"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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terça-feira, 12 de março de 2013

BR-163, PARADA PELA VIDA

Imagem: ExpressoMT


José Antonio Lemos dos Santos

     Como mato-grossense acompanhei com muito interesse a “Parada pela Vida” organizada pelas cidades de Lucas, Sorriso e Nova Mutum, interrompendo por cerca de 1 hora a BR-163 em protesto contra as mortes ocorridas na rodovia decorrentes do seu abandono pelos governos e autoridades. Essa rodovia é a espinha dorsal de Mato Grosso e para ela converge quase toda a produção do estado líder na agropecuária do país, e por ela chegam os insumos, as fábricas, os alimentos e as mercadorias diversas que não tem produção local, mas que são indispensáveis à qualidade de vida da população mato-grossense. Mais importante é que por ela também circulam milhares de pessoas levando ou trazendo cargas, ou em viagens de negócios, tratamento de saúde, estudos, compras, reencontros familiares ou em busca do merecido lazer, submetendo-se a uma situação de altíssima periculosidade. 
     Geralmente se esquece que junto com as perdas da economia, nossas estradas também estão matando gente, dolorosa verdade que a sensibilidade de uma mulher, Neiva Dalla Valle, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Sorriso transformou em um movimento que contagiou os municípios vizinhos, envolvendo a população local, caminhoneiros, e até políticos, apesar de corresponsáveis pelo drama das estradas. Ótimo ver a sociedade através de suas entidades representativas sacudir prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, numa mobilização por um problema comum. Sem essa de federal, estadual ou municipal: o interesse público é uno. 
     Segundo as estatísticas oficiais, só nas rodovias federais em Mato Grosso em 2012 aconteceram 4.277 acidentes, em média quase 12 acidentes por dia vitimando 2.184 pessoas, ou seja, quase 6 vítimas por dia em média. Dentre estas vítimas 742 tiveram ferimentos graves e 270 morreram, ou seja, 1012 mortos ou feridos gravemente no ano. Quase 3 mortos ou gravemente feridos todos os dias em média. Estes dados só contam os óbitos ocorridos até 24 horas após os acidentes. Quanta maldade contra um povo trabalhador, que não produz armas de destruição, nem drogas, mas alimentos que ajudam, e muito, a saciar a fome no Brasil e no mundo. Quanta maldade contra um povo trabalhador que no ano passado produziu quase US$ 13,0 bilhões de superávit comercial para o Brasil, que daria para todos os anos duplicar muitas vezes essa e outras rodovias, construir as ferrovias e hidrovias que o estado e a qualidade de vida de sua população tanto exigem.
     A “Parada pela Vida” resgata no mato-grossense a capacidade de expressar sua indignação. Bom exemplo para nós cuiabanos-várzegrandenses. Essa luta dos irmãos do médio norte também é nossa. A duplicação de Rondonópolis ao Posto Gil que não também não sai do papel é um pedaço dela. Dias atrás, ante nosso silêncio o DNIT “fracassou” a licitação da duplicação do trecho Cuiabá-São Vicente. A Ferronorte parada a 560 Km de Lucas é um deboche. Quem dera uma outra “Parada pela Vida” se repetisse em breve, com nova interrupção simbólica da rodovia, ampliada em todas as cidades ao longo da 163, de Rondonópolis a Guarantã, passando por Cuiabá, Várzea Grande e Sinop, sacudindo sem cor partidária associações comerciais e empresariais do campo e da cidade, câmaras de vereadores, clubes de serviço e outras forças coletivas de cada local. Como sonhar ainda é grátis, lembro o aniversário de Mato Grosso no próximo 9 de maio como uma boa data para o estado aprumar-se de novo, unido, ao longo de sua vértebra logística protestando com mais força ainda contra esse quadro inaceitável de descalabro, deseconomia, insustentabilidade, sofrimento e morte. 

