"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 30 de julho de 2018

VERTICALIZAÇÃO OU CELEIRO?

Fábrica de Calçados (Imagem TV Maná)
José Antonio Lemos dos Santos 

     O atual êxito da economia mato-grossense não é uma resultante da divisão do estado como insistem alguns e nem uma obra do acaso. Ao contrário, foi planejado nos anos 70 com os Programas Especiais de Desenvolvimento Regional, como o Prodepan, Polocentro, Polamazônia, Polonoroeste e Promat. Na verdade, vem de antes, da década de 50 com a Marcha para o Oeste, depois Brasília e depois o Programa de Integração Nacional (PIN) com os tais programas de desenvolvimento.
     Olhando de trás para frente as coisas ficam mais claras. Jovem recém-saído dos bancos teóricos da academia, com uma rápida, mas importante experiência no projeto do CPA em Cuiabá, o entusiasmo diante das possibilidades de intervenção real no processo de desenvolvimento da terra natal de certa forma empanava uma visão mais abrangente. A medida que o processo foi se distanciando no tempo, ficou cada vez mais nítido a coerência, a intencionalidade e, principalmente o sucesso daquele conjunto de medidas planejadas e implantadas de forma articulada com o estado e municípios.     
     Ocupar, estruturar, produzir, exportar e verticalizar, este é o roteiro claro de uma história bem-sucedida de desenvolvimento regional, aplicado com competência no Centro-Oeste, mas ainda não concluída em Mato Grosso. Em Mato Grosso do Sul e Goiás é bastante nítido o avanço da verticalização de suas economias dando sinais de que em breve alcançarão a primazia da economia regional. Em Mato Grosso a história parece ter se estancado na etapa da produção primária, do slogan “Estado Celeiro do Brasil”, na qual se firmou como o principal produtor agropecuário nacional e um dos maiores do mundo, e ainda tem muito a produzir. O sucesso produtivo foi tão grandioso que o estado, ainda refém do modal rodoviário, se encalacrou no escoamento de sua produção fazendo com que a etapa da economia exportadora não tenha se concluído e continue sendo o único e principal foco de preocupação das lideranças produtoras, políticas e das autoridades governamentais. Comprometendo o futuro, a verticalização ficou à margem, quando devia ser o coroamento inicial de todo o processo. A verticalização é agregação de valor à produção, garantia de renda e empregos de qualidade, padrões mais elevados de vida, promoção urbana e o vestibular para novos voos civilizatórios.
     Mato Grosso chegou a ser pioneiro no assunto quando ainda em 70 implantou seus primeiros Distritos Industriais pensando já nos frutos da nova agropecuária que começava a ser implantada. Depois com Dante, que arrancou a ferrovia das barrancas do Paraná e a trouxe a Mato Grosso, trouxe o gás e a Termelétrica, destravou a construção de Manso, viabilizou o Porto Seco, internacionalizou o aeroporto, tentou a ZPE de Cáceres e sua hidrovia, tudo isso pensando nas condições para a verticalização da explosão da economia primária já prevista. Mas tudo ficou travado. Enquanto isso Mato Grosso do Sul e Goiás agradecem e voam rumo à verticalização de suas economias e, se bobear, da nossa.
      Seguir o mesmo bom caminho, concluir as etapas e verticalizar antes que seja tarde. Aceitar ser celeiro nesta altura do campeonato é atraso. A logística, tão fundamental e urgente à economia exportadora, é também fundamental à verticalização. Fundamental para levar a produção, trazer insumos e mercadorias, e distribuir a produção pelos diversos polos urbanos estaduais onde pode ser consumida e beneficiada. É básico para verticalizar e para exportar. Mato Grosso não pode mais ver a logística só como uma esteira exportadora, mas como a ferramenta chave para culminar um processo de desenvolvimento que não pode ficar pelo caminho em prejuízo de seu povo.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A VOLTA DA SUDECO

José Antonio Lemos dos Santos

     Minhas tentativas como articulista iniciaram em outubro de 1982 no extinto O Estado de Mato Grosso, numa série de quatro artigos denominados “Cuiabá e a sede da Sudeco”, tendo como padrinho e incentivador o saudoso Archimedes Pereira Lima. Falava da possibilidade da Sudeco se instalar em Cuiabá, pois o órgão devia por lei ter sua sede em sua área de jurisdição, da qual Brasília não fazia parte. Lembrava ainda que quando criada, em 1967, era tido como certo que sua sede seria em Cuiabá, capital mais central na área de atuação do órgão, que então envolvia Rondônia, Mato Grosso e Goiás, estes ainda íntegros. Ademais, manter sua sede em Brasília era manter um órgão criado para ser descentralizador junto à matriz que se pretendia descentralizar, uma contradição que prejudicou a consolidação política do órgão. Contudo, sob a alegação de que em Cuiabá não “assentava” aviões a jato, que o sistema telefônico interurbano ainda era na base do rádio, e outras desculpas dessas, a sede ficaria provisoriamente em Brasília, e lá ficou até que Collor a extinguisse, sob o silêncio complacente de nossas autoridades e representantes federais. Este foi um dos dois motivos – que me orgulham - pelos quais depois fui exonerado do antigo Ministério do Interior. Aliás, assim também perdemos a sede do Comando Militar do Oeste, instalado em Campo Grande em 1986 com meta de se transferir para Cuiabá em 1990.
     No último dia 5 foi publicada no Diário Oficial da União a recriação da Sudeco, cujos detalhes ainda não me inteirei. Em tese acho boa a medida e nem podia ser diferente, pois na época de sua extinção fiz alguns artigos contrários. A Sudeco foi usada como “boi-de-piranha”, sacrificada em favor da preservação das poderosas Sudam e Sudene, sobre as quais pesavam inúmeros escândalos, em especial sobre incentivos fiscais, que a Sudeco não dispunha. Penso que a Sudeco teve papel preponderante na formação do que é o atual Centro-oeste, incluindo Rondônia e Tocantins, e muito especialmente na formação da potencia que é Mato Grosso hoje. A Sudeco planejava a região como um todo, organizando os investimentos federais em fortes programas especiais de desenvolvimento regional, sob a visão e fiscalização de um Conselho Deliberativo composto pelos governadores e outros representantes de cada estado. Assim os recursos federais eram articulados em função de grandes objetivos estratégicos, adquirindo uma sinergia potencializadora, e não de forma isolada e às vezes até contraditória, como acontece hoje.
     O salto diferenciado de desenvolvimento que Mato Grosso apresenta, cuja origem é atribuída por alguns à divisão do estado, na verdade está enraizada no trabalho da antiga Sudeco. É claro que tudo começa com Brasília que fez o Brasil voltar-se para o seu interior, dando início ao espetacular desenvolvimento regional. Cuiabá teve sua população duplicada na década de 60. Através de programas como o Prodoeste, Prodepan, Polamazônia, Polocentro e Polonoroeste, a Sudeco organizou e implantou uma infra-estrutura econômica e social básica, impulsionando o processo desenvolvimentista que já ocorria célere na região. As cidades e municípios que começavam a surgir, em especial no norte do estado, queimavam etapas em sua evolução, pois recebiam a fundo perdido projetos complementares de infra-estrutura urbana, como redes de água e energia, estradas, silos, geradores, criando a base sobre a qual se assenta o extraordinário desempenho que Mato Grosso tem mostrado ao país e ao mundo. Que a nova SUDECO beba nas águas da boa experiência da sua antecessora, resgatando aquele poderoso órgão de desenvolvimento regional que jamais deveria ter sido extinto.