, a instalação de amplos, confortáveis e seguros passeios públicos, ciclovias e pistas de caminhadas em toda a área. E desde então a entrada da cidade fica assegurada como um espaço digno de uma das sedes da Copa e de uma capital às vésperas de seus 300 anos.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 31/01/2012)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

10 ANOS DO AQUÁRIO

José Antonio Lemos dos Santos

Não há como deixar de comemorar os 10 anos do Aquário Municipal de Cuiabá, completados no último dia 5 de fevereiro. Um dos equipamentos urbanos mais queridos da população, sendo inclusive adotado como um dos cartões postais da cidade, o Aquário é um dos projetos que mais me agrada, desde sua elaboração até os dias de hoje, na continuidade de sua visitação, com a alegria das crianças surpresas diante dos peixes colocados bem à altura de seus olhos ou disputando a ração que jogam no tanque externo. Satisfação que continua no semblante dos pais e mães, avos e avós, acompanhantes extasiados com a felicidade de seus pequenos, ou mesmo encantados com a visão de uma espécie que, mesmo adultos, ainda não tinham conhecido, ou cuja beleza plástica nunca haviam percebido com vida, só como protagonista de muitas das diversas maravilhas de nossa culinária. Um passeio que também é uma aula para crianças e adultos.
O aquário entusiasmou todos desde que surgiu a idéia. O então prefeito Roberto França iniciando seu primeiro mandato aprovou a proposta de revitalização da Beira-Rio e do Porto que vinha das administrações anteriores, mas entendeu que no projeto do Museu do Rio faltava o personagem principal, o peixe. Determinou então que fosse projetado um aquário anexo, onde pudessem estar expostas todas as espécies de peixes do rio Cuiabá e pantanal. O tempo era escasso pois os recursos tinham curto prazo para aplicação e as referências para projeto de um aquário estavam sempre além do que podia a prefeitura. Com o arquiteto Ademar Poppi encontramos uma solução própria, um partido arquitetônico adequado e exeqüível nas condições existentes, e que virou referência para projetos similares em outros estados.
E depois do projeto, a construção e a maratona para coleta dos exemplares que iriam ocupar o aquário. No dia da inauguração o professor doutor Francisco Machado ainda mergulhava no Pantanal atrás de um certo camarão e uma espécie de acará que faltavam. A poucas horas da inauguração o prefeito trazia pessoalmente de seus tanques de criação as piraputangas e pacus, alguns dos quais ainda vivos hoje no aquário. Ao mesmo tempo a engenheira Maristela Okamura produzia as placas e banners informativos, tudo sempre com a presença de Teruo Izawa, o anjo do Aquário, cuidando até hoje dos peixes, ainda que sem nunca ter recebido o justo e merecido reconhecimento da prefeitura.
Milhares de pessoas estiveram na inauguração do Aquário, que recebeu nestes 10 anos mais de 1 milhão de visitantes. Hoje tem uma média superior a 100 visitantes por dia. Poderia estar em melhores condições, mas sua manutenção nunca foi equacionada, desde o início. Uma pena pois foi idealizado como uma estrutura auto-sustentável, junto ao Museu do Rio. A sustentabilidade que jamais conseguimos viria da venda de lembranças relacionadas ao Aquário, ao rio e sua cultura, como chaveiros, bonés, camisetas, fotos, livros diversos, vídeos e CDs, etc. Embora não viabilizadas, buscou-se também parcerias com as secretarias de educação do município e do estado, em troca do baita equipamento educacional utilizado por muitas escolas de Cuiabá e do estado ao longo destes 10 anos. Buscou-se ainda as faculdades de veterinária da cidade, infrutiferamente. Pretendia-se evitar a cobrança de ingressos que hoje é a única garantia de sobrevivência do Aquário, cobrança que não discordo na situação, pois se paga bem mais só para estacionar um carro em qualquer shopping ou em ruas centrais da cidade, em especial no nosso aeroporto - o muquifo internacional em que a Infraero recepciona/decepciona os que chegam a Mato Grosso. Quem sabe a Copa venha a ser também a chance de viabilização do Aquário?
(Publicado no Diário de Cuiabá em 09/02/2010)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A DECISÃO DA ESPERANÇA

