"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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quarta-feira, 8 de abril de 2026

CUIABÁ, CELULA MATER

 José Antonio Lemos dos Santos

     Urbanista por formação e ofício, além disso cuiabano bairrista, sinto a obrigação e o prazer de estudar Cuiabá e poder contar sua história. Para facilitar a narrativa, divido a evolução da cidade em 5 fases, procurando corresponder aos momentos diferentes pelas quais a cidade passou e vem passando.  A primeira seria a “Cidade do Ouro”, depois a “Cidade Baluarte”, seguida da “Cidade Verde”, depois “Portal da Amazônia” e, por fim a “Capital do Agronegócio”.

     A “Cidade Baluarte”, porém, sempre me desafiou, pois, as cidades garimpeiras tendem a tornar-se cidades-fantasmas quando o ouro acaba, a não ser quando descobrem outra função, como por exemplo, Ouro Preto e Goiás Velho, cidades-irmãs de Cuiabá, que receberam a função de capitais das então recém-criadas Capitanias de Goiás e Minas Gerais, garantindo suas sobrevivências. Cuiabá não teve tal privilégio, preterida por Vila Bela, construída para ser a capital mais a oeste por razões estratégicas. Como Cuiabá então conseguiu sobreviver?

     Esta resposta veio no magnífico livro “O poder metropolitano em Cuiabá”, da Entrelinhas/UFMT, de autoria do professor, doutor Otávio Canavarros, riquíssimo em informações e argumentos que merecem ser esmiuçadas pelo leitor, mas que pelo que cabe neste artigo, pinço apenas a afirmação de que Cuiabá teve importante papel na estratégia da Coroa Portuguesa visando a posse das terras então espanholas a Oeste de Tordesilhas. Quando o ouro apareceu em Cuiabá, os limites do tratado de Tordesilhas já estavam superados em muito pelos portugueses através de alianças com os indígenas e dos bandeirantes paulistas que expulsaram os espanhóis e chegaram ao Guaporé alcançando o território que pretendiam para si e que hoje configura os limites a Oeste do território brasileiro. A negociação entre oficial entre os países se dava em cima do “fato consumado”, o direito pela posse, o uti possidetis, e o acerto diplomático era questão de tempo, que veio afinal com a estruturação do poder da Coroa Portuguesa em Cuiabá quando elevada à Vila Real em 1727, depois reafirmada com a criação da Capitania de Mato Grosso em 1748, a assinatura do Tratado de Madri em 1750, a fundação de Vila Bela em 1752 e o Tratado de Santo Idelfonso em 1777. Traduzindo para minhas palavras de leigo, em 50 anos Portugal sacramentou seu domínio sobre o território que pretendia e que hoje é parte importante do território brasileiro. 

     Assim, findo o ouro, Cuiabá foi destinada pelos interesses da Coroa Portuguesa a ser seu baluarte nas terras recém conquistadas, o que permitiu sua sobrevivência como cidade, não obstante a origem garimpeira. “Celula-mater” da extensa região recém conquistada, Cuiabá multiplica-se hoje em 3 estados e 273 municípios, desde a primeira demarcação de limites de um município na região, Poconé, em 1831. Mesmo com o importante livro do doutor Otávio Canavarros, a história oficial brasileira ainda subestima Cuiabá. Suas marcas históricas são cicatrizes que deviam estar sendo reverenciadas como monumentos à História do Brasil e não marginalizadas como restos de episódios locais banais provincianos. 


segunda-feira, 1 de abril de 2019

CUIABÁ 300!


José Antonio Lemos dos Santos
     Desde 2009 a cada aniversário de Cuiabá tenho escrito artigos cujos títulos simulam uma contagem anual regressiva lembrando o tempo até a comemoração do tricentésimo aniversário de Cuiabá. Enfim chegou, Cuiabá 300-0! Comemorar os 300 anos de Cuiabá não deve ser só a justíssima reverência ao passado, mas festejar uma cidade histórica por excelência, considerando a história em seu fluxo pleno de passado, presente e futuro. Diferente de suas irmãs do ciclo do ouro, Cuiabá não estagnou, deste modo tem um passado riquíssimo, um presente extremamente dinâmico e um futuro pleno de potencialidades. Assim, no presente tem entre seus grandes desafios o de otimizar as perspectivas do futuro e as riquezas do passado de forma harmônica e sustentável.
     Comemorar 300 anos de Cuiabá é lembrar que em um local chamado Ikuiapá pelos bororos nativos, com grandes pedras claras das quais pescavam com flecha-arpão e onde um corguinho desembocava em um belo rio, o ouro fez surgir, corgo acima, uma cidade que floresceu bonita e se chamou Cuiabá. Por breve tempo, Cuiabá foi a mais populosa cidade do Brasil, de onde a Europa levou muito ouro, dinamismo que acabou tão rápido quanto o metal. Seu fim seria o das cidades-fantasmas dos garimpos não fosse sua localização mágica no centro do continente, então em terras espanholas, cuja perspectiva de riqueza atraía Portugal que já aguardava a troca do Tratado de Tordesilhas pelo direito da posse e uso como definidor dos limites entre as terras portuguesas e espanholas. Vanguarda física da coroa portuguesa nessa disputa, Cuiabá sobrevive ao fim do ouro como baluarte português, apoio e defesa dos interesses lusos. Celula-mater do Oeste brasileiro, é a mãe das cidades da grande região, inclusive dois estados.
     Com a criação da Capitania de Mato Grosso, Cuiabá serviu de sede ao seu primeiro governo durante a construção da futura capital, Vila Bela. Por mais de dois séculos sobreviveu à duras penas, com tempos piores, como na Guerra do Paraguai, e de leve melhoras, como quando recebeu o status de capital. Período heroico que forjou uma gente brava, alegre e hospitaleira, capaz de produzir um dos mais ricos patrimônios culturais do Brasil, com vultos e proezas históricas que merecem melhor tratamento da história oficial brasileira. Como os primeiros astronautas, vanguarda humana na imensidão do espaço, ligados à nave apenas por um cordão prateado, assim Cuiabá sobreviveu por séculos, solta na imensidão da hinterlândia continental, ligada à civilização apenas pelo cordão platino dos rios Cuiabá e Paraguai.
     Até que na década de 60 a cidade transforma-se no “portal da Amazônia” chegando a 2000 com sua população decuplicada. Servia de base à ocupação da Amazônia meridional. Sozinha, sem apoio federal e sem recursos próprios, no centro de uma região que apoiava e promovia, mas que também não dispunha de recursos, Cuiabá teve que receber seus novos habitantes sem estar devidamente preparada.
     Alvorecendo o novo milênio, Cuiabá transforma-se na capital do agronegócio, e agora polariza uma das regiões mais dinâmicas do planeta, região que ajudou a construir e que hoje lhe cobra o apoio de serviços urbanos especializados, empurrando-a para cima, em um sadio processo simbiótico regional. No Tricentenário, seu maior presente é o próprio momento que vive: dinâmica, moderna, globalizada, sintonizada como o mundo, ainda que carente de gestão pública. Quanto ao futuro, cabe às novas gerações de cuiabanos estruturar a cidade para uma nova fase que já se prenuncia como o principal polo verticalizador da economia mato-grossense e um dos principais encontros de caminhos no centro continental, sua grande vocação histórica. Viva Cuiabá!

