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sexta-feira, 18 de julho de 2025

CIDADE DESCONTINUADA

 José Antonio Lemos dos Santos


  (Acima nascimento de Cuiabá em São Gonçalo Velho na arte do saudoso arquiteto Moacyr Freitas )

     Como todo mundo sabe, a cidade não é um objeto que já nasceu pronta para uso imediato do cidadão. A cidade normal é uma grande obra permanente, fruto do trabalho do homem que a constrói para sua felicidade. Nem são os governos que a constroem. A estes cabem as obras de interesse comum e a obrigação de coordenar essa construção coletiva. Quem a constrói de fato é sua população, do ricaço com seu palácio, ao mendigo com seu barraco, do grande shopping ao bolicho da esquina, da favela ao “chic” condomínio fechado. Obviedades.

     Uma cidade saudável está sempre em metamorfose, não ambulante, mas sedentária, fixa, mas sempre em processo de transformação. A cidade de hoje é diferente da de ontem assim como a de amanhã será da de hoje. Seus sistemas de planejamento e controle devem refletir esse dinamismo como um espelho refletindo a realidade de cada momento. Sem essa reflexão contínua, uma “foto” atrás da outra, a cidade não será retratada de forma fidedigna.

     Na minha recente e curta participação na equipe do prefeito Abílio Brunini tive como uma das incumbências a atualização do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de Cuiabá conforme exigido pelo Estatuto da Cidade (EC), uma a cada 10 anos no mínimo. Nosso último PDDU, redenominado “Estratégico”, é de 2007, 18 anos atrás. A tarefa inicial então foi buscar os levantamentos referentes aos anos anteriores, não encontrados pois, segundo técnicos remanescentes do antigo Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (IPDU) o último levantamento completo sobre o município de Cuiabá é de 2010, publicados em 2012 no “Perfil Socioeconômico de Cuiabá – Volume VI”, belíssimo trabalho do IPDU, hoje desativado. Restaram como referências os PDDUs de 1992, de 2007 e uma proposta de atualização para 2023 feita por empresa contratada pela administração anterior, não apreciada pela Câmara Municipal. 

     Em termos de reflexão técnica, Cuiabá foi descontinuada de 2010 para cá. Sumiu num período de 15 anos, um vácuo de conhecimento irrecuperável. Exemplares de anuários estatísticos de 1977, 1979 e de 1982 atestam uma involução técnica inexplicável neste setor. Por que naquele tempo tinha e hoje não tem? Sem o domínio da história não se projeta o futuro, condenando o presente a ser apenas um corretivo do que não foi planejado no devido tempo. Esta situação não pode voltar a ocorrer com uma cidade tricentenária, com um futuro de muitas potencialidades, centro de uma das regiões mais produtivas do planeta.

     Proféticos foram nossos vereadores ao promulgar em 1990 a Lei Orgânica do Município de Cuiabá colocando um capítulo dedicado à Política de Desenvolvimento Urbano a ser implantada por um sistema municipal próprio, descrito com seus componentes na própria Lei maior, dentre os quais o CMDU e o IPDU. A esperança hoje está em um prefeito jovem, arquiteto e urbanista, e um time de técnicos com domínio do assunto e na expectativa de uma nova administração trazendo como compromisso o CuiabáSmart, um programa integrador de todos os setores da municipalidade através de uma só base georreferenciada de dados, inclusive fazendo uso da IA de forma ágil, precisa e segura. Só nessa perspectiva, com todos, inclusive o cidadão, compartilhando responsavelmente seus dados para o bem comum, podemos entender o recado profético dos vereadores de 1990, propondo assentar com firmeza as bases de um sistema de planejamento moderno, contínuo, democrático e resiliente a quaisquer novas tentativas de descontinuidades. 



