"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

ROTATÓRIA DO CÍRCULO MILITAR

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               Rotatória do Círculo Militar (Imagem: RDNews)

José Antonio Lemos dos Santos
     Feliz a cidade com o dinamismo e a pujança de Cuiabá, viçosa, rica em oportunidades de desenvolvimento e de elevação da qualidade de vida de sua população. Mas, também em problemas. São os tais ônus e bônus da vitalidade urbana. As cidades vivas geram aumentos de demandas em todas as áreas, e muito especialmente na mobilidade urbana, onde cresce o número de pessoas e de veículos nas ruas, surgem novos bairros e polos geradores de tráfego, exigindo de seus administradores providências visando garantir a fluidez indispensável com segurança e conforto. Como uma criança saudável em crescimento exige dos pais, no tempo certo, roupas, sapatos, e tudo o mais em tamanhos crescentes, assim também uma cidade em desenvolvimento.
     É o caso de Cuiabá que, sem uma estrutura técnica permanente para o  planejamento urbano contínuo, tem sua prefeitura sempre correndo atrás, buscando superar os gargalos urbanísticos surgidos a cada momento, hoje com obras de vulto como os viadutos na Beira-Rio e na Archimedes Lima, passarela na Rodoviária, renovação do sistema semafórico, recapeamento asfáltico e mesmo obras menores, como a ligação da travessa Monsenhor Trebaure à Marechal Deodoro. Agora a discussão é o colapso funcional da rotatória do Círculo Militar, causado pelo incremento natural do trânsito de veículos acrescido pela instalação de um grande polo gerador de tráfego nas proximidades.   
     Quanto à rotatória do Círculo Militar, após o aparente insucesso da solução semafórica, o prefeito acena com a construção de uma trincheira no local, o que seria uma solução emergencial importante. Porém, o carro é um bicho danado. Se um conflito pontual é resolvido, de imediato ele volta ao local até atingir de novo os limites do desconforto e, logo, novo colapso. A trincheira ou, no caso, um viaduto estaiado, é uma solução emergencial necessária como uma ponte safena em um coração com problema circulatório. Melhor que tratar a doença de um paciente é tratar o paciente doente, e com a cidade deve ser igual. Ainda que as soluções emergenciais sejam necessárias, o ideal é tratar a cidade com problemas, antecipando-se a eles.
     Soluções urbanísticas pontuais exigem sempre uma visão ampliada dos problemas pois podem estar em intervenções também mais amplas. No caso da rotatória em questão a solução mais ampla está em reduzir a demanda de tráfego para ela, criando alternativas de circulação. Por exemplo, a Lei da Hierarquização Viária de Cuiabá já em 1999 previa a extensão da Avenida Beira-Rio à oeste (VEBR-O), fazendo sua ligação com a Avenida Antártica, uma via para auxiliar a Miguel Sutil nas demandas da Região Oeste da cidade. Também, lá por 2005 surgiu o projeto do Rodoanel com objetivo de aliviar a Miguel Sutil do trânsito rodoviário. São obras portentosas, mas necessárias, que a par de permitir a melhoria do trânsito em toda a cidade, impactaria favoravelmente no volume de tráfego na rotatória do Círculo Militar.
     Uma trincheira ou viaduto na rotatória seria uma solução emergencial, um curativo importante, e que ampliaria a viabilidade de uma proposta que defendo no mínimo desde 2009 e que seria uma nova rotatória na interseção da Ramiro de Noronha (sub-utilizada), quase a meia distância entre as rotatórias do Santa Rosa e a do Círculo Militar. Outra rotatória, outro problema? Certamente depende de estudos mais aprofundados, mas, ela permitiria a ligação da Miguel Sutil com a Avenida 8 de Abril (sub-utilizada), e com XV de Novembro através da Thogo Pereira, bem como o acesso ao novo shopping sem demandar as rotatórias do Santa Rosa e do Círculo Militar, aliviando-as. Outra proposta de efeito pontual, mas também para toda a cidade.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