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O ANO DO TRICENTENÁRIO

Cuiabá Sob o Duplo Arco-Íris 14/01/19 Foto: Cássia Abdalah
José Antonio Lemos dos Santos
     Enfim chegou 2019, um ano que parecia não chegar nunca, tantas as atribulações vividas em 2018 especialmente no Brasil pelo seu grave momento político, e mesmo no mundo com EUA e Coréia do Norte arreganhando-se os dentes com ameaças nucleares que felizmente deram em nada. 2019 enfim chegou trazendo para o Brasil os novos governos, federal e estaduais, e novos parlamentos, escolhidos após duras eleições renovadoras de esperanças e apreensões para o país.
     Para Cuiabá 2019 vai além, afinal é o ano do Tricentenário aguardado há anos com grande expectativa pela população. A efeméride marca a fundação de uma cidade especial nascida do ouro e  que nestes seus 300 anos viveu mais momentos de isolamento, sofrimento e luta do que de ostentação e opulência, sacrifício que contudo lhe rendeu uma história rica em episódios de heroísmo e bravura com vultos de destaque mundo afora, um modo de viver plasmado pelo calor sadio e uma cultura fascinante que vai do erudito ao popular, de José Magno ao rasqueado e lambadão, passando pela culinária, o guaraná e o tereré, mitos e lendas. Porém o principal produto é a simpática figura do cuiabano folclórico de linguajar exclusivo, simplório, pacato, festeiro, criador de apelidos como ninguém e, sobretudo, hospitaleiro.
     Hoje a cidade é uma metrópole dinâmica, centro de uma das regiões mais produtivas do planeta. A história que vem dos garimpos originais e chega até hoje apontando para um futuro exuberante é o pano de fundo da grande expectativa cuiabana. Para os especialistas era importante que a data não fosse marcada só pelos festejos, mas que a própria urbs se estruturasse elevando seus padrões de qualidade de vida conforme as novas funções regionais, nacionais e globais a que se destinava com a esperada polarização de uma das principais fontes de alimentos do mundo. Assim, na década de 80 um grupo de profissionais capitaneados pelo IAB-MT, APA-MT, CREA-MT, UFMT e Câmara Municipal deflagrou um movimento visando institucionalizar o planejamento urbano estrutural de longo prazo em Cuiabá e preparar a cidade para os saltos de desenvolvimento que viriam. Este processo inseriu um capítulo dedicado à Política Urbana na Lei Orgânica Municipal de 1989. O horizonte de planejamento era de 30 anos, portanto, 2019, já pensando no Tricentenário, tendo ainda como meta mais curta a virada do século, sistema este que durou só até o segundo quinquênio dos anos 2000.
     Deixou, todavia avanços como a criação do IPDU, do Conselho de Desenvolvimento Urbano e da SMADES, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e suas leis, como as do Uso e Ocupação do Solo Urbano e da Hierarquização Viária, bem como vários projetos pontuais como o Parque Mãe Bonifácia, o finado Aquário e o Centro de Eventos do Pantanal. A ideia urbanística básica era a cidade crescer para dentro, adensá-la e compactá-la, reduzindo custos operacionais, otimizando infraestrutura e facilitando a mobilidade urbana. Com a desativação do sistema voltamos ao pragmatismo das soluções imediatas, que também legou projetos pontuais importantes como os parques das Águas e Tia Nair.
     Nas últimas décadas iniciativas isoladas trataram do assunto em matérias jornalísticas, seminários, palestras, artigos publicados, destacando os eventos bianuais denominados “Edificar” produzidos pelo Sinduscon-MT e Secovi-MT e a criação pela prefeitura de uma secretaria especial para o Tricentenário. Porém, apesar de tudo, o grande diferencial foi a Copa, inesperada e para mim um artifício do Bom Jesus de Cuiabá para ajudar no preparo de sua cidade para seu tricentésimo aniversário. Enfim 2019, um marco para uma bela história.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

