"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

CIDADE, PLANEJAMENTO E ELEIÇÕES

        

       Cuiabá com Várzea Grande ao fundo.  (Imagem: saobenedito.com.br)

José Antonio Lemos dos Santos

     Chegam as eleições municipais de 2020 e com elas mais uma oportunidade para rever a maneira como são tratadas nossas cidades, em especial em Cuiabá e sua região metropolitana. Nestas ocasiões é bom relembrar que cidade é um objeto complexo e precisa sempre ser levada a sério. Ela é a maior e mais bem sucedida invenção do homem. Como invenção humana é construída e tem uma dimensão técnica, porém, como construção coletiva tem também uma dimensão política. Essas duas dimensões lhes são inalienáveis. A cidade não pode ser conduzida só tecnicamente ou só politicamente. Não dá para andar numa perna só, qualquer que seja ela, a não ser para o desastre. Como objeto em constante construção, toda cidade deve ter um projeto discutido nestas duas dimensões e consubstanciado no plano diretor de desenvolvimento urbano focado em um horizonte de planejamento de 20 a 30 anos, que se distancia à medida que nos aproximamos dele. Portanto, contínuo e sem data de conclusão.

     Infelizmente Cuiabá e a grande maioria das cidades brasileiras foram dominadas pela política, justo pela pior de suas vertentes, a política eleitoreira, que devia ser uma ferramenta de busca pela vontade democrática, mas que virou uma praga nacional. Com a complacência dos cidadãos leigos e especialistas, dentre estes me incluo, as cidades foram dominadas e deixaram de ser uma finalidade da política, passando a ser um meio, um balcão de negócios eleitoreiros no qual planos, leis e normas viram um estorvo ou oportunidades de negociação quanto a “flexibilidades” na sua aplicação. Enquanto o horizonte da política urbana é de no mínimo 20 anos, na política eleitoreira é de 2. Projetos com mais de 2 anos de maturação não interessam e o planejamento atrapalha porque limita o campo de barganha eleitoreiro. Por isso o Sistema de Desenvolvimento Urbano de Cuiabá criado pela Lei Orgânica do Município em 89 foi desativado, culminando com a extinção do IPDU, restando alguns poucos técnicos abnegados, sem os devidos suportes especializados. 

     Algumas cidades do Brasil conseguiram escapar dessa teia poderosa e perversa, e montaram um sistema de gestão urbana técnico e participativo, articulado e eficiente, que se consolidou à medida que os frutos foram sendo produzidos, ganhando a confiança, adesão e defesa crescentes da população. Sem querer simplificar, essa é a grande diferença de Curitiba, Vitória, Goiânia, e Campo-Grande, entre outras poucas. O duro é que Cuiabá começou a montar algo semelhante ao mesmo tempo que Campo Grande tendo aqui o ano do tricentenário como horizonte de planejamento, ou seja, 30 anos à frente, e até que as coisas evoluíram bem, mesmo nas administrações de linhas políticas diferentes que se sucederam, produzindo de forma democrática os principais planos e leis da cidade, projetos pontuais importantes e instrumentos de controle. 

     Só que aqui em Cuiabá a situação reverteu e a cidade institucional foi descolada da cidade real, justo quando está passando pelo seu momento econômico mais rico em oportunidades com o boom do agronegócio que polariza, os trilhos chegando e, bem como com os riscos da pandemia, que exigem respostas rápidas, articuladas e competentes.

     As cidades são do cidadão ou não são cidades e a cidadania precisa voltar a se sentir dona delas, que não é do prefeito, vereadores, governador ou do presidente, todos funcionários públicos a seu serviço. As eleições municipais estão aí para nomeá-los com o voto consciente da cidadania devolvendo a cidade ao seu legítimo dono, o cidadão. Cuiabá precisa voltar de novo seus olhos para o futuro, para projetos, obras e serviços públicos de qualidade, para a cidade que queremos, não só uma cidade grande, mas uma grande cidade, bela, gostosa, justa, verde, feliz, sustentável e rica em oportunidades para seus habitantes. 


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

RUÍNAS DO CENTRO HISTÓRICO

José Antonio Lemos dos Santos
     As lágrimas que caem a cada desmoronamento no centro histórico de Cuiabá, mesmo as dos crocodilos, não caem pelo patrimônio que se esvai, caem por nós. O que estamos fazendo com a história de Cuiabá, parte significativa da história do Brasil, faz lembrar John Donne, que conheci numa citação de Hemingway: ”A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”
     A história é antes de tudo a história dos homens que a protagonizam deixando marcas ao longo do tempo em suas diversas manifestações como arquitetura, pintura, música, literatura, tecnologia e outras que passam a ser consideradas a própria história que as gerou, tomando a obra pelo seu criador. Parafraseando Donne, a cada patrimônio perdido diminui cada cuiabano de coração, nato ou não, pois somos parte direta dessa história de Cuiabá. Daí, a dor e as lágrimas dos cuiabanos pela destruição acelerada de seu centro histórico pois é a destruição da história de cada um de nós e de todos nós, e um povo sem história morre, desaparece. Não pergunte, pois, por quem choramos, choramos por nós, pela nossa própria destruição, que acelera a cada eventual patrimônio que desaparece.
     O que seria a história presente se não a construção do futuro com as condições deixadas pelo passado? Ou, a história não seria o futuro chegando rapidinho, tornando-se presente e de imediato virando passado? Passado, presente e futuro são momentos diferentes de um mesmo fluxo, a história. Assim, chorar pela destruição da história é prantear também pelo presente e pelo futuro. Em especial no caso de Cuiabá pois seu maior patrimônio histórico é o futuro. Que outro motivo haveria para as gerações passadas sofrerem tanto isolados neste ermo do mundo, a não ser para legar ao futuro uma localização mágica, que hoje se revela privilegiada e estratégica no exato centro do continente sul-americano e centro de uma das regiões mais ricas do planeta? Daí o atual dinamismo vivido por esta cidade, iluminada pelo futuro que brilha à sua frente. Bem diferente de suas irmãs do ciclo do ouro transformadas em museus, Cuiabá segue viva em função do futuro que lhe foi legado. Falta-lhe compatibilizar o futuro com o passado, como fazem as melhores cidades do mundo. Sabem que cuidar do passado é promover o orgulho local e gerar renda e empregos de qualidade.
     Outro dia desmoronou a Gráfica Pepe, casarão de refinada arquitetura, queda anunciada e assistida por todos pois já há algum tempo a fachada se inclinava sob o peso do belo e autêntico frontão eclético, uma joia que foi caindo à vista de todos e caiu. Ano trasado foi a Casa de Bem-bem, peça rara da arquitetura colonial brasileira. Antes, a casa de Rolim de Moura, primeiro governador do estado e primeiro Vice-Rei do Brasil. Foram-se também as de Dutra e Murtinho. Foi-se o Palácio Alencastro, depois a Catedral e o sobradão do antigo PSD. Qual será o próximo? Talvez a Casa Orlando do último abastecimento do lendário Coronel Fawcett? O sobradão do Beco Alto? as casas de Generoso Ponce e Deodoro? A de Floriano nem se tem notícia.
     O mesmo acontece com a Arena Pantanal, moderna, mas não menos histórica, um edifício aclamado no mundo, palco para grandes eventos nacionais e internacionais, porém, criminosamente abandonada. E com ela vai o futuro que prometia, assim como o futuro prometido pela ferrovia, pelo gasoduto e termelétrica, pelo Porto Seco, pela internacionalização do aeroporto, pelos COTs da Copa e tantas outras potencialidades, tudo abandonado. E nós cuiabanos assistindo, quando muito choramos, lágrimas para nós mesmos. Até quando?


