"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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terça-feira, 5 de junho de 2018

LIÇÃO DO ESGOTO

Esgoto sendo concretado Imagem Portal Tratamento de Água
José Antonio Lemos dos Santos
     O arquiteto é um profissional que tem no otimismo e na esperança, com pés no chão, suas principais condições de trabalho. Principalmente o urbanista. Trabalhando com aquilo que ainda não existe, mas visando sua futura existência ele tem que acreditar na possibilidade concreta daquilo que projeta. Assim, está sempre entre aqueles que acreditam que os problemas trazem em si o germe de sua própria solução e que quanto maiores as dificuldades, maiores as chances de grandes resultados, grandes não necessariamente no tamanho ou complexidade, mas também no seu inusitado ou simplicidade. Na maioria das vezes é preciso de coragem para expor a cara à tapa propondo algo singular, jamais visto, não por desejo de aparecer, mas apenas por ser aquela a solução cabível para aquele problema específico, também singular.
     No último artigo tratei da paralisação nacional dos caminhoneiros e da possibilidade dessa grande crise forçar a solução para a grande questão da logística nacional dos transportes em especial para Mato Grosso, com o avanço da ferrovia e o desenvolvimento de outros modais de imensos potenciais no estado como o hidroviário, o dutoviário, o aeroviário e mesmo o rodoviário que sempre será necessário, mas sem ser o único como é agora. Possibilidades também para o uso da energia solar abundante e dos biocombustíveis como o biodiesel e o etanol com amplas vantagens ambientais e logísticas, com farta produção no estado, geradores locais de emprego e renda. Um grande problema visto como perspectiva para grandes soluções. Não desespero, mas esperança.
     Este artigo é dedicado ao esgoto da lagoa do Parque das Águas em Cuiabá, problema antigo agravado com a criação do Parque, espaço urbano que cativou de pronto o coração dos cuiabanos. Antes já caía na lagoa e já era um grande problema, mas com o Parque a situação se expôs aos olhos do público também como agressão a um dos equipamentos mais queridos pela cidade. A propósito do Parque das Águas idealizado e implantado pelo prefeito Mauro Mendes, lembro lá por 1974 o engenheiro Sátyro Castilho projetando quatro lagoas para o futuro CPA buscando elevar a umidade do ar e proporcionar áreas públicas de qualidade para o lazer social urbano. Castilho, um bom nome a ser homenageado no local como um dos criadores do CPA. Das quatro lagoas só uma vingou, ainda que tenha precisado de mais de quatro décadas para vir enfim cumprir seu destino. O saudoso ex-prefeito coronel Meirelles, dizia que a boa arquitetura e o bom urbanismo precisam ter alma para se realizarem. E a alma do Parque das Águas se fortalece com a felicidade diária de seus usuários e, assim, não será fácil ser desleixado pelos gestores públicos. Tem muita gente zelando por ele.
     Voltando ao esgoto, este era intocável pois tinha origem nos órgãos máximos da administração estadual. Com receio de afrontar excrementos de tão altos escalões, o problema foi enrolado por várias administrações. Até que depois de muitas notificações, autuações e TACs malsucedidos, e com os usuários reclamando, o atual secretário municipal de Serviços Urbanos José Roberto Stopa no fim do mês de abril concretou os tubos que despejavam o esgoto na lagoa, fazendo retornar os efluentes aos palácios de onde originavam. No mesmo dia as providências fluíram e hoje o tão querido Parque das Águas está livre da poluição para felicidade de seu jacaré, seus peixes, capivaras e outros usuários bípedes ou não que compõem sua alma. Simples assim. Basta um gestor republicano decidido a resolver. Que a corajosa decisão sirva de inspiração para outros graves problemas que se arrastam circulando pelas repartições do Brasil afora.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