TIRADENTES ATUALÍSSIMO

Tiradentes Esquartejado, Pedro Américo

José Antonio Lemos dos Santos
     Abril, mês em que se lembra a figura de Tiradentes é também o mês em que encerra o prazo para a declaração de ajuste do Imposto de Renda e o recolhimento aos cofres públicos do saldo devedor eventualmente apurado. É bem provável que esta coincidência seja também uma daquelas finas ironias que a história de vez em quando oferece desafiando o poder de reflexão das pessoas. Supondo que seja assim, é importante lembrar que Tiradentes morreu porque conspirou contra o Quinto cobrado pela Coroa Portuguesa e que significava 20% do ouro produzido! Por essa causa rebelou-se contra a Coroa, propôs a independência do Brasil, e foi traído, enforcado, tendo o corpo esquartejado com seus restos exibidos ao povo em diversos pontos bem visíveis e sua cabeça exposta na praça pública de Vila Rica.
     Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) em 2016 o contribuinte brasileiro arcou com uma carga tributária de 41,80%. Trocando em miúdos, de todos os nossos rendimentos, consumo, patrimônio e outros, entregamos, em média, quase 42% para o governo manter uma máquina político-administrativa perdulária, improdutiva e que se mostra cada vez mais voraz, corrupta, exibida, cínica, debochada e distante dos verdadeiros interesses republicanos, em todas suas instâncias e poderes. Traduzindo em dias trabalhados, o brasileiro teve que trabalhar 152 dias em 2016, até o início de junho exclusivamente para alimentar a sanha dos governos, inclusos Executivo, Legislativo e Judiciário. É de pasmar! Não tenho dados deste ano, mas com toda certeza os brasileiros honestos continuam “carregando pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais”, como já cantou um dia o Chico Buarque dos bons tempos.
     Não se trata de atacar este ou aquele governo. A voracidade fiscal vem de muito tempo. Em 1947, quando tínhamos o cuiabano Eurico Gaspar Dutra como Presidente, a mordida do governo ficava em 13,8% do PIB e em 1962 era 15,8%, tendo chegado aos “insuportáveis” 18,7% em 1957, quando da construção de Brasília. Em 1992 já girava em torno dos 26% e de lá para cá disparou, chegando em 1994 aos 29,8%, 35,84% em 2002 e aos 41,8% em 2016. Quanto será este ano? Governar assim é fácil, principalmente quando não se tem a menor preocupação em oferecer a infraestrutura e os serviços públicos de qualidade em troca de tão generosa contribuição. E nos últimos anos a situação piorou. Não bastasse a expropriação voraz do produto do trabalho brasileiro hoje ela vem com o deboche e o escárnio da parte de bandidos, delatores ou delatados, elevados à condição de estrelas midiáticas que diuturnamente somos obrigados, impotentes e envergonhados, a engolir em nossas salas diante de nossos filhos e netos. Até onde vamos?
     Tiradentes virou herói nacional com a República, mas sua imagem pouco a pouco foi sendo adaptada aos interesses do poder. Virou o herói da Liberdade, da Independência e da Democracia, sem referência à sua principal luta, a luta contra a opressão fiscal imposta ao povo pelo governo de sua época. Transformaram-no em um herói inofensivo, cooptado com suas barbas longas como as de um profeta e sua túnica angelicalmente alva como se fosse um daqueles doces e meigos santinhos de papel. Até já tem gente que jura que ele nem existiu!
     Tiradentes, patrono dos nossos valorosos policiais militares é um herói atualíssimo que precisa ser resgatado na essência de sua mais importante luta. Quem dera sua figura inspirasse um pouco de bravura aos seus conterrâneos, impelindo-nos a exigir que a coisa pública seja tratada, não como um butim apropriado por uma minoria, mas com o devido respeito republicano em favor de todo o povo brasileiro.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

CUIABÁ EM 5 FASES

Torre aos Navegantes Platinos - Estudo arquiteto Ademar Poppi

José Antonio Lemos dos Santos
     Atendendo honroso desafio da Arquidiocese de Cuiabá por ocasião do aniversário da cidade preparei um resumo da história de Cuiabá em 5 fases, que reproduzo neste artigo ciente dos riscos que envolvem todas as simplificações. A primeira fase iria então de 1719 a 1750 e foi chamada de “A Cidade do Ouro” com início na descoberta das Jazidas do Sutil, quando se deu a fundação da cidade. A notícia do ouro abundante espalhou rapidamente atraindo milhares de pessoas em busca de riqueza e consta que a cidade nesse período chegou a ser a maior do Brasil.
     A segunda fase, chamada de “Cidade Baluarte”, vai de 1750 a 1870 e começa com a rápida exaustão do ouro. A cidade tinha tudo para se transformar em uma “cidade-fantasma” não fosse o interesse da Coroa Portuguesa em manter a posse desta parte central do continente situada além do limite estabelecido pelo Tratado de Tordesilhas sendo então pertencente à Espanha. Discutia-se o Tratado de Madri baseado no direito pela posse, e Cuiabá virou uma posição estratégica permanente para a coroa portuguesa. Foi base para a construção de Vila Bela e depois já no Império, serviu de centro da valorosa defesa do território brasileiro em episódios da Guerra do Paraguai na defesa de Dourados e a Retomada de Corumbá, esta sacrificando metade da população da cidade com a Varíola trazida pelas tropas em seu retorno.
     A terceira fase iria de 1870 a 1960, e foi denominada “A Cidade Verde” e começa após a Guerra do Paraguai com um período de lenta expansão e intervalos de estagnação iniciado com a reabertura dos portos platinos e a liberação das importações para Cuiabá o que permitiu uma substancial elevação nos níveis da vida urbana, inclusive da arquitetura local com a construção de edifícios públicos, religiosos e residenciais com altos padrões construtivos e materiais finos de procedência europeia. Época dos primeiros melhoramentos públicos como praças e jardins sofisticados, distribuição de água, linha de bonde com tração animal e ao final as obras do Estado Novo requalificando a cidade. É desta fase o epíteto “Cidade Verde” dado por Dom Aquino, e adotado como paradigma para a cidade.
     Entre 1960 e 2000 a quarta fase denominada “O Portal da Amazônia” vem no rastro da Marcha para o Oeste de Getúlio Vargas e a construção de Brasília, com a cidade transformando-se no principal polo de passagem e apoio logístico para a ocupação da Amazônia Meridional. Época de inadministráveis fluxos migratórios de destino ou passagem, a cidade conturbou-se a Várzea Grande e decuplicou sua população em 4 décadas. Muita gente, pouca infraestrutura urbana e pouco apoio federal em ajuda à cidade no desempenho de seu importante papel nesse momento da ocupação do território nacional. Desta fase é o CPA, o antigo estádio José Fragelli, Terminal Rodoviário, Distrito Industrial, UFMT, e a nova Catedral do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.
     Enfim, a fase atual a partir do ano 2000, denominada aqui de “A Capital do Agronegócio”, surgiu com a explosão econômica da Amazônia Meridional e, em especial, de Mato Grosso, agora uma das áreas mais produtivas do planeta. Cuiabá permanece como principal polo urbano de apoio a esse processo, agora na prestação de serviços comerciais, bancários, de comunicação, saúde, educação e cultura especializados.  As elevadas taxas de crescimento demográfico são atenuadas e a cidade se metropoliza baseada principalmente em investimentos privados. Nesta fase destacam-se os vultosos recursos privados e públicos oportunizados pela Copa do Pantanal viabilizando obras de infraestrutura urbana, ampliação do aeroporto, uma fábrica de cimento e a ampliação das redes hoteleira e de shoppings comerciais.