(Publicado em 12/03/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O ANTIGO MATO GROSSO REUNIDO

interativapantanal.com.br


José Antônio Lemos dos Santos

     Semana passada estive no Balneário das Águas Quentes aqui da Serra de São Vicente, um local paradisíaco onde costumava ir com meus pais quando criança e de vez em quando ainda vou, agora com minha família. Já há algum tempo não ia. Disseram que no início da semana o movimento era menor, e isso era bom, pois a idade vai me fazendo cada vez menos simpático às aglomerações. Uma vez instalados, observamos que os apartamentos e chalés do hotel estavam todos ocupados, mas que, apesar disso o número de pessoas era confortável, graças a um dimensionamento de ocupação adequado à sua capacidade de suporte e foi ótimo para o descanso, ao menos o mental. Já o físico ficou por conta das tentativas de acompanhar o neto se esbaldando naquela maravilha. O local continua lindo incrustado nas dobraduras da serra, enriquecido pelo espetáculo das borboletas, aves e macacos, sem constrangimento ante nossa presença de animais autoproclamados racionais.
      Do passeio trago ao leitor algumas observações e perguntas. Primeiro, uma grande tristeza com o babaçual da serra que parece estar sendo destruído por alguma praga. Seria impensável que aquela destruição já considerável dos babaçus seja intencional. O que estaria acontecendo? Tantas ONGs e órgãos dedicados ao meio ambiente, e nunca vi qualquer referência a esse mal em uma das paisagens mais belas do estado. Outra observação é quanto a excelência da qualidade da duplicação da pista no trecho da serra. Um serviço muito bem-feito, raramente visto no Brasil em obras públicas. Tão boa a pavimentação em concreto que o velho suplício da subida de São Vicente transformou-se em prazer em dirigir. Nada, porém, torna aceitável o longo tempo para a execução desses pouco mais de 8 Km, apesar do ótimo resultado, repito. Seria um desrespeito à engenharia brasileira. O desapontamento foi verificar que as obras da tão necessária duplicação parecem paradas ao final daquele trecho, quando deviam estar aceleradas, não só por sua urgência quanto por ser uma obra do PAC2, programa prioritário da presidenta Dilma, com recursos definidos, aparentemente sem qualquer razão para não seguir adiante célere.
     Mas o que mais me chamou a atenção foi ver em torno daquelas maravilhosas fontes naturais de águas quentes e geladas pessoas de todo Mato Grosso, e de muitos lugares de Mato Grosso do Sul e Rondônia reunidas, alegres, comungando fraternalmente o mesmo espaço, trazendo à lembrança que seus territórios hoje separados em unidades federativas distintas já foram um só, integrantes do antigo Mato Grosso, que ia do Apa ao Guaporé, o “Ocidente do imenso Brasil”, na letra de Dom Aquino. Como se o velho Mato Grosso do início do século passado estivesse se reencontrando no convívio amigo daquelas pessoas.
     O Hotel das Águas Quentes é do início da década de 1942 e até hoje funciona e encanta. Que fantástica visão de futuro dos administradores daquele tempo, a qual não me canso de elogiar em diversos empreendimentos do passado. Enxergavam, planejavam e faziam. E faziam bem. O complexo das Águas Quentes é um belo exemplo que antevia o futuro do turismo no mundo envolvendo uma arquitetura da maior qualidade perfeitamente integrada à natureza, encantadora, como se dela fizesse parte. A falha geológica que vai de São Vicente até Caldas Novas em Goiás deixa em Mato Grosso um enorme potencial termal com muitas fontes, tais como as de Juscimeira e Barra do Garças. As fontes termais são riquezas diferenciadas exclusiva de poucos lugares e Mato Grosso dispõe dessa imensa riqueza que um dia ainda será compartilhada de forma sustentável nacional e internacionalmente, gerando emprego, renda e qualidade de vida para nossa gente. Amém. 

