"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

GÁS, QUE VOLTE PARA FICAR


José Antonio Lemos dos Santos
     Um dos maiores crimes cometidos contra Cuiabá e Mato Grosso é o pouco caso com que se tratou o complexo gasoduto /termelétrica, o maior projeto implantado no estado, no valor de 1,0 bilhão de dólares e inaugurado em 2002. Crime com interesses diversos que vão desde a velha mania da política brasileira, em especial a mato-grossense, de um político não dar continuidade a obras de outros governos, até aqueles contrários à consolidação de Cuiabá como principal polo político e econômico unificador de Mato Grosso, passando por outras motivações também menores, mas poderosas. Casos semelhantes são, por exemplo, a conexão ferroviária da capital mato-grossense e a linha aérea até Santa Cruz de La Sierra, ambos até com empresas interessadas em suas implantações, mas que mesmo assim não avançam.
     A chegada de um gasoduto disponibilizando com fartura uma fonte de energia limpa e barata como o gás natural sacode as regiões por onde passa impulsionando a economia e elevando a qualidade de vida de suas populações com a geração de amplas alternativas de novos empregos e maiores rendas. Aqui chegou e ficou por isso mesmo. Para os políticos e gestores mato-grossenses parecia ter chegado em Marte. Especialista em Planejamento Urbano, não entendo nada sobre gás ou geração de energia, mas sei o quanto é importante a disponibilidade energética para o desenvolvimento de uma cidade ou região. Aliás, a qualidade de uma cidade em uma sociedade de mercado é aquela que sua população pode bancar com sua renda.
     Relembrando, com sua extraordinária visão de futuro o saudoso ex-governador Dante de Oliveira anteviu a grande produção agropecuária atual de Mato Grosso, de alta tecnologia e grande produtividade. Percebeu, então, ser fundamental a criação das condições para a verticalização no estado dessa produção primária, agregando-lhe valor. Gerar empregos aqui em vez de exportá-los. Entendia que a Baixada Cuiabana poderia ser a base propulsora desse processo de verticalização da economia estadual com apoio da ZPE de Cáceres. Para esse salto, energia e transporte seriam essenciais. Arrancou assim das barrancas do Paraná os trilhos da Ferronorte, criou o FETHAB, implantou o Porto Seco e internacionalizou o Aeroporto Marechal Rondon, viabilizando sua ampliação a quatro mãos com o também saudoso Orlando Boni, cuiabano então presidente da Infraero. Quanto à energia, destravou a APM de Manso então com obras paralisadas e trouxe a ex-poderosa Enron para implantar o complexo termelétrica/gasoduto.
     Implantado o complexo do gás viriam com ele as vantagens regionais comparativas atraindo novas indústrias e outros investimentos. Só que o plano não avançou. Ao invés, o gás aqui foi desmoralizado com sucessivas suspensões de fornecimento até perder a confiança do mercado consumidor. Sugiro ao leitor buscar no Google pelo gás de Mato Grosso do Sul. Sentirão o mesmo que senti: inveja! Lá bombando o futuro em Campo Grande e cidades do interior para uso veicular, residencial, comercial e cogeração, enquanto aqui ...
     Na última quinta-feira, em Santa Cruz de La Sierra com a presença do presidente Evo Morales, o governador  Mauro Mendes assinou com a estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos um contrato para fornecimento do gás natural até dezembro de 2020, com  renovação automática por mais 10 anos caso nesse período não se concretize uma sociedade entre a estatal boliviana e a MTGás para a expansão da cadeia do gás natural no estado. Fruto destas tratativas a termelétrica já está operando em potência máxima. Que venha então o gás, mas que venha com firmeza, confiável e para ficar. Aleluia!

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O TRIMILIONÉSIMO PASSAGEIRO

Imagem:Jornal Baixada Cuiabana
José Antonio Lemos dos Santos
     Ele já esteve no Marechal Rondon em 2014 e 2015 e por um triz não chegou pela primeira vez em 2013, como até arrisquei a prever em artigo da época. Errei por pouco. Tivesse o ano uma fração de dia a mais em seu calendário e o trimilionésimo passageiro anual teria desembarcado em Várzea Grande antes da Copa. Mas veio em 14 e 15 colocando o principal aeroporto de Mato Grosso em um novo patamar de importância. Depois o movimento aéreo de passageiros caiu bastante em todo o Brasil e a frequência de passageiros no Marechal Rondon recuou em 16 e 17, voltando agora em 2018 a superar os 3 milhões de passageiros no ano, 3.006.701 exatos. Qual a importância? Seria só para dizer que o movimento do aeroporto de Cuiabá é o dobro do de Campo Grande ou que é maior que o de Manaus, com Zona Franca e tudo?
     As cidades não são pontos isolados no espaço, mormente agora no mundo globalizado. As cidades, grosso modo, são centros produtores de bens e serviços atendendo à demanda de uma região que será maior ou menor conforme a força de suas centralidades, podendo ir desde a pequena vila atendendo a uma pequena região rural até às capitais globais envolvendo todo o planeta. Assim, as cidades se organizam em redes e, grosso modo, são nós em uma rede de fluxos intercambiáveis de bens e serviços, hierarquizada funcionalmente de acordo com a importância e/ou volume dos fluxos que gera de entrada ou saída.
     Por bens e serviços resumimos produtos primários, manufaturados e industriais ou serviços comerciais, bancários, de educação, saúde, cultura, ciência, entretenimento, etc. cujos fluxos se deslocam através de canais de ligação que são as rodovias, ferrovias, hidrovias, infovias, dutovias, aerovias, internet, e outros que eu tenha esquecido ou que possam estar sendo inventados. Maior a disponibilidade destes canais em quantidade e qualidade, maior a capacidade de geração e diversificação de fluxos de uma cidade, logo, maior a força de sua centralidade, maior seu dinamismo e capacidade de geração de emprego, renda e qualidade de vida para sua população.
     Para se conectarem às estruturas urbanas pontuais, os fluxos precisam de interfaces compatíveis, sendo os aeroportos um de seus mais importantes exemplos atendendo aos fluxos aeroviários e que precisam estar dimensionados de acordo com suas demandas presentes e futuras. Pelos aeroportos chegam e saem cargas e, em especial, pessoas que podem ser turistas, estudantes, compradores, vendedores, investidores, etc., em suma, pessoas, o principal agente de desenvolvimento. Assim, quanto maior o movimento de um aeroporto maior o dinamismo e as potencialidades da região a qual conecta e a chegada do trimilionésimo passageiro do Marechal Rondon expressa a pujança de uma das regiões mais dinâmicas do mundo da qual é a porta de entrada.
     A posição estratégica do Marechal Rondon no exato centro da América do Sul aponta para ricas possibilidades de conexões diretas com o mercado sul-americano que há muito já deviam estar sendo exploradas em prol do desenvolvimento de novas potencialidades regionais. O atual governador Mauro Mendes quando prefeito mostrou ter a visão correta do papel de Cuiabá como capital do agronegócio e, por conseguinte, do Aeroporto Marechal Rondon. Quem sabe agora sairá a linha aérea para Santa Cruz de la Sierra, um começo para novas conexões internacionais? Por ora, o importante é que o trimilionésimo passageiro voltou, e de novo sem retrato, sem foguete ou banda de música, como o milionésimo em 2007 e o duomilionésimo em 2010. Que tenha vindo para ficar puxando com ele para Mato Grosso, muito em breve, o quadrimilionésimo passageiro com tudo o que representa.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O RESGATE DO FUTURO