Atend

terça-feira, 7 de maio de 2013

MATO GROSSO, 265 ANOS

www.cuiabaesporteclube.com.br


José Antonio Lemos dos Santos

     Depois de amanhã, 9 de maio, deveríamos comemorar com muita festa e orgulho o 265° aniversário de Mato Grosso, data que lembra o ano de 1748, quando o rei de Portugal, dom João V, através de Carta Régia determina a criação de duas Capitanias, “uma nas Minas de Goiás e outra nas de Cuiabá”. A Capitania das Minas de Cuiabá virou a Capitania de Mato Grosso e para governá-la foi designado Dom Antonio Rolim de Moura, que tomou posse e permaneceu em Cuiabá por cerca de um ano, até que Vila Bela fosse construída. Morou no centro histórico de Cuiabá, próximo à praça que tem o seu nome e que é popularmente conhecida como Largo da Mandioca. Depois chegou a ser o Vice-Rei do Brasil, o governante maior do país na época, já que El-Rey ficava em Portugal. Seria possível pensar na reconstrução da casa de Rolim de Moura, criando uma nova atração no centro histórico? 
     Sei que existem aqueles que acham que não temos nada a comemorar, pois em Mato Grosso faltam escolas, faltam hospitais, não tem esgoto, não tem estradas, não tem ferrovias, não tem, não tem... São os que só enxergam o que falta. E é importante que existam pessoas assim, em especial aqueles que nessa visão produzem uma critica positiva. Eu já sou da turma que prefere enxergar aquilo que existe, em especial, aquilo que foi produzido pelo trabalho do povo, patrões e empregados, apesar de todas as dificuldades, apesar de tudo aquilo que nos falta. Mato Grosso é hoje o maior produtor agropecuário do país, liderando o país em algodão, milho, girassol, soja e também é um dos maiores produtores de ouro, diamante, madeira, álcool, biodiesel, carnes de frango, suíno, peixe, gado, com um rebanho bovino de quase 30 milhões de cabeças. Mato Grosso não produz armas, bombas atômicas, mísseis, aviões de guerra, como muitos daqueles que nos criticam. Mato Grosso é um dos maiores produtores de alimentos do mundo e com muito orgulho ajuda a matar a fome de um planeta cada vez mais carente de alimentos.
     Para chegar a esta posição Mato Grosso contou com a extensão e diversidade produtiva de seu território e, principalmente, com o trabalho determinado e sofrido de sua gente em todos os seus cantos e recantos. Comemorar os 265 anos de Mato Grosso é festejar a grande obra do mato-grossense que ano passado produziu um superávit comercial de US$ 13,0 bilhões para o Brasil que daria para construir vários hospitais, escolas, ferrovias, duplicações rodoviárias e melhorar em muito a qualidade dos serviços públicos. Mato Grosso mês passado entupiu literalmente o Brasil de grãos, mostrando ao mundo que o país não se preparou em termos de infraestrutura para tudo o que o estado produz, num descompasso que já custa muito caro aos brasileiros em termos econômicos, ambientais e de sacrifício de vidas humanas.
     Comemorar os 265 anos de Mato Grosso, não é ufanismo idiota nem deitar em berço esplêndido, é festejar a riqueza construída e, antes de tudo cobrar, em especial da União, tudo aquilo que o povo que a produz tem direito. É ter vibrado domingo passado com Cuiabá e Mixto na final do campeonato mato-grossense de futebol, com o Dutrinha lotado, e ainda torcer unidos pelo Luverdense depois de amanhã na Taça do Brasil. A pobreza sempre foi o álibi dos maus governantes e agora Mato Grosso é rico sim. Essa desculpa não vale mais. O mato-grossense tem que festejar com alegria, orgulho e muitas cobranças. O sucesso de Mato Grosso é a força do trabalho de seu povo unido na grandeza e diversidade de seu território, nas dimensões exatas exigidas pelo século XXI, o século da internet, da TV a cabo, do asfalto, do avião a jato. Ainda que tenha muito a consertar, Mato Grosso é para ser festejado, imitado e, principalmente, aplaudido. Viva Mato Grosso! 
(Publicado em 07/05/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 2 de abril de 2013

CUIABÁ 300-6

Arquiteto Moacyr Freitas


blog.cabcuiaba.com.br

José Antonio Lemos dos Santos

     Às vésperas do tricentésimo aniversário de fundação, Cuiabá vive o melhor momento econômico de sua história. Plena em vitalidade, pujante, vive seu terceiro salto de desenvolvimento, previsto desde o final dos anos 80 para ser o salto da qualidade, impondo a seus líderes, administradores e cidadãos desafios seguidos e crescentes que exigem a compreensão correta de seu novo momento e o atendimento de renovadas e sempre ampliadas demandas por infraestrutura e serviços. Lembra o poeta Carmindo de Campos que vi em pessoa declamar: “Cuiabá minha velha e lendária cidade, você está remoçando ...”.



     Comemorando 294 anos no próximo dia 8, Cuiabá continua a contagem regressiva anual para o Tricentenário, sua maior efeméride no século. Em termos de planejamento a Copa já passou, agora é preparar a cidade para os 300 anos. E resta pouco tempo, só 6 anos! O aniversário de Cuiabá festeja uma cidade que nasceu entre as pepitas de um corguinho com muito ouro, tanto que era chamado pelos nativos de Ikuiebo, Córrego das Estrelas. E o Córrego das Estrelas desembocava em um belo rio, num lugar de grandes pedras chamado de Ikuiapá, lugar onde se pesca com flecha-arpão, em bororo. E a cidade floresceu bonita, Cuiabá, célula-mater do oeste brasileiro, mãe original de tudo o que sucedeu neste ocidente do imenso Brasil, mãe de cidades e estados. 
JornalVidaENatureza