terça-feira, 29 de outubro de 2013

BOMBEIROS, BOM-SENSO E LUVERDENSE

José Antonio Lemos dos Santos

     Apesar de tudo a Copa do Pantanal avança superando as imensas dificuldades do grande desafio, tanto as dificuldades normais de uma empreitada como essa, como aquelas que parecem plantadas por interesses que até hoje não aceitam Cuiabá como uma das sedes da Copa 2014. Na construção da Copa e de seu grande legado, Cuiabá e Mato Grosso vencem um leão por dia e, mesmo assim, nesta semana saiu a lista das primeiras 12 obras a serem inauguradas até novembro, obras significativas e necessárias que não seriam viabilizadas nem em décadas, tais como os viadutos do Despraiado e da UFMT, a duplicação da ponte Mário Andreazza ou a ponte do São Gonçalo, entre as outras. 
     Mas a maior vitória da semana foi do glorioso Corpo de Bombeiros de Mato Grosso por sua imediata e eficaz presença no incêndio no subsolo da Arena Pantanal, sexta-feira passada à tarde, que poderia ter se propagado de forma grave caso não fosse combatido de forma quase instantânea. De estranhar no início do sinistro as centenas de comentários de leitores felizes nos sites nacionais, alguns daqui, festejando o incêndio como o ponto final da Copa em Cuiabá, uma legítima pretensão mato-grossense e cuiabana, como seria de qualquer outra cidade brasileira. Mas logo apareceram nossos bombeiros e a brigada de incêndio da obra debelando rápido o fogo, num show de competência técnica. Moro perto da Arena e ainda naquela tarde passei por lá e não vi sequer sinal de fumaça. Não sou de me deter em coisas negativas, mas esse fogo me deixou com uma pulga atrás da orelha. 


                                 copadomundo.uol.com.br


g1.globo.com
                                                                                                                                                                   
     A participação dos Bombeiros de Mato Grosso foi noticiada, mas ainda não 
suficientemente exaltada pela presteza e competência de sua ação. O sinistro foi melhor que um teste programado de segurança e serviu para mostrar que ao menos nessa área a Copa do Pantanal está em mãos muito boas e preparadas. Sou do tempo em que em um chamado emergencial como esse o normal era - a contragosto da corporação - encontrar os caminhões estragados ou sem combustível, sem pneus,  telefone cortado e coisas desse tipo. Muita gente por aí achava que isso ia acontecer, mas aconteceu o contrário. Na Alemanha teria sido melhor, dirá alguém. Mas, aqui no Brasil duvido que todas essas cidades proclamadas mais merecedoras da Copa do que Cuiabá disponham de um serviço com tal confiabilidade nessa área, demonstrando a que ponto de qualidade pode chegar o serviço público, justamente homenageado ontem no Dia do Servidor Público. Que a Copa seja também uma oportunidade concreta de aprimoramento e promoção da importante e sofrida figura do Servidor Público em nossa cidade e nosso país. 
     Outro viva! Desta vez à vitória do bom-senso no episódio das cadeiras da Arena, uma armadilha grosseira montada através da comparação entre preços de 2 produtos de qualidades diferentes. De novo Mato Grosso surpreende resgatando o bom-senso, raramente presente nas decisões públicas em nosso país, ao revalidar o resultado da primeira licitação. Seria um absurdo por causa de uma falácia colocar em risco a mais compacta, mais barata e ainda assim a mais bela e premiada de todas as arenas da Copa, a 2 meses do prazo acertado com a FIFA como condição para a realização da Copa do Pantanal. 
     Por fim, mas não menos importante, viva o Luverdense pela vitória de domingo contra o Caxias ascendendo à série B do campeonato brasileiro e recolocando o futebol de Mato Grosso na elite do mais querido esporte no Brasil, posição relevante para um estado que conquistou e vem construindo com muito empenho a Copa do Pantanal. 
esporte.terra.com.br

(Publicado em 29/10/13 pelo Diário de Cuiabá, Blog do José Lemos ...)

terça-feira, 5 de março de 2013

RODOANEL, BARBADO E IMIGRANTES

Mapa dos antigos projetos de anéis viários com traçado igual ou aproximado ao do futuro Rodoanel de Cuiabá. (skyscrapercity.com)