Indústria do vestuário em Cuiabá (HiperNotícias)

José Antonio Lemos dos Santos   
     Em artigo de 1999 saudei a expectativa de que a virada do século impulsionaria Cuiabá a um terceiro salto de desenvolvimento, qualitativamente diferente dos anteriores. Na época à frente do IPDU da prefeitura, tinha a leitura de que em sua história Cuiabá havia dado dois grandes saltos de desenvolvimento. O primeiro chamávamos o “salto da sobrevivência” quando sobreviveu à exaustão do ouro, e o segundo, na última metade do século XX, quando a cidade deixa de ser fim de linha e passa a servir de apoio para a ocupação da Amazônia Meridional, o “portal da Amazônia”, quando a cidade decuplicou sua população. O artigo era um alerta pela preparação urbanística da cidade para esses novos tempos do novo século, hoje ainda mais válido.
     Com a ocupação o antigo “vazio econômico” passou a gerar riquezas em especial na agropecuária. Se Cuiabá centralizara uma grande região pouco produtiva, na virada do século passaria a ser o centro de uma região altamente dinâmica, de produção crescente e desafiadora. Ou seja, aquela região que por séculos foi protegida para os brasileiros e apoiada em seu desenvolvimento por Cuiabá, passaria a gerar um fluxo reverso de riquezas empurrando a cidade para cima dando origem então ao “terceiro salto” saudado naquele artigo de 1999 do ponto de vista de Cuiabá, mas válido também para o estado, duas faces de uma moeda.
     Porém a previsão do artigo para terceiro salto era mais ambiciosa com os megaprojetos que entusiasmavam todos na época e eram tidos como irreversíveis. O então governador Dante de Oliveira, saudoso estadista, anteviu a imensa produção primária estadual e buscou criar condições para sua verticalização dentro do próprio estado, viabilizando com seu prestígio nacional grandes projetos em especial nas áreas de transportes e energia, destravando o projeto da Ferronorte que cruzaria o estado do sul ao norte e hoje já estaria com seus trilhos nos portos amazônicos do Pará e Rondônia se não parassem a 5 anos em Rondonópolis, a continuidade da BR-163, a internacionalização e ampliação do aeroporto Marechal Rondon, com linha aérea funcionando para a Bolívia (depois perdida para Campo Grande). Na área da energia destravou Manso e viabilizou o complexo gasoduto/termelétrica, um audacioso projeto internacional de US$ 1,0 bilhão deixado em operação e hoje vergonhosamente paralisado. Lutou pela ecovia do Paraguai, por uma saída para o Pacífico e criou o Centro de Convenções do Pantanal.
     Após quase 20 anos, a euforia daquele artigo ficou pela metade. A parte referente à sociedade civil trabalhadora e empreendedora, superou as expectativas. Mato Grosso hoje é o maior produtor agropecuário do Brasil, com seu PIB crescendo 2 vezes o chinês e 10 vezes o brasileiro, puxando uma ampla cadeia produtiva. Mas a outra metade dependente dos governos e dos políticos foi decepcionante. Pior que não fazer é não concluir o que já estava começado e pior ainda é deixar desfazer o que já estava em funcionamento. A ferrovia parou por interesses menores, a ampliação do aeroporto ainda não foi concluída, o complexo gasoduto/termelétrica está desativado e o voo para Santa Cruz ficou para algum mês que vem, e que não vem nunca. A outra metade aguarda um quarto salto de desenvolvimento, o da verticalização.
     Cidadão, empresário e político já de uma geração de mato-grossenses fruto dessa história recente, o governador eleito sabe que Mato Grosso vem perdendo para outros a maior das riquezas que produz, os empregos de qualidade. A iminente condenação do estado a um celeiro desafia o novo governador a resgatar o futuro que já devia ter acontecido liderando a mais urgente das providências para Mato Grosso, o salto da verticalização e da qualidade de vida. Que Deus o ilumine.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

GÁS E FUTURO

Termelérica Cuiabá  (Imagem HiperNotícias)

José Antonio Lemos dos Santos
     Na semana em que Cuiabá comemorava seu 299º aniversário, com a cidade adentrando em seu tricentésimo ano de existência, foi noticiada a suspensão do funcionamento da Usina Termelétrica de Cuiabá e do gasoduto Bolívia-Cuiabá. Não entro aqui nos porquês dessa suspensão pois o rolo é muito grande envolvendo as 2 maiores empresas do país, presidência da república, lava-jato, em suma, desfocaria o objetivo deste artigo que é o descaso ou desleixo com que as autoridades governamentais e as lideranças civis do estado tratam o complexo industrial mais caro de Mato Grosso, fundamental para seu desenvolvimento e construído a um custo de 1,0 bilhão de dólares!
     Especialista em Planejamento Urbano, não entendo nada sobre gás, termelétrica ou rolos de empresas, mas sei o quanto é importante a disponibilidade do gás para o desenvolvimento de uma cidade ou região. Por isso sigo a Termelétrica desde sua gestação já tendo escrito muitos artigos sobre o assunto sob a ótica de Cuiabá e Mato Grosso. A Termelétrica de Cuiabá é fruto da visão de estadista do saudoso Dante de Oliveira. Com o gasoduto Bolívia-Cuiabá, integra um complexo inaugurado em 2002 a um custo de US$ 1,0 bilhão, repito. Com sua perspectiva de futuro o então governador anteviu a grande produção agropecuária atual de Mato Grosso, já prevendo a energia e a logística de transportes como os dois gargalos para esse processo. Hoje Mato Grosso é o líder do agronegócio nacional, principal fiador do saldo comercial e do PIB nacional, mas está encalacrado na logística. Só não está em crise energética justo pelas providências daquele tempo.
     Uma vez instalada em Mato Grosso uma agropecuária de alta tecnologia e produtividade, Dante percebeu ser fundamental a criação das condições para a verticalização no estado dessa produção primária, agregando-lhe valor. Gerar empregos aqui em vez de exportá-los. Entendia que a Baixada Cuiabana poderia ser a base desse processo de verticalização com apoio da ZPE de Cáceres. Para esse salto, energia e transporte seriam essenciais. Arrancou assim das barrancas do Paraná os trilhos da Ferronorte, criou o FETHAB, implantou o Porto Seco e internacionalizou o Aeroporto Marechal Rondon, providenciando sua ampliação a quatro mãos com o também saudoso Orlando Boni, cuiabano então presidente da Infraero. Na questão da energia destravou a APM de Manso, então com obras paralisadas a bastante tempo e trouxe a poderosa Enron para implantar o complexo termelétrica/gasoduto.
     Implantado o complexo do gás viriam com ele as vantagens regionais comparativas para a instalação de novas indústrias e outros investimentos. Só que o plano não avançou, a ponto do gás hoje não sensibilizar nem os taxistas e a Termelétrica ter um funcionamento descontinuado. O gás aqui foi inconfiabilizado e sempre me intrigou a causa desse aparente insucesso e do estranho silêncio de nossas lideranças empresariais e políticas sobre o assunto. Por que? Para mim não entenderam nada até hoje, na mais gentil das minhas hipóteses.
     Agora vem esta nova suspensão de funcionamento, mais séria pois afeta também o gasoduto. Ouvi no rádio o presidente do MTGás dizer que obteve uma liminar na Justiça assegurando o funcionamento do gasoduto e que, portanto, poderiam ficar tranquilos os cerca de 800 motoristas e as 4 ou 5 empresas que usam o gás como insumo energético. Infelizmente, trata-se muito mais que isso. Sugiro ao leitor buscar no Google pelo gás de Mato Grosso do Sul. Sentirão o mesmo que senti: inveja! Nos mapas, a distribuição por quase toda a Campo Grande, indo a Três Lagoas e Corumbá, para uso veicular, residencial, comercial, industrial e cogeração. Lá bombando o futuro, enquanto aqui ...

