"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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quarta-feira, 8 de abril de 2026

CUIABÁ, CELULA MATER

 José Antonio Lemos dos Santos

     Urbanista por formação e ofício, além disso cuiabano bairrista, sinto a obrigação e o prazer de estudar Cuiabá e poder contar sua história. Para facilitar a narrativa, divido a evolução da cidade em 5 fases, procurando corresponder aos momentos diferentes pelas quais a cidade passou e vem passando.  A primeira seria a “Cidade do Ouro”, depois a “Cidade Baluarte”, seguida da “Cidade Verde”, depois “Portal da Amazônia” e, por fim a “Capital do Agronegócio”.

     A “Cidade Baluarte”, porém, sempre me desafiou, pois, as cidades garimpeiras tendem a tornar-se cidades-fantasmas quando o ouro acaba, a não ser quando descobrem outra função, como por exemplo, Ouro Preto e Goiás Velho, cidades-irmãs de Cuiabá, que receberam a função de capitais das então recém-criadas Capitanias de Goiás e Minas Gerais, garantindo suas sobrevivências. Cuiabá não teve tal privilégio, preterida por Vila Bela, construída para ser a capital mais a oeste por razões estratégicas. Como Cuiabá então conseguiu sobreviver?

     Esta resposta veio no magnífico livro “O poder metropolitano em Cuiabá”, da Entrelinhas/UFMT, de autoria do professor, doutor Otávio Canavarros, riquíssimo em informações e argumentos que merecem ser esmiuçadas pelo leitor, mas que pelo que cabe neste artigo, pinço apenas a afirmação de que Cuiabá teve importante papel na estratégia da Coroa Portuguesa visando a posse das terras então espanholas a Oeste de Tordesilhas. Quando o ouro apareceu em Cuiabá, os limites do tratado de Tordesilhas já estavam superados em muito pelos portugueses através de alianças com os indígenas e dos bandeirantes paulistas que expulsaram os espanhóis e chegaram ao Guaporé alcançando o território que pretendiam para si e que hoje configura os limites a Oeste do território brasileiro. A negociação entre oficial entre os países se dava em cima do “fato consumado”, o direito pela posse, o uti possidetis, e o acerto diplomático era questão de tempo, que veio afinal com a estruturação do poder da Coroa Portuguesa em Cuiabá quando elevada à Vila Real em 1727, depois reafirmada com a criação da Capitania de Mato Grosso em 1748, a assinatura do Tratado de Madri em 1750, a fundação de Vila Bela em 1752 e o Tratado de Santo Idelfonso em 1777. Traduzindo para minhas palavras de leigo, em 50 anos Portugal sacramentou seu domínio sobre o território que pretendia e que hoje é parte importante do território brasileiro. 

     Assim, findo o ouro, Cuiabá foi destinada pelos interesses da Coroa Portuguesa a ser seu baluarte nas terras recém conquistadas, o que permitiu sua sobrevivência como cidade, não obstante a origem garimpeira. “Celula-mater” da extensa região recém conquistada, Cuiabá multiplica-se hoje em 3 estados e 273 municípios, desde a primeira demarcação de limites de um município na região, Poconé, em 1831. Mesmo com o importante livro do doutor Otávio Canavarros, a história oficial brasileira ainda subestima Cuiabá. Suas marcas históricas são cicatrizes que deviam estar sendo reverenciadas como monumentos à História do Brasil e não marginalizadas como restos de episódios locais banais provincianos. 


segunda-feira, 20 de novembro de 2023

24/11 ANTONIO JOÃO 200

 


José Antonio Lemos dos Santos

     24 de novembro, data que celebra um herói. Não se trata de exaltar as guerras em geral ou uma guerra específica. Heróis existem em cada lado de qualquer contenda ou disputa, assim como covardes ou traidores, a depender do lado por onde são vistos. Herói é aquele que promove ou defende a todo custo, inclusive pessoais, os valores primordiais de seu povo em todas as áreas da ação humana, até nas guerras, embora estas não devessem acontecer, mas aconteçam. Covardes ou traidores são o contrário dos heróis.

     Quero falar sobre Antonio João Ribeiro, hoje quase desconhecido, mas um herói brasileiro que defendeu seu país a preço da própria vida em um dos episódios mais dramáticos e desprezados da Guerra da Tríplice Aliança. Nascido em Poconé (MT)em 24 de novembro de 1823, morreu em Mato Grosso do Sul, na região onde hoje é o município de Antonio João, que o homenageia com seu nome. Neste ano de 2023 são completos exatos 200 anos de seu nascimento e este é o principal motivo deste artigo.