2016, O ANO NECESSÁRIO

uol- charge Mariano

José Antonio Lemos dos Santos

     O arquiteto e urbanista em sua essência tem que ser antes de tudo otimista e esperançoso. Otimismo e esperança são características inseparáveis a quem baseado no presente trabalha com o futuro, aquilo que ainda não existe, sempre na perspectiva de que um dia venha a existir. Não pode ser aliado do pessimismo e da desesperança, senão, qual a graça em trabalhar o futuro? Entretanto, refletir sobre 2016 e as perspectivas para 2017 coloca a prova qualquer estoque de otimismo e de esperança. É pouco o esforço que faço a cada artigo para escoimar os aspectos negativos e ficar só com os positivos, como o trabalho de um garimpeiro apurando o cascalho para ficar só com o que é precioso.
    2016 foi um ano duríssimo. A lembrança que não me foge à cabeça é a de um furúnculo. Lembram de furúnculo? Palavra feia que não se fala mais e era tão comum na minha infância. As crianças do meu tempo tiveram pelo menos um. Não se podia comer alimentos “quentes”, que hoje corresponderiam a “muito calóricos” e, então eram proibidos chocolate, manga e, até, bocaiuva! Inchava, doía, mas o pior era o tratamento feito em casa mesmo: espremer para sair o pus, enfiar no buraco uma gaze, colocar um emplastro quentíssimo, mercúrio cromo ou iodo banhando tudo e depois encher com um pó famoso na época. Por fim, muita gaze e esparadrapos, concluindo a obra. Demorava semanas. A dor e a aflição no tratamento eram terríveis, mas, absolutamente necessário enfrentar. E tinha um tipo pior ainda de furúnculo que era chamado de “antraz”. Barbaridade! A notícia boa é que nunca soube de alguém que tenha morrido dessas coisas, só agora no Google.
     2016 foi um ano duríssimo no qual o Brasil começou a tratar o mal que o atormenta a décadas, séculos talvez, o furúnculo da corrupção, que, lhe rouba energias que deviam ser dirigidas ao bem-estar e à qualidade de vida de seu povo. Como nos humanos o tratamento é cruel, aflitivo e doloroso, dando ideia de não acabar nunca. Mas é necessário e tem que ir até o fim, como nos antigos furúnculos. O pior, porém, é que os furúnculos lá no fundo tinham um tal de “carnegão” que precisava ser extirpado totalmente, senão não curava de verdade e voltava. O emplastro quente era para “puxar” o tal carnegão para cima e, à medida que ia subindo a técnica continuava sendo espremer até sair tudo, por isso o tratamento demorava tanto.
     No caso do Brasil, não há dúvida que chegamos ao “carnegão”. Ou será que não? Faz tempo que falamos ter chegado ao fundo poço, e no entanto, o poço sempre era mais profundo. Mas agora parece que atingimos o cerne, o núcleo duro do poder político corrompido, do carnegão nacional. O tratamento é aflitivo, cruel e demorado, mas necessário e tem que ir lá no fundo usando o emplastro quentíssimo das delações premiadas para depois espremer à medida que o mal aflore até extirpá-lo na totalidade, em todos os setores e todos os partidos, espremidos com as unhas poderosas da Justiça.

     Em 2016 o bem e o mal vieram juntos. O maior mal nacional foi a descoberta unânime do estágio avançado do furúnculo da corrupção no país, que sempre foi de existência conhecida, mas ninguém supunha sua real extensão, por sinal ainda desconhecida em sua totalidade. O bem maior foi que a nação não teve medo de enfrentar a crueldade da cura, e parece disposta a levá-la até o fim, ainda que existam setores poderosos que pretendam interrompê-la. Que o Brasil continue seu tratamento por mais cruel e sofrido que seja, arrancando o carnegão até as raízes. Só assim restará a esperança de um Brasil novo e em dias melhores para nossos filhos, netos e gerações futuras. Ainda que dura, esta é a mensagem possível de otimismo e esperança para 2017.
(Publicado em 30/12/16 pelo MidiaNews, PáginaDoEnock, NaMarra,Arquitetura Escrita, PoconéOnLine, BlogDoLúcioSorge, JornalDoNorteAraguaia, em 31/12/16 pelo DiárioDeCuiabá, em 02/01/17 pelo CAU-MT, ...)

COMENTÁRIOS:
No MidiaNews:
JOSÉ GONÇALVES  30.12.16
"Pois é sr. José....tem uns inocentes que só descobriram isso agora....eu ja sabia disso a muitos governos atras."