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O RESGATE DO FUTURO

Indústria do vestuário em Cuiabá (HiperNotícias)

José Antonio Lemos dos Santos   
     Em artigo de 1999 saudei a expectativa de que a virada do século impulsionaria Cuiabá a um terceiro salto de desenvolvimento, qualitativamente diferente dos anteriores. Na época à frente do IPDU da prefeitura, tinha a leitura de que em sua história Cuiabá havia dado dois grandes saltos de desenvolvimento. O primeiro chamávamos o “salto da sobrevivência” quando sobreviveu à exaustão do ouro, e o segundo, na última metade do século XX, quando a cidade deixa de ser fim de linha e passa a servir de apoio para a ocupação da Amazônia Meridional, o “portal da Amazônia”, quando a cidade decuplicou sua população. O artigo era um alerta pela preparação urbanística da cidade para esses novos tempos do novo século, hoje ainda mais válido.
     Com a ocupação o antigo “vazio econômico” passou a gerar riquezas em especial na agropecuária. Se Cuiabá centralizara uma grande região pouco produtiva, na virada do século passaria a ser o centro de uma região altamente dinâmica, de produção crescente e desafiadora. Ou seja, aquela região que por séculos foi protegida para os brasileiros e apoiada em seu desenvolvimento por Cuiabá, passaria a gerar um fluxo reverso de riquezas empurrando a cidade para cima dando origem então ao “terceiro salto” saudado naquele artigo de 1999 do ponto de vista de Cuiabá, mas válido também para o estado, duas faces de uma moeda.
     Porém a previsão do artigo para terceiro salto era mais ambiciosa com os megaprojetos que entusiasmavam todos na época e eram tidos como irreversíveis. O então governador Dante de Oliveira, saudoso estadista, anteviu a imensa produção primária estadual e buscou criar condições para sua verticalização dentro do próprio estado, viabilizando com seu prestígio nacional grandes projetos em especial nas áreas de transportes e energia, destravando o projeto da Ferronorte que cruzaria o estado do sul ao norte e hoje já estaria com seus trilhos nos portos amazônicos do Pará e Rondônia se não parassem a 5 anos em Rondonópolis, a continuidade da BR-163, a internacionalização e ampliação do aeroporto Marechal Rondon, com linha aérea funcionando para a Bolívia (depois perdida para Campo Grande). Na área da energia destravou Manso e viabilizou o complexo gasoduto/termelétrica, um audacioso projeto internacional de US$ 1,0 bilhão deixado em operação e hoje vergonhosamente paralisado. Lutou pela ecovia do Paraguai, por uma saída para o Pacífico e criou o Centro de Convenções do Pantanal.
     Após quase 20 anos, a euforia daquele artigo ficou pela metade. A parte referente à sociedade civil trabalhadora e empreendedora, superou as expectativas. Mato Grosso hoje é o maior produtor agropecuário do Brasil, com seu PIB crescendo 2 vezes o chinês e 10 vezes o brasileiro, puxando uma ampla cadeia produtiva. Mas a outra metade dependente dos governos e dos políticos foi decepcionante. Pior que não fazer é não concluir o que já estava começado e pior ainda é deixar desfazer o que já estava em funcionamento. A ferrovia parou por interesses menores, a ampliação do aeroporto ainda não foi concluída, o complexo gasoduto/termelétrica está desativado e o voo para Santa Cruz ficou para algum mês que vem, e que não vem nunca. A outra metade aguarda um quarto salto de desenvolvimento, o da verticalização.
     Cidadão, empresário e político já de uma geração de mato-grossenses fruto dessa história recente, o governador eleito sabe que Mato Grosso vem perdendo para outros a maior das riquezas que produz, os empregos de qualidade. A iminente condenação do estado a um celeiro desafia o novo governador a resgatar o futuro que já devia ter acontecido liderando a mais urgente das providências para Mato Grosso, o salto da verticalização e da qualidade de vida. Que Deus o ilumine.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O ROUBO DO FUTURO

Foto ATribuna
José Antonio Lemos dos Santos
     Foi noticiado no começo deste mês de julho que a União passará para a Vale do Rio Doce a construção de 383 quilômetros da Ferrovia de Integração Centro Oeste (Fico), ligando Água Boa (MT) a Campinorte (GO), onde se unirá a Ferrovia Norte-Sul, que nem funciona ainda. A notícia em si não surpreende pois tenho certeza que essa saída ferroviária vem sendo trabalhada por Goiás intensa e continuamente em Brasília. O que me impressionou foi a passividade com que foi acolhida por nossas autoridades e lideranças como se a logística de transportes não fosse uma questão vital e até mesmo dramática para o estado.
     Antes que alguns desvirtuem a conversa, adianto que não sou contra a Fico; sou contra terem amputado a Ferronorte em Rondonópolis para fazê-la. Não sou contra a ferrovia chegar à Água Boa, muito pelo contrário, entendo que a redenção de Mato Grosso é abrir caminhos com rodovias, aerovias, hidrovias, ferrovias, dutovias, infovias,  servindo todas suas regiões. Como mato-grossense desejo que isso aconteça o mais rápido possível para levar nossa produção aos mercados do mundo de forma sustentável e competitiva, trazer o desenvolvimento com mercadorias, insumos, máquinas, etc. a menores custos em favor da qualidade de vida em Mato Grosso, bem como proporcionar a circulação interna da produção local, irrigando a economia, gerando empregos e renda aqui e não fora. Aliás, por isso mesmo protesto desde 2009 contra a paralisação do traçado da Ferronorte em Rondonópolis, o maior terminal ferroviário da América Latina operante a apenas 460 Km de Nova Mutum, polo de uma das áreas mais produtivas do agronegócio nacional, passando pela Região Metropolitana de Cuiabá, o maior centro consumidor e distribuidor de mercadorias e de bens e serviços diversos do estado, e seu maior contingente de mão-de-obra.
     Será que ninguém está vendo que fazer primeiro essa saída para Goiás é desviar nossa principal riqueza para o estado vizinho, para “abastecer com carga a Ferrovia Norte-Sul no trecho entre Porto Nacional e Estrêla d’Oeste em São Paulo”, como diz a notícia? Admiro Goiás e Mato Grosso do Sul, planejando o futuro buscando a verticalização de suas economias em seus territórios gerando emprego e renda para seus cidadãos. E repara bem, do jeito que vai, a produção de Mato Grosso logo será beneficiada por seus vizinhos.  O gasoduto abandonado, a Termelétrica parada, a internacionalização do aeroporto, a hidrovia do Paraguai e a ZPE de Cáceres enroladas, o trem parado em Rondonópolis desde 2013, tudo isso forma um emaranhado que condena o futuro de Mato Grosso e das gerações vindouras a papeis de produtores de matéria-prima e exportadores de empregos de qualidade.
     A propósito, no final do ano passado aconteceu em Nova Mutum, por iniciativa de seu prefeito, um fórum sobre a ligação ferroviária daquela cidade a Rondonópolis passando por Cuiabá, com a presença do governador de Mato Grosso, do presidente do BNDES e do presidente da Rumo, empresa que detém a concessão do trecho, e todos foram enfáticos em defender a obra como a melhor das alternativas para Mato Grosso, e prometendo inclusive providências.  Mas pelo que foi noticiado este mês parece que o pessoal responsável pela logística ferroviária em Brasília tem outros planos para Mato Grosso. Ou para Goiás?
     Depois do grande esforço que vem dos anos 70 em planejar e implantar a ocupação produtiva do território mato-grossense, veio a vez de colher as safras com fartura e qualidade crescentes. Mas esse tempo passou e agora é a vez não só de colher, mas também de transformar a rica matéria prima gerada com tanto sacrifício e sucesso pelo produtor de Mato Grosso em renda e empregos de qualidade. Aqui!