terça-feira, 18 de julho de 2017

O GÁS DE MATO GROSSO E SUAS ILAÇÕES II

UOL

José Antonio Lemos dos Santos

     Ainda tentando ressuscitar da forte gripe que me impediu redigir este artigo na semana passada, retorno à denúncia que inadvertidamente fez o chefe da B&F em sua afamada gravação no Jaburu quando pediu a interferência presidencial junto ao CADE em uma suposta discriminação de preços do gás da Petrobrás contra a Termelétrica de Cuiabá usina hoje de propriedade do grupo. Preferia vê-lo aprisionado, mas, mesmo sem querer expôs um grave fato até então desconhecido dos mato-grossenses. O CADE ao afirmar que não cedeu ao pleito da J&F confirma a discriminação e o pior é que agora o assunto virou cavalo de batalha política porque qualquer correção nos preços seria vista como comprovação de uma negociata corrupta e não como uma questão de justiça para com um estado injustamente discriminado, afinal o gás é para impulsionar diversas atividades no estado, não só a termelétrica.
     A Petrobrás não é brasileira e Mato Grosso não é Brasil? O mato-grossense só serve na hora segurar a onda do PIB nacional ou de gerar superávits na balança comercial do país? E por que o silêncio de nossos líderes políticos e empresariais? Certamente esse fato grave era do conhecimento de muita gente graúda aqui do estado que por anos não mexeu uma palha sequer para denunciar o assunto, permitindo-nos ao menos o exercício do justo direito de espernear.
     No mundo todo onde chega o gás torna-se logo poderoso indutor de desenvolvimento. Por isso foi trazido para Mato Grosso, em especial para viabilizar a verticalização da economia estadual tendo na Baixada Cuiabana um de seus principais polos. Sugiro ao leitor buscar no Google pelo gás de Mato Grosso do Sul. Sentirão o mesmo que senti: inveja! Nos mapas a distribuição por quase toda a Campo Grande, indo a Três Lagoas e Corumbá, para uso veicular, residencial, comercial, industrial e cogeração. Esse mesmo gás da Petrobrás, inutilizado aqui.
     Por que nosso desprezo a esse importante recurso, já disponibilizado através de uma infraestrutura caríssima? Sequer usado por taxis. Pelo “método das ilações”, tão em voga nos dias de hoje, no artigo anterior deduzi que um dos motivos da sabotagem contra o gás de Mato Grosso teria sido a disputa com Mato Grosso do Sul por uma fábrica de fertilizantes da Petrobrás destinada a atender as demandas do Centro-Oeste, cuja instalação em Cuiabá era vantajosa por sua posição central na região. Porém, Mato Grosso do Sul tinha seu governo afinado ideologicamente com os governos do Bolívia e do Brasil. Assim, nosso gás foi cortado e a fábrica foi para Três Lagoas. Perdemos.
     Sobre o silêncio de nossos líderes, políticos ou não, uso de novo o famoso “método das ilações”. Entre estes existem os que ainda se ligam a um atrevido projeto de divisão do estado que se objetiva na interrupção da Ferronorte, na construção da Fico e no enfraquecimento da região de Cuiabá, gerando duas economias isoladas ao norte e ao sul. O gás atrapalharia. Existem outras lideranças fornecedoras de energia através de PCHs, outros que não estão “nem aí” para nada e ainda os que prefiro não comentar. Meras ilações. Ajudam a entender?
     Outro dia o governador Pedro Taques esteve na Bolívia abordando o assunto, e agora assume a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico o ex-deputado Carlos Avalone, secretário no governo Dante de Oliveira quando da instalação do gasoduto e da termelétrica. Poderia ser uma esperança maior do que de fato é. Como deputado também não mexeu uma palha em favor do nosso gás. Porém, a esperança é a última que morre. A favor ainda tem o projeto da ZPE de Cáceres, prioritário para o atual governo. O gás passando ao lado é um diferencial positivo. Talvez a questão agora caminhe novamente. Espero.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O TRIMILIONÉSIMO PASSAGEIRO II

G1.globo.com

José Antonio Lemos dos Santos

     Em artigo de outubro de 2013 calculei a chegada do trimilionésimo passageiro anual do Aeroporto Marechal Rondon para o finzinho do ano, mas ele não veio. Errei por menos da metade de um dia de movimento do aeroporto. Faltaram 4321 passageiros. Ou seja, se 2013 tivesse mais meio dia, o Marechal Rondon chegaria ao patamar dos 3 milhões de passageiros por ano. Paciência, se não atingiu essa marca exata, ela será alcançada em 2014 bem antes do fim do ano. Contudo, na prática em termos de dimensionamento trata-se de um aeroporto da faixa de 3,0 milhões de passageiros/ano. Um décimo de ponto percentual a menos não diminuirá a importância deste momento do desenvolvimento de Cuiabá e do estado. Passou o Santa Genoveva da linda Goiânia, tem certo o dobro do movimento da invejada Campo Grande e está colado ao de Manaus. 
     Qual a importância de insistir nesses números? O privilégio de dispor de um aeroporto de categoria internacional preparado para atender com conforto e segurança suas demandas do momento e do futuro é hoje um dos fatores essenciais para o nível de inserção de uma cidade na cadeia produtiva global. Mato Grosso está inserido na escala mundial da produção agropecuária e Cuiabá tem o papel central nessa cadeia produtiva. Aparentemente é essa a posição do prefeito Mauro Mendes quando adota como uma de suas prioridades a defesa e promoção de Cuiabá como a capital do agronegócio. E nessa linha, o aeroporto com sua rede logística de acessibilidade regional é um dos equipamentos mais importantes para o funcionamento de todo o sistema. 
     Polo articulador da rede urbana de uma das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta, este é o papel regional de Cuiabá que lhe assegura as possibilidades de desenvolvimento sustentável. Trata-se de uma vantagem comparativa extraordinária que vem sendo objeto de ambições geopolíticas regionais, legítimas desde que transparentes, que se articulam e avançam dissimuladas com eficiência e velocidade. O desvio da produção do médio norte para Goiás a partir de Lucas e a pretendida amputação da ferrovia em Rondonópolis são lances muito bem engendrados nessa grande jogada visando à asfixia logística de Cuiabá. A exclusão do trecho rodoviário Rondonópolis-Rosário Oeste do processo de concessão privada para as obras de duplicação, deixando a cargo da conhecida ineficiência do poder público através do DNIT é parte do jogo. E o Marechal Rondon só está recebendo essa acanhada ampliação por causa da Copa, senão ia para as calendas também. O prefeito está certo. Cuiabá precisa tomar as iniciativas de seu interesse e que são também do interesse deste Mato Grosso unido e campeão. 
     A marca dos 3 milhões de passageiros/ano é a indicação de que o aeroporto de Cuiabá é um dos maiores e dos que mais crescem no Brasil. Sem dúvida é preciso que o foco se volte para a conclusão em tempo hábil da ampliação que está sendo feita para a Copa, mas sem perder de vista que o processo de desenvolvimento de Cuiabá e Mato Grosso vai muito além da Copa e que a atual ampliação não atenderá sequer o movimento atual do aeroporto quanto mais as demandas regionais futuras imediatas. É preciso ao mesmo tempo resgatar o Plano Diretor elaborado pela própria Infraero para o Marechal Rondon no qual estão previstas uma nova estação de passageiros voltada para o Cristo Rei e inclusive uma nova pista. Nesse sentido é fantástico o exemplo de visão de futuro dos que na década de 40 tiveram a coragem de destinar na Cuiabá de então mais de 700 hectares à ainda incipiente aviação comercial. Era muita confiança no desenvolvimento do estado e da aviação. Tinham a visão correta do futuro. Profetas. Quantos hoje teríamos essa visão? Para chamar de “elefante branco” sim, aliás, muitos. 
(Publicado em 21/01/2014 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

LONA?