(Publicado em 22/01/2013 pelo Diário de Cuiabá) 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

NOVO PREFEITO, NOVA CIDADANIA

José Antonio Lemos dos Santos

     Como se repete a cada dois anos, domingo passado tivemos a grande festa da democracia no Brasil, agora com a eleição dos novos prefeitos nas 50 cidades brasileiras que ficaram dependentes do segundo turno nestas eleições municipais de 2012. As eleições democráticas são antes de tudo um amplo processo de reflexão da sociedade sobre seu presente e seu futuro, reafirmando ou corrigindo rumos e concluindo com a escolha daqueles que serão responsáveis por sua condução nos próximos anos. Trata-se de momento especial em que a sociedade debruça sobre seus problemas e potencialidades, avalia os caminhos a seguir e, sobretudo, amadurece seus conceitos sobre a democracia, ajudando a aperfeiçoá-la. Não há derrotados ou perdedores, só vencedores. 
     Nas minhas não poucas eleições já vividas arrisco-me a dizer ter sido esta a mais madura de todas, naturalmente com muitos detalhes a corrigir e até alguns erros grosseiros como aquela falha de comunicação da própria Justiça Eleitoral no primeiro turno que forçou a suspensão da apuração dos votos em Cuiabá por algumas horas. No mais tivemos de um modo geral um show de civismo por parte da população, seja ao longo dos comícios e debates, seja na tranquilidade do pleito, das apurações e das comemorações pós-eleitorais. Tive a impressão de que mesmo a escolha dos candidatos se deu de forma mais amadurecida no Brasil inteiro, por exemplo, com a significativa redução de sensibilidade aos apelos de figuras midiáticas como ex-jogadores, artistas, radialistas e apresentadores de TV que tradicionalmente disparavam como os mais votados em todas as eleições. Parece que enfim começamos a perceber a diferença de atribuições entre as funções. Mesmo na eleição majoritária pode ser notada uma maior cautela, uma espera maior para definição, sem aquele oba-oba imediato semelhante a torcidas de futebol, muito característico das eleições do passado.
     Cuiabá teve talvez, em seu conjunto, o melhor grupo de candidatos a prefeito de sua história. Chegaram ao segundo turno um político e um empresário de grandes qualidades e inovadores em suas áreas. Foi eleito Mauro Mendes, já temperado pelo fogo de duas eleições, e agora com o mérito de suplantar na escolha popular a Lúdio Cabral uma nova figura na política local, carismático e dono de uma performance exemplar na Câmara de Vereadores. O novo prefeito assume Cuiabá no melhor momento de sua história, com a responsabilidade de ajudar a prepará-la e conduzi-la sob o foco dos holofotes de uma Copa do Mundo, bem como de encaminhar os preparativos para o Tricentenário, seu mais significativo evento no século. Caberá a ele o papel de maior autoridade municipal, líder condutor de Cuiabá na solução de seus problemas e, principalmente, no desenvolvimento de todas as imensas potencialidades que o futuro lhe oferece como lugar central de uma das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta. Não só consertar os problemas da cidade do passado, mas corrigi-los à luz da construção da cidade do futuro. Não só cuidar das responsabilidades do âmbito municipal, mas cobrar os direitos de Cuiabá nas instâncias em que estiverem. O aeroporto, o gás, a ferrovia, o Porto-Seco, a duplicação rodoviária até Rondonópolis e Posto Gil, projetos fundamentais ao futuro de Cuiabá, não podem continuar abandonados politicamente. 
     a escolha do prefeito é a ponta do iceberg eleitoral. O mais importante é o amadurecimento cívico que os processos eleitorais trazem com a reflexão da sociedade sobre seu destino. Mais que um novo prefeito, parece surgir enfim uma nova cidadania, menos passiva, que aplaude, propõe e ajuda as autoridades, mas que também critica, cobra e fiscaliza. Boa sorte Cuiabá, e que venha o futuro!