"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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terça-feira, 29 de maio de 2018

CAMINHONEIROS E FERROVIA

RUMO - Imagem Revista Modal
José Antonio Lemos dos Santos
     A paralisação dos caminhoneiros escancarou para o Brasil o quanto é grave o problema da logística nacional de transportes. A história nos esfrega na cara que o problema vai muito além de transporte de cargas e pessoas, e chega a envolver a vida de uma cidade, região ou de um país. Mais que segurança nacional, a questão da logística de transportes lato sensu envolve a segurança vital de um povo. Dizem que as grandes crises são oportunidades para grandes soluções e quem dera esta faça o Brasil rever sua política de transporte com ferrovias, hidrovias e dutovias pensadas como prioridade. Quem dera também resolva a dramática questão ferroviária de Mato Grosso.
     Ao menos desde o começo do século passado discute-se a ligação ferroviária de Mato Grosso, mas foi na década de 1970 que o primeiro passo concreto foi dado com a inclusão do projeto no Plano Nacional de Viação. Depois em 1989 com a assinatura em Cuiabá pelo então presidente Sarney da concessão à Ferronorte de um verdadeiro sistema ferroviário para o Centro-Oeste brasileiro. Não se tratava só da ligação ferroviária de Cuiabá, mas de um grande sistema nela centralizado ligando-a aos portos e mercados do Sul/Sudeste brasileiro através de São Paulo, Uberaba e Uberlândia, aos portos amazônicos através de Santarém e Porto Velho, podendo chegar aos portos do Pacífico. Ano que vem a importante concessão completa 30 anos. De lá para cá os trilhos avançaram quase 800 km até Rondonópolis onde foi implantado o maior terminal ferroviário da América Latina. Não foi rápido, mas avançou. A grandiosa ponte sobre o rio Paraná, marco inicial das obras, neste dia 29 de maio completa 20 anos, monumento a uma grande luta que não pode ser esquecida.
Ponte Rodoferroviária 20 anos (Imagem RubineiaDigital)

     Tudo caminhava ainda que devagar, até que em 2007 Mato Grosso indicou o diretor do DNIT. A expectativa era que nossa ferrovia enfim deslanchasse, mas aconteceu o contrário. De surpresa foi proposta uma outra ferrovia, a FICO ligando Goiás à Vilhena passando por Lucas do Rio Verde e Sapezal, que de imediato entrou no PAC-1 deixando de fora a Ferronorte, depois interrompida em Rondonópolis, isolando Cuiabá e todo o Mato Grosso platino do projeto ferroviário. Em 2010 a ALL devolve à União os trechos a partir de Rondonópolis. Era para acabar!
     Aberta a porteira, de lá para cá outros projetos surgiram com a ferrovia parada em Rondonópolis e Mato Grosso sendo prejudicado das mais diversas formas. Todos esses novos projetos envolvendo vultosas somas de recursos e passando por regiões que demandam no mínimo demorados estudos ambientais. Moral da história, se as dificuldades eram muitas para a conclusão de um só projeto já iniciado quanto mais 4, ainda mais envolvendo ambiciosas disputas geopolíticas regionais.
     Talvez o drama nacional exposto pela atual paralisação dos caminhoneiros restaure o bom senso aos gestores da política de transportes em nosso estado e no país. O antigo traçado da Ferronorte não exclui os demais projetos que podem continuar avançando em seus estudos enquanto avance a ligação de Rondonópolis à Cuiabá e Nova Mutum, a uma distância de menos de 600 km em região antropizada, sendo que o primeiro trecho até Cuiabá de 260 Km já no ano 2000 teve projeto apresentado em audiência pública. A viabilidade desta continuidade foi anunciada no Fórum realizado em novembro do ano passado em Nova Mutum com a presença do governador e dos presidentes do BNDES e da RUMO, atual empresa concessionária. Se tivesse sido prosseguida a obra depois da chegada em Rondonópolis, talvez a ferrovia já pudesse estar chegando à Sinop. Quem sabe os caminhoneiros trarão de volta o bom senso e a continuidade dos trilhos para Mato Grosso?