José Antonio Lemos dos Santos

     Graças à sua localização estratégica no centro da América do Sul Cuiabá tem por vocação natural ser um grande encontro de caminhos em nível do estado, do país e do continente. Assim como no xadrez e no futebol, os lugares centrais são importantes também no planejamento regional e urbano, bem como na geopolítica. Daí que tenho acompanhado a questão da logística dos transportes em todos os seus modais em relação a Cuiabá e Mato Grosso pelo menos desde a década de 70. Especial atenção era dada ao transporte aeroviário, tendo sido incluída no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Cuiabá de 1992 a internacionalização do aeroporto Marechal Rondon como uma de suas prioridades. Depois o extinto Aglomerado Urbano no final dos anos 90 que acompanhou de perto o andamento das obras do aeroporto, alertando para as perspectivas de sua paralisação, que infelizmente veio a ocorrer, com graves prejuízos para Cuiabá e Mato Grosso. 
     Como um dos projetos essenciais para a Copa do Pantanal, a atenção para o Marechal Rondon agora é redobrada, já que se encontrava paralisado desde o início da década passada quando foi inaugurada a metade da estação de passageiros, então projetada no seu total para 1,0 milhão de passageiros/ano. A história da má vontade e pouco caso oficiais para com nosso aeroporto é antiga, gerando até a pitoresca história com a primeira dama do Brasil que lhe deu seu primeiro nome, Maria Tereza Goulart. Com a Copa a moagem com nosso aeroporto foi ao paroxismo até chegarmos à situação em que nos encontramos. Cuiabá ganhou a sede da Copa, mas até hoje muita gente e muitos altos escalões pelo Brasil afora ainda não engoliram o fato. Vão tocando o assunto mais por obrigação do que por vontade. 
     De 2009, ano da escolha de Cuiabá, para cá escrevi dezenas de artigos sobre a preparação do Marechal Rondon para a Copa, inclusive um com o título Molecagem já em fevereiro de 2011. Neles e no noticiário da época dá para relembrar o quanto foi difícil chegar ao ponto em que estão as obras do aeroporto hoje. Enrolaram na licitação do projeto, no projeto e na licitação da obra. Resumindo a ópera, o projeto foi entregue em julho de 2012 e só em dezembro foi concluída a licitação para as obras e dada a ordem de serviço. Tivemos 3 anos e 7 meses da escolha de Cuiabá até a ordem de serviço e nesse período aconteceu de tudo, erros, anulações, revisões, até erro de endereço, situações absolutamente incompatíveis com a grandeza da Infraero e a capacidade de seu corpo técnico. Assim, restaram 1 ano e 5 meses para as obras, exigindo das autoridades atenção redobrados desde então. 
     A coisa só andou de fato após mudança na direção da Infraero, troca na superintendência local e a entrada do governo do estado na execução da obra. É visível que as obras deslancharam e seguem aceleradas, dentro do cronograma segundo a Infraero. Justamente nesta hora a ministra do planejamento vem falar em “erguer uma estrutura de lona” para caso o aeroporto não seja concluído a tempo, mesmo com o aeroporto já coberto. Não sabia? Justo ela como “comandante da força-tarefa” criada pela presidente Dilma para garantir a realização da Copa no Brasil? Ainda há muito para fazer, mas ainda dá tempo. Se for preciso acelerar mais, que busquem condições para maior aceleração e este deveria ser o papel da ministra neste momento. E não aventar uma alternativa indigna para qualquer cidade brasileira, em especial para uma das sedes da Copa 2014, exposta aos olhos do mundo. Ela deve saber que "lona" não existe mais em soluções destinadas a abrigar pessoas ao menos desde a década de 60 com a tragédia do circo em Niterói. Se fosse com Campo Grande ou Curitiba, trataria da mesma forma? Duvido! 
(Publicado em 14/01/2014 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O TRIMILIONÉSIMO PASSAGEIRO

José Antonio Lemos dos Santos

Assessoria/Infraero/G1-MT

     Contente com a vitória do Luverdense em Caxias do Sul no sábado, lembro que em janeiro de 2011 saudei o duomilionésimo passageiro anual do Aeroporto Marechal Rondon alcançado pela primeira vez em dezembro do ano anterior. Agora, em 2013 ele chegou já nos primeiros dias de setembro, numa significativa antecipação que reflete o extraordinário desenvolvimento de Mato Grosso, que se mostra também no sucesso dos times do Luverdense e Cuiabá. Como em 2010, agora também nada foi dito sobre este ilustre personagem simbólico, se teria sido homem ou mulher, a negócios ou passeio, chegando ou partindo. O que se sabe é que não teve nem retrato e nem foguete, como diria Noel, ou qualquer outra homenagem, assim como os duomilionésimos passageiros em 2011 e 2012. O milionésimo apareceu em 2007, também desprezado. 
Meneguini/Secom-MT

     E tem mais. Pelas estatísticas mensais, o Marechal Rondon já vive um movimento anualizado superior a 3,0 milhões de passageiros e verá ainda em 2013 seu trimilionésimo passageiro pela primeira vez num ano de calendário. Um momento para ser comemorado como marco no desenvolvimento de Cuiabá, Várzea Grande e do estado. Passou o Santa Genoveva da linda Goiânia e tem quase o dobro do movimento da invejada Campo Grande. Ao invés, saímos repercutindo uma pesquisa apontando nosso aeroporto como o pior no país, sem destacar que está em obras e que tem capacidade para atender 500 mil passageiros/ano, mas está atendendo 3 milhões! Sim, o projeto original interrompido em 2006 pela metade era para 1 milhão de passageiros/ano. Não sei como a Infraero alega uma capacidade atual de 2,5 milhões de passageiros/ano, nem como estima em 5,7 milhões de passageiros/ano a capacidade da nova estação que, para mim atenderá no máximo 1,5 milhões de passageiros/ano, isto é, 3 vezes 500. Ou seja, nascerá pequena. Mesmo assim, parabéns à Infraero pelas obras, a situação melhorará muito e é para festejar. Mas a síndrome de autoflagelação cuiabana é braba e preferimos cantar nossas carências em vez das conquistas, os defeitos às virtudes, e na falta de defeitos, inventamos. Pois não é que estamos pintando de bandida a premiada Arena Pantanal, justo a menor e mais barata das arenas da Copa - ainda assim a mais bela - só porque suas cadeiras seriam similares à do Beira–Rio e melhores que as de Brasília?
ReproduçãoTVCA/ExpressoMT