José Antonio Lemos dos Santos

     Ia escrever sobre o décimo aniversário do Aquário Municipal de Cuiabá, a ser festejado no dia 5 de fevereiro próximo. Porém, esta singela mas justa homenagem, fica adiada devido a decisão do juiz Luis Aparecido Bertolucci Júnior concedendo liminar ao Ministério Público Estadual (MPE) e suspendendo a venda da rua Tuffik Affi. É ótimo quando escolhemos nosso tema semanal entre fatos auspiciosos, positivos. Nos meus artigos sobre a cidade e assuntos correlatos busco sempre manter uma postura positiva, otimista, usando as boas perspectivas, apresentando propostas, aplaudindo e elogiando as boas iniciativas e os bons exemplos presentes e passados de nossa terra. Infelizmente, trata-se de um exercício difícil, sendo bem vindas ocasiões como desta semana, onde aspectos positivos da realidade preponderam sobre os negativos, ao menos na cabeça deste articulista neófito.
     A importância da decisão da Vara Especial do Meio Ambiente envolve uma questão que se assemelha a um imenso iceberg, cuja ponta visível, mínima, é a rua Tuffik Affi e a liminar concedida. Logo ao vir à luz, a venda da rua já trouxe consigo – inclusive como uma de suas justificativas - a notícia da venda de uma área contígua, também pública e com dimensões muito maiores, em data e valor até hoje desconhecidos e utilizando os mesmos métodos questionados pelo MPE, ao menos quanto ao desconhecimento e falta de discussão pública. Só se sabe que o comprador foi o mesmo. Trata-se de uma área de quase 2 hectares, uma das últimas áreas públicas urbanas dessa magnitude disponíveis em pleno coração da Grande Cuiabá, na principal entrada da capital mato-grossense. Quero crer que o MPE tenha deixado para um segundo momento o questionamento da venda desta outra área, coroando então, no caso, sua exitosa vigilância com a aplicação das leis, e na recuperação daquele valioso patrimônio público para uso da cidade.
     Tão logo foi divulgada a notícia da venda da rua, a opinião pública manifestou sua indignação nos meios de comunicação através de artigos, cartas de leitores, reportagens e comentários diversos, como eu próprio tive oportunidade de fazê-lo. Na ocasião muitos leitores me escreveram compartilhando a indignação, mas convencidos de que a opinião da sociedade mais uma vez seria inócua e logo esquecida pelo próximo escândalo. Eu mesmo, cético, cheguei a dizer no meu artigo que só me manifestava para “desopilar o fígado”. Mas, ao contrário, a ação do MPE foi imediata, e a decisão do juiz já estimulou alguns e-mails de leitores, desta vez esperançosos com algo novo surgindo no trato da coisa pública. Qualquer que seja o resultado final do processo, a atual decisão concedendo a liminar reacendeu a esperança, ainda que tênue, em uma cidadania descrente.
     Trabalhando de um modo geral com cidades, e em especial Cuiabá e Várzea Grande, aprendi que o tão esperado e urgente salto qualitativo de nossas cidades – que matam e estão matando cada vez mais - só se dará quando a cidadania assumir que a cidade é sua e que a qualidade do desenvolvimento urbano depende diretamente de seu interesse e empenho. Que os prefeitos, governadores ou presidentes da república são gestores da res-publica, e não donos do bem comum. O destino das cidades no Brasil, que afinal é nosso próprio destino, não pode mais depender exclusivamente da ação ou omissão de seus administradores. É preciso a participação de cada um fazendo sua parte, mas também criticando e exigindo, pelos caminhos legais disponíveis, retidão e transparência nas coisas públicas. Como se deu com a Rua Tuffik Affi. Quem dera este caso fosse de fato um sinal das mudanças tão desejadas e necessárias na forma da nossa gestão urbana, ao menos em Cuiabá.
(Publicado no Diário de Cuiabá em 02/02/2010)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O IPDU E A CIDADE