     No curto ciclo do ouro, Cuiabá chegou a ser a mais populosa cidade do Brasil. O fim do metal selaria seu destino como o das cidades-fantasmas garimpeiras não fosse a localização mágica, centro do continente, cuja expectativa de riqueza atraía Portugal. Quando o limite entre as duas coroas ibéricas deixou de ser Tordesilhas, Cuiabá vira o bastião português em terras então espanholas e dá seu primeiro salto de desenvolvimento, o da sobrevivência. Continuou viva e logo Portugal criou a Capitania de Mato Grosso, sediada em Cuiabá enquanto se construía a capital Vila Bela. Mesmo voltando a ser capital, por quase três séculos sobreviveu à duras penas, período heroico que forjou uma gente corajosa e sofrida, mas alegre e hospitaleira, criadora de um dos mais ricos patrimônios culturais do Brasil e com proezas que merecem melhor tratamento pela história oficial brasileira. Como um astronauta contemporâneo, vanguarda humana na imensidão do espaço, ligado à nave só por um cordão, assim Cuiabá sobreviveu por séculos, solta na vastidão centro-continental, ligada à civilização apenas pelo cordão platino dos rios Cuiabá e Paraguai.
     Até que na década de 60 a cidade vibra de novo, vira o “portal da Amazônia” e sua população decuplica no salto da quantidade, expandindo-se como base de ocupação da Amazônia meridional, sem a menor preparação ou apoio da União. Sozinha e sem recursos, apoiando uma região ainda vazia economicamente, Cuiabá explodiu em todos os sentidos, despreparada para tão grande e súbita demanda.
     No raiar do novo milênio, Cuiabá vive seu terceiro salto de desenvolvimento, o salto da qualidade. Não é mais o centro de um vazio. Ao invés, polariza uma das regiões mais dinâmicas do planeta, que ajudou a ocupar e construir, e que hoje não só lhe cobra o apoio, mas também a empurra para cima, em um sadio processo de simbiose regional ascendente. Aos 294 anos, Cuiabá vibra em desenvolvimento, impulsionada pelo dinamismo regional, conectada ao mundo e turbinada pela Copa. Mais que reverenciar o passado e festejar o presente é forçoso cuidar do futuro, num choque de adrenalina e competência que coloque cidadãos, líderes e dirigentes à altura da cidade que temos para enfim prepará-la para o Tricentenário com alta qualidade de vida, ainda mais bela, justa, democrática e sustentável. 

(Publicado em 02/04/2013 pelo Diário de Cuiabá)

sábado, 12 de janeiro de 2013

O PORTO DESPREZADO DO RIO CUIABÁ


MOACYR FREITAS

Quanta saudade nos traz as partidas de lanchas de passageiros do nosso porto cuiabano.
Verdadeiras tardes festivas no bairro, para onde convergia muita gente para o bota-fora de seus familiares ou amigos.

As fotos desses vapores ainda são vistas por aí (clique aqui e veja), testemunhando esse tempo saudoso. Hoje, não temos mais a visão panorâmica do nosso rio Cuiabá. Somente das pontes sobre ele podemos apreciá-lo. É pena que haja tanto desprezo ao rio que dera o nome a nossa Capital.

Detritos de esgoto “in natura” são despejados nele sem a mínima consideração. Esquecem ou ignoram que tanta alegria esse rio nos dera no passado.

Como cuiabano nato, espero que nosso novo prefeito demonstre seu amor a nossa Cuiabá libertando nosso rio dessa incompreensiva ingratidão que vem sofrendo.

A falta de respeito ao rio, certamente, é daqueles que talvez nunca tenham lido a história da cidade, ou não tenham conhecimento do que vem ocorrendo com ele. Se tivessem conhecimento dos fatos históricos, acredito, não o desprezariam tanto.

Para os que ainda não sabem, o rio Cuiabá foi o caminho da histórica penetração na imensa e rica região de domínio espanhol pelos bravos brasileiros, ainda formados de mamelucos, índios e descendentes de portugueses.

Nesta ousada penetração pelo rio Cuiabá, certamente houve muitos desembarques em terra firme pelos mais variados motivos. Entretanto, neste lugar, muitos desembarcaram cheios de esperanças, porque buscavam o enriquecimento fácil, acima de tudo, o ouro cuiabano.

Em diferentes épocas da história, vários desembarques e embarques nesta margem esquerda de nosso rio Cuiabá registraram-se, fixando para a memória fatos históricos muito significativos para todos os cuiabanos e mato-grossenses que amam esta região.

Vamos lembrar, pela ordem de antiguidade:

- A chegada do Capitão General Rodrigo César de Menezes, em 15 de novembro de 1726. Ele elevou o Arraial de Cuiabá a Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Pertencíamos à Capitania de São Paulo;

- A chegada solene da imagem do Senhor Bom Jesus, em 1729;

- A chegada do primeiro vapor ”Corsa”, procedente do Rio de Janeiro, em 20 de fevereiro de 1857;

- A partida da tropa de Voluntários Cuiabanos para a retomada de Corumbá, no século XIX, sob o comando do Tenente Coronel Antônio Maria Coelho;

- A chegada da imagem de São Gonçalo, em 1781, trazida do Arraial de São Gonçalo Velho, foz do rio Coxipó. Chegou em solene procissão fluvial para sua nova capela próximo do porto;

- A chegada do primeiro automóvel FIAT, em 1919, e também, antes deste, em 1914, o primeiro caminhão ORION, registrado no Álbum Gráfico de Mato Grosso;

- A chegada de passageiros pelo hidroavião da Condor, o primeiro que amerrisava neste rio na década de trinta do século passado, inaugurando a linha aérea comercial para Cuiabá;

- A partida dos “Pracinhas” cuiabanos para compor a Força Expedicionária Brasileira, na 2ª Guerra Mundial, na década de quarenta do século passado;

- Vários outros embarques e desembarques de passageiros e também de cargas importantes aconteciam festivamente neste porto cuiabano. Muitos destes viajantes foram ilustres nomes da nossa história mato-grossense, que não cabe aqui enumerá-los, sem o risco de sermos traídos por nossa memória.

Assim, é tão importante este lugar, uma lembrança, como um marco histórico de nossa Capital.
Portanto, vamos aguardar com ansiedade a recuperação do nosso rio. Que venha logo essa possibilidade de podermos contemplar novamente as águas limpas do nosso querido rio Cuiabá.
 
Arquiteto Moacyr Freitas é membro do Instituto Histórico  e Geográfico de Mato Grosso.