     Porém, tão logo comemoremos esta ampliação necessária e urgente, é bom que as autoridades e lideranças políticas, empresariais, profissionais e comunitárias locais, comecem a cobrar em conjunto a nova estação de frente para o Cristo Rei previsto no Plano Diretor do aeroporto. Aliás, é sempre imperioso destacar a fantástica visão de futuro dos que na década de 40 tiveram a coragem de destinar mais de 700 hectares ao ainda incipiente sistema aeroviário comercial. Era muita confiança no desenvolvimento do estado e da aviação, numa época em que o máximo que devia chegar por aqui eram alguns primitivos biplanos. Tinham a visão correta do futuro. Profetas. Ainda mais com a clarividência de locar o eixo da pista na continuidade do eixo do rio Cuiabá, antevendo a convivência segura de um dos mais movimentados aeroportos do país no centro da metrópole atual. Quantos hoje teríamos essa visão? Para chamar de “elefante branco” sim, aliás, muitos. 
     O desprezo ao Marechal Rondon expressa o permanente desprezo, não só da Infraero, mas de todas as autoridades locais nas diversas instâncias, municipais, estaduais e federais por um assunto fundamental no mundo atual. A ampliação de hoje só veio por causa da Copa, mas não é preciso esperar por outra. Quiçá lembrem o exemplo dos anos 40 e tratem melhor o trimilionésimo passageiro que está chegando. 
(Publicado em 22/10/13 pelo Diário de Cuiabá, )

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

ARQUITETOS, AEROPORTO E O TIMÃO

José Antonio Lemos dos Santos

     A grande vitória do Corinthians neste domingo trazendo o caneco do Mundial de Clubes fez lembrar um saudoso tio, de Corumbá, são-paulino de carteirinha e também torcedor do antigo Corumbaense de Tachí, Lara e Garrafinha, time que chegou a dominar o futebol de Mato Grosso pré-divisão e que deixou saudades. Lembro-me dele explicando à gurizada a simplicidade do futebol. Com uma bola na mão, explanava que aquilo era uma bola, que era feita de couro, que vinha da vaca, que a vaca gostava de grama e que por isso a bola tinha que rolar pela grama e não gostava de ser chutada para o alto. Quem esqueceria uma lição assim? O Corinthians me fez lembrá-la. Apesar de não ser corintiano, foi uma partida antológica contra um grande adversário, na qual o Timão devolveu à Europa a dura lição que recebemos do Barcelona ano passado. Mesmo nos momentos mais difíceis a bola não deixava o tapete verde e rolava pela grama de pé em pé, livre de chutões, com jeito de uma vaquinha feliz apreciando sua relva predileta. Pois é, enquanto isso para nós de Cuiabá, sede da Copa do Pantanal, o gramado do Dutrinha mais parece um campo de obstáculos onde a bola não pode desfilar suas graciosas trajetórias, prejudicando assim nossos times que começam a se organizar, mas ficam sem as vantagens do mando de campo nas disputas nacionais e estaduais que participam.
     Parabéns também aos arquitetos e urbanistas pelo seu novo dia, comemorado pela primeira vez no dia 15 de dezembro passado, não por coincidência, dia do nascimento de Oscar Niemeyer. O principal desafio do planeta hoje são as cidades e grande parte dos problemas urbanos no mundo, em especial em Cuiabá, deve-se à ausência do Urbanismo, pela exclusão do técnico especialista na projeção dos espaços dos quadros e das decisões públicas. Com a criação do CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil - que também completa seu primeiro ano de existência, espera-se a correção desta situação. Ao CAU não basta cumprir a hercúlea tarefa de implantar sua estrutura administrativa em nível de um país continental, mas também enfrentar a mais difícil delas que é a reinserção do profissional arquiteto e urbanista na posição social que lhe compete no quadro da ampliação e requalificação do espaço habitado no Brasil, dos edifícios às cidades e regiões. Parabéns ao CAU e seus dirigentes pelos avanços já conquistados.
     Por fim, mais um parabéns, agora à Secopa e à Infraero. Finalmente foi concluída a licitação para as obras do Aeroporto Marechal Rondon e, mais extraordinário ainda, na mesma semana foi dada a Ordem de Serviços para início dos trabalhos. Enfim um procedimento digno de elogios nesse longo processo da ampliação do principal aeroporto de Mato Grosso. Sei que para alguns não fizeram mais que a obrigação. Sim, mas no Brasil cumprir as obrigações com qualidade e em tempo hábil é absolutamente incomum nos setores públicos e merece elogios, em especial deste escrevedor apaixonado por sua terra e que por anos não larga os pés dos responsáveis por essa obra. Apesar do grande atraso, ainda dá tempo e as obras enfim começarão para conclusão em dezembro de 2014. E é importante a conclusão nesse prazo para permitir que alguma seleção ainda possa adotar Cuiabá como local de adaptação ao calor brasileiro, já que nesse ponto Cuiabá é imbatível com seu calor escaldante e sadio. Nenhum lugar seria melhor para a adaptação rápida de uma seleção de países de clima frio ao calor tropical. Dois a três meses de uma seleção se preparando em Cuiabá significam ocupação de hotéis, restaurantes, mídia, enfim, vale muito dinheiro na forma de empregos e renda para a população. Campo Grande e Goiânia estão de olho. E eu também. Mãos à obra!

(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 18/12/2012)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