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

MARAVILHAS EM RISCO (2)

Campo Novo do Parecis (MidaNews)

José Antonio Lemos dos Santos
     O presente é o futuro que chegou rápido, passou depressinha e virou passado. Ainda me lembro lá por 77 ou 78 em um banco à frente a de um hotel de madeira em Sinop ainda embrionária, conversando com o saudoso dr. Fernando Sarmento, ele então técnico da Funasa e eu da Sudeco. Flamenguista doente, enquanto ouvia um jogo de seu time entre os chiados de um Transglobe, já falava da iminência da febre amarela silvestre chegar às cidades brasileiras. Pois, não é? Ela está aí.
     Se 4 décadas passam rápido para um jovem sessentão como eu, imagina para as cidades, que a princípio nascem eternas embora haja tantas “cidades-fantasma” pelo mundo. Aqui em Mato Grosso não as conheço. Sei de algumas estagnadas vivendo um momento de reinserção na lógica produtiva da rede urbana mato-grossense. Muito ao contrário, a rede urbana do estado vem bombando com a explosão produtiva do agronegócio e toda sua cadeia produtiva, desde o serviço médico de alta especialização na capital até os fardos enrolados de algodão nos campos à espera do transporte. Voltamos neste artigo às belas cidades originárias do agronegócio que temo possam não repetir o mesmo bem sucedido desempenho destes seus primeiros aproximadamente 40 anos de existência em termos de padrões urbanísticos e de qualidade de vida.
Sinop (HiperNotícias)
     No artigo anterior lembrei o óbvio de que as cidades não nascem “no pé”, elas são uma invenção do homem e, portanto, objetos técnicos construídos cotidianamente pelos seus moradores. Precisam de um plano para chegarem a um conjunto harmônico. Justamente por terem o planejamento inicial das colonizadoras, ainda que comercial, as nossas maravilhas tiveram um grande diferencial favorável. Nasceram bem-nascidas. Mas os planos sempre têm um horizonte de durabilidade, por isso precisam ser contínuos para que esse horizonte siga sempre avançando mantendo a validade do planejamento. Nossas maravilhas estão no limite do que foi planejado por seus idealizadores e, com o gerenciamento técnico das colonizadoras sendo substituído pelo gerenciamento político, as estruturas técnicas de planejamento e controle originais não mais existem para dar continuidade ao sucesso alcançado. Elas agora crescem ao sabor da política e é preciso voltar a pensar tecnicamente o futuro das cidades, como os pioneiros fizeram.
Campo alagado (DeOlhoNoTempo)

     Cidades com histórico de desenvolvimento acelerado e alto potencial para seguir nesse mesmo ritmo ou maior, não podem esperar 10 anos para rever seus Planos Diretores de Desenvolvimento Urbano, prazo máximo determinado pelo Estatuto da Cidade. Elas têm que ser planejadas, monitoradas e avaliadas a cada dia, em busca da cidade sustentável, compacta, densa e diversificada preconizada pelo urbanismo contemporâneo. 10 anos podem ser uma eternidade irreversível para elas. O espraiamento urbano tem que ser evitado, sob pena das gerações futuras arcarem com elevados custos operacionais per capita por conta de onerosas e subutilizadas redes de água, energia, pavimentação, transporte, coleta de lixo, etc. em especial nas cidades em sítios planos. Estas, com seus problemas de escoamento de águas e esgotamento sanitário que precisam ser equacionados desde já, devem evitar a ampliação das áreas urbanas e a consequente ampliação das bacias de drenagem usando instrumentos como os da edificação compulsória, IPTU progressivo e até a verticalização. Adensar evitando vazios intersticiais, parece ser um objetivo valioso a ser resgatado dos colonizadores. Basta dar uma olhada no Google Earth para observar loteamentos, condomínios e até ocupações irregulares a quilômetros dos centros históricos. O exemplo dos pioneiros deve ser seguido, agora urbanisticamente, pensando a cidade daqui a 40 anos. Passa rapidinho.
(Publicado em 06/11/17 pela FolhaMax, em 07/11/17 pelo Diário de Cuiabá, Midianews, PáginaDoEnock, ArquiteturaEscrita,....)



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MONUMENTOS ILUMINADOS



 José Antonio Lemos dos Santos

     No Dia das Crianças estive na Arena Pantanal com meu filho e netos de Brasília. A Arena estava com sua máscara solar iluminada como deveria estar todas as noites. Ainda que a iluminação estivesse com algumas falhas estava maravilhosa como uma nave extraterrestre pousada em solo cuiabano. Lembrou aquele contato imediato de primeiro grau imaginado por Spielberg em seu filme da década de 70. Meu filho ficou impressionado com o número de pessoas presentes e, inclusive temeroso quanto a possibilidade de um acidente com tanta gente trotando, correndo, andando de skate, patins, bicicletas e quadriciclos em comboios com famílias inteiras felizes, distantes da tradicional e nociva combinação de tv, sofá, pipoca, pizza, cerveja e refrigerante dos lanches de domingos e feriados, que vão nos matando aos poucos.

circuitoMT

     A iluminação de monumentos urbanos é uma prática comum na maioria das cidades do mundo. Destacados com a iluminação não só afagam o ego dos locais como propiciam pontos de encontro agradáveis, e são capazes inclusive de atrair turistas gerando empregos formais e informais, renda e cultura para a população local. Assim são tratados edifícios significativos, estátuas, fontes, obeliscos embelezando e encantando os moradores e visitantes. Sei que alguns contestarão de pronto argumentando que nós precisamos é de hospitais, cadeias, tratamento de esgoto, acabar o aedes aegypti, etc. Penso, entretanto que só trataremos corretamente as mazelas do passado numa perspectiva positiva de construção do futuro. Se ajoelharmos para consertar erros do passado, ficamos de costas para o futuro e não cuidamos nem do passado nem do futuro. Como vem acontecendo. Apesar das tentativas de alguns governantes, dirigir pelo retrovisor nunca dá certo.


     E temos alguns belos exemplos em Cuiabá mesmo, as igrejas do Rosário, do Bom Despacho e Santuário da Auxiliadora quando iluminadas encantam a todos, aos daqui e aos turistas. E como ficou fascinante a igreja do São Gonçalo, no Porto, com o seu Redentor de 3,6 metros recém iluminado a 40 metros de altura. Teria ainda os mastros da Praça da Bandeira, a torre da TVCA e não me lembro de outro. Mas poderiam existir. Um deles é a Ponte Sérgio Mota. É um crime que ela não seja iluminada feericamente. Trata-se de uma edificação monumental de grande beleza e riqueza técnica, pioneira no Brasil nesse tipo de tecnologia. Um cartão postal da cidade desprezado, a nossa Hercílio Luz abandonada. Uns dizem que está assim só porque foi outro que fez.
     Aos que questionam a prioridade de equipamentos que permitem à população a fruição do belo, atividades esportivas e de lazer, gosto de perguntar se têm a ideia de quanto é poupado por ano ao sistema público de saúde pelos bonitos parques urbanos de Cuiabá, inclusive a Arena com sua praça, trazendo satisfação e alegria, que também significam saúde. E à segurança pública também pois a juventude passa ter outras alternativas que não as drogas e a violência para o exibicionismo juvenil, tão naturais nessa faixa etária.
     Outros exemplos que poderiam ser destacados na paisagem cuiabana seriam o obelisco da Praça do Porto, uma homenagem de Corumbá nos 50 anos de sua retomada pelos cuiabanos. O obelisco do Centro Geodésico marcando o centro do continente, o Palácio da Instrucção, o Palácio Alencastro e a catedral metropolitana depois de reformados, o antigo Grande Hotel, a igreja da Boa Morte e Senhor dos Passos e os velhos casarões em restauração pelo IPHAN. Não poderia esquecer o monumento deixado na cidade pela FIFA, uma grande bola  lembrando a Copa 2014 que teve Cuiabá como uma de suas invejadas sedes. Talvez o Tricentenário os ilumine, a eles a aos nossos mandatários.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

