"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MONUMENTOS ILUMINADOS



 José Antonio Lemos dos Santos

     No Dia das Crianças estive na Arena Pantanal com meu filho e netos de Brasília. A Arena estava com sua máscara solar iluminada como deveria estar todas as noites. Ainda que a iluminação estivesse com algumas falhas estava maravilhosa como uma nave extraterrestre pousada em solo cuiabano. Lembrou aquele contato imediato de primeiro grau imaginado por Spielberg em seu filme da década de 70. Meu filho ficou impressionado com o número de pessoas presentes e, inclusive temeroso quanto a possibilidade de um acidente com tanta gente trotando, correndo, andando de skate, patins, bicicletas e quadriciclos em comboios com famílias inteiras felizes, distantes da tradicional e nociva combinação de tv, sofá, pipoca, pizza, cerveja e refrigerante dos lanches de domingos e feriados, que vão nos matando aos poucos.

circuitoMT

     A iluminação de monumentos urbanos é uma prática comum na maioria das cidades do mundo. Destacados com a iluminação não só afagam o ego dos locais como propiciam pontos de encontro agradáveis, e são capazes inclusive de atrair turistas gerando empregos formais e informais, renda e cultura para a população local. Assim são tratados edifícios significativos, estátuas, fontes, obeliscos embelezando e encantando os moradores e visitantes. Sei que alguns contestarão de pronto argumentando que nós precisamos é de hospitais, cadeias, tratamento de esgoto, acabar o aedes aegypti, etc. Penso, entretanto que só trataremos corretamente as mazelas do passado numa perspectiva positiva de construção do futuro. Se ajoelharmos para consertar erros do passado, ficamos de costas para o futuro e não cuidamos nem do passado nem do futuro. Como vem acontecendo. Apesar das tentativas de alguns governantes, dirigir pelo retrovisor nunca dá certo.


     E temos alguns belos exemplos em Cuiabá mesmo, as igrejas do Rosário, do Bom Despacho e Santuário da Auxiliadora quando iluminadas encantam a todos, aos daqui e aos turistas. E como ficou fascinante a igreja do São Gonçalo, no Porto, com o seu Redentor de 3,6 metros recém iluminado a 40 metros de altura. Teria ainda os mastros da Praça da Bandeira, a torre da TVCA e não me lembro de outro. Mas poderiam existir. Um deles é a Ponte Sérgio Mota. É um crime que ela não seja iluminada feericamente. Trata-se de uma edificação monumental de grande beleza e riqueza técnica, pioneira no Brasil nesse tipo de tecnologia. Um cartão postal da cidade desprezado, a nossa Hercílio Luz abandonada. Uns dizem que está assim só porque foi outro que fez.
     Aos que questionam a prioridade de equipamentos que permitem à população a fruição do belo, atividades esportivas e de lazer, gosto de perguntar se têm a ideia de quanto é poupado por ano ao sistema público de saúde pelos bonitos parques urbanos de Cuiabá, inclusive a Arena com sua praça, trazendo satisfação e alegria, que também significam saúde. E à segurança pública também pois a juventude passa ter outras alternativas que não as drogas e a violência para o exibicionismo juvenil, tão naturais nessa faixa etária.
     Outros exemplos que poderiam ser destacados na paisagem cuiabana seriam o obelisco da Praça do Porto, uma homenagem de Corumbá nos 50 anos de sua retomada pelos cuiabanos. O obelisco do Centro Geodésico marcando o centro do continente, o Palácio da Instrucção, o Palácio Alencastro e a catedral metropolitana depois de reformados, o antigo Grande Hotel, a igreja da Boa Morte e Senhor dos Passos e os velhos casarões em restauração pelo IPHAN. Não poderia esquecer o monumento deixado na cidade pela FIFA, uma grande bola  lembrando a Copa 2014 que teve Cuiabá como uma de suas invejadas sedes. Talvez o Tricentenário os ilumine, a eles a aos nossos mandatários.