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

DILMA, FICO E FERRONORTE

José Antonio Lemos dos Santos

     É aguardado hoje o lançamento oficial da safra de soja 2013/2014 de Mato Grosso com a presidenta Dilma em Lucas do Rio Verde, safra que se espera mais uma vez exitosa e recordista, como promete ser toda a safra de grãos do estado prevista em 48 milhões de toneladas, um quarto de toda a produção brasileira. Aos grãos, somam-se a pecuária, as plumas, o etanol, o biodiesel, diamantes e ouro, transformando Mato Grosso de norte a sul, de leste a oeste, numa das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta e que vem rendendo ao Brasil fantásticos superávits comerciais, chegando ano passado a US$ 14,4 bilhões, mais de US$ 1,2 bilhão por mês. De dólares! O Brasil teve um superávit de apenas US$ 2,56. Imaginem se Mato Grosso tivesse uma logística de transportes compatível com a admirável economia que conseguiu construir e com a riqueza que rende todos os anos ao Brasil?
     Falar de logística em Mato Grosso é tratar de uma necessidade dramática de um povo trabalhador que conseguiu fazer de seu estado o maior produtor agropecuário do país e um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mesmo que historicamente tão desprezado pelos governos. Um povo que apesar de sua produtividade vem sendo cada vez mais sacrificado pela carência de transportes que lhe impõe perdas em fretes absurdos que solapam a competitividade de seus produtos e aumentam os preços dos insumos, bens e mercadorias trazidos de fora e que são indispensáveis à produção e à sua qualidade de vida. Perdas também pelas cargas vazadas ou tombadas nas estradas, pelos danos ambientais e, muito especialmente, pelas vidas imoladas todos os dias nesse altar sanguinolento que viraram nossas estradas, em doloroso tributo cobrado pelos cruéis deuses da incúria, irresponsabilidade e impunidade públicas. Até quando persistirá este sacrifício imposto aos mato-grossenses, todos reféns da insegurança, do terror e do medo a cada viagem pelas rodovias no estado?
     As estatísticas oficiais de acidentes se superam em dor a cada ano. Só nas rodovias federais em Mato Grosso em 2013 foram 4.567, em média 12,5 acidentes por dia vitimando 2.592 pessoas, ou seja, mais de 7 vítimas por dia em média. Dentre estas vítimas 758 tiveram ferimentos graves e 296 morreram, ou seja, 1054 mortos ou feridos gravemente no ano, quase 3 sacrificados todos os dias. Pior, estes dados só contam os óbitos ocorridos em até 24 horas após os acidentes. Reviro estes dados dolorosos para nos aproximar da dureza trágica que a frieza das estatísticas econômicas esconde. Isso só nas federais. 
     O atual patamar de desenvolvimento de Mato Grosso envolve cargas de ida e volta que extrapolam em muito os limites do modal rodoviário, e exigem a incorporação das ferrovias e hidrovias. Presidenta Dilma, traga os trilhos da FICO e as duplicações rodoviárias, mas traga também logo a continuidade Ferronorte, esta sem dúvida a solução mais viável, rápida e barata para levar a produção estadual e também para trazer qualidade de vida, objetivo maior do desenvolvimento. A partir do recém-inaugurado terminal de Rondonópolis, passando por Cuiabá e chegando a Nova Mutum são só 440 km. Mais 120 km se chega a Lucas, tudo em ambiente antropizado, conhecido ambientalmente, sem himalaias ou araguaias a transpor, e com investidores estrangeiros interessados. Metade dos 1200 km da FICO e custando menos que 1,5 superávit mensal de Mato Grosso. E logo estas duas ferrovias serão insuficientes para tudo o que Mato Grosso ainda vai produzir. Que venham depois as também já necessárias hidrovias, outras ferrovias, rodovias e aeroportos num sistema de transportes integrado rápido, seguro e sustentável que este Mato Grosso unido, forte e campeão precisa e tem direito. 
(Publicado em 11/02/2014 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 7 de maio de 2013

