"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

AEROPORTO: CARTA ABERTA AO PRESIDENTE


José Antonio Lemos dos Santos
     Senhor presidente, animado pelo estilo sincero e direto de comunicação de Vossa Excelência, arrisco-me a dirigir-lhe este artigo em forma de uma carta aberta, também franca e sincera. Se de alguma forma chegar ao Vosso conhecimento, fico feliz; se não, também. Em notícia da semana passada o secretário Nacional da Aviação Civil (SAC) teria afirmado ao senador mato-grossense vice-presidente da Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado que até dia 30 de novembro deverá estar concluído o processo de internacionalização do Aeroporto Marechal Rondon em Várzea Grande, principal acesso aeroviário de Mato Grosso. Embora torcendo pela realização da previsão do secretário, ela parece temerária por seu prazo exíguo e dá para desconfiar, principalmente aos mato-grossenses, e em especial aos cuiabanos e várzea-grandenses que por décadas vêm sendo enrolados neste assunto.
     Mas, senhor presidente, existem fatos novos que permitem crer que desta vez a internacionalização se concretize. Primeiro a corajosa determinação de Vossa Excelência na privatização do referido aeroporto no começo do ano, junto a outros 4 regionais, conseguindo o maior ágio entre os 3 blocos leiloados na ocasião, abrindo de imediato novas perspectivas para o transporte aéreo de cargas e pessoas em Mato Grosso. A Centro-Oeste Airports, concessionária vencedora chega com uma visão clara da grandeza das potencialidades do estado, o maior produtor agropecuário do Brasil e hoje uma das regiões hoje mais dinâmicas do planeta. Seu presidente, Marco Antonio Migliorini, diz que o desejo da empresa é transformar o Marechal Rondon em um ponto de conexão continental – hub – desejo que é também uma das mais antigas aspirações locais no rumo da realização da vocação de Cuiabá em ser um dos pontos naturais de encontro dos caminhos centro-continentais, e do próprio aeródromo, posto no exato centro do continente sul-americano.
     Outro fato novo considerável em favor da internacionalização do Marechal Rondon é a decisão do atual governo estadual em explorar as potencialidades dos relacionamentos do estado com os demais países da América do Sul, tendo inclusive no início do ano criado uma comissão, ainda muito ativa, destinada a destravar este processo que dura décadas, contando com a participação de representantes da Infraero, Trade Turístico, Receita Federal, Prefeitura de Várzea Grande e secretários de Estado. Básico também vem a ser o interesse manifesto pela Azul e as providências já tomadas pela empresa no sentido da implantação de uma linha Cuiabá - Santa Cruz de La Sierra (Bolívia), que também já conta com autorização das autoridades bolivianas.
     Senhor presidente, das quatro autorizações brasileiras necessárias, as do Ministério da Agricultura, Anvisa e Polícia Federal estão resolvidas. O problema está na Receita Federal que alega precisar de um espaço maior do que o pedido e construído na época da ampliação do aeroporto. Segundo o superintendente da Infraero, as atuais instalações atenderiam a 200 passageiros/hora, suficiente para início das atividades com 2 voos semanais. Senhor presidente, esta situação por parte da Receita Federal já integra o acervo do folclore mato-grossense desde a década de 80 quando a linha hoje pleiteada era explorada pela antiga LAB e, conforme conta a lenda foi desativada por falta de um espaço de 7m x 4m para alfandegagem. Desde então outras tentativas foram feitas sem sucesso, e os voos não mais voltaram.
     Senhor presidente, Mato Grosso ofereceu um dos maiores percentuais de apoio à sua candidatura e é um dos maiores polos de confiança em seu governo, desculpe o atrevimento no fechamento desta cartinha, mas dá uma força para nós aí, tá OK?