José Antonio Lemos dos Santos

     Desde 2009, tão logo começaram a ser definidas as primeiras obras da Copa, venho salientando a importância de todas elas, afinal estarão entre os principais legados do grandioso evento para Cuiabá. Destaco em especial as interseções da Miguel Sutil, alertando sempre que só essas obras não serão mais suficientes para a solução atualizada desses pontos de conflitos. Projetadas há 10 anos pelo extinto IPDU da prefeitura, na gestão Roberto França com o arquiteto Raul Spinelli como superintendente do órgão, ainda que necessárias essas obras demandariam hoje ao menos 3 outras importantes intervenções de apoio para atingir o êxito esperado: a Avenida do Barbado, uma nova ponte no Coxipó nas proximidades do São Gonçalo Beira-Rio e a ligação da antiga estrada da Guia ao Trevo do Lagarto em Várzea Grande, com uma nova ponte sobre o rio Cuiabá no Sucuri, esta última intervenção prevista no projeto do Rodoanel de Cuiabá no trecho que chamo de Contorno Oeste para distinguir dos demais segmentos dessa grande obra. 
     Segundo o noticiário a ponte sobre o Coxipó já está quase pronta, e irá permitir a ligação de toda a populosa região sul do Coxipó aos centros de Cuiabá e Várzea Grande, passando pela Beira-Rio, Cristo Rei e aeroporto, desafogando sobremaneira a Fernando Correia. Importante obra que chegou a ser lançada pela prefeitura, também em uma das gestões de Roberto França. Não vi o projeto atual, mas espero que venha a ser uma via definitiva para a cidade e não apenas um desvio emergencial, como chegou a ser falado, o que seria uma pena.
     Quanto a Avenida do Barbado, projetada e iniciada por Dante em fins dos anos 80 como uma das primeiras aplicações do conceito de “avenida-parque” no Brasil, ligando o CPA ao Coxipó e à Várzea Grande via Ponte Sérgio Mota, a Secopa informou que irá executá-la da Fernando Correia até a Archimedes Lima, mas que desistiu do trecho restante até o CPA. Estranha é a alegação de problemas ambientais e sociais, justo numa obra que visa resgatar e proteger o córrego do Barbado e a população de suas áreas de risco, as mesmas que também teriam feito o ex-prefeito Wilson Santos a abandonar o projeto. A Copa seria a chance para essa obra essencial para a cidade, descompressora da Avenida do CPA e esperada há décadas. Ao menos vai reiniciá-la. Sua continuação seria uma grande obra para o prefeito Mauro Mendes. 
     Na semana passada a Secopa anunciou a abertura de licitação para a retomada das obras do Rodoanel, obra do DNITT iniciada pela prefeitura de Cuiabá, mas paralisada em 2009, orçada hoje em R$ 346,0 milhões em seu total, toda duplicada, com pontes e viadutos, tal como deve ser e Cuiabá merece. O mais importante é que nessa retomada foi corrigida a prioridade de execução de seus trechos, passando o Contorno Oeste a ser a primeira etapa a ser construída, com extensão 11,43 Km e um prazo de 12 meses para conclusão. Realmente uma grande notícia. Sem essa ligação direta com o Trevo do Lagarto, o fluxo de veículos originário do norte e oeste do estado e do país pela estrada da Guia (MT-010) não teria outra alternativa que não a trincheira do Santa Rosa em construção. Não sendo dimensionada para esse fluxo adicional rodoviário a nova interseção ficaria bonitinha, mas engarrafada. Pior, durante os jogos da Copa. Uma vez concluído, o Contorno Oeste terá efeitos imediatos. Para os demais trechos integrantes dos 50 Km totais do Rodoanel, a prioridade imediata deve ser o Contorno Sul, a nossa Imigrantes, tão maltratada apesar de ligar 60% do país ao resto do Brasil através de 3 BR’s, com um tráfego diário próximo de 20 mil veículos leves e pesados, cujo sofrimento em prejuízos e acidentes assistimos diariamente nos telejornais. 