CADÊ O AEROPORTO? III

José Antonio Lemos dos Santos
     
     
     Seria dispensável falar sobre a importância de um aeroporto internacional de grande porte para qualquer cidade do mundo. Contudo ainda tem muita gente em Cuiabá, inclusive nos altos escalões, pensando tratar-se de um equipamento comum a qualquer cidade. Talvez por sua localização privilegiada central na cidade pelo qual todo mundo passa todos os dias, muitos se acostumaram e pensam erradamente tratar-se de um equipamento comum. Não é. Os aeroportos de grande porte são equipamentos fundamentais neste mundo globalizado, não só para cargas, mas, em especial como ferramenta de conexão entre as pessoas individuais, oficiais ou corporativas. Quanto mais os indivíduos e o planeta se globalizam virtualmente, mais é necessário o contato direto interpessoal bem como os espaços e equipamentos que propiciam tais encontros. Os aeroportos são e serão cada vez mais vantagens comparativas extraordinárias entre as cidades no mundo. 
     No exato centro continental, para Cuiabá e Mato Grosso o avião e o aeroporto são mais especiais ainda. Já no final dos anos 40, época em que o máximo que chegava por aqui eram os antigos DC-3, se tanto, homens com extraordinária visão de futuro destinaram os 700 hectares onde está hoje o Aeroporto Internacional Marechal Rondon. Fantásticos visionários! Hoje Cuiabá dispõe de um dos aeroportos melhor situados urbanisticamente e com área suficiente para firmar-se como um dos principais “hubs” aeroviários no continente, atraindo grandes empresas e gerando empregos e renda para a cidade e para o estado. 
     Entretanto, a grandiosa visão de futuro de nossas autoridades públicas parece ter ficado naquele passado remoto. O extraordinário desenvolvimento da cidade e do estado vem exigindo há décadas constantes e sucessivas ampliações e melhorias em nosso aeroporto, as quais só acontecem defasadas, após demandas fortemente reprimidas. Este ano, por exemplo, o movimento de passageiros deve beirar o 3,0 milhões e o Marechal Rondon convive com uma estrutura projetada na década de 90 para 1,0 milhão de passageiros/ano, cujas obras ficaram pela metade, paralisadas em 2004. A socos e pontapés foi feito ano passado um puxadinho para o desembarque. Chegamos a perder para Campo Grande uma linha internacional com a Bolívia pela falta de uma sala de 4x7 metros! Vergonha! Agora chegou a Copa do Mundo, um projeto nacional com o qual se esperava que afinal Cuiabá e Mato Grosso teriam um aeroporto digno e contemporâneo ao seu desenvolvimento. Qual o que! 
     Após 3 anos e meio da escolha de Cuiabá como uma das sedes da Copa, até ontem a Infraero não havia concluído a licitação das obras da estação de passageiros, prometida na última vez para início do mês de novembro. Nesse período tratei do assunto em quase 40 artigos, metade dos quais específicos. Molecagem, sabotagem e outras expressões menos publicáveis foram compartilhadas com muitos leitores indignados em relação a essa que é uma das 3 obras indispensáveis à realização da Copa do Pantanal. O senador Blairo Maggi, o ex-governador visionário que trouxe a Copa para Mato Grosso, poderia incluir o assunto na agenda de sua noticiada audiência com a presidenta Dilma, que talvez não saiba o que está acontecendo com o aeroporto. Agora faltam apenas 576 dias para o início da Copa e ainda dá tempo, porém agora só em 3 turnos, sábado e domingo, como aventado em caso de necessidade por Lula, quando ainda presidente. O senador poderia também incluir na sua agenda o trecho ferroviário de Rondonópolis a Cuiabá e daqui a Lucas, bem menor que a FICO, assim como a duplicação rodoviária até Posto Gil, não só até Rondonópolis. E viva o Cuiabá Arsenal, mais uma vez na final do campeonato brasileiro de futebol americano! 
(Publicado em 13/11/2012 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 22 de maio de 2012

PLANEJAMENTO E CIDADANIA

José Antonio Lemos dos Santos

Cidade é coisa séria e precisa ser levada a sério. Ela é a maior e mais bem sucedida invenção do homem. Como invenção humana, ela é construída e tem uma dimensão técnica, porém, como construção coletiva ela tem também uma dimensão política. Essas duas dimensões lhe são inalienáveis. A cidade não pode ser conduzida só tecnicamente ou só politicamente. Não dá para andar numa perna só, qualquer que seja ela, a não ser para o desastre. Como objeto em constante construção, toda cidade deve ter ainda um plano diretor sem data de conclusão, mas focado em um horizonte de planejamento de 20 a 30 anos, que se distancia à medida que nos aproximamos dele.

Cuiabá e a grande maioria das cidades brasileiras foram dominadas pela política, justo pela pior de suas vertentes, a política eleitoreira, aquela que devia ser apenas uma ferramenta de busca pela vontade democrática, mas que virou uma praga nacional. Com a complacência dos cidadãos leigos e especialistas, as cidades foram dominadas e deixaram de ser uma finalidade da política, passando a ser um meio, um balcão de negócios eleitoreiros no qual os planos, as leis e as normas passam a ser ou um estorvo ou excelentes oportunidades de negociação quanto a “flexibilidades” na sua aplicação. Enquanto o horizonte da política urbana é de no mínimo 20 anos, o horizonte da política eleitoreira é de 2. Projetos com mais de 2 anos de maturação não interessam e o planejamento atrapalha porque limita o campo de barganha eleitoreiro. Por isso o Sistema de Desenvolvimento Urbano de Cuiabá criado pela Lei Orgânica do Município em 89 foi desativado, culminando com a extinção do IPDU e a truculenta aprovação da nova lei do Uso e Ocupação do Solo, a principal lei da cidade, no ano passado.

Felizmente algumas cidades do Brasil conseguiram escapar dessa teia poderosa e perversa. Conseguiram montar um sistema de gestão urbana técnico e participativo, articulado e eficiente, que se consolidou à medida que os frutos foram sendo produzidos, ganhando a confiança, adesão e defesa crescentes da população. Sem querer simplificar, essa é a grande diferença de Curitiba, Vitória, Goiânia, e Campo Campo-Grande, entre outras poucas. O duro é lamentar que Cuiabá começou a montar algo semelhante ao mesmo tempo que Campo Grande tendo na época o tricentenário como horizonte de planejamento, 30 anos à frente, e que as coisas evoluíram até bem, mesmo nas administrações adversárias que se sucederam, produzindo de forma democrática, técnica e participativa os principais planos e leis da cidade, projetos de grande porte e instrumentos de controle. A maioria dos projetos da Copa é originária daquela época, ainda necessários, mas com 10 anos ou mais de proposição. Só que aqui em Cuiabá a situação reverteu e a cidade institucional foi descolada da cidade real, justo quando esta passa pelo seu momento econômico mais rico em oportunidades, enriquecido ainda mais com a Copa do Pantanal.

As cidades são do cidadão ou não são cidades. A cidadania precisa voltar a se sentir dona da cidade, que não é do prefeito, vereadores, governador ou presidente da república, funcionários públicos a seu serviço visando o interesse público, a res-publica. A República precisa ser reproclamada. Ainda bem para Cuiabá que veio a Copa para nos chutar o traseiro. Por causa dela hoje discutimos o futuro, projetos, obras, discussões em busca de uma cidade que queremos não só grande, mas uma grande cidade, bela, gostosa, justa, verde, feliz, sustentável e rica em oportunidades para seus habitantes. Em vez de esperar El-Rey, a cidadania se mobiliza apaixonada por sua cidade, propositiva, crítica, ativa e militante. Esse é o caminho.


(Publicado em 22/05/2012 pelo Diário de Cuiabá)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

AS OBRAS DE CAMPO GRANDE

                                              http://tccampogrande.blogspot.com.br/2010/09/orla-morena.html



José Antonio Lemos dos Santos


     No último domingo o Diário de Cuiabá trouxe provocante matéria mostrando o avanço das obras públicas em Campo Grande nos últimos três anos, tornando inevitável a comparação com a preparação de Cuiabá para sediar a Copa do Pantanal em 2014. Comparações como esta sempre mexeram com os brios de lá e de cá, principalmente dos cuiabanos, e é bom que isso aconteça de vez em quando, como parece ter acontecido agora, pela quantidade e teor dos comentários despertados.
     Diante do comparativo adverso, só lamento que a grande maioria dos comentários adote uma postura de passividade com a situação, mesmo que em direções aparentemente opostas. Uma turma exagera nas deficiências, esquece as vantagens e vaticina que a cidade não tem jeito graças aos maus políticos e sempre será assim. Outra turma prefere exagerar as virtudes da cidade e se apega a uma bela realidade fantasiosa, sem reconhecer a procedência das críticas. Para as duas posições não há o que fazer, justificando uma cômoda passividade cívica. Ainda bem que não são unanimidade. Na cidade já existem grupos ativos que vão atrás de seus direitos como cidadãos, dentre os quais a qualidade de vida urbana e uma administração pública competente. Como exemplo cito o movimento “Ciclovias Já!” que no último fim de semana junto com o projeto “Cidade para Pessoas” realizou com enorme sucesso sua Bicicletada, protestando em favor da inclusão das ciclovias nos projetos da cidade, em especial nos projetos da Copa. Que os brios revolvidos com o exemplo de Campo Grande multipliquem movimentos como estes. Não mais esperar El-Rey, mas ir atrás do que é de direito.

