"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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terça-feira, 2 de julho de 2019

VERTICALIZAÇÃO, ATRAIR E NÃO ESPANTAR

A imagem pode conter: céu e atividades ao ar livre
 Distrito Industrial de Cuiabá  - Criado em 1978 - 695 ha

José Antonio Lemos dos Santos
     Tratamos aqui verticalização como os processos de transformação da produção primária agregando-lhe valor econômico. Por exemplo, o algodão rende mais se é transformado em roupa. Só que para chegar à roupa primeiro tem que virar fio e depois tecido, para só então se transformar em uma peça de vestuário. O trabalho, braçal ou mecânico, artesanal, intelectual ou industrial é o fator que agrega valor a cada passo desta transformação, neste exemplo o algodão. Poderia ser um automóvel, mesmo sofisticado ainda assim é resultado da combinação de muitos produtos primários transformados, alguns com transformação tão elaborada que leva muitos de nós a esquecer que a origem dessas maravilhas está lá na produção primária, desvalorizando-a.
     Quanto mais o produto primário é processado mais valor é agregado, exigindo a cada passo mais tecnologia, preparo de mão de obra, acessibilidade a bens e serviços complementares e outras, gerando em troca progressivamente mais renda, melhores salários e empregos de maior qualidade. Assim, a verticalização das economias não é nivelada como se todos os processos de transformação tivessem o mesmo nível de sofisticação e exigências, e nem acontece em um plano como se todos os pontos do espaço regional atendessem a todos os requisitos de cada etapa de seus processos de transformação.
     Em geral a verticalização acontece em espaços urbanos hierarquizados funcionalmente nas redes de cidades, de acordo com a qualidade de suas infraestruturas urbanas e de suas instalações produtoras de bens e serviços, bem como, da disponibilidade de mão de obra qualificada, energia, transportes, comunicações, centros de ensino e pesquisa, localização estratégica etc. Assim, seria como se tivéssemos duas escadinhas frente a frente: de um lado a dos requisitos dos processos de transformação e de outro a da disponibilidade de infraestrutura urbana, ou das cidades. Os processos de verticalização só se instalam nos degraus da hierarquização urbana compatíveis com seus requisitos. Só que a economia não fica esperando que este ou aquele estado, esta ou aquela cidade se prepare para receber os processos de verticalização. Se tiver condições tudo bem, se não, procura outro lugar com vantagens comparativas ainda que em outro estado ou país. E é o que está acontecendo em Mato Grosso.
     O problema é verticalizar a economia em Mato Grosso pois ela está acontecendo fora do estado em um processo inaceitável de exportação da renda e dos empregos de maior qualidade em prejuízo dos mato-grossenses. É preciso ampliar a capacidade atrativa da rede urbana, em especial da Região Metropolitana de Cuiabá, e em todo o estado, pois há espaço para a verticalização em todo seu território. Um bom começo seria aproximar a ferrovia de todas as regiões reforçando a espinha-dorsal do estado, a BR-163, e ampliando a rede de zonas industriais nos polos do estado, reativar o gás boliviano e a hidrovia do Paraguai, internacionalizar de fato o Marechal Rondon e criar um sistema sólido e honesto de estímulos fiscais. Atrair e não espantar.
     Este é o maior e quase insolúvel problema do estado pois, mais que dinheiro e técnica, exige estadistas, homens com ampla visão pública de futuro, o recurso mais escasso nesta terra tão pródiga em outros valores. Perdemos um dos raros na semana passada, Ivo Cuiabano Scaff, cidadão-profeta do desenvolvimento que há quase 50 anos anteviu o futuro do estado como grande produtor de matérias-primas e implantou distritos industriais em suas cidades-polo já pensando na futura verticalização necessária. A demora é irrecuperável e condena Mato Grosso a eterno celeiro e seu povo a cidadãos de segunda classe.


Trat

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O VOO INTERNACIONAL

exame.abril
José Antonio Lemos dos Santos
     No final da semana o superintendente da Infraero em Mato Grosso informou que a Receita Federal deu seu aval para o Aeroporto Marechal Rondon operar voos internacionais podendo atender até 200 passageiros por hora, o que na prática significaria que do ponto de vista deste órgão Mato Grosso ganhou salvo conduto para voos ainda mais distantes pelo mundo afora através de seu principal aeroporto. Alvíssaras! Porém no momento o foco deve ser a concretização do primeiro voo da linha Cuiabá-Santa Cruz de La Sierra e sua consolidação. A notícia ainda diz que agora só falta a anuência da Polícia Federal. Como sempre, falta ainda alguma coisa para a realização deste antigo e importante projeto mato-grossense. Ainda bem que desta vez está avançando.
     Nas entrelinhas da excelente notícia vem uma outra fundamental indicando a existência de autoridades tanto no estado como no governo federal, em especial na Infraero, realmente interessadas no assunto, tomando providências, reivindicando, cobrando e agilizando as burocracias. Certamente será uma das maiores conquistas para a Grande Cuiabá e Mato Grosso, mas não basta esperar, tem que continuar correndo atrás e vencer obstáculos, alguns inesperados. Ainda falta um passo, prometido como o último antes da efetivação da linha.
     Uma cidade não é um ponto isolado no espaço. Elas funcionam como lugares centrais em redes hierarquizadas produzindo bens e serviços consumidos por uma região de abrangência chamada tecnicamente de hinterlândia. Quanto maior sua hinterlândia maior sua “centralidade” e sua importância regional, que nos casos extremos pode ser o planeta, como no caso de Nova York por exemplo. Sua capacidade de produção de bens e serviços para atendimento das demandas regionais evidentemente dependerá da infraestrutura instalada e em especial de modernas conexões transportadoras de cargas, passageiros, capitais, conhecimentos, notícias, etc. não só com sua hinterlândia mas com o restante da rede de hierarquia superior. Daí se explica tanta disputa por rodovias, aeroportos, ferrovias, etc., pois são determinantes na configuração da rede urbana e do grau de importância de cada cidade. Isso significa trabalho, emprego, renda e qualidade de vida.
     Quando como urbanista tratamos da urgência da ligação de Cuiabá e Mato Grosso ao sistema ferroviário nacional, ou insistimos na ampliação do Aeroporto Marechal Rondon e a implantação da linha aérea Cuiabá-Santa Cruz de La Sierra estamos tratando de fundamentos da sustentabilidade urbana de Cuiabá e do estado. As redes urbanas são dinâmicas e uma posição favorável hoje poderá ser diferente no futuro em função do que se fizer ou não hoje. Corumbá o mais importante centro industrial, comercial e bancário do estado quando Mato Grosso era uno, hoje busca recolocar-se de maneira sustentável na rede urbana de Mato Grosso do Sul. Na época não foi dada atenção aos fatores que lhe dava a hegemonia estadual. Voos internacionais reforçarão a centralidade da Grande Cuiabá e as potencialidades de Mato Grosso.
     O superintendente da Infraero e o secretário estadual de Turismo esperam uma reunião com a Polícia Federal ainda nesta semana para tratar do último passo para a efetivação da internacionalização do Marechal Rondon. Contando desde agosto passado com a autorização do governo boliviano, contando também com a liberação do Ministério da Agricultura e da Anvisa e o que é mais importante, contando com o interesse de uma das maiores empresas da aviação comercial do Brasil, tudo promete para muito breve o início da operação da linha aérea Cuiabá–Santa Cruz de La Sierra, de onde partem voos internacionais diretos de longo alcance. Um grande presente para o Tricentenário.