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

GÁS, QUE VOLTE PARA FICAR


José Antonio Lemos dos Santos
     Um dos maiores crimes cometidos contra Cuiabá e Mato Grosso é o pouco caso com que se tratou o complexo gasoduto /termelétrica, o maior projeto implantado no estado, no valor de 1,0 bilhão de dólares e inaugurado em 2002. Crime com interesses diversos que vão desde a velha mania da política brasileira, em especial a mato-grossense, de um político não dar continuidade a obras de outros governos, até aqueles contrários à consolidação de Cuiabá como principal polo político e econômico unificador de Mato Grosso, passando por outras motivações também menores, mas poderosas. Casos semelhantes são, por exemplo, a conexão ferroviária da capital mato-grossense e a linha aérea até Santa Cruz de La Sierra, ambos até com empresas interessadas em suas implantações, mas que mesmo assim não avançam.
     A chegada de um gasoduto disponibilizando com fartura uma fonte de energia limpa e barata como o gás natural sacode as regiões por onde passa impulsionando a economia e elevando a qualidade de vida de suas populações com a geração de amplas alternativas de novos empregos e maiores rendas. Aqui chegou e ficou por isso mesmo. Para os políticos e gestores mato-grossenses parecia ter chegado em Marte. Especialista em Planejamento Urbano, não entendo nada sobre gás ou geração de energia, mas sei o quanto é importante a disponibilidade energética para o desenvolvimento de uma cidade ou região. Aliás, a qualidade de uma cidade em uma sociedade de mercado é aquela que sua população pode bancar com sua renda.
     Relembrando, com sua extraordinária visão de futuro o saudoso ex-governador Dante de Oliveira anteviu a grande produção agropecuária atual de Mato Grosso, de alta tecnologia e grande produtividade. Percebeu, então, ser fundamental a criação das condições para a verticalização no estado dessa produção primária, agregando-lhe valor. Gerar empregos aqui em vez de exportá-los. Entendia que a Baixada Cuiabana poderia ser a base propulsora desse processo de verticalização da economia estadual com apoio da ZPE de Cáceres. Para esse salto, energia e transporte seriam essenciais. Arrancou assim das barrancas do Paraná os trilhos da Ferronorte, criou o FETHAB, implantou o Porto Seco e internacionalizou o Aeroporto Marechal Rondon, viabilizando sua ampliação a quatro mãos com o também saudoso Orlando Boni, cuiabano então presidente da Infraero. Quanto à energia, destravou a APM de Manso então com obras paralisadas e trouxe a ex-poderosa Enron para implantar o complexo termelétrica/gasoduto.
     Implantado o complexo do gás viriam com ele as vantagens regionais comparativas atraindo novas indústrias e outros investimentos. Só que o plano não avançou. Ao invés, o gás aqui foi desmoralizado com sucessivas suspensões de fornecimento até perder a confiança do mercado consumidor. Sugiro ao leitor buscar no Google pelo gás de Mato Grosso do Sul. Sentirão o mesmo que senti: inveja! Lá bombando o futuro em Campo Grande e cidades do interior para uso veicular, residencial, comercial e cogeração, enquanto aqui ...
     Na última quinta-feira, em Santa Cruz de La Sierra com a presença do presidente Evo Morales, o governador  Mauro Mendes assinou com a estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos um contrato para fornecimento do gás natural até dezembro de 2020, com  renovação automática por mais 10 anos caso nesse período não se concretize uma sociedade entre a estatal boliviana e a MTGás para a expansão da cadeia do gás natural no estado. Fruto destas tratativas a termelétrica já está operando em potência máxima. Que venha então o gás, mas que venha com firmeza, confiável e para ficar. Aleluia!