CIDADES E PEPINOS

Campo Novo do Parecis - midianews

José Antonio Lemos dos Santos

     Minha avó quando a gente era criança e precisava de um corretivo dizia para minha mãe: “Olha, é de menino que se torce o pepino”. Visitando o Google soube que esse conselho vem dos agricultores buscando conseguir a forma mais valiosa para o legume. É clara então a intenção carinhosa e cuidadosa da transposição dessa sabedoria popular para o desenvolvimento das crianças. Gosto de aplicá-lo também nas explicações sobre o desenvolvimento das cidades. As cidades também evoluem. Apesar de óbvio, muita gente pensa que nascem prontas e assim permanecerão para sempre, esquecendo que elas nascem, evoluem, podem estagnar ou até definhar, e morrerão um dia, como muitas já morreram.
     A calamidade que se abateu sobre Campo Novo do Parecis além de ter comprovado o espírito de solidariedade do mato-grossense, deve também motivar reflexões sobre a evolução urbana em Mato Grosso. Um estado com desenvolvimento acelerado tem muitas de suas cidades com ritmos extraordinários de crescimento que implicam em acompanhamento técnico sistemático, seja no quadro macro do estado, seja pontualmente no âmbito de cada município. Não conheço pessoalmente Campo Novo, mas preocupam sempre os sítios urbanos muito planos por suas dificuldades de drenagem, com é caso de algumas das belas cidades geradas pelo agronegócio, em regiões planas ótimas para a agricultura extensiva, mas exigentes em termos de urbanismo.
     O fato de serem muito novas ou não, não importa. Todas precisam de cuidados técnicos especializados para cuidar do presente e do futuro, preservando seus DNAs históricos. Há aqueles que dizem que as cidades mais velhas não têm mais jeito. Para estes cabe a pergunta, se fosse assim o que dizer de Londres, Amsterdã, por exemplo? E para as novas, dizem que não precisam pois são muito pequenas e já foram planejadas na origem. Para estes, o ensinamento do cultivo do pepino.
     De fato, a grande maioria das nossas cidades novas nasceu de processos de colonização e contou no mínimo com um traçado pensado com antecedência e, principalmente, com uma gestão da ocupação do solo urbano racional, o qual, ainda que com origem empresarial, deu a estas cidades uma cultura do controle urbano, das vantagens de se respeitar uma autoridade que cuide da cidade como um todo coerente e ordenado. Este para mim é maior patrimônio delas e que não pode ser perdido. Hoje elas são autônomas, em 2 ou 3 décadas cresceram tanto que já estão chegando nos limites daquele planejamento original e algumas até já ultrapassaram. Como resultado desse processo temos cidades magnificas, com elevados padrões urbanísticos e de qualidade de vida.
     O melhor e o pior é que além do grande dinamismo elas apresentam um potencial de crescimento futuro fantástico. O lado bom é que esse é o desejo da maioria das cidades. O lado ruim é o risco da recém conquistada autonomia leva-las de uma gestão empresarial bem sucedida aos braços da politicalha que domina o cenário urbano brasileiro e ao faroeste urbano. Até aqui, maravilha, todo mundo encontrou seu melhor lugar no sítio urbano pré-planejado, e temos cidades exemplares. E quanto ao futuro? Ultrapassados os limites do planejamento original, como garantir que estas cidades continuem belas, bem estruturadas e capazes de oferecer altas qualidades de vida?
     A resposta está no que as fez exitosas, o planejamento, um planejamento sistemático e contínuo, com estruturas técnicas permanentes capazes de segui-las dia a dia oferecendo alternativas técnicas de futuro e, sobretudo, criando uma cultura urbanística própria, conhecendo seus trejeitos e especificidades, pois as cidades são únicas, incomparáveis em suas potencialidades e em seus problemas.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

2016, O ANO NECESSÁRIO

uol- charge Mariano

José Antonio Lemos dos Santos

     O arquiteto e urbanista em sua essência tem que ser antes de tudo otimista e esperançoso. Otimismo e esperança são características inseparáveis a quem baseado no presente trabalha com o futuro, aquilo que ainda não existe, sempre na perspectiva de que um dia venha a existir. Não pode ser aliado do pessimismo e da desesperança, senão, qual a graça em trabalhar o futuro? Entretanto, refletir sobre 2016 e as perspectivas para 2017 coloca a prova qualquer estoque de otimismo e de esperança. É pouco o esforço que faço a cada artigo para escoimar os aspectos negativos e ficar só com os positivos, como o trabalho de um garimpeiro apurando o cascalho para ficar só com o que é precioso.
    2016 foi um ano duríssimo. A lembrança que não me foge à cabeça é a de um furúnculo. Lembram de furúnculo? Palavra feia que não se fala mais e era tão comum na minha infância. As crianças do meu tempo tiveram pelo menos um. Não se podia comer alimentos “quentes”, que hoje corresponderiam a “muito calóricos” e, então eram proibidos chocolate, manga e, até, bocaiuva! Inchava, doía, mas o pior era o tratamento feito em casa mesmo: espremer para sair o pus, enfiar no buraco uma gaze, colocar um emplastro quentíssimo, mercúrio cromo ou iodo banhando tudo e depois encher com um pó famoso na época. Por fim, muita gaze e esparadrapos, concluindo a obra. Demorava semanas. A dor e a aflição no tratamento eram terríveis, mas, absolutamente necessário enfrentar. E tinha um tipo pior ainda de furúnculo que era chamado de “antraz”. Barbaridade! A notícia boa é que nunca soube de alguém que tenha morrido dessas coisas, só agora no Google.
     2016 foi um ano duríssimo no qual o Brasil começou a tratar o mal que o atormenta a décadas, séculos talvez, o furúnculo da corrupção, que, lhe rouba energias que deviam ser dirigidas ao bem-estar e à qualidade de vida de seu povo. Como nos humanos o tratamento é cruel, aflitivo e doloroso, dando ideia de não acabar nunca. Mas é necessário e tem que ir até o fim, como nos antigos furúnculos. O pior, porém, é que os furúnculos lá no fundo tinham um tal de “carnegão” que precisava ser extirpado totalmente, senão não curava de verdade e voltava. O emplastro quente era para “puxar” o tal carnegão para cima e, à medida que ia subindo a técnica continuava sendo espremer até sair tudo, por isso o tratamento demorava tanto.
     No caso do Brasil, não há dúvida que chegamos ao “carnegão”. Ou será que não? Faz tempo que falamos ter chegado ao fundo poço, e no entanto, o poço sempre era mais profundo. Mas agora parece que atingimos o cerne, o núcleo duro do poder político corrompido, do carnegão nacional. O tratamento é aflitivo, cruel e demorado, mas necessário e tem que ir lá no fundo usando o emplastro quentíssimo das delações premiadas para depois espremer à medida que o mal aflore até extirpá-lo na totalidade, em todos os setores e todos os partidos, espremidos com as unhas poderosas da Justiça.

     Em 2016 o bem e o mal vieram juntos. O maior mal nacional foi a descoberta unânime do estágio avançado do furúnculo da corrupção no país, que sempre foi de existência conhecida, mas ninguém supunha sua real extensão, por sinal ainda desconhecida em sua totalidade. O bem maior foi que a nação não teve medo de enfrentar a crueldade da cura, e parece disposta a levá-la até o fim, ainda que existam setores poderosos que pretendam interrompê-la. Que o Brasil continue seu tratamento por mais cruel e sofrido que seja, arrancando o carnegão até as raízes. Só assim restará a esperança de um Brasil novo e em dias melhores para nossos filhos, netos e gerações futuras. Ainda que dura, esta é a mensagem possível de otimismo e esperança para 2017.
(Publicado em 30/12/16 pelo MidiaNews, PáginaDoEnock, NaMarra,Arquitetura Escrita, PoconéOnLine, BlogDoLúcioSorge, JornalDoNorteAraguaia, em 31/12/16 pelo DiárioDeCuiabá, em 02/01/17 pelo CAU-MT, ...)