José Antonio Lemos dos Santos



Enquanto preparava o artigo da terça-feira passada, ouvia no radio uma entrevista do prefeito de Cuiabá a Edvaldo Ribeiro e Dirceu Carlino, na expectativa de alguma explicação sobre o sigilo no processo de desafetação e venda da rua Tuffik Affi, sobre o qual escrevia. Apesar de entrevistado pelos dois ícones da radiofonia cuiabana, o prefeito não explicou o porque do segredo, limitando-se a falar sobre o direito da prefeitura vender bens públicos, sabido de todos, desde que – é claro – a venda cumpra a lei, à luz dos pilares constitucionais da administração pública, entre estes a publicidade.
     Habilíssimo na arte de falar e do debate, o prefeito abordou muitos assuntos, dentre as quais dois chamaram-me a atenção. O primeiro é que ao tratar do direito da prefeitura vender bens públicos, citou como exemplo a possibilidade da prefeitura vender sua atual sede, o Palácio Alencastro. Talvez só tenha criado uma nova polêmica para desviar as atenções da venda da rua Tuffik Affi, que era e é o assunto em discussão. Ou não, como diria o Caetano Veloso, podendo de fato ser um projeto do nosso alcaide, caso em que convém destacar que o centro histórico não pode ficar sem a sede do poder municipal, mas, por outro lado, que a atual sede já não comporta os órgãos da administração municipal, tema que merece abalizada discussão especial e não uma nova surpresa. O outro assunto que me atraiu foi o projeto de disponibilização gratuita da internet em toda a cidade, serviço já disponível, inclusive, em alguns bairros. Sensacional. Embora sem maiores detalhes, mais que um projeto de inclusão social, parece-me um projeto pioneiro de inclusão de toda uma cidade na grande rede digital globalizada, sem a qual não se pode hoje sequer pensar o futuro de qualquer pessoa ou de qualquer cidade do país e do mundo.
     Entretanto, ao tecer merecidos elogios à atual superintendente do IPDU disse que aquele órgão só passou a existir em sua administração, numa grande injustiça a um órgão com duas décadas de serviços prestados. Um de seus idealizadores, lembro que o IPDU foi criado para enxergar e planejar a cidade como um todo, articulando os diversos planos setoriais em um conjunto harmônico, sendo responsável por uma série de projetos fundamentais para a cidade, muitos dos quais sendo implementados ou reavaliados na atual administração, como a Avenida das Torres e as calhas centrais exclusivas para ônibus de 1999 ou os viadutos da Miguel Sutil, de 2001. Como esquecer o Plano Diretor de 1992 – pioneiro no Brasil no uso de uma Carta Geotécnica - e os Códigos Urbanísticos? E os sempre aguardados volumes do “Perfil Sócio-Econômico Municipal”? Como esquecer o Parque Mãe Bonifácia, talvez o projeto de maior impacto urbano em Cuiabá? E o Parque Zé Bolofrô? E a atual Feira do Porto – de dar inveja a muitas cidades do Brasil – o Museu do Rio, o querido Aquário Municipal, o Moitará, a nova Avenida Beira-Rio, o Binário da XV, a duplicação do viaduto da Rodoviária e da Avenida República do Líbano? E o primeiro mapa digitalizado de Cuiabá? E tantos e tantos projetos não realizados como a Avenida Parque do Barbado, hoje tão necessária, e a Galeria Sul-americana que redescobriu a Caixa d’Água Velha, permitindo à atual administração a criação do belo Museu hoje lá instalado? E as leis como a do Perímetro Urbano, dos Condomínios Fechados e a do Abairramento – esta exigindo atualização urgente, e outras leis urbanísticas fundamentais, como as da Hierarquização Viária e a do Uso e Ocupação do Solo Urbano? Nesta rápida amostragem, um pouco do que o IPDU já fez, do que está fazendo e do muito que ainda poderá fazer por Cuiabá, em especial às vésperas da Copa do Pantanal e do tricentenário da cidade.
(Pubicado pelo Diário de Cuiabá em 22/12/2009)