(Publicado em 05/03/2013 pelo Diário de Cuiabá, ...)

sábado, 12 de janeiro de 2013

O PORTO DESPREZADO DO RIO CUIABÁ


MOACYR FREITAS

Quanta saudade nos traz as partidas de lanchas de passageiros do nosso porto cuiabano.
Verdadeiras tardes festivas no bairro, para onde convergia muita gente para o bota-fora de seus familiares ou amigos.

As fotos desses vapores ainda são vistas por aí (clique aqui e veja), testemunhando esse tempo saudoso. Hoje, não temos mais a visão panorâmica do nosso rio Cuiabá. Somente das pontes sobre ele podemos apreciá-lo. É pena que haja tanto desprezo ao rio que dera o nome a nossa Capital.

Detritos de esgoto “in natura” são despejados nele sem a mínima consideração. Esquecem ou ignoram que tanta alegria esse rio nos dera no passado.

Como cuiabano nato, espero que nosso novo prefeito demonstre seu amor a nossa Cuiabá libertando nosso rio dessa incompreensiva ingratidão que vem sofrendo.

A falta de respeito ao rio, certamente, é daqueles que talvez nunca tenham lido a história da cidade, ou não tenham conhecimento do que vem ocorrendo com ele. Se tivessem conhecimento dos fatos históricos, acredito, não o desprezariam tanto.

Para os que ainda não sabem, o rio Cuiabá foi o caminho da histórica penetração na imensa e rica região de domínio espanhol pelos bravos brasileiros, ainda formados de mamelucos, índios e descendentes de portugueses.

Nesta ousada penetração pelo rio Cuiabá, certamente houve muitos desembarques em terra firme pelos mais variados motivos. Entretanto, neste lugar, muitos desembarcaram cheios de esperanças, porque buscavam o enriquecimento fácil, acima de tudo, o ouro cuiabano.

Em diferentes épocas da história, vários desembarques e embarques nesta margem esquerda de nosso rio Cuiabá registraram-se, fixando para a memória fatos históricos muito significativos para todos os cuiabanos e mato-grossenses que amam esta região.

Vamos lembrar, pela ordem de antiguidade:

- A chegada do Capitão General Rodrigo César de Menezes, em 15 de novembro de 1726. Ele elevou o Arraial de Cuiabá a Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Pertencíamos à Capitania de São Paulo;

- A chegada solene da imagem do Senhor Bom Jesus, em 1729;

- A chegada do primeiro vapor ”Corsa”, procedente do Rio de Janeiro, em 20 de fevereiro de 1857;

- A partida da tropa de Voluntários Cuiabanos para a retomada de Corumbá, no século XIX, sob o comando do Tenente Coronel Antônio Maria Coelho;

- A chegada da imagem de São Gonçalo, em 1781, trazida do Arraial de São Gonçalo Velho, foz do rio Coxipó. Chegou em solene procissão fluvial para sua nova capela próximo do porto;

- A chegada do primeiro automóvel FIAT, em 1919, e também, antes deste, em 1914, o primeiro caminhão ORION, registrado no Álbum Gráfico de Mato Grosso;

- A chegada de passageiros pelo hidroavião da Condor, o primeiro que amerrisava neste rio na década de trinta do século passado, inaugurando a linha aérea comercial para Cuiabá;

- A partida dos “Pracinhas” cuiabanos para compor a Força Expedicionária Brasileira, na 2ª Guerra Mundial, na década de quarenta do século passado;

- Vários outros embarques e desembarques de passageiros e também de cargas importantes aconteciam festivamente neste porto cuiabano. Muitos destes viajantes foram ilustres nomes da nossa história mato-grossense, que não cabe aqui enumerá-los, sem o risco de sermos traídos por nossa memória.

Assim, é tão importante este lugar, uma lembrança, como um marco histórico de nossa Capital.
Portanto, vamos aguardar com ansiedade a recuperação do nosso rio. Que venha logo essa possibilidade de podermos contemplar novamente as águas limpas do nosso querido rio Cuiabá.
 