COMENTÁRIOS:
No MidiaNews:
JOSÉ GONÇALVES  30.12.16
"Pois é sr. José....tem uns inocentes que só descobriram isso agora....eu ja sabia disso a muitos governos atras."

sábado, 7 de novembro de 2015

QUEM PÔS FOGO NA ARENA?

copadomundo.uol.com.br

José Antonio Lemos dos Santos

     Acompanho pelo noticiário a CPI da Copa na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Desde quando aventada ainda como uma possibilidade distante e incrível sempre fui entusiasta da Copa do Mundo em Cuiabá por vários motivos, dentre eles a oportunidade de investimentos públicos e privados concentrados no tempo em montante que de outra forma jamais se veria pelas próximas décadas ou gerações, a oportunidade de divulgação da cidade e do Estado em uma vitrine global de massa e pela chance de elevação da autoestima do cuiabano, sempre pacato e descrente de sua força e de seus valores. Passada a Copa sigo entusiasmado, as oportunidades apareceram, muitas foram aproveitadas, embora nem todas e nem da melhor maneira, deixando um legado positivo e ao menos um grande desafio a ser viabilizado: o VLT. O evento em si foi um êxito grandioso, como mostram os arquivos dos sites noticiosos locais, nacionais e estrangeiros, contrariando os que torceram, jogaram contra e até apostaram em Cuiabá como a vergonha da Copa. 
     Não sou de ficar olhando para o passado, principalmente em busca de coisas negativas. O arquiteto trabalha sempre com a construção do futuro e o passado só lhe interessa como ingrediente indispensável nessa construção. Buscamos no dinamismo do presente as potencialidades do futuro, imaginando transformá-las em qualidade de vida. Debruçados sobre o passado ficamos de costas para o futuro. Os problemas do passado precisam ser consertados sim, mas para isso tem bastante gente especializada e bem paga, inclusive para denunciar e punir quem mereça ser punido. Daí a importância de ferramentas como as CPIs.
     A Copa, porém, me deixou uma pulga atrás da orelha: quem pôs fogo na Arena Pantanal no dia 25 de outubro de 2013? Não fosse a destreza do nosso valoroso Corpo de Bombeiros a Copa do Pantanal não se realizaria. Se aquele incêndio fosse um pouco mais prolongado comprometeria a estrutura de seu principal palco, já quase pronto e na qual o povo mato-grossense estava investindo mais de R$ 600,0 milhões. Não haveria tempo para reparos. O inquérito policial concluiu que o incêndio foi criminoso. Mas ficou por isso. Esquecido. Quem foi?
     Era esperado que Cuiabá por ser a menor e a menos preparada das sedes fosse enfrentar muitas dificuldades, a começar pela grandeza da empreitada em obras, envolvendo complexidades técnicas, burocráticas e até da oposição política local que não aceita “azeitona na empada dos adversários”. Mas jamais se poderia imaginar que fossem tantas, muitas ancoradas em grandes órgãos nacionais de notícias e defendidas por alguns comentaristas esportivos de prestígio. É certo que a escolha de Cuiabá entre as 12 sedes da Copa do Mundo contrariou poderosos interesses que por algum tempo ainda acreditaram e trabalharam na possibilidade de sua reversão. Até que ponto esses interesses poderiam ir? O fogo tem algo a ver com o ardil montado em nível nacional com a grosseira comparação entre preços de cadeiras diferentes anunciada com estardalhaço a 2 meses do último prazo para a entrega da Arena à FIFA? Também seria para inviabilizar a Copa do Pantanal? 
     O desenvolvimento extraordinário de Mato Grosso nas últimas décadas vem lhe permitindo avançar em projetos e reivindicações inimagináveis há pouco tempo, comparecendo como novo e incômodo protagonista no jogo de forças do tradicional equilíbrio federativo. A Copa do Pantanal pode ter sido uma dessas vitórias diante de outros estados mais tradicionais. Outras legítimas disputas e novas vitórias virão com certeza para Mato Grosso, agora em novos níveis enfrentando interesses sempre mais poderosos. O esclarecimento do incêndio na Arena Pantanal pode ajudar o Estado nesses seus novos tempos. 
(Publicado em 06/11/2015 pelo Midianews, Página do Enock, CAU-MT e no dia o7/11/2015 pelo Diário de Cuiabá ...)


quarta-feira, 8 de abril de 2015

CUIABÁ 300-4

brasilcidade.com.br

José Antonio Lemos dos Santos

     Desde o anúncio da sede da Copa em Cuiabá tenho repetido cada vez mais convicto que esse grande evento foi um artifício do Senhor Bom Jesus para um choque em nós cuiabanos fazendo-nos entender os novos tempos que a cidade vive e, assim, prepará-la condignamente para o seu Tricentenário. Com a Copa Cuiabá voltaria os olhos para o futuro, discutindo projetos e melhorias em seus padrões urbanísticos. Minha grande expectativa de legado da Copa era que uma vez forçada a voltar-se para o futuro e concluídas as obras Cuiabá permanecesse para sempre nessa postura, emendando de imediato com uma nova matriz de projetos, compromissada agora não mais com a FIFA, mas com o tricentenário, compromissos do cuiabano com sua cidade, do mato-grossense com sua capital, do Brasil com a cidade baluarte da expansão ocidental de seu território. Que nada! Passada a Copa, o futuro sumiu de novo de nossa frente atolados que ficamos em obras importantes, mas inconclusas, mal feitas, suspeitas de corrupção, que precisam, é claro, ser concluídas, corrigidas, inclusive, com a punição dos que erraram tecnicamente ou que tenham se aproveitado indevidamente desta oportunidade histórica de investimentos para a cidade. E - por que não? – também aplaudir os que, limpos, conseguiram fazer muita coisa que hoje já ajuda a cidade, apesar das imensas dificuldades técnicas, burocráticas e políticas. 
     Neste 8 de abril de 2015 comemoramos os 296 anos de Cuiabá, a apenas 4 anos de seu tricentésimo aniversário. Aprendemos com a Copa, ou devíamos ter aprendido, que 5 anos é prazo curto para intervenções significativas na cidade, ainda que pontuais. 4 anos é menos ainda. Meu temor é que só na véspera da festa nos preocupemos com ela, sem ter então como fugir da ideia de um bolo de trezentos metros ou quilos lambuzando o Jardim Alencastro e dos indefectíveis concursos para logotipo, garota, samba, rasqueado ou lambadão, para símbolos daquela que deve ser a grande data de Cuiabá no século.
     Comemorar os 296 anos é exaltar uma cidade que nasceu entre as pepitas de um corguinho com muito ouro, tanto que era chamado pelos nativos de Ikuiebo, Córrego das Estrelas, que desembocava em um belo rio em meio a grandes pedras chamadas Ikuiapá, lugar onde se pesca com flecha-arpão em bororo. A cidade floresceu bonita, célula-mater do Oeste brasileiro, raiz de tudo neste “ocidente do imenso Brasil”, mãe de cidades e Estados. Por quase três séculos sobreviveu a duras penas, período heroico que forjou uma gente corajosa e sofrida, mas alegre e hospitaleira, criadora de um dos mais ricos patrimônios culturais do Brasil e com proezas que merecem melhor tratamento da história oficial brasileira. Como um astronauta moderno, vanguarda humana na imensidão do espaço, ligado à nave só por um cordão prateado, assim Cuiabá sobreviveu por séculos, solta na vastidão centro-continental, ligada à civilização apenas pelo cordão platino dos rios Cuiabá e Paraguai. 
     Próxima de completar seus 3 séculos de existência, Cuiabá polariza hoje uma das regiões mais produtivas do planeta que ajudou a ocupar e desenvolver, esta que agora a empurra para cima demandando serviços de sofisticação crescente em sadio processo de simbiose regional. Aos 296 anos, Cuiabá vibra em dinamismo, globalizada e provinciana, festeira e trabalhadora. Com gente nova e competente no assunto na prefeitura e Estado, nos 4 anos restantes talvez ainda dê para ao menos revitalizar seu centro histórico, presenteando a cidade com seu velho coração totalmente remoçado e pulsante na metrópole que se firma cada vez mais bela no coração continental, buscando também ser cada vez mais justa, democrática e sustentável. Mas tem que ser já. Viva Cuiabá! 
(Publicado em 07/04/2015 pelo Diário de Cuiabá e Midianews, informativos CAU/MT e UNIC)
COMENTÁRIOS:
No Midianews:
"Elias Neves  07.04.15 17h48
No apogeu das obras o "nobre" professor José Antônio sempre parabenizava os eficientes projetos e a condução das obras. Resumindo: poupe-me pelos seus cabelos brancos."