terça-feira, 21 de julho de 2009

O TOCO E A GOVERNABILIDADE

José Antonio Lemos dos Santos

     As explicações sobre a vexatória situação da entrada de Cuiabá pela Ponte Júlio Muller confirmaram as preocupações do nosso artigo do dia 7 passado. O site Midianews de Cuiabá no dia seguinte ao artigo informou que a prefeitura tem um projeto para aquela área e que o principal entrave à sua execução seriam duas garagens de veículos que “teimam” em permanecer no local. Informa ainda o site que o deputado Roberto França em seu programa Resumo do Dia, na noite do mesmo dia 7 lembrou que também tinha um projeto semelhante quando prefeito, e que também “tentou, sem sucesso, remover as tais garagens”.
     Na verdade a prefeitura há muito tempo desenvolve projetos para essa entrada da cidade, sempre com obstáculos aparentemente intransponíveis, mas superados progressivamente por diferentes administrações. Mais recentemente, lembro do prefeito José Meirelles na transferência da antiga feira do chamado Mercado do Peixe, que para ser viabilizada exigiu um dos mais amplos e belos trabalhos de assistência social que já vi, e a construção do novo mercado no chamado Campo do Bode, moderno e simpático, hoje muito querido por toda a cidade. Muitos não acreditavam em tal façanha. Depois de liberada a área, já com Roberto França, dá-se a reurbanização da Beira-Rio, a criação do Museu do Rio e do Aquário Municipal e a implantação do binário da XV com a Ten. Cel. Duarte. A intenção era atravessar de imediato a XV de Novembro chegando ao Cais Flutuante com o projeto de reurbanização. Assim, foi terminada a canalização da Prainha, que parava na Carmindo de Campos, construídas a Estação Elevatória e as pistas de ligação da XV com a Beira-Rio e Cel. Duarte. Mas no meio do caminho, em plena curva apareceu um mourão de arueira. Parou tudo e a cidade espera até hoje numa situação de desconforto e risco, sem falar, no deprimente espetáculo de estética urbana e atraso civilizatório, logo na sua principal entrada.
     Problemas desse tipo fizeram surgir no mundo mecanismos de controle urbano para assegurar que as cidades se desenvolvam à luz do interesse público, mecanismos hoje indispensáveis a tudo o que Cuiabá pode e deve projetar para a Copa e o Tricentenário. Mas, se não conseguimos vencer um toco, de que adiantaria sonhar com metrôs, monotrilhos, free-ways? Adianta sim, pois os sonhos é que nos farão superá-lo. Longe de considerar um problema simples, há que reconhece-lo em toda a complexidade de suas dimensões jurídicas, administrativas, políticas e de relacionamento entre poderes. Daí a importância de encará-lo imediatamente, com atenção especial. Não se trata de buscar culpados e nem de rebaixar qualquer instituição perante outra, mas de todos se dobrarem ao interesse público maior que lhes dá origem, focados unicamente na solução de um problema grave que interessa a todos. A partir do projeto urbanístico para a área e definidos os direitos das partes, que sejam então feitas as desapropriações necessárias, com a prefeitura cumprindo sua obrigação exclusiva do exercício do poder de polícia urbanística, sem o qual a cidade fica ingovernável e, sem governabilidade, só lhe resta o caos.
     Logo que surgiu esse entrave, ainda na primeira administração Roberto França, lembro-me do prefeito ter pensado em voz alta em um trator D-8 para resolvê-lo, decepcionado com a situação. Responsável, porém, ouviu sua Procuradoria, o IPDU (eu, então superintendente) e até um reconhecido “estopim-curto”, o estimado secretário de Obras da época, todos confiantes nos trâmites legais normais, certos de que logo o problema estaria resolvido, o interesse público vitorioso e as obras em andamento. Já se foi mais de uma década.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 21/07/2009)