Arquiteto Moacyr Freitas é membro do Instituto Histórico  e Geográfico de Mato Grosso.

(Publicado pelo ReporterMT em 11/01/2013  08h42)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

DADOS LANÇADOS

José Antonio Lemos dos Santos


     Como escrevi em alguns artigos, sou um entusiasta pela Copa do Pantanal em Cuiabá. Entendo ter sido um lance de grande visão do governador Blairo Maggi e só a iniciativa de concorrer já trouxe para Cuiabá o ganho de uma nova e necessária postura, positiva e confiante, compatível com sua consolidação como centro de uma das regiões mais dinâmicas do planeta. É também uma chance ímpar da cidade receber grandes investimentos e, o melhor, sob atenta vigilância nacional e internacional. Também sou favorável à escolha do Verdão como local do novo estádio por ser uma região que já convive com esse tipo de equipamento e por ficar dentro da atual malha urbana, assegurando que os investimentos para a Copa beneficiem a cidade posteriormente. Assim, torci muito para que Cuiabá fosse a escolhida e sigo torcendo para que ela seja a mais exitosa surpresa dentre as sub-sedes em 2014.
     Porém, não sou obrigado a concordar com tudo o que se propõe em relação à Copa, o que, aliás, não fará a menor diferença em relação ao que será ou não será feito, o que me tranqüiliza. Por exemplo, até hoje não assimilei o não aproveitamento, ainda que parcial, do antigo Verdão, o único estádio olímpico de Mato Grosso, ainda mais agora que o Brasil voltou “zerado” do campeonato mundial de atletismo. O novo estádio é exclusivo para o futebol e ao nosso atletismo restarão as quase ruínas do Dom Aquino. Também não assimilei a redução da capacidade do novo estádio de 42 mil para 27 mil espectadores após a Copa, com a desmontagem das arquibancadas norte e sul, com a “possibilidade” de serem remontadas em outras cidades. Dizem alguns que para o futebol local é mais que o suficiente. Não concordo. Para encher o Verdão atual basta baixar o preço da arquibancada descoberta, cobrada hoje ao mesmo preço da coberta. Absurdo. Aliás, um estádio de uma metrópole não pode ser dimensionado apenas para eventos locais. Um estádio de apenas 27 mil lugares viabilizaria novos jogos da seleção brasileira? Que beleza o Ginásio Aecim Tocantins com suas competições internacionais de altíssimo nível, como a próxima Copa América de basquete feminino. Só acontecem pelo seu tamanho, que para alguns também é grande demais, um elefante branco - o que discordo, é claro.
     Na lista das intervenções apresentadas na audiência pública do dia 25 último, muitas me parecem ótimas, algumas nem tanto e faltam outras. Parece que está sendo pedido pouco nesta oportunidade de ouro que talvez nunca volte, e que a lista de obras não é fruto de uma visão integrada, estruturadora da cidade. Por exemplo, com o número de veículos superando a capacidade de suas ruas, é evidente que uma das prioridades de Cuiabá é a ampliação de sua vascularidade viária, construindo pelo menos algumas novas avenidas. Era a hora de viabilizar os recursos também para elas. Entendo que a construção do antigo projeto da avenida-parque do Barbado resolveria muito mais o trânsito na Miguel Sutil do que mil viadutos, assim como a construção da ponte do São Gonçalo ligando o Coxipó à Beira-Rio equilibraria a Fernando Correia, e a ligação direta do Sucuri ao Trevo do Lagarto evitará o colapso do programado viaduto do Santa Rosa e da Avenida Miguel Sutil justamente na ocasião da Copa. E por que não ligar a Avenida Dom Orlando Chaves – 400 metros - ao viaduto programado sobre a FEB, criando enfim um acesso digno ao Cristo-Rei?
     Enfim, os dados estão lançados. Agora é torcer para que tudo dê certo, cobrando a execução correta das obras, e que Cuiabá atinja novos padrões de qualidade urbana após a Copa, ficando em condições de alçar vôos mais altos rumo ao seu tricentenário, em 2019.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 01/09/2009)

terça-feira, 14 de julho de 2009

A ENTRADA DA CIDADE (II)