"José Maria  07.04.15 16h21
Parabéns ao José Lemos por mais uma bela narrativa. Particularmente, acho que não temos o que comemorar nos 296 anos de aniversário desta cidade que tantos amamos, uma vez que várias oportunidades foram desperdiçadas com a Copa do mundo. Espero que ao menos no aniversário de 300 anos tenhamos muitas coisas a se comemorar, não apenas no aspecto urbanístico, mobilidade urbana, mas principalmente em saúde, segurança, educação."
"marcos  07.04.15 22h43
Prezado amigo.Continue a apresentar sua idéias, as quais considero necessárias na falta de presença de outros articulistas cuiabanos.Na verdade não temos um projeto para Cuiabá, que possamos chamar de nosso.Os críticos de primeira hora são os mesmos.Não tem a visão de futuro que precisamos para nossa cidade.Para que isto aconteça necessitamos de mentes preparadas e motivadas, como a sua. Do amigo Marcos Vinícius"

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

DA COPA AO TRICENTENÁRIO

José Antonio Lemos dos Santos
     O presente é o futuro que acabou de passar e virou passado. Rapidão, a Copa do Mundo já passou em termos de planejamento. Tudo o que tinha que ser feito ou dava para ser feito já devia ter sido planejado. Se ainda não foi tem que sê-lo já, mas atrasado. Agora é executar, concluir, fazer os acabamentos, treinar procedimentos, testar sistemas, e fazer a festa da melhor maneira possível, agregando o máximo que o grande evento possa trazer para a cidade e sua gente.
     Ainda que nos limites de seus cronogramas, existem diversos projetos que avançam a tempo da Copa, sem que por isso deixem de preocupar. Mas ainda tem diversos outros, essenciais ao funcionamento da Copa, que vão exigir dos cuiabanos muita cobrança às autoridades para que fiquem prontos a tempo. Destes, lembro os Centros Oficiais de Treinamento. Sem eles as seleções não terão onde treinar nos dias que permanecerão na cidade. O estágio de suas obras atemorizam. Só para a grama ficar em condições é preciso 90 dias. Situação de alarme, também na Avenida da FEB e seu viaduto com a Orlando Chaves. Ao menos esse trecho tem que estar tinindo de bonito para a chegada dos visitantes. Seu ritmo de obras também apavora. Preocupa ainda o Fan Park, bela criação da Fifa para deixar um amplo espaço urbano como lembrança positiva da Copa nas cidades onde acontece, a ser usado depois como parque ou generosa praça de eventos e lazer. Até agora nada. Sem cobrança dura, vai ficar uma área malemá coberta com brita, como nos estacionamentos improvisados da maioria de nossas grandes festas públicas. Poeira, desconforto e vergonha. A cidade tem direito a essa lembrança urbanística. Quanto ao mais singular potencial turístico da cidade, até hoje não vi nada referente ao Centro Geodésico. Só Cuiabá tem. Embora não essencial à Copa os turistas adoram esses lugares únicos, e seria imperdoável aos cuiabanos não exibi-lo com orgulho.
     Mas o planejamento vive do futuro e a Copa já é passado. Tenho repetido que essa bem vinda Copa foi um artifício do Bom Jesus de Cuiabá para sacudir e sintonizar seus conterrâneos no novo tempo de desenvolvimento que sua terra vive, preparando-a para o Tricentenário, a grande efeméride cuiabana no século. O pique de transformações trazido pela Copa não pode parar com a conclusão do evento, pois, na verdade esse é o pique da cidade que hoje centraliza uma das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta, e não vai parar. O diferencial da Copa é que ela trouxe o desafio de investimentos públicos e privados em valores jamais vistos pela cidade, concentrados em curto e improrrogável prazo, e não mais cairão do céu. O próximo desafio é mantê-los em patamares próximos, pois a cidade e o estado ainda demandam grandes investimentos, recursos que o mato-grossense produz com sobra e tem direito de exigir. Mostrando que quando se quer, faz, a Copa destruiu o antigo álibi da pobreza, desculpa sempre usada pelas autoridades brasileiras para deixar de fazer o que o povo precisa.
     Para manter o pique é preciso uma nova meta que seja de todos, com prazo fixo e improrrogável como foi a Copa. E essa nova meta salta da história, o Tricentenário de Cuiabá, com letra maiúscula das efemérides, em 2019, daqui a apenas 5 anos. É preciso gerar uma nova matriz de responsabilidade não com a FIFA, mas do cuiabano com sua cidade e do mato-grossense com sua capital. Restará ainda muita coisa da Copa a ser concluída, e muitos novos projetos para desenvolver e executar até tricentésimo aniversário. Nenhum presente será melhor para Cuiabá em seus trezentos anos do que ela própria elevada a novos patamares de urbanismo e civilidade, arranjo iniciado 10 anos antes, em 2009, assim que a cidade ganhou a sede da Copa do Pantanal.
(Publicado em 28/01/2014 pelo Diário de Cuiabá, Midianews, RepórterMT, Página do Enock, Blog do José Lemos, ...)



O pres

terça-feira, 3 de setembro de 2013

ORLA CUIABANA

g1.globo.com

José Antonio Lemos dos Santos

     No último dia 27 o prefeito de Cuiabá apresentou amplo projeto destinado a revitalizar urbanisticamente a região da Beira-Rio no antigo bairro do Porto. Sem entrar no mérito do projeto técnico que sempre envolve pontos sujeitos a questionamentos e ajustes, inclusive de ordem ambiental e de patrimônio histórico, no geral gostei da proposta, pois significa que a atual administração assumiu posição em direção ao futuro, propondo-se a projetos que desenvolvam as potencialidades da cidade. Cuiabá é uma jovem de 300 anos que tem um passado riquíssimo, um presente altamente dinâmico, mas que também tem um futuro extraordinário a ser desenvolvido. Centralizando uma das regiões mais dinâmicas do planeta e vivendo sob a alta pressão positiva das demandas regionais, Cuiabá tem no equacionamento de suas perspectivas e potencialidades de futuro a única alternativa de desenvolvimento sustentável e seguro, inclusive, de solução de suas carências atuais, entre estas o respeito e a valorização do passado. 
     Parece ser uma decisão fácil, mas não é. Projetar o futuro implica em escolhas, priorizações e decisões que de um modo geral implicam em polêmicas. Nunca agrada a todo

mundo. Fingir que está tapando buracos, apagando incêndios é muito mais fácil, pois passa a ideia de um governo trabalhador, que arregaça as mangas, quando na verdade está apenas enxugando gelo, jogando para a plateia, não resolvendo os problemas do presente e deixando escapar as potencialidades do futuro. E Cuiabá tem muitas potencialidades a ser desenvolvidas diretamente pela prefeitura ou cobradas por esta à outras instâncias de governo ou mesmo à iniciativa privada. Sua centralidade regional talvez seja a mais importante, o lugar mágico cujas enormes vantagens comparativas a impulsionam para cima. Potencializada renderia muito mais, sem risco de ser perdida para outros polos que trabalham nesse sentido. A Copa do Pantanal é a potencialidade mais urgente e a vontade do prefeito em concluir o Projeto Porto até a Copa é também um sinal de que a prefeitura finalmente assumiu o mega evento, até então meio desprezado pelo município. Temos ainda o Centro Geodésico da América do Sul, o gás natural abundante, o Porto Seco, o aeroporto internacional, a convergência de 3 BRs, a barragem de Manso com suas múltiplas finalidades, a ferrovia a 200 km e, em breve, uma das poucas arenas do país, viabilizadora de grandes eventos nacionais e internacionais. 
     O rio Cuiabá é uma das maiores potencialidades da cidade, neste caso oferecida de graça pela natureza, como o Coxipó e os 21 córregos que a cortavam irrigando o verde, distribuindo frescor e enriquecendo a paisagem. O rio Cuiabá é o maior equipamento urbano da Grande Cuiabá, bem ao centro da região metropolitana, de uma imensa potencialidade abrangendo história e cultura, o abastecimento alimentar, tanto de peixes como de água, saneamento, composição climática e paisagística, fauna, flora, turismo, bem como o lazer ativo e contemplativo para todos os gostos, do popular ao sofisticado.
     Incrível mas a cidade virou as costas para essa imensa riqueza. O rio precisa ser resgatado em sua integridade, não só por Cuiabá, mas também por Várzea Grande. Não se trata de tarefa fácil, mas é possível e não pode ser esquecido que algumas boas tentativas já foram feitas ao menos desde a década de 70 com a própria implantação da Beira-Rio, também corajosa e polêmica à época. A descontinuidade administrativa tem sido o principal obstáculo. A cada abandono o retrocesso é imenso. Como assegurar que este projeto uma vez implantado seja cuidado e respeitado com o mesmo carinho pelas administrações posteriores? 