terça-feira, 27 de maio de 2014

O CENTRO DA AMÉRICA NA COPA


DevilleStarClub

José Antonio Lemos dos Santos

     Outro dia me perguntaram qual seria o primeiro lugar em Mato Grosso ao qual eu levaria um turista. Respondi de imediato: ao centro da América do Sul. Certo que existem muitos outros lugares para levá-lo, mas este seria o primeiro. A pessoa, surpresa, estranhou dizendo que lá não tem nada, não estaria preparado para receber o turista. Aí foi minha vez de estranhar: como não tem nada? Ali tem o centro geodésico de um continente. Aquele é um lugar especial único no mundo e bastaria por si só, apenas assinalado por de um marco indicativo, como o que existe no local. Não fosse o edifício que hoje serve à Câmara de Vereadores, o ideal seria uma grande praça, livre, só com o obelisco para fotos dos turistas, festas, cantos, danças e outras manifestações espontâneas ou oficiais reverenciando o fato de vivermos no mesmo continente, irmãos e hermanos no mesmo barco continental.
     Locais especiais como esse têm em si mesmo um potencial de emoção que segura o visitante, podendo ser um poderoso atrativo a mais ao turista. Basta que esteja limpo, seguro, bem iluminado e que sua existência seja informada ao turista. Importante, por favor, que as autoridades não permitam a instalação no local de barracas, tendas para venda do que quer que seja, ao menos durante a realização da Copa. Nem banheiros químicos. Outro dia levei um parente visitante, e para minha surpresa, estava lá um galpão escorado no obelisco do centro da América do Sul. Desrespeito. Fiquei sem graça. O local não precisa de mais nada, basta respeitá-lo e promove-lo. As agências de turismo e a rede hoteleira poderiam ter visitas programadas a serem oferecidas a preços módicos aos turistas. Ao menos na Copa. 
     O marco recebeu recentemente de Jaime Lerner um tratamento arquitetônico, que justamente buscou destacá-lo através da limpeza de sua área mais próxima, aliás da mesma forma como já havia proposto o arquiteto Ademar Poppi no finado IPDU da prefeitura municipal. Como o edifício da Câmara não impede a visitação ao centro geodésico e já está lá, ainda tenho esperança de vê-lo gerando emprego, renda e cultura para a população, transformado em um centro de cultura sul-americano, sobre o qual venho escrevendo desde 1982. 
Foto José Lemos

     Segundo o professor Anibal Alencastro a história desse marco começa com Joseph Barbosa de Sá que no século XVIII já afirmava sobre Cuiabá que: “Achace esta Villa assentada na parte mais interior da América Austral, em altura de quatorze graos não completos ao Sul da linha do Equador, quase em igoal paralelo com a Bahia de Todos os Santos, pela parte Occidental com a cidade de Lima, capital da Província do Peru, em distancia igoal de huma e de outra costa setecentos e sincoenta légoas que sam as mil e quinhentas que tem latitude nesta altura deste continente,...”. 
     Em 1909, a Comissão Rondon, responsável pela implantação da Linha Telegráfica ligando o Rio de Janeiro a Mato Grosso e Amazonas, instalou o importante marco como apoio referencial aos seus trabalhos, e que depois também serviu de base para o trabalho de consolidação das fronteiras brasileiras e de “marco zero” para a elaboração do primeiro mapa do Brasil ao milionésimo, duas outras hercúleas tarefas cumpridas por Rondon de forma extraordinária. Posteriormente foi realizado o mapa da América do Sul que adotou como base o mapa do Brasil ao milionésimo elaborado por Rondon e seus técnicos, o qual teve como centro para todas suas medidas o marco geodésico instalado no antigo Campo D’Ourique. Não temos o direito de negar aos visitantes em geral, e aos da Copa em particular, o privilégio de visita-lo e tocá-lo, no coração do continente sul-americano. 
(Publicado em 27/05/2014 pelo Diário de Cuiabá, ...)

terça-feira, 4 de março de 2014

SÍMBOLOS E MONUMENTOS

RenêDiozG1

José Antonio Lemos dos Santos


    No último dia 23 de fevereiro o Governo do Estado e a Mitra 

Arquidiocesana entregaram restaurados os relógios e os sinos da 

Basílica do Bom Jesus de Cuiabá. Com os relógios já funcionando a 

alguns dias, os sinos voltaram a badalar às 10h:30 daquela manhã, 

depois de 20 anos. As torres também teriam sido reformadas por dentro 

permitindo visitas agendadas ao campanário e à cripta, a qual, como 

poucos sabem, guarda os jazigos de vultos históricos, como Paschoal 

Moreira Cabral, Miguel Sutil e Dom Aquino. Não fosse a Copa, sabe 

quando isto teria acontecido? Nunca. À bem da verdade lembro que na 

administração José Meirelles foi feita uma reforma patrocinada pela 

colônia sírio-libanesa, doadora dos relógios originais. Porém, durou 

pouco, pois a aparelhagem exige manutenção especializada permanente 

que tem custos, problema que espero ter sido equacionado desta vez. 
RenêDiozG1


     Todas as cidades têm símbolos e monumentos que as marcam, seus 

cartões-postais. Podem ser naturais ou construídos, religiosos, 

públicos, comerciais. Nova York foi marcada por muito tempo pelo 

Empire State, São Paulo pelo edifício do Banespa. Paris tem a Torre 

Eiffel, e o Rio o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. O carinho com que 