MATO GROSSO, 265 ANOS

www.cuiabaesporteclube.com.br


José Antonio Lemos dos Santos

     Depois de amanhã, 9 de maio, deveríamos comemorar com muita festa e orgulho o 265° aniversário de Mato Grosso, data que lembra o ano de 1748, quando o rei de Portugal, dom João V, através de Carta Régia determina a criação de duas Capitanias, “uma nas Minas de Goiás e outra nas de Cuiabá”. A Capitania das Minas de Cuiabá virou a Capitania de Mato Grosso e para governá-la foi designado Dom Antonio Rolim de Moura, que tomou posse e permaneceu em Cuiabá por cerca de um ano, até que Vila Bela fosse construída. Morou no centro histórico de Cuiabá, próximo à praça que tem o seu nome e que é popularmente conhecida como Largo da Mandioca. Depois chegou a ser o Vice-Rei do Brasil, o governante maior do país na época, já que El-Rey ficava em Portugal. Seria possível pensar na reconstrução da casa de Rolim de Moura, criando uma nova atração no centro histórico? 
     Sei que existem aqueles que acham que não temos nada a comemorar, pois em Mato Grosso faltam escolas, faltam hospitais, não tem esgoto, não tem estradas, não tem ferrovias, não tem, não tem... São os que só enxergam o que falta. E é importante que existam pessoas assim, em especial aqueles que nessa visão produzem uma critica positiva. Eu já sou da turma que prefere enxergar aquilo que existe, em especial, aquilo que foi produzido pelo trabalho do povo, patrões e empregados, apesar de todas as dificuldades, apesar de tudo aquilo que nos falta. Mato Grosso é hoje o maior produtor agropecuário do país, liderando o país em algodão, milho, girassol, soja e também é um dos maiores produtores de ouro, diamante, madeira, álcool, biodiesel, carnes de frango, suíno, peixe, gado, com um rebanho bovino de quase 30 milhões de cabeças. Mato Grosso não produz armas, bombas atômicas, mísseis, aviões de guerra, como muitos daqueles que nos criticam. Mato Grosso é um dos maiores produtores de alimentos do mundo e com muito orgulho ajuda a matar a fome de um planeta cada vez mais carente de alimentos.
     Para chegar a esta posição Mato Grosso contou com a extensão e diversidade produtiva de seu território e, principalmente, com o trabalho determinado e sofrido de sua gente em todos os seus cantos e recantos. Comemorar os 265 anos de Mato Grosso é festejar a grande obra do mato-grossense que ano passado produziu um superávit comercial de US$ 13,0 bilhões para o Brasil que daria para construir vários hospitais, escolas, ferrovias, duplicações rodoviárias e melhorar em muito a qualidade dos serviços públicos. Mato Grosso mês passado entupiu literalmente o Brasil de grãos, mostrando ao mundo que o país não se preparou em termos de infraestrutura para tudo o que o estado produz, num descompasso que já custa muito caro aos brasileiros em termos econômicos, ambientais e de sacrifício de vidas humanas.
     Comemorar os 265 anos de Mato Grosso, não é ufanismo idiota nem deitar em berço esplêndido, é festejar a riqueza construída e, antes de tudo cobrar, em especial da União, tudo aquilo que o povo que a produz tem direito. É ter vibrado domingo passado com Cuiabá e Mixto na final do campeonato mato-grossense de futebol, com o Dutrinha lotado, e ainda torcer unidos pelo Luverdense depois de amanhã na Taça do Brasil. A pobreza sempre foi o álibi dos maus governantes e agora Mato Grosso é rico sim. Essa desculpa não vale mais. O mato-grossense tem que festejar com alegria, orgulho e muitas cobranças. O sucesso de Mato Grosso é a força do trabalho de seu povo unido na grandeza e diversidade de seu território, nas dimensões exatas exigidas pelo século XXI, o século da internet, da TV a cabo, do asfalto, do avião a jato. Ainda que tenha muito a consertar, Mato Grosso é para ser festejado, imitado e, principalmente, aplaudido. Viva Mato Grosso! 
(Publicado em 07/05/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 12 de março de 2013