     Aliás, seguindo neste perigoso exercício de “psicanálise urbana”, diria que o desempenho de Campo Grande tem também muito a ver com a sacudida nos brios que os campo-grandenses viveram quando perderam a sede da Copa. O povo ficou “mordido”, decepcionado com a perda, para eles surpreendente. Para muitos a culpa foi de suas autoridades que subestimaram Cuiabá como adversária. A partir desse revés, os campo-grandenses ao invés de ficarem se culpando, resolveram dar o troco da melhor maneira, estreitando ainda mais o forte e invejável pacto que sempre tiveram com sua cidade, ampliando seus instrumentos de gestão urbana, investindo em estrutura técnica, no planejamento, fiscalização das leis e execução das obras sistematicamente projetadas por seu órgão de planejamento urbano. Só podia dar coisa boa.
      Porém, apesar de fundamental nem só de cidadania vive uma cidade. É preciso uma estrutura institucional que a acompanhe, organizando seu presente e preparando seu futuro em função do bem comum. Essa é de fato a grande lição de Campo Grande, Curitiba, Vitória, Goiânia e todas as aquelas poucas cidades que conseguiram sair deste imenso faroeste urbano nacional. As cidades precisam de uma Política Urbana estruturada e respeitada, como determina a Lei Orgânica de Cuiabá, com um sistema de planejamento sistemático e contínuo, apoiado em órgão técnico e conselho específicos, que assegurem a gestão democrática da cidade. Quando veio a Copa, mas independente dela, Campo Grande tinha um pacote de obras pronto para aquele momento da cidade. E souberam aproveitar com merecimento seu ministro em Brasília (agora dois). Em Cuiabá, a cidade institucional foi descolada da cidade real, viva, dinâmica em seu melhor momento econômico. Chegou a Copa e os projetos disponíveis eram os de 10 anos atrás, gerados no IPDU, esvaziado nos últimos anos e finalmente extinto no ano passado. Cuiabá perdeu tempo com a identificação, atualização e preparação dos projetos. Agora prontos, é hora de executar e da cidadania apoiar e cobrar. Mesmo que no limite, ainda dá tempo. Ainda mais com os nossos brios feridos.

(Publicado excepcionalmente em 03/05/12 pelo Diário de Cuiabá, Midianews, Hipernotícias, ODocumento, BrasilLocal, RepórterMT, BlogdoJoão Bosquo, AraguaiaDigital, BomDiaMatoGrosso, TurmadoÊpa)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A COPA EM CUIABÁ

José Antonio Lemos dos Santos

     Mês passado no artigo sobre as primeiras tragédias urbanas de verão deste ano passei a alguns leitores a falsa idéia de ser contra a Copa. Muito pelo contrário, sou a favor dela como venho repetindo em quase uma centena de artigos específicos, principalmente por Cuiabá ser uma de suas sedes. Torci e continuo torcendo pelo seu sucesso tanto durante os jogos quanto pelo seu legado positivo de qualidade de vida para Cuiabá e Mato Grosso. A Copa vai forçar o funcionamento civilizado de outros setores como a Saúde, Educação e Segurança e mostra que o país tem recursos para tudo, desde que exista decisão de fazer. Naquele artigo quis dizer que a Copa expôs ao mundo e a nós mesmos que o país está encalacrado em um modelo político-administrativo enrolado, perdulário, corrupto e incapaz. Mas o mal não está na Copa e sim no fato que ela denuncia, isto é, o país preso nesse modelo caro e paralisante que já sentíamos sofrendo na pele.
     Vivíamos, porém, a ilusão de que bastava escolher alguém capaz e bem intencionado que as coisas andariam. Mas a Copa mostra que a situação vai além das boas intenções, que é bem mais grave e mesmo o melhor dos governantes não se desvencilharia do emaranhado burocrático em que nos metemos ao longo dos anos a pretexto de combater a corrupção – que campeia mais solta do que nunca. Para atender projetos com datas inflexíveis, como a Copa ou a prevenção às tragédias anuais de cada verão, a única saída está em artifícios como o Regime Diferenciado de Contratações, um jeito legal de descumprir a lei. Para o resto do verão deste ano o jeito é rezar, pois de novo passou mais um ano e nada avançou de consistente em relação às nossas cidades e suas áreas de risco. Uma realidade absurda que a Copa nos mostra cruamente. Bons dirigentes continuam sendo condição básica da administração pública, mas para conseguirem governar terão primeiro que romper esse cipoal jurídico, político, burocrático, tributário, eleitoral, etc., que segura o país e paralisa os governos. A Copa apenas vem mostrando o grau de incapacidade institucional a que chegamos, da qual não é a causa. Este o primeiro benefício da Copa ao país e, mesmo que fosse só por isso, sua realização já valeria a pena.
     Ainda sobre a Copa, há algumas semanas desenvolveu-se uma discussão sobre os méritos de Cuiabá para sediar a Copa do Pantanal, uma discussão extemporânea, absurda e inconseqüente neste altura do campeonato. Ainda que doam muitos cotovelos, Cuiabá foi escolhida pela FIFA e é uma das sedes da Copa 2014, pronto e acabou. Merecia? Sim, como merecem todas as cidades brasileiras. Está preparada para ser? Não, assim como nenhuma cidade brasileira. É claro que existem cidades urbanisticamente mais avançadas, mas ainda assim muito distantes de estarem prontas para um evento desse porte. No caso da Copa do Pantanal a disputa teve como condição a existência do Pantanal limitando-se a Cuiabá e Campo Grande, ficando de fora outras belas cidades brasileiras que também mereciam, mas não tinham o Pantanal. É claro que nenhuma das duas está preparada. Campo Grande está na frente em termos de gestão urbana, o que nem meu renitente bairrismo cuiabano me impede de invejar. A grande diferença foi que Cuiabá sacou logo a importância da Copa, e se preparou melhor para a escolha, conseguindo mostrar suas vantagens como plataforma turística para as múltiplas belezas naturais deste rico centro continental. Hoje o importante é fazer, driblar as dificuldades e preparar a cidade para a Copa e para seu futuro, com qualidade e retidão. Mais que problema, um desafio.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 07/02/2012)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