José Antonio Lemos dos Santos

     Não foi fácil escrever o artigo da semana passada, principalmente por ter que falar mal de minha cidade abordando seu acesso pela Ponte Júlio Muller e a impressão negativa que deixa ao visitante e mesmo ao cidadão comum. O tempo é um recurso não renovável e por isso é sempre escasso, principalmente para Cuiabá tendo em vista a Copa de 2014 e o tricentenário em 2019. Cinco ou dez anos passam voando e é fundamental que sejam usados positivamente na construção da qualidade urbana indispensável à realização dos dois extraordinários eventos. Contudo, muitas vezes é necessário tocar em algumas feridas urbanas pois podem esconder problemas maiores, prejudiciais à construção do futuro.
     Arquitetura é a arte de transformar os espaços e assim, por formação, o arquiteto e urbanista é um visionário que sempre vê a realidade na perspectiva de sua transformação para melhor, sonhando utopias e imaginando soluções que originam as maravilhas construídas pelo mundo inteiro. A entrada de Cuiabá apesar dos problemas de gestão urbana descritas no artigo anterior, esconde imensas potencialidades naturais, culturais e paisagísticas que devem ser trabalhadas já e que são um “prato cheio” para os arquitetos, cada qual dando asas à sua imaginação a cada passagem por lá. Cito alguns pontos.
     Limite municipal de Cuiabá, mas coração da região metropolitana, centro e borda, a entrada da cidade é uma área rica urbanisticamente, com valores cujo aproveitamento correto pode torná-la um dos pontos mais belos e significativos da cidade. A começar pelo próprio rio que lhe deu origem, com sua beleza natural, sua ponte, e a foz do Prainha – o Ikuie-bo dos Boróros - cujas pedras ainda existentes estão na origem seu nome e do próprio rio, chamadas pelos moradores originais de Ikuia-pá – lugar onde se pesca com flecha-arpão. Deviam estar iluminados, sinalizados, legendados didaticamente e glamourizados turisticamente, com a ponte revista arquitetonicamente, até resgatando seu sentido de monumento urbano com seu antigo e pitoresco arco.
     Para a ponte convergem três grandes avenidas que devem ser repaginadas, com ênfase nos objetivos da mobilidade urbana segura, confortável: nova e especial iluminação viária com fiação rebaixada, arborização, nova sinalização horizontal e vertical, padronização de calçadas. De cara, topa-se no contra-fluxo com a XV de Novembro, de largura generosa, cuja perspectiva monumental é fechada pela torre da Igreja de São Gonçalo, com seu magnífico Redentor de 3,4 metros de altura pairando sobre o globo terrestre a 36 metros do solo. A direita o acesso à Beira-Rio (Avenida Manuel José de Arruda) e a Ten. Cel Duarte, que devem ser articuladas por uma rótula paisagisticamente tratada de forma a presentear a cidade com uma nova perspectiva monumental da Avenida Tenente Coronel Duarte, modernizada como uma autentica passarela de boas vindas aos visitante. Mais a frente, o antigo cais flutuante, hoje abandonado mas sempre sugerindo um pedestal a espera de um grande monumento sobre o rio, livre de ocupações em suas proximidades, que bem poderia ser em homenagem aos intrépidos e esquecidos navegantes platinos, os grandes viabilizadores da ocupação deste miolo continental sul-americano.
     Não há como deixar de referir a um novo tratamento para o espaço do centro esportivo do Dom Aquino, que pode continuar a sê-lo pela facilidade de acessos, envolvendo em seu complexo inclusive a terceira idade, que hoje encontra-se em um espaço segregado. Por fim, mas não menos importante, um novo edifício para o Shopping Popular, agora projetado em caráter definitivo com diversos pisos, destacando numa arquitetura contemporânea, o tradicional caráter inclusivo da cidade.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 14/07/2009)