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O TRIMILIONÉSIMO PASSAGEIRO

Imagem:Jornal Baixada Cuiabana
José Antonio Lemos dos Santos
     Ele já esteve no Marechal Rondon em 2014 e 2015 e por um triz não chegou pela primeira vez em 2013, como até arrisquei a prever em artigo da época. Errei por pouco. Tivesse o ano uma fração de dia a mais em seu calendário e o trimilionésimo passageiro anual teria desembarcado em Várzea Grande antes da Copa. Mas veio em 14 e 15 colocando o principal aeroporto de Mato Grosso em um novo patamar de importância. Depois o movimento aéreo de passageiros caiu bastante em todo o Brasil e a frequência de passageiros no Marechal Rondon recuou em 16 e 17, voltando agora em 2018 a superar os 3 milhões de passageiros no ano, 3.006.701 exatos. Qual a importância? Seria só para dizer que o movimento do aeroporto de Cuiabá é o dobro do de Campo Grande ou que é maior que o de Manaus, com Zona Franca e tudo?
     As cidades não são pontos isolados no espaço, mormente agora no mundo globalizado. As cidades, grosso modo, são centros produtores de bens e serviços atendendo à demanda de uma região que será maior ou menor conforme a força de suas centralidades, podendo ir desde a pequena vila atendendo a uma pequena região rural até às capitais globais envolvendo todo o planeta. Assim, as cidades se organizam em redes e, grosso modo, são nós em uma rede de fluxos intercambiáveis de bens e serviços, hierarquizada funcionalmente de acordo com a importância e/ou volume dos fluxos que gera de entrada ou saída.
     Por bens e serviços resumimos produtos primários, manufaturados e industriais ou serviços comerciais, bancários, de educação, saúde, cultura, ciência, entretenimento, etc. cujos fluxos se deslocam através de canais de ligação que são as rodovias, ferrovias, hidrovias, infovias, dutovias, aerovias, internet, e outros que eu tenha esquecido ou que possam estar sendo inventados. Maior a disponibilidade destes canais em quantidade e qualidade, maior a capacidade de geração e diversificação de fluxos de uma cidade, logo, maior a força de sua centralidade, maior seu dinamismo e capacidade de geração de emprego, renda e qualidade de vida para sua população.
     Para se conectarem às estruturas urbanas pontuais, os fluxos precisam de interfaces compatíveis, sendo os aeroportos um de seus mais importantes exemplos atendendo aos fluxos aeroviários e que precisam estar dimensionados de acordo com suas demandas presentes e futuras. Pelos aeroportos chegam e saem cargas e, em especial, pessoas que podem ser turistas, estudantes, compradores, vendedores, investidores, etc., em suma, pessoas, o principal agente de desenvolvimento. Assim, quanto maior o movimento de um aeroporto maior o dinamismo e as potencialidades da região a qual conecta e a chegada do trimilionésimo passageiro do Marechal Rondon expressa a pujança de uma das regiões mais dinâmicas do mundo da qual é a porta de entrada.
     A posição estratégica do Marechal Rondon no exato centro da América do Sul aponta para ricas possibilidades de conexões diretas com o mercado sul-americano que há muito já deviam estar sendo exploradas em prol do desenvolvimento de novas potencialidades regionais. O atual governador Mauro Mendes quando prefeito mostrou ter a visão correta do papel de Cuiabá como capital do agronegócio e, por conseguinte, do Aeroporto Marechal Rondon. Quem sabe agora sairá a linha aérea para Santa Cruz de la Sierra, um começo para novas conexões internacionais? Por ora, o importante é que o trimilionésimo passageiro voltou, e de novo sem retrato, sem foguete ou banda de música, como o milionésimo em 2007 e o duomilionésimo em 2010. Que tenha vindo para ficar puxando com ele para Mato Grosso, muito em breve, o quadrimilionésimo passageiro com tudo o que representa.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O VOO INTERNACIONAL

exame.abril
José Antonio Lemos dos Santos
     No final da semana o superintendente da Infraero em Mato Grosso informou que a Receita Federal deu seu aval para o Aeroporto Marechal Rondon operar voos internacionais podendo atender até 200 passageiros por hora, o que na prática significaria que do ponto de vista deste órgão Mato Grosso ganhou salvo conduto para voos ainda mais distantes pelo mundo afora através de seu principal aeroporto. Alvíssaras! Porém no momento o foco deve ser a concretização do primeiro voo da linha Cuiabá-Santa Cruz de La Sierra e sua consolidação. A notícia ainda diz que agora só falta a anuência da Polícia Federal. Como sempre, falta ainda alguma coisa para a realização deste antigo e importante projeto mato-grossense. Ainda bem que desta vez está avançando.
     Nas entrelinhas da excelente notícia vem uma outra fundamental indicando a existência de autoridades tanto no estado como no governo federal, em especial na Infraero, realmente interessadas no assunto, tomando providências, reivindicando, cobrando e agilizando as burocracias. Certamente será uma das maiores conquistas para a Grande Cuiabá e Mato Grosso, mas não basta esperar, tem que continuar correndo atrás e vencer obstáculos, alguns inesperados. Ainda falta um passo, prometido como o último antes da efetivação da linha.
     Uma cidade não é um ponto isolado no espaço. Elas funcionam como lugares centrais em redes hierarquizadas produzindo bens e serviços consumidos por uma região de abrangência chamada tecnicamente de hinterlândia. Quanto maior sua hinterlândia maior sua “centralidade” e sua importância regional, que nos casos extremos pode ser o planeta, como no caso de Nova York por exemplo. Sua capacidade de produção de bens e serviços para atendimento das demandas regionais evidentemente dependerá da infraestrutura instalada e em especial de modernas conexões transportadoras de cargas, passageiros, capitais, conhecimentos, notícias, etc. não só com sua hinterlândia mas com o restante da rede de hierarquia superior. Daí se explica tanta disputa por rodovias, aeroportos, ferrovias, etc., pois são determinantes na configuração da rede urbana e do grau de importância de cada cidade. Isso significa trabalho, emprego, renda e qualidade de vida.
     Quando como urbanista tratamos da urgência da ligação de Cuiabá e Mato Grosso ao sistema ferroviário nacional, ou insistimos na ampliação do Aeroporto Marechal Rondon e a implantação da linha aérea Cuiabá-Santa Cruz de La Sierra estamos tratando de fundamentos da sustentabilidade urbana de Cuiabá e do estado. As redes urbanas são dinâmicas e uma posição favorável hoje poderá ser diferente no futuro em função do que se fizer ou não hoje. Corumbá o mais importante centro industrial, comercial e bancário do estado quando Mato Grosso era uno, hoje busca recolocar-se de maneira sustentável na rede urbana de Mato Grosso do Sul. Na época não foi dada atenção aos fatores que lhe dava a hegemonia estadual. Voos internacionais reforçarão a centralidade da Grande Cuiabá e as potencialidades de Mato Grosso.
     O superintendente da Infraero e o secretário estadual de Turismo esperam uma reunião com a Polícia Federal ainda nesta semana para tratar do último passo para a efetivação da internacionalização do Marechal Rondon. Contando desde agosto passado com a autorização do governo boliviano, contando também com a liberação do Ministério da Agricultura e da Anvisa e o que é mais importante, contando com o interesse de uma das maiores empresas da aviação comercial do Brasil, tudo promete para muito breve o início da operação da linha aérea Cuiabá–Santa Cruz de La Sierra, de onde partem voos internacionais diretos de longo alcance. Um grande presente para o Tricentenário.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