BR-163, PARADA PELA VIDA

Imagem: ExpressoMT


José Antonio Lemos dos Santos

     Como mato-grossense acompanhei com muito interesse a “Parada pela Vida” organizada pelas cidades de Lucas, Sorriso e Nova Mutum, interrompendo por cerca de 1 hora a BR-163 em protesto contra as mortes ocorridas na rodovia decorrentes do seu abandono pelos governos e autoridades. Essa rodovia é a espinha dorsal de Mato Grosso e para ela converge quase toda a produção do estado líder na agropecuária do país, e por ela chegam os insumos, as fábricas, os alimentos e as mercadorias diversas que não tem produção local, mas que são indispensáveis à qualidade de vida da população mato-grossense. Mais importante é que por ela também circulam milhares de pessoas levando ou trazendo cargas, ou em viagens de negócios, tratamento de saúde, estudos, compras, reencontros familiares ou em busca do merecido lazer, submetendo-se a uma situação de altíssima periculosidade. 
     Geralmente se esquece que junto com as perdas da economia, nossas estradas também estão matando gente, dolorosa verdade que a sensibilidade de uma mulher, Neiva Dalla Valle, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Sorriso transformou em um movimento que contagiou os municípios vizinhos, envolvendo a população local, caminhoneiros, e até políticos, apesar de corresponsáveis pelo drama das estradas. Ótimo ver a sociedade através de suas entidades representativas sacudir prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, numa mobilização por um problema comum. Sem essa de federal, estadual ou municipal: o interesse público é uno. 
     Segundo as estatísticas oficiais, só nas rodovias federais em Mato Grosso em 2012 aconteceram 4.277 acidentes, em média quase 12 acidentes por dia vitimando 2.184 pessoas, ou seja, quase 6 vítimas por dia em média. Dentre estas vítimas 742 tiveram ferimentos graves e 270 morreram, ou seja, 1012 mortos ou feridos gravemente no ano. Quase 3 mortos ou gravemente feridos todos os dias em média. Estes dados só contam os óbitos ocorridos até 24 horas após os acidentes. Quanta maldade contra um povo trabalhador, que não produz armas de destruição, nem drogas, mas alimentos que ajudam, e muito, a saciar a fome no Brasil e no mundo. Quanta maldade contra um povo trabalhador que no ano passado produziu quase US$ 13,0 bilhões de superávit comercial para o Brasil, que daria para todos os anos duplicar muitas vezes essa e outras rodovias, construir as ferrovias e hidrovias que o estado e a qualidade de vida de sua população tanto exigem.
     A “Parada pela Vida” resgata no mato-grossense a capacidade de expressar sua indignação. Bom exemplo para nós cuiabanos-várzegrandenses. Essa luta dos irmãos do médio norte também é nossa. A duplicação de Rondonópolis ao Posto Gil que não também não sai do papel é um pedaço dela. Dias atrás, ante nosso silêncio o DNIT “fracassou” a licitação da duplicação do trecho Cuiabá-São Vicente. A Ferronorte parada a 560 Km de Lucas é um deboche. Quem dera uma outra “Parada pela Vida” se repetisse em breve, com nova interrupção simbólica da rodovia, ampliada em todas as cidades ao longo da 163, de Rondonópolis a Guarantã, passando por Cuiabá, Várzea Grande e Sinop, sacudindo sem cor partidária associações comerciais e empresariais do campo e da cidade, câmaras de vereadores, clubes de serviço e outras forças coletivas de cada local. Como sonhar ainda é grátis, lembro o aniversário de Mato Grosso no próximo 9 de maio como uma boa data para o estado aprumar-se de novo, unido, ao longo de sua vértebra logística protestando com mais força ainda contra esse quadro inaceitável de descalabro, deseconomia, insustentabilidade, sofrimento e morte. 

(Publicado em 12/03/2013 pelo Diário de Cuiabá)