PEQUENA GRANDE OBRA

Travessa Monsenhor Trebaure com a Mal. Deodoro - (Foto José Lemos)

José Antonio Lemos dos Santos
     Na expectativa pelo pacote de obras públicas e privadas que seriam viabilizadas pela então recente conquista por Cuiabá da sede da Copa do Pantanal,  em agosto de 2009 escrevi um artigo denominado “Pequenas Grandes Obras” no qual destacava que em tais momentos sempre são lembradas obras de maior valor em detrimento das de pequeno porte, mas que nem por isso estas deviam ser consideradas menos importantes. Ao contrário, sem a realização destes projetos “menores” ou “mais baratos”, era bem provável que muitas das grandes obras não dessem o resultado esperado e a cidade não funcionasse adequadamente por ocasião do evento. Argumentava ainda que, não sendo solucionados, problemas menores geralmente se tornam bem maiores.
     Citava então algumas das ”pequenas obras” que à época me pareciam especialmente importantes e que não constavam na primeira lista das obras selecionadas para o evento, obras chamadas de “destravamento”, preparatórias para a lista  definitiva, a esperada “matriz das obras da Copa”. A primeira tratava de um retorno na Avenida Miguel Sutil, entre a rótula do Centro de Eventos e a então existente rótula do Santa Rosa, ficando sua localização precisa dependendo de maiores estudos dos órgãos especializados. Outra obra citada seria uma nova rótula entre a antiga rótula do Santa Rosa e a do Círculo Militar, na interseção da Ramiro de Noronha com a Miguel Sutil.
     A última das “pequenas obras” citadas naquele artigo foi a única de fato realizada nesse período, qual seja a pavimentação da via que sai da Rua Marechal Deodoro, bem em frente ao Terminal Rodoviário de Cuiabá, ligando à Rua Tereza Lobo, que também seria pavimentada até sua interseção com a Miguel Sutil. Esta obra poderia ser combinada com a construção de um parque urbano histórico-ambiental de 3 hectares estudado pelo IPDU envolvendo a última nascente até então ainda viva do córrego da Prainha, beneficiando a populosa região do Alvorada e Consil, totalmente desprovidas de área verde.     
     O interessante é que passados mais de 10 anos do primeiro artigo, aquelas pequenas obras voltam a ser válidas. Em relação às propostas para a Miguel Sutil há que se considerar que sua modernização pela Copa, com as trincheiras e a redefinição geométrica de suas antigas rótulas e pistas, tinha prazo de validade curto sem, contudo, reduzir a necessidade de sua realização. As trincheiras por exemplo vinham de projetos concebidos no antigo IPDU cerca de 15 anos antes de serem implantadas. Continuavam válidas, mas com prazo de efetividade dependente da implantação do Contorno Oeste do Rodoanel como apoio à demanda rodoviária da MT-010. Sem o Rodoanel e com a instalação de novos polos fortemente geradores de tráfego, a solução das trincheiras hoje já não mais atende e em especial a rótula do Santa Rosa precisa de novo do apoio da rótula e do retorno propostos em 2009, soluções paliativas pequenas, mas urgentes pois a rótula já está travada outra vez. E quanto tempo ainda esperaremos pelo Contorno Oeste do Rodoanel?
     Em 2011 relembrei estas pequenas obras que não estavam sendo consideradas e acrescentei mais uma: a extensão da Travessa Monsenhor Trebaure até a Marechal Deodoro, obra simples e barata aproveitando um terreno desocupado, que seria público. Esta obra ajudaria a aliviar a sobrecarga na interseção com a Mato Grosso. Para minha agradável surpresa passei semana passada no local e está lá a ligação realizada ainda que em terra. Espero que logo seja implantada em definitivo com a devida pavimentação, calçadas, sinalizações e iluminação pública, uma obra pequena, mas de grande benefício para a cidade. Viva!    