(Publicado em 03/09/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 30 de abril de 2013

CUIABÁ E A COPA



José Antonio Lemos dos Santos

     Às 20h de hoje, 30 de abril, será lançado no Sesc-Arsenal o livro “Cuiabá e a Copa - A preparação”, reunindo meus artigos sobre os primeiros 40 meses da Copa em Cuiabá, publicados desde fevereiro de 2009 quando da primeira visita oficial da comissão da Fifa para escolha das sedes do Mundial de 2014, até junho de 2012 quando passam a faltar 2 anos para o primeiro jogo da Copa do Pantanal. Contente com o Dutrinha revivendo no domingo passado seus dias gloriosos com o clássico Mixto x Cuiabá, trago aos leitores uma coletânea de 93 textos abrangendo esse momento especial da cidade motivado pelo megaevento do futebol, momento muito dinâmico, denso em ações e omissões, aplausos e críticas, proposições e discussões sobre o futuro de Cuiabá. Na verdade, um assunto que ultrapassa o futebol e a própria Copa, forçando uma revisão, meio que na marra, de nossos conceitos, métodos e estruturas públicas, em especial da gestão urbana em todas as suas áreas e escalões, bem como obrigando a própria cidadania a uma autocrítica sobre sua participação na condução do destino da cidade. 
     O lançamento do livro neste momento tem a pretensão de ainda poder ajudar como um subsídio crítico no grande e difícil esforço de preparação da cidade para ser palco de uma Copa do Mundo em que toda a cidadania está empenhada tentando fazer com que essa oportunidade seja aproveitada como uma etapa na construção da cidade do futuro, que desejamos com melhores padrões de qualidade de vida, bela, justa, sustentável e plena em perspectivas de desenvolvimento para sua gente. É de fato pretensioso, mas não há como escapar desta responsabilidade de todos em ao menos tentar ajudar a cidade neste momento, responsabilidade hoje assumida pela maioria da população. A descrença inicial parece ter sido superada por um desejo de colaboração na grande obra, ao menos ao suportar os desvios, engarrafamentos e buracos com uma especial compreensão, sofrida, mas acompanhada de uma pontinha de orgulho diante da evolução das obras públicas e privadas.
     Ótimo se a pretensão do livro for alcançada, um pouco que seja. Se não, que fique então como um registro desse momento ímpar na vida de Cuiabá, um álbum de artigos, como o velho álbum de fotografias que de vez em quando a gente folheia revendo momentos queridos ou apenas importantes de nossas vidas. Colocados um ao lado do outro em uma coletânea, os artigos ganham movimento e sentido, permitindo a reconstrução de uma história contínua conforme vista pelo autor, antes contada em textos tratando de momentos aparentemente isolados. Juntos os artigos além de relembrar cada momento descrito, permitem sua concatenação, avaliar a evolução, comparar situações, rever os casos esquecidos, as idas e vindas, os acertos e erros, aferir rumos. A leitura do livro lembrará Dutra, o cuiabano que trouxe a Copa de 50 para o Brasil e, com as emoções de cada ocasião, episódios como os da expectativa pela escolha da sede e a alegria de ganhá-la, o último jogo do Verdão e sua demolição, a escolha do local da nova Arena, a mudança do VLT, a batalha pelo aeroporto, o fim da AGECOPA, e outros. 
     Mesmo sem a Copa, Cuiabá estaria vivendo agora seu momento histórico de desenvolvimento mais importante. A Copa veio turbinar ainda mais este dinamismo que precisa ser muito bem compreendido e acompanhado por suas autoridades, líderes e cidadãos em geral. Certa vez disse meio brincando que a Copa teria sido um artifício do Bom Jesus de Cuiabá para dar uma sacudidela em sua gente elevando-a à altura da cidade que estão construindo e de seu maior desafio que será a preparação para o Tricentenário daqui a 6 anos. Estou cada vez mais acreditando nisso. E aí a experiência da Copa valerá muito. 
(Publicado em 30/04/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 2 de abril de 2013

CUIABÁ 300-6

Arquiteto Moacyr Freitas


blog.cabcuiaba.com.br

José Antonio Lemos dos Santos

     Às vésperas do tricentésimo aniversário de fundação, Cuiabá vive o melhor momento econômico de sua história. Plena em vitalidade, pujante, vive seu terceiro salto de desenvolvimento, previsto desde o final dos anos 80 para ser o salto da qualidade, impondo a seus líderes, administradores e cidadãos desafios seguidos e crescentes que exigem a compreensão correta de seu novo momento e o atendimento de renovadas e sempre ampliadas demandas por infraestrutura e serviços. Lembra o poeta Carmindo de Campos que vi em pessoa declamar: “Cuiabá minha velha e lendária cidade, você está remoçando ...”.



     Comemorando 294 anos no próximo dia 8, Cuiabá continua a contagem regressiva anual para o Tricentenário, sua maior efeméride no século. Em termos de planejamento a Copa já passou, agora é preparar a cidade para os 300 anos. E resta pouco tempo, só 6 anos! O aniversário de Cuiabá festeja uma cidade que nasceu entre as pepitas de um corguinho com muito ouro, tanto que era chamado pelos nativos de Ikuiebo, Córrego das Estrelas. E o Córrego das Estrelas desembocava em um belo rio, num lugar de grandes pedras chamado de Ikuiapá, lugar onde se pesca com flecha-arpão, em bororo. E a cidade floresceu bonita, Cuiabá, célula-mater do oeste brasileiro, mãe original de tudo o que sucedeu neste ocidente do imenso Brasil, mãe de cidades e estados. 
JornalVidaENatureza

     No curto ciclo do ouro, Cuiabá chegou a ser a mais populosa cidade do Brasil. O fim do metal selaria seu destino como o das cidades-fantasmas garimpeiras não fosse a localização mágica, centro do continente, cuja expectativa de riqueza atraía Portugal. Quando o limite entre as duas coroas ibéricas deixou de ser Tordesilhas, Cuiabá vira o bastião português em terras então espanholas e dá seu primeiro salto de desenvolvimento, o da sobrevivência. Continuou viva e logo Portugal criou a Capitania de Mato Grosso, sediada em Cuiabá enquanto se construía a capital Vila Bela. Mesmo voltando a ser capital, por quase três séculos sobreviveu à duras penas, período heroico que forjou uma gente corajosa e sofrida, mas alegre e hospitaleira, criadora de um dos mais ricos patrimônios culturais do Brasil e com proezas que merecem melhor tratamento pela história oficial brasileira. Como um astronauta contemporâneo, vanguarda humana na imensidão do espaço, ligado à nave só por um cordão, assim Cuiabá sobreviveu por séculos, solta na vastidão centro-continental, ligada à civilização apenas pelo cordão platino dos rios Cuiabá e Paraguai.
     Até que na década de 60 a cidade vibra de novo, vira o “portal da Amazônia” e sua população decuplica no salto da quantidade, expandindo-se como base de ocupação da Amazônia meridional, sem a menor preparação ou apoio da União. Sozinha e sem recursos, apoiando uma região ainda vazia economicamente, Cuiabá explodiu em todos os sentidos, despreparada para tão grande e súbita demanda.
     No raiar do novo milênio, Cuiabá vive seu terceiro salto de desenvolvimento, o salto da qualidade. Não é mais o centro de um vazio. Ao invés, polariza uma das regiões mais dinâmicas do planeta, que ajudou a ocupar e construir, e que hoje não só lhe cobra o apoio, mas também a empurra para cima, em um sadio processo de simbiose regional ascendente. Aos 294 anos, Cuiabá vibra em desenvolvimento, impulsionada pelo dinamismo regional, conectada ao mundo e turbinada pela Copa. Mais que reverenciar o passado e festejar o presente é forçoso cuidar do futuro, num choque de adrenalina e competência que coloque cidadãos, líderes e dirigentes à altura da cidade que temos para enfim prepará-la para o Tricentenário com alta qualidade de vida, ainda mais bela, justa, democrática e sustentável. 