    Seu drama ocorreu quando comandava a Colônia Militar de Dourados com uma guarnição de 14 soldados, mais cinco colonos - quatro homens e uma mulher - tendo que enfrentar um cerco de 365 adversários mais equipados. Rejeitou com altivez o ultimato do inimigo para render-se, não fugindo ao embate desigual. Antes do embate enviou mensageiro ao comando superior com sua decisão de defender aquela posição brasileira, ainda que a preço da própria vida. Não se escondeu em gabinetes, ao contrário, foi para a linha de frente onde morreram ele, dois soldados e mais dois colonos. Os demais foram dominados. 

     A mensagem enviada foi interceptada pelos inimigos e, mesmo assim, tamanha era a eloquência de seu texto que a fez saltar da folha de um papel dado como extraviado, para as páginas das grandes epopeias brasileiras. Os bravos reconhecem seus iguais e se respeitam mesmo estando em lados opostos. E assim foi. 

     Em 1980 o Exército Brasileiro consagrou o Tenente Antonio João Ribeiro como um de seus Patronos e construiu na Praia Vermelha, onde se encontram dois dos mais importantes centros de formação militar do Brasil, a Escola de Comando e Estado Maior do Exército e o Instituto Militar de Engenharia, um monumento em homenagem aos combatentes da Guerra do Paraguai tendo em posição de destaque a figura do ilustre mato-grossense e sulmatogrossense, o poconeano Tenente Antonio João Ribeiro representado no momento em que seu corpo se curva para trás alvejado de morte. 

     A mensagem enviada a seus superiores e interceptada pelos adversários, era pequena no tamanho e grande no significado. Segundo o site do Exército Brasileiro ela extravasava o inarredável sentimento do dever militar, expresso nas poucas palavras ali colocadas pelo bravo Tenente:” Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo de minha Pátria”. Foi, de fato, para além do dever militar firmando-se na linguagem cívica brasileira como expressão da afeição extrema da cidadania pelo seu berço pátrio diante de quaisquer tipos de ameaças que sobre ele pairem. Merece ser lembrado

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

ANTONIO JOÃO RIBEIRO, 200 ANOS

 

José Antonio Lemos dos Santos

     Não se trata de exaltar as guerras em episódios ou personagens especiais, mas de celebrar um herói. Heróis existem em cada lado de qualquer contenda ou disputa, assim como covardes ou traidores, a depender do lado por onde são vistos. Herói é aquele que promove ou defende a todo custo, inclusive pessoais, os valores primordiais de seu povo em todas as áreas da ação humana. Em suma, existem heróis nos esportes, na cultura popular, na saúde, na arquitetura, na política, e até nas guerras, embora estas não devessem acontecer, mas aconteçam. Covardes ou traidores são o contrário dos heróis.

     Quero falar sobre Antonio João Ribeiro, hoje quase desconhecido, mas um herói brasileiro que defendeu seu país a preço da própria vida em um dos episódios mais dramáticos da Guerra da Tríplice Aliança. Nascido em Poconé (MT)em 24 de novembro de 1823, morreu em Mato Grosso do Sul, na região onde hoje é o município de Antonio João, que o homenageia com seu nome. Neste ano de 2023 são completos exatos 200 anos de seu nascimento e este é o principal motivo deste artigo.

    Seu drama ocorreu quando comandava a Colônia Militar de Dourados com uma guarnição de 14 soldados, mais cinco colonos - quatro homens e uma mulher - tendo que enfrentar um cerco de 365 adversários mais equipados. Rejeitou com altivez o ultimato do inimigo para render-se, não fugindo ao embate desigual. Antes do embate enviou mensageiro ao comando superior com sua decisão de defender aquela posição brasileira, ainda que a preço da própria vida. Não se escondeu em gabinetes e foi para a linha de frente onde morreram ele, dois soldados e mais dois colonos. Os demais foram dominados. 

     A mensagem enviada foi interceptada pelos inimigos. Tão eloquente era o seu texto que mesmo próximo do enfrentamento em luta sangrenta, ficou gravada mesmo na memória dos adversários que a leram, saltando de um texto em um papel dado como extraviado para a história das grandes epopeias brasileiras. Os bravos reconhecem seus iguais e se respeitam mesmo estando em lados opostos. E assim foi. 

     Em 1980 o Exército Brasileiro consagrou o Tenente Antonio João Ribeiro como um de seus Patronos e construiu na Praia Vermelha, onde se encontram dois dos mais importantes centros de formação militar do Brasil, a Escola de Comando e Estado Maior do Exército e o Instituto Militar de Engenharia, um monumento em homenagem aos combatentes da Guerra do Paraguai tendo em posição de destaque a figura do ilustre mato-grossense e sul-matogrossense, o poconeano Tenente Antonio João Ribeiro representado no momento em que seu corpo se curva para trás alvejado de morte. 