terça-feira, 15 de março de 2011

OS FRADES DO ANTIGO BOSQUE

José Antonio Lemos dos Santos

      Bem-vindos os sacerdotes diocesanos que após 72 anos retomam a condução da antiga Paróquia da Boa Morte. Nada contra os novos pastores, que por certo seguirão os passos do monsenhor Trebaure, o “padrinho”, padrinho de batismo de minha mãe e de tantos e tantas como ela, crianças da Boa Morte da primeira metade do século passado, pelo qual mantiveram verdadeira devoção por toda a vida. E 72 anos não são 7 dias. Nesse ínterim chegaram os frades franciscanos e conquistaram os corações das gerações que se sucederam, ampliando os limites da Boa Morte para além do Quilombo, Araés e Cae-cae, acompanhando o crescimento da cidade, passando pelos altos do antigo Bosque Municipal, hoje Praça Santos Dumont, onde construíram a atual Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens. Levavam para um local mais amplo e apropriado a antiga capela do Lavapés (tinha uma lagoa na frente onde os viajantes lavavam os pés antes de chegar na cidade), quase que um oratório de tão mínima, criada e mantida por almas caridosas, dentre as quais Mariana de Jajá, minha tia-avó.
      Morador da João Bento, no antigo Bosque, lembro da Mãe dos Homens ainda com as paredes pela metade sob a observação constante e severa do frei Quirino e segui sua construção admirado com a altura que alcançava, participando com a comunidade das quermesses, rifas, leilões, doações de todos os tipos que ajudaram na concretização do querido templo. Como as coisas demoram a acontecer quando a gente é criança. Vendo de hoje foi tudo muito rápido, só 5 anos, desde a primeira missa campal em 1955 até a igreja já praticamente concluída, por volta de 1960. Mas como demoraram a passar. Foi um custo, como diziam. Certamente essa obra tem um pouco ou muito a ver com a minha identificação com a Arquitetura. Não sei, nunca havia pensado nisso.
      No antigo Bosque os frades construíram ainda o Educandário Santo Antonio, o Salão Paroquial, e mais recentemente um anexo comercial com salão de festas. E lá instalaram a caridosa Pia União de Santo Antonio. O velho Bosque se transformou. Certa ou errada a Prefeitura logo transformou o Bosque em uma praça, a atual Praça Santos Dumont, com o sacrifício na época de alguns tarumeiros centenários (diz’que juntava muita mosca) e de algumas outras árvores também antiqüíssimas depois. Mas a Praça ficou simpática, com a igrejinha e os palanques oficiais dos desfiles de 7 de Setembro que nela se instalaram até a uns poucos anos atrás. Hoje recebe uma feira semanal de alimentação e artesanato e é a plataforma de saída da monumental Caminhada da Paz, talvez a última das grandes obras franciscanas no antigo Bosque, tão monumental que seria conhecida no Brasil inteiro se acontecesse em qualquer outro centro melhor aquinhoado com a simpatia da mídia nacional. Mas já é um grande orgulho cuiabano e mato-grossense e não pode deixar de existir, agora maior do que nunca.
      Domingo os frades deixaram o Bosque, o Cae-cae e a Boa Morte e o assunto não pode passar batido, afinal, 72 anos não são 7 dias para uma comunidade que aprendeu a conviver, amar e respeitar os frades, alguns churrasqueiros, corinthianos, outros com forte sotaque estrangeiro, motivos para inocentes piadinhas dominicais consentidas. Sei que muitos de minha geração têm outras tantas e tantas boas lembranças a narrar desse convívio. Pois é, ainda fragilizada por profunda dor recente, a comunidade franciscana de frades e fiéis se vê agora subitamente privada do seu velho relacionamento, como uma replicação maior de um tsunami original já bastante cruel, como se fosse uma pena, certamente imerecida. E La nave vá ... Que o Bom Jesus de Cuiabá abençoe os diocesanos e os frades do antigo Bosque.