(Publicado em 02/04/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CUIABÁ, A PÉROLA E OS PORCOS

José Antonio Lemos dos Santos



      Desde que Cuiabá ganhou a sede da Copa do Pantanal repeti algumas
vezes que esse privilégio e responsabilidade teria sido um estratagema
do Senhor Bom Jesus de Cuiabá para dar uma sacudida nos cuiabanos,
governantes e governados, para que se liguem no momento especial que a
cidade vive, agora polo de uma das regiões mais dinâmicas e produtivas
do planeta, visando a festa do Tricentenário em 2019, esta sim a maior
efeméride cuiabana no século. E parece que esse plano começa a dar
certo. A Copa resgatou o futuro no imaginário cuiabano, virando sua
cabeça cidadã para a frente e para o alto.
     O que ainda resta alcançar é a distinção entre a cidade e os
problemas que a cidade enfrenta. Na verdade ela é vítima de um
sistema de gestão urbana defasado, ilegal e corrupto, por isso
incompetente. A má gestão pública fez a cidade deficitária em
infraestrutura, equipamentos e serviços urbanos que deixaram de
acompanhar seu dinamismo. As novas administrações municipais de
Cuiabá e Várzea Grande trazem esperança de superação para esta
situação crítica. A cidade embora tricentenária revitalizou-se e
está em pleno desenvolvimento como uma adolescente saudável que não
pode ser criticada por necessitar de vestuário novo e maior a cada
momento. Cuiabá está viva e moderna como atestam os avanços trazidos
pela iniciativa privada em empreendimentos de grande porte e alta
sofisticação no ramo imobiliário, no comércio, saúde, educação, lazer
e indústria de um modo geral, que não podem passar despercebidos.
     A Grande Cuiabá é sim uma velha e linda senhora muito maltratada,
mas que rejuvenesceu-se no desenvolvimento regional que ajudou a
construir. Só precisa ser tratada de forma digna por aqueles a
quem cabe cuidá-la, suas autoridades públicas, em especial as dos
municípios que a compõem. Cuiabá é como uma pérola que escapou às
mãos da cidadania e ficou à mercê dos porcos. Há que ser resgatada
e trabalhada em todas as suas facetas de potencialidades e beleza.
Nela está o centro da América do Sul, por exemplo. Uma noite dessas
passei lá e nem a luminária do poste de rua em frente estava acesa.
Tem seu centro histórico tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional,
com um peculiar traçado urbanístico e belos exemplares arquitetônicos,
também desprezado e abandonado. Tem em seu sítio urbano o privilégio
de 2 rios e 21 córregos, riqueza florística, faunística, paisagística
e de composição climática para os quais demos as costas, assim como
também nem notamos que a cidade é caprichosamente emoldurada pelas
silhuetas da Chapada e do Morro de Santo Antonio. Nas proximidades
Cuiabá potencializa ainda o Pantanal, a Chapada dos Guimarães, as
termas de São Vicente, as grutas de Nobres e o lago de Manso.
     Além das belezas e potencialidades naturais a cidade desfruta
de posição estratégica em termos da logística continental e nacional.
É o encontro natural dos caminhos. Cuiabá viabilizou a chegada e o
avanço das rodovias, aerovias e da ferrovia em Mato Grosso e tem
tudo para centralizar o moderno sistema intermodal de transportes 
que o estado tanto precisa. Tem Manso como equipamento de proteção
urbana contra as maiores cheias e sua grande caixa d’água a 100
metros de altura permitindo-lhe um abastecimento por gravidade seguro
e contínuo, mas desprezada. Como também está desprezada a energia
abundante, limpa e barata do gás trazido por um gasoduto que custou
US$ 250,0 milhões. Todas essas maravilhas, naturais ou construídas,
compõem a beleza e a potencialidade real de Cuiabá. Desprezadas aqui,
seriam exploradas por qualquer cidade minimamente gerida como fonte de
emprego, renda e qualidade de vida para sua população. Mas, que fazer?

terça-feira, 13 de novembro de 2012

CADÊ O AEROPORTO? III

José Antonio Lemos dos Santos
     
     
     Seria dispensável falar sobre a importância de um aeroporto internacional de grande porte para qualquer cidade do mundo. Contudo ainda tem muita gente em Cuiabá, inclusive nos altos escalões, pensando tratar-se de um equipamento comum a qualquer cidade. Talvez por sua localização privilegiada central na cidade pelo qual todo mundo passa todos os dias, muitos se acostumaram e pensam erradamente tratar-se de um equipamento comum. Não é. Os aeroportos de grande porte são equipamentos fundamentais neste mundo globalizado, não só para cargas, mas, em especial como ferramenta de conexão entre as pessoas individuais, oficiais ou corporativas. Quanto mais os indivíduos e o planeta se globalizam virtualmente, mais é necessário o contato direto interpessoal bem como os espaços e equipamentos que propiciam tais encontros. Os aeroportos são e serão cada vez mais vantagens comparativas extraordinárias entre as cidades no mundo. 
     No exato centro continental, para Cuiabá e Mato Grosso o avião e o aeroporto são mais especiais ainda. Já no final dos anos 40, época em que o máximo que chegava por aqui eram os antigos DC-3, se tanto, homens com extraordinária visão de futuro destinaram os 700 hectares onde está hoje o Aeroporto Internacional Marechal Rondon. Fantásticos visionários! Hoje Cuiabá dispõe de um dos aeroportos melhor situados urbanisticamente e com área suficiente para firmar-se como um dos principais “hubs” aeroviários no continente, atraindo grandes empresas e gerando empregos e renda para a cidade e para o estado. 
     Entretanto, a grandiosa visão de futuro de nossas autoridades públicas parece ter ficado naquele passado remoto. O extraordinário desenvolvimento da cidade e do estado vem exigindo há décadas constantes e sucessivas ampliações e melhorias em nosso aeroporto, as quais só acontecem defasadas, após demandas fortemente reprimidas. Este ano, por exemplo, o movimento de passageiros deve beirar o 3,0 milhões e o Marechal Rondon convive com uma estrutura projetada na década de 90 para 1,0 milhão de passageiros/ano, cujas obras ficaram pela metade, paralisadas em 2004. A socos e pontapés foi feito ano passado um puxadinho para o desembarque. Chegamos a perder para Campo Grande uma linha internacional com a Bolívia pela falta de uma sala de 4x7 metros! Vergonha! Agora chegou a Copa do Mundo, um projeto nacional com o qual se esperava que afinal Cuiabá e Mato Grosso teriam um aeroporto digno e contemporâneo ao seu desenvolvimento. Qual o que! 
     Após 3 anos e meio da escolha de Cuiabá como uma das sedes da Copa, até ontem a Infraero não havia concluído a licitação das obras da estação de passageiros, prometida na última vez para início do mês de novembro. Nesse período tratei do assunto em quase 40 artigos, metade dos quais específicos. Molecagem, sabotagem e outras expressões menos publicáveis foram compartilhadas com muitos leitores indignados em relação a essa que é uma das 3 obras indispensáveis à realização da Copa do Pantanal. O senador Blairo Maggi, o ex-governador visionário que trouxe a Copa para Mato Grosso, poderia incluir o assunto na agenda de sua noticiada audiência com a presidenta Dilma, que talvez não saiba o que está acontecendo com o aeroporto. Agora faltam apenas 576 dias para o início da Copa e ainda dá tempo, porém agora só em 3 turnos, sábado e domingo, como aventado em caso de necessidade por Lula, quando ainda presidente. O senador poderia também incluir na sua agenda o trecho ferroviário de Rondonópolis a Cuiabá e daqui a Lucas, bem menor que a FICO, assim como a duplicação rodoviária até Posto Gil, não só até Rondonópolis. E viva o Cuiabá Arsenal, mais uma vez na final do campeonato brasileiro de futebol americano! 
(Publicado em 13/11/2012 pelo Diário de Cuiabá)