(Publicado pelo ReporterMT em 11/01/2013  08h42)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

FERROVIA PARA LEVAR E TRAZER

José Antonio Lemos dos Santos

     Sempre que falamos em ferrovia em Mato Grosso sempre pensamos na ferrovia para levar, quase nunca na ferrovia para trazer, talvez pela nossa história de país colonizado, de cidade colonizada, onde tudo produzido era sugado pelos colonizadores. Cuiabá produziu muito ouro e todo ele foi sugado para fora do Brasil sem deixar nada de consolidado aqui. Esse ouro, junto com o de Minas e de Goiás acabou indo para a Inglaterra, ajudando a financiar a Revolução Industrial. Cuiabá só sobreviveu ao fim do ouro pelo fato de ser o último bastião português além de Tordesilhas, em pleno território então espanhol. Cuiabá resistiu e aqui permaneceu solitária como zelosa guardiã, célula-mater da ocupação de todo o imenso oeste brasileiro, e hoje é o polo de apoio de uma das regiões mais dinâmicas do planeta.
     Todos os caminhos têm ida e volta, os de ferro também. E Cuiabá por estar no exato centro continental consolidou-se com um grande encontro de caminhos e sua vocação natural é o de transformar-se em breve no grande entroncamento intermodal central do continente. Mato Grosso é o maior produtor agropecuário do Brasil, sua produção ajuda a alimentar o país e o mundo. Tem carga e muita carga para o consumo interno nacional e para exportação. É claro que essa produção tem que deixar o estado e ir aos centros consumidores no país ou fora dele. Aliás, este constitui o principal gargalo do desenvolvimento ainda maior da agropecuária mato-grossense: a sua logística de transportes. Por ser um estado centro-continental fica distante dos portos para a exportação e dos principais centros consumidores do país e suas condições atuais de monomodalidade no transporte rodoviário reduz a competitividade de seus produtos com fretes e perdas elevadas, além da degradação ambiental e destruição de vidas humanas nas incríveis “roletas-russas” que viraram nossas rodovias. A questão dos transportes em Mato Grosso tem que ser resolvida urgente.
     Cabe, porém, perguntar: por que produzimos? Por que o mato-grossense produz tanto e cada vez? Certamente pelo desejo de elevar sua qualidade de vida. É claro que todos nós produzimos para ter mais acesso às comodidades, aos bens e serviços que o mundo moderno disponibiliza, produzidos na sua grande maioria em outras regiões do Brasil e do mundo. Infelizmente eles ainda não são transportados pela internet e ainda chegam até nós pelos mesmos caminhões que levam nossa produção. Também sai caro, poluí e mata. Daí a importância da ferrovia de trazer, muito embora esta não se viabilize sem a de levar. Arrisco-me a dizer, entretanto, que a ferrovia de trazer seja a mais importante, pois é ela quem traz a qualidade de vida para o povo, objetivo final da produção e principal viés de qualquer tipo desenvolvimento.
     Por isso a ferrovia em Mato Grosso deve ser pensada tanto para levar a produção como para trazer o desenvolvimento a todos os mato-grossenses. Jamais apenas uma esteira transportadora de grãos. E para que a ferrovia distribua o desenvolvimento por todo o estado ela tem que passar por Cuiabá e Várzea Grande, o maior polo consumidor e distribuidor do estado, subindo a seguir o eixo da BR-163 até Santarém, espinha dorsal do estado, com derivações a leste e oeste, como a FICO, ou variantes para Tangará, Diamantino e para Cáceres. A ferrovia vai baixar o custo dos fretes para a saída dos produtos mato-grossenses, mas também baixará os custos dos insumos para a indústria e a própria agropecuária, e, principalmente, aumentará a oferta com preços reduzidos dos diversos bens e mercadorias a serem consumidos pela população mato-grossense, melhorando em muito sua condição de vida, o verdadeiro desenvolvimento. Esta é a ferrovia que interessa.

(Publicado em 25/09/2012 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 8 de maio de 2012

ESTADO UNIDO DE MATO GROSSO

José Antonio Lemos dos Santos


     Tempos atrás li ou ouvi a expressão que tomo emprestado como título deste artigo comemorativo pelos 264 anos de Mato Grosso, que deveria ser melhor festejado a cada dia 9 de maio. Mato Grosso ano a ano se consolida como um dos estados brasileiros mais produtivos e lucrativos em termos de geração de divisas para o Brasil. Neste, abre o primeiro trimestre batendo seu recorde na geração de empregos, com um saldo positivo de quase 20 mil novas vagas, num incremento de 5,3% sobre as vagas do ano passado. Para se ter uma ideia da importância deste desempenho, no mesmo período o país teve uma queda de 24%!


     Outra notícia extraordinária mostra que neste primeiro trimestre Mato Grosso gerou um saldo na em sua balança comercial no valor de US$ 2,5 bilhões, superior aos US$ 2,4 bilhões gerados por todos os outros estados da federação juntos! Todos os outros juntos! Ano passado no mesmo período o superávit mato-grossense foi de US$ 1,7 bilhão. Nos últimos 3 anos o estado gerou mais de 30% do saldo comercial brasileiro anual, isto é, de cada 3 dólares arrecadados como divisa pelo Brasil, 1 foi produzido por Mato Grosso. Para este ano é esperado que essa proporção suba ainda mais. São números tão grandes que anualizados dariam para construir algumas ferrovias ligando Itiquira a Sinop, passando por Rondonópolis, Cuiabá e Lucas, ou duplicar algumas vezes a rodovia no mesmo trajeto, sem marginalizar ninguém. Por ano! E quantas escolas, hospitais, moradias, centros culturais e esportivos?
     Para chegar a esta posição Mato Grosso contou com o trabalho de sua gente e a extensão e diversidade produtiva de seu território. Consolidou-se como maior produtor nacional de algodão, de milho, girassol e soja, superando ano passado a barreira das 20 milhões de toneladas. Este ano um quarto da produção nacional de grãos será de Mato Grosso. Também é um dos maiores produtores de ouro, diamantes, madeira, álcool, biodiesel, e tem o maior rebanho bovino do país com quase 30 milhões de cabeças. Absoluto, é o maior produtor agropecuário brasileiro. Neste trimestre que começa o ano já é o quarto maior estado exportador do país, só perdendo para São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais deixando para trás economias tradicionais com o Paraná, Rio Grande do Sul e o Pará, forte exportador mineral.
     Desde que foi criado em 1748 por d. João V, Mato Grosso tem participação importante na história do país, sempre só no seu isolamento centro-continental. Indo inicialmente do atual Mato Grosso do Sul até ao Acre, Mato Grosso expandiu os limites de Tordesilhas e depois conseguiu a proeza de defender e consolidar todo este imenso território como terras brasileiras, com muita bravura e sacrifícios de seus filhos. Comemorar os 264 anos de Mato Grosso é antes de tudo cobrar da União tudo aquilo a que o estado tem direito e, sobretudo, homenagear a grandeza do cidadão trabalhador mato-grossense de todos os tempos e recantos do estado – autônomo, patrão e empregado - aquele que de fato faz o sucesso de Mato Grosso, apesar das dificuldades, do desamparo dos governos e do descaso de seus representantes políticos. A riqueza existe e Mato Grosso hoje é rico graças à força e determinação do trabalho de sua gente. Além de ajudar as contas nacionais é preciso que a riqueza produzida aqui retorne em benefícios concretos como rodovias, ferrovias, hidrovias, serviços públicos de qualidade e competentes cuidados ambientais. O sucesso de Mato Grosso é a força de um Estado trabalhador, unido na sua diversidade e com as dimensões e condições exatas exigidas pelo século XXI, o século da internet, da TV a cabo, do asfalto, do avião a jato. Ainda que tenha muito a consertar, Mato Grosso é para ser imitado e aplaudido.
(Publicado em 08/05/2012 pelo Diário de Cuiabá)