cada um desses ícones é tratado em cada cidade expressa de imediato 

aos visitantes o grau de civilidade de seus habitantes, medido pelo 

carinho com que os cidadãos cuidam de sua própria cidade. Os ícones 

urbanos interessam a todos. Já pensaram a estátua do Cristo Redentor 

caindo aos pedaços? No caso de um elemento menor como um relógio 

público numa igreja matriz, numa estação ferroviária ou obelisco, pode 

até ser que seu funcionamento nem chame tanta atenção de um visitante 

como chamaria seu eventual estado de abandono. Uma fonte ou chafariz 

abandonados como depósito de água podre e lixo, marcará para sempre em 

negativo aquela cidade e sua gente na memória do visitante.

     Representando as potencialidades turísticas de todo Mato Grosso, 

Cuiabá está a 100 dias de receber a Copa e com ela milhares de 

turistas, tendo sua imagem distribuída para o mundo todo. Não dá para 

errar. É preciso destacar e mostrar bem as coisas que nos são caras e 

belas. Em junho do ano passado fiz um artigo festejando a iluminação 

do belíssimo Redentor da Igreja do São Gonçalo no Porto, com seus 

3,6m, colocado sobre um globo lá no alto do campanário, a 36 metros 

de altura. É uma obra arquitetônica exemplar que encanta a todos, 

independente de religião, e merecia um tratamento daquele. Mas, na 

outra noite a iluminação já havia sumido. Não valeu o artigo elogioso.

     Agora novas esperanças com os relógios da Matriz revitalizados, 

bem como com a reforma que também está sendo feita na Igreja do Bom 

Despacho. Que esta forma de cuidar os ícones da cidade se alastre 

para outros de seus pontos queridos. Ainda nos monumentos religiosos 

destacaria as Igrejas do Rosário, da Guadalupe e da Boa Morte, a 

Presbiteriana da 13 de Junho, a Mesquita do Morro da Luz e o Grande 

Templo. A lista seguiria com o conjunto formado pela Praça da 

República e Jardim Alencastro e seus principais edifícios, em especial 

os Palácios da Instrução e Alencastro, com a fonte luminosa à sua 

frente. Iria além com o Centro Geodésico, o obelisco do Cinquentenário 

da Retomada de Corumbá na Praça do Porto, o Museu do Rio e o Aquário 

Muncipal, a Estação de Satélites do INPE, o Parque Mãe Bonifácia, 

a Praça das Bandeiras e os painéis de Humberto Spindola no Palácio 

Paiaguás. Tudo bem arrumado, sinalizado, seguro e iluminado, com 

calçadas e bocas-de-lobo íntegras e limpas, quem sabe até interligados 

por um programa de city-tour que há tanto tempo Cuiabá merece. E que 

assim permanecesse para sempre, com nossa eterna cobrança. Amém.

(Publicado em 04/03/2014  pelo Blog do José Lemos) 


Veja no link abaixo os velhos sinos sendo badalados novamente. Mas com badalos
pós-modernos: 
http://www.mt.gov.br/sala-de-imprensa/tv-paiaguas/sinos-e-relogios-da-igreja-matriz-de-cuiaba-voltam-a-funcionar-apos-20-anos/104973

domingo, 23 de fevereiro de 2014

OS RELÓGIOS DA MATRIZ

Foto José Lemos

Quem diria! Mais um milagre da Copa. Os relógios e os sinos da Catedral de Cuiabá funcionando e acertados. A inauguração será hoje, dia 23/02/14 às 9h:00. O principal relógio de uma cidade é um símbolo para ela. Pode estar em um templo religioso, uma estação ferroviária, um obelisco, ou outro lugar destacado. Seu funcionamento pode até nem ser tão importante para a vida dos cidadãos nem chamar tanta atenção do visitante, mas o seu abandono, seu desleixo salta aos olhos como uma expressão da falta de carinho dos habitantes para com sua cidade.