JOAQUIM MURTINHO

José Antonio Lemos dos Santos


     A cidade é um centro de produção, mas sua produção vai além da economia, extrapola os bens e serviços e seu principal produto é a sua gente. A qualidade de seu povo é a melhor medida do sucesso de uma cidade. Já foi assim e devia continuar sendo. As cidades devem lembrar seus vultos como exemplos para reproduzi-los em todas as áreas do desenvolvimento humano. Nos meus tempos de escola primária, do “grupo” escolar, estudávamos suas vidas aprendendo a respeitá-los, e através deles aprendemos a respeitar ainda mais nossa gente.
     Amanhã, 7 de dezembro, devíamos lembrar Joaquim Murtinho, nascido em Cuiabá em 1848. Foi engenheiro civil e médico homeopata, professor da Escola Politécnica, Deputado Federal, Senador, Ministro da Viação e da Fazenda. Para Rubens de Mendonça, foi o maior estadista e financista brasileiro no período republicano. Alguns hoje só o conhecem como nome de escolas ou ruas, aqui, no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campo Grande, ou ainda como nome de cidades em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Seu prestígio era tal que certa vez Dom Pedro II, Imperador do Brasil, tido como um dos governantes brasileiros mais cultos, assistindo a uma palestra dele sobre homeopatia, quis questioná-lo, recebendo em troca a sugestão de que quando "tivesse ímpetos de assistir a uma defesa de tese que Sua Majestade não entenda, deixe-se ficar em casa e leia uma página de Spencer".
     Mudaram os tempos e mudaram muito as relações de respeito entre a autoridade política e a autoridade técnica. Hoje qualquer político ou preposto de quinto escalão ou menos acha que pode desprezar o especialista enquanto ele próprio propõe sobre questões técnicas que não entende, como a preparação de nossas cidades para a Copa. Depois quer que o especialista se responsabilize tecnicamente pelas decisões, chegando até a forçar mudanças de pareceres em função dos interesses da hora. Imagine se não fosse a República e tivéssemos imperadores. Felizmente, os bons técnicos, como Murtinho, ainda insistem em existir, convictos da importância de sua responsabilidade social como portadores do conhecimento científico e do domínio tecnológico.
     Pioneiro da homeopatia no Brasil foi, porém, como Ministro da Fazenda que Murtinho ficou na história. Lembro Joelmir Betting em artigo de 1984 na Folha de São Paulo: “O saneamento da moeda nacional começou com a presença mágica do ministro Joaquim Murtinho (a partir de 1899). Murtinho só não é apostila nas escolas de economia do mundo ocidental porque nasceu no Brasil, teorizou no Brasil, e não em algum reduto da aristocracia acadêmica nos dois lados do Atlântico Norte.”
     Diz mais: “Mal empossado no cargo de chanceler do Tesouro, que ele chamava de “monarca dos entulhos”, Joaquim Murtinho disparou um vigoroso “pacote” econômico, politicamente atrevido: a palavra de ordem era a de acabar, em rito sumário, com a especulação financeira do setor bancário”, e segue, “Murtinho entendia que o Brasil da virada do século não podia tolerar uma economia meramente escritural, era preciso promover o refluxo da poupança nacional do mercado de papéis e de divisas para o mercado de produtos e de serviços.” A inflação foi quase a zero gerando o “pânico bancário” de 1900, com o sistema financeiro “experimentando uma quebradeira em cascata”, diz Betting.
     Aprendi com meu pai, que foi bancário orgulhoso em sê-lo, a reconhecer o valor dos bancos, mas, amargando seus juros, suas portas giratórias, e o número crescente de taxas exorbitantes, concluo esta homenagem ainda com Betting: “O “czar” Murtinho lavou as mãos enluvadas: que se quebrem todas as casas bancárias, desde que se salvem todas as fábricas, empórios e fazendas...”. Dá para esquecer?
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 06/12/2011)

terça-feira, 1 de outubro de 1991

O PARQUE DA CIDADE E O COMANDO MILITAR DO OESTE

 

Parque Mãe Bonifácia (foto:odocumento.com.br)

José Antonio Lemos dos Santos

     Em gentil atenção ao nosso artigo da semana passada, o vereador Vicente Vuolo enviou cópia do seu projeto sobre o Parque da Cidade, esclarecendo que ele não estabelece a área do 44' BIM como o local de sua futura instalação. Esta área entra na justificativa do projeto apenas como uma sugestão, sendo proposta uma Comissão para a escolha da localização mais adequada, a qual terá total liberdade para optar por uma outra área, se isto for necessário à viabilização do reencontro urbano da população com a natureza. 

     Estas informações destacam ainda mais a importância do projeto do jovem vereador, pois, mesmo vetado, serviu para evidenciar o quanto de expectativa existe na cidade por um parque como o proposto, servindo também para mostrar que o Exército não pode continuar sendo visto como uma instituição inacessível aos interesses das comunidades onde se instala, dispondo-se a conversar sobre o assunto. Por sua vez amplia a validade de uma contraproposta ao próprio Exército em termos de sua área no "Mãe Bonifácio": uma área também central, de dimensões maiores às do 44' BIM, com acesso facílimo pela Perimetral e bem conservada em sua vegetação natural. Lá o Parque da Cidade já estaria praticamente pronto, bastando alguma limpeza e uma infraestrutura leve de manutenção e apoio que pode ir sendo instalada aos poucos. Um parque é antes de tudo uma área verde, o resto é complemento. 

     A questão do Parque da Cidade, me fez lembrar um assunto que merece especial atenção: por ocasião da instalação do Comando Militar   do Oeste em Campo Grande a imprensa noticiou, com destaque, que a sede daquele Comando em 1990 estaria instalada em Cuiabá. Como já aconteceu uma situação semelhante com a finada SUDECO, — que também se instalou "provisoriamente", em Brasília, lá ficando até sua extinção —, guardei os recortes do noticiário para ver em que pé as coisas iam ficar. A instalação em Campo Grande se deu em 1986, 9 de janeiro, e de lá para cá não tive conhecimento de nenhum desmentido, fazendo-me supor que meus recortes ainda continuam válidos. O Comando não veio até hoje e. o que é pior, não vi manifestação alguma no sentido de perguntar, cobrar. ou qualquer outra atitude que fosse no sentido da viabilização, ou sequer, do esclarecimento de tão importante notícia. 

     Apesar da lembrança não pretendia escrever sobre o assunto, para não misturar as coisas quando tudo parece ir tão bem em relação ao nosso primeiro parque urbano. Entretanto, na semana passada a imprensa nacional divulgou uma outra notícia dando conta que o Exército pretende fiscalizar diretamente a "fronteira andina do país", do Paraná até Roraima, para impedir a penetração dos tóxicos. Nesse caso o Comando Militar do Oeste teria importante papel a desempenhar pois sua atribuição vai de Mato Grosso do Sul até Rondónia, quase a metade da tal fronteira a ser defendida. Vencer a guerra contra as drogas talvez seja hoje o projeto nacional de maior prioridade para a população brasileira, em cujas batalhas assiste impotente à imolação de sua juventude. A entrada do Exército Nacional nessa luta é a única esperança que pode ser vislumbrada. 

     Tanto para o bem como para o mal Cuiabá tem localização estratégica nesse vasto campo de batalha um território marcado em seus limites pelo suor e pelo sangue de sua gente. em episódios como as defesas de Dourados e de Barão de Melgaço, da Retomada de Corumbá, ou da epopeia de Rondon. Cuiabá poderia retomar patrioticamente o assunto. dispondo-se a oferecer todas as facilidades possíveis para que o Comando Militar do Oeste reavaliasse suas conveniências e possibilidade de vir se instalar no centro do seu palco de operações. A indiferença em relação à possibilidade de instalação de um Comando Militar em nossa cidade, pode ter sido explicada por certos receios que, justificados ou não, cercavam a imagem de nossas Forças Armadas. Nestes novos tempos, deixar de abordar este assunto pode até dar a impressão de pouco caso, como se a presença de um quartel a mais ou a menos, ainda que Quartel General, não fizesse diferença alguma na vida de uma cidade como a nossa. Certamente esta impressão não é verdadeira. Se for bom para o Brasil que o Comando Militar se instale em Cuiabá, para Cuiabá e para os cuiabanos será melhor ainda. 

(Publicado pelo extinto JORNAL DO DIA, em 01/10/1991)