terça-feira, 10 de abril de 2012

CUIABÁ 300-7

José Antonio Lemos dos Santos


     Comemorando os 293 anos de Cuiabá retomo a contagem anual regressiva para o tricentenário da cidade, como faço desde 2009. Agora, só faltam 7 anos. Aniversário de Cuiabá é festejar uma cidade que brotou entre as pepitas de um corguinho com tanto ouro, que era chamado pelos nativos de Ikuiebo, córrego das estrelas. E o córrego das estrelas desaguava em um belo rio, num lugar de grandes pedras onde se pescava com flecha-arpão, e que se chamava Ikuiapá, lugar onde se pesca com flecha-arpão, em bororo. E a cidade floresceu bonita e se chamou Cuiabá, célula-mater do oeste brasileiro, mãe original de tudo o que veio a suceder na região, mãe de cidades e de estados.
     No breve tempo que durou o ouro, Cuiabá chegou a ser a mais populosa cidade do Brasil. Mas o metal acabou rápido e seu destino seria o das cidades-fantasmas garimpeiras não fosse a localização mágica, centro do continente, cuja expectativa de riqueza interessava a Portugal. Então, o papa decide que o limite entre as duas coroas ibéricas não seria mais dado por Tordesilhas, mas pela posse das terras. Aí Cuiabá vira um bastião português e sobrevive como apoio aos interesses lusos em terras então espanholas em seu primeiro salto de desenvolvimento, o da sobrevivência, que lhe permitiu continuar viva.
     Logo Portugal criou a Capitania de Mato Grosso com sua sede instalada em Cuiabá, enquanto era construída a futura capital Vila Bela. Por dois séculos sobreviveu a duras penas, mesmo tendo voltado a ser capital, período heroico em que forjou uma gente brava, sofrida, mas alegre e hospitaleira, capaz de produzir um dos mais ricos patrimônios culturais do Brasil, com vultos e proezas que merecem ser melhor tratados e destacados pela história oficial brasileira. Como um astronauta contemporâneo, vanguarda humana na imensidão do espaço, ligado à nave apenas por um cordão prateado, assim Cuiabá sobreviveu por séculos, solta na vastidão centro-continental, ligada à civilização apenas pelo cordão platino dos rios Cuiabá e Paraguai.
     Até que na década de 60 a cidade vibra novamente, transforma-se no “portal da Amazônia” e em pouco tempo sua população decuplica. Foi o salto da quantidade, a expansão necessária para ser a base de ocupação da Amazônia meridional, a qual se deu sem a menor preparação ou apoio da União, que lhe era devido pela função estratégica que desempenhava. Sozinha e sem recursos, apoiando uma região ainda vazia economicamente, Cuiabá explodiu em todos os sentidos, inclusive em sua estrutura urbana, despreparada para tão grande e súbita demanda.
     No alvorecer do novo milênio, Cuiabá está em seu terceiro salto de desenvolvimento, agora o salto da qualidade. Não é mais o centro de um vazio. Ao contrário, polariza uma das regiões mais dinâmicas do planeta, que ajudou a construir e que hoje não apenas lhe demanda o apoio, mas também a empurra para cima cobrando sempre mais, em um sadio e maduro processo de simbiose regional ascendente.
     A sete anos do tricentenário, sua data mais significativa no século, Cuiabá vive o melhor momento de sua história, impulsionada pelo desenvolvimento regional, linkada ao mundo e turbinada como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Nos seus 293 anos, mais do que reverenciar o passado e festejar o presente, é forçoso cuidar melhor do futuro. A Copa é um estratagema do Bom Jesus de Cuiabá para forçar nosso olhar para frente, para o positivo e o construtivo, um choque de adrenalina e capacitação, impelindo a nos colocar, cidadãos, políticos e dirigentes, à altura da cidade que temos. A cidade disparou; nós, ainda não. As eleições deste ano testarão como estamos para encarar toda esta dinâmica do presente e as enormes potencialidades do futuro.