     A mensagem enviada a seus superiores e interceptada pelos adversários, era pequena no tamanho e grande no significado. Segundo o site do Exército Brasileiro ela extravasava o inarredável sentimento do dever militar, expresso nas poucas palavras ali colocadas pelo bravo tenente:” Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo de minha Pátria”. Vai, de fato, para além do dever militar firmando-se na linguagem cívica brasileira como expressão simbólica da afeição extrema da cidadania pelo seu berço pátrio diante de quaisquer tipos de ameaças que sobre ele paire.   







domingo, 29 de dezembro de 2013

CUIABÁ NO "EL PAIS"

(Publicado no Repórter MT)
Reportagem assinada pelo jornalista Afonso Benites, do jornal El País, da Espanha, destaca Cuiabá como uma cidade onde sobram bares e falta lazer. A matéria diz ainda que a Capital "ganhou na loteria" ao ser escolhida como uma das sedes para a Copa do Mundo de 2014 e que a cidade, juntamente com Várzea Grande, virou um gigantesco canteiro de obras. Confira abaixo a reportagem na íntegra. 


AFONSO BENITES
EL PAÍS


Uma cidade quente, com pessoas acolhedoras e animadas que cresceu sem planejamento urbano. Um centro histórico descuidado que parece ser muito diferente de bairros de classe média que reúnem bares e restaurantes conceituados. Seu maior presente, às vésperas de seu terceiro centenário, foi ser indicada para sediar quatro partidas da Copa do Mundo de 2014. 

Essa é Cuiabá, no Mato Grosso, encravada no centro geodésico da América do Sul, no Centro Oeste Brasileiro. A capital mato-grossense é uma das portas de entrada para o Pantanal (que se divide em dois Estados brasileiros, MT e MS, além da Bolívia e do Paraguai). 

Por ter uma temperatura média de 32o C, é uma das cidades que mais consome cerveja no país. Até por isso, seus bares são tão agitados e há uma crescente e interessante indústria artesanal dessa bebida. Nos últimos cinco anos apareceram cerca de 30. 

As duas regiões mais agitadas na noite cuiabana são a praça Popular, que apesar do nome, concentra bares e restaurantes mais tradicionais e elitizados, e a praça da Mandioca, que tem espaços mais alternativos. 

Agora, se sobram opções de gastronomia e bebidas - são mais de 1.000 bares e restaurantes em uma cidade com pouco mais de 500 mil habitantes -, faltam as atrações culturais. Não há museus com grandes acervos, galerias de fotos ou exposições permanentes, como em grandes cidades brasileiras. 

Um dos poucos atrativos é o Sesc Arsenal, um prédio do século XIX, que, no período imperial, armazenava as armas dos militares de todo o Mato Grosso. Nesse local, há várias apresentações culturais. A outra opção para conhecer um pouco da região é o aquário municipal de Cuiabá, com algumas espécies de peixes do Pantanal e um tanto mal cuidado. 

Quem for hoje à Cuiabá, provavelmente encontrará um município muito diferente do que verá nas vésperas da Copa. Nunca houve tantas obras em um período tão curto. Só no trânsito, com a construção de pontes, viadutos, estradas, foram 23 intervenções ao custo de quase 300 milhões de reais. Isso sem contar a construção de um novo estádio, a Arena Pantana,l e de campos para treinamento. Atualmente, Cuiabá, e a vizinha Várzea Grande, onde está o único aeroporto para grandes aeronaves da região, são um gigante canteiro de obras. 

Mas quem se deslocar até lá não deve ficar apenas na cidade. As principais opções turísticas naturais mais próximas são Nobres (a 120 km com um vasto parque aquático), além de Poconé e Cáceres (no meio do Pantanal, a cerca de 105 e 175 km de distância, respectivamente). 

Nobres, perto da ex-badalada Chapada dos Guimarães, na Serra do Tombador, tem diversas cachoeiras e rios. Seu objetivo é se tornar um dos principais polos turísticos da região central do Brasil nos próximos anos. Os problemas são a reduzida quantidade de pousadas e hotéis. Os passeios lá custam entre 10 e 200 reais. 

No Pantanal, nem tudo é tão barato. O preço de um hotel em Poconé, por exemplo, pode chegar a 420 reais por noite em uma suíte simples. Os mato-grossenses costumam dizer que essa é uma região que só os gringos conseguem visitar. É também uma cidade rica em festas populares. O folclore e a cavalhada de Poconé, em junho, reúnem cerca de 10 mil pessoas por dia. 

A expectativa desses municípios é que a loteria, que Cuiabá ganhou ao receber a Copa, também se reverta em lucro para eles. Só é preciso que se preparem melhor.