Foto José Lemos

Sem a Copa, sabe quando veríamos esta cena com os relógios funcionando? Eu não sei. Nosso desafio é que não deixemos que seja abandonado de novo, cobrando que outros símbolos da cidade sejam revitalizados e mantidos dignamente.
Sem reduzir meus aplausos à restauração já feita, falta agora dar um trato geral no edifício. Veja na foto abaixo as ferragens expostas em uma das torres.
Foto José Lemos

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CORAÇÃO DA AMÉRICA DO SUL


José Antonio Lemos dos Santos
Imagem: José Antonio

Aprendemos com o Pequeno Príncipe, leitura obrigatória dos tempos do antigo Científico, que a gente fica responsável pelo que cativamos. Vai daí que Cuiabá e os cuiabanos assumimos um imenso, um lêpa de compromisso depois que apresentamos ao mundo através da Mangueira nossa cidade como a “capital da natureza”, um “paraíso no centro da América”. A magia do carnaval e da televisão levadas por esse mundo afora pela maravilha dos satélites e da internet com certeza despertou em muita gente, no caso milhões de pessoas espalhadas pelo planeta, no mínimo a curiosidade em conhecer esta terra cheia de história, lendas, causos e exuberante natureza, natureza esta que todos pensavam destruída ao cruel som das motosserras de ouro ou não. A fantasia carnavalesca levou ao mundo que esse lugar ainda existe, e é Cuiabá. Pareceu ser essa a intenção e foi realizada com brilhantismo. 
     Fizemos a propaganda, o produto existe de fato e é de grande qualidade. Agora, o que resta é entregar a mercadoria alardeada e entregá-la de maneira digna ao comprador, no caso o turista atraído pela exibição na Sapucaí. Agora é que a porca torce o rabo. A história, as lendas, os “causos”, a exuberante natureza e o centro do continente estão aí, ainda que mal cuidados, desprezados e até mesmo desconhecidos de parte dos cuiabanos. Como prepará-los para o consumo pelo turista? Como transformá-los, minimamente que seja, em produtos turísticos que agradem ao visitante dando a ele vontade de voltar e até fazê-lo um propagandista positivo daquilo que viu? Ou pelo menos não voltar falando mal? Importante reparar que este turista gerado na Sapucaí não está preso à Copa, e pode resolver vir amanhã, depois, ou ficar a vida inteira arrumando condições para um dia visitar aquele paraíso que viu um dia pela televisão, como muitos brasileiros já sonham um dia conhecer antes de morrer a Capadócia da novela e lá ver as belas cavernas high-tech e aquele céu sempre colorido por balões, maravilhas televisivas recém-embutidas em seus imaginários. 
     Faltando pouco mais de 450 dias para o início da Copa o que pode ser feito? Quem sabe não dá ao menos para iniciar entre nós, governantes e governados, uma rápida mudança de postura para com essas maravilhas que temos, passando a vê-las com carinho e cuidado, como joias cada vez mais raras e procuradas no mundo, das quais fomos escolhidos pela natureza como seus fieis depositários? Para começar as autoridades poderiam criar patrulhas permanentes para limpeza urgente dos lixões instalados no nosso paraíso e os cidadãos poderiam assumir o compromisso de não mais produzi-los. Embalados pelo sonho carnavalesco, daria para começar agora e nunca mais parar? 
     Não havendo prazo para abarcar todas as possibilidades e nem como pensar em obras de grande porte de imediato, o importante é que aquilo que for preparado, seja bem feito, confiável e funcione bem. Por exemplo, arrisco a rever a antiga proposta pontual de trabalhar junto à rede hoteleira um serviço de visitas agendadas ao obelisco do Centro Geodésico da América do Sul, com fotografias e diplomas personalizados, assinados pelo prefeito e pelo presidente da Câmara, cobrados a preços de custo. É claro que demandaria um rápido tratamento arquitetônico no local, aproveitando o projeto do escritório de Jaime Lerner e a estrutura do próprio edifício hoje existente, com implantação de um sistema de iluminação cenográfica e algumas complementações de apoio ao turista. Deste tipo, muitos outros. Como com a Copa, de novo Cuiabá foi posta em uma vitrine global, a Sapucaí, outra oportunidade de ouro a ser aproveitada e transformada em emprego, renda e qualidade de vida para sua gente. 
Imagem: José Antonio

(Publicado em 26/02/2013 pelo Diário de Cuiabá)