terça-feira, 5 de abril de 2011

CUIABÁ 300-8

José Antonio Lemos dos Santos


     Comemorar os 292 anos de Cuiabá é festejar uma cidade que brotou entre as pepitas da beira de um corguinho que, de tanto ouro que tinha, era chamado pelos nativos bororos de Ikuiebo, o córrego das estrelas. E o córrego das estrelas desaguava em um belo rio, num lugar de grandes pedras onde se pescava com flecha-arpão, e que por isso se chamava Ikuiapá. E a cidade floresceu bonita e se chamou Cuiabá, transformando-se na célula-mater do oeste brasileiro, mãe original de tudo o que veio a suceder na região, mãe de cidades e de estados.
     No breve tempo que durou o ouro, levado quase todo para a Europa, Cuiabá chegou a ser a mais populosa cidade do Brasil. O ouro acabou rápido e seu destino seria o das cidades-fantasmas garimpeiras não fosse a localização mágica, centro do continente, em terras à época espanholas, cuja expectativa de riqueza interessava Portugal. Então o Papa decide que o limite entre as duas coroas não seria mais definido por Tordesilhas, mas pela posse das terras. E Cuiabá sobrevive ao fim do ouro como bastião português, apoio e defesa dos interesses lusos e dá seu primeiro salto de desenvolvimento, o da sobrevivência.
     Logo Portugal criou a Capitania de Mato Grosso com sua sede instalada em Cuiabá enquanto era construída a futura capital, Vila Bela. Por dois séculos sobreviveu à duras penas, quando voltou a ser capital, período heróico que forjou uma gente brava, sofrida mas alegre e hospitaleira, capaz de produzir um dos mais ricos patrimônios culturais do Brasil, com vultos e proezas que merecem ser melhor tratadas e destacadas na história oficial brasileira. Como um astronauta contemporâneo, vanguarda humana na imensidão do espaço, ligado à nave apenas por um cordão prateado, assim Cuiabá sobreviveu por séculos, solta na vastidão centro-continental, ligada à civilização apenas pelo cordão platino dos rios Cuiabá e Paraguai.
     Até que na década de 60 a cidade vibra novamente, transforma-se no “portal da Amazônia” e em pouco tempo sua população decuplica. Foi o salto da quantidade, a expansão necessária como base à ocupação da Amazônia meridional, a qual se deu sem a menor preparação e sem qualquer apoio da União, que lhe era devido pela importante função estratégica que desempenhava. Sozinha e sem recursos próprios, no centro de uma região que apoiava e promovia, mas que ainda não dispunha de recursos, Cuiabá explodiu em todos os sentidos, em dinamismo, em desenvolvimento, mas também no rompimento de sua estrutura urbana, despreparada para tão grande e súbita demanda.
     No alvorecer do novo milênio, Cuiabá está em seu terceiro salto de desenvolvimento, agora o salto da qualidade. Não é mais o centro de um vazio. Ao contrário, polariza uma das regiões mais dinâmicas do planeta, que ajudou a construir e que hoje não apenas lhe cobra o apoio, mas também a empurra para cima cobrando sempre mais, em um sadio e maduro processo de simbiose regional ascendente.
     A oito anos de sua data mais significativa, o tricentenário, Cuiabá vive o melhor momento de sua história, impulsionada pelo desenvolvimento regional e turbinada como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Nos seus 292 anos, mais do que reverenciar o passado e festejar o presente, é forçoso cuidar melhor do futuro. A Copa é um estratagema do Bom Jesus de Cuiabá para forçar nosso olhar para frente, para o positivo e o construtivo, um choque de adrenalina e capacitação, tentando nos colocar, cidadãos, políticos e dirigentes, à altura da cidade que temos. Só assim será possível prepará-la para a Copa e para a festa dos trezentos anos, que também já está bem aí. A cidade deu saltos de desenvolvimento, a cidadania ainda não.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 05/04/2011)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

CUIABÁ 300-10

José Antonio Lemos dos Santos


     Em um local chamado Ikuiapá, com grandes pedras claras onde se pescava com flecha-arpão e um corguinho desembocava em um belo rio, o ouro fez surgir, corgo acima, uma cidade que floresceu bonita e se chamou Cuiabá. Celula-mater do ocidente brasileiro, gerou muitas outras, inclusive estados. E o pequeno córrego tinha tanto ouro que era chamado Ikuiebo, córrego das estrelas, tantas as pepitas que cintilavam à luz do sol e da lua aos olhos bororos, nativos.
     Por breve tempo, Cuiabá foi a mais populosa cidade do Brasil, de onde a Europa levou muito ouro, dinamismo que só durou enquanto durou o ouro. Seu fim seria o das cidades-fantasmas dos garimpos não fosse sua localização mágica, privilegiada, no centro do continente, em terras espanholas na época, cuja perspectiva de riqueza chama a atenção de Portugal. E então o Papa decide que o limite entre as terras dos dois países não seria mais definido pela linha do Tratado de Tordesilhas e sim pelo seu uso. Por ser a vanguarda física da coroa portuguesa nessa disputa, Cuiabá sobrevive ao fim do ouro, dando seu primeiro salto de desenvolvimento – o da sobrevivência, agora baluarte português, apoio e defesa dos interesses lusos.
     Logo Portugal criou a Capitania de Mato Grosso cujo primeiro governo foi instalado em Cuiabá, permanecendo como sua sede durante a construção da futura capital, Vila Bela. Por dois séculos sobreviveu à duras penas, com tempos melhores e piores, inclusive, recuperando nesse ínterim o status de capital. Período heróico que forjou uma gente brava, alegre e hospitaleira, capaz de produzir um dos mais ricos patrimônios culturais do Brasil, com vultos e proezas históricas que merecem melhor tratamento da história oficial brasileira. Como um astronauta contemporâneo, vanguarda humana na imensidão do espaço, ligado à nave apenas por um cordão prateado, assim Cuiabá sobreviveu por séculos, solta na imensidão do hinterland continental, ligada à civilização apenas pelo cordão platino dos rios Cuiabá e Paraguai.
     Até que na década de 60 a cidade é sacudida novamente, transforma-se no “portal da Amazônia” e em pouco tempo viu sua população decuplicar. Foi o salto da quantidade, era a expansão física necessária como base à ocupação da Amazônia meridional, que se deu sem o preparo adequado nem o devido apoio federal que exigia essa importante função urbana de interesse nacional. Sozinha e sem recursos próprios, no centro de uma região que apoiava e promovia, mas que também não dispunha de recursos, Cuiabá teve que receber seus novos habitantes sem poder oferecer a devida qualidade de vida urbana.
     No alvorecer do novo milênio, Cuiabá vive o seu terceiro salto de desenvolvimento, agora o salto da qualidade. Cuiabá não é mais o centro de um vazio. Ao contrário, polariza uma das regiões mais dinâmicas do planeta, que ajudou a construir e que hoje não apenas lhe cobra o apoio, mas também a impulsiona para cima, em um sadio e maduro processo de simbiose regional ascendente.
     Formando com Várzea Grande a maior cidade do oeste brasileiro, Cuiabá tem muito a comemorar nos seus 290 anos. Seu maior presente é o próprio presente que vive: dinâmica, moderna, globalizada, sintonizada como o mundo. Mas, mais que um aniversário, 290 anos é o início da última década antes do tricentenário. A responsabilidade da atual geração de cuiabanos, suas autoridades e lideranças, é fazer com que o salto da qualidade do novo tempo se materialize também na qualidade da cidade física em que vivemos, construindo aquele que será o maior presente para os 300 anos. E temos 10 anos para construí-lo.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 08/04/2009, excepcionalmente numa quarta-feira, aniversário da cidade)