DE 88 A 2018

MansoAquicultura

José Antonio Lemos dos Santos
     Em artigo do início de 1989 avaliei o ano de 1988 como “talvez o mais positivo da história recente” de Cuiabá tendo por base o deslanche de alguns macroprojetos fundamentais para o desenvolvimento da cidade e do estado. Enfim tinha sido iniciada a construção da APM de Manso, a Sudam havia aprovado o projeto da ligação de Cuiabá ao sistema ferroviário nacional e havia sido proposta com grande otimismo e alarde a saída rodoviária para o Pacífico via San Matias. Passados trinta anos e iniciando a quarta década pós 88, valeria fazer uma avaliação do que de fato aconteceu com estes projetos e a quantas andaram as expectativas tão positivas. Talvez sirva para alguma coisa.
     Idealizada com a cheia de 1974 visando a proteção da Grande Cuiabá contra novas enchentes, a barragem de Manso teve seu projeto ampliado em fins dos anos 70 para uma barragem multifinalitária destinada à geração de energia, ao abastecimento de água de Cuiabá e Várzea Grande, à irrigação de 50 mil hectares na Baixada Cuiabana, e ao desenvolvimento de projetos nas áreas de turismo e aquicultura. A obra foi de fato iniciada em 88, mas paralisada em 89 e só retomada em 1998 com grandes prejuízos dentre os quais a perda do canteiro de obras inclusive com maquinário pesado. Inaugurada em fins do ano 2000 cumpre hoje seu principal objetivo assegurando níveis mínimos de água e evitando picos de vazões superiores à de 74, como em 15 de janeiro de 2002. Empurrado só por seu próprio potencial Manso está avançando com grandes projetos de piscicultura, a instalação de condomínios de lazer, pousadas de alta sofisticação, e já vive a expectativa da legalização dos jogos com seu grande potencial turístico. Poderia ter avançado muito mais, inclusive no abastecimento de água e irrigação, até hoje sequer prospectados em termos de viabilidade.
Mansomtolx
     A ferrovia também vem avançando, considerando que em 88 seus trilhos estavam nas barrancas do Paraná, em São Paulo. Hoje está em Rondonópolis onde foi instalado o maior terminal ferroviário da América Latina. Em 1989 teve sua concessão outorgada à Ferronorte, concessão que foi repassada diversas vezes, sem ainda cumprir seu primeiro objetivo que era chegar a Cuiabá, depois prosseguir em direção aos portos amazônicos e do Pacífico, levando e trazendo o desenvolvimento para todo Mato Grosso. Inexplicavelmente em 2010 a então concessionária devolveu a concessão a partir de Rondonópolis. Por coincidência ou não, ao mesmo tempo surgia o projeto da FICO, com 1200 km levando a produção de Mato Grosso para Goiás. Depois surgiu outro ligando o leste do estado ao porto de Espadarte no Pará, ainda em construção. E a ferrovia em Mato Grosso virou então ferramenta de geopolítica em vez de logística, envolvendo exageradas ambições regionais e políticas. Encerrando 2017 a óbvia ligação Rondonópolis-Cuiabá–Nova Mutum de apenas 460 Km voltou a ser prioridade para o estado, BNDES, Nova Mutum e a própria atual concessionária (RUMO), resgatando o bom senso nesse assunto fundamental e tão urgente para o estado. Enquanto demora, produção, meio ambiente e vidas são perdidas.
     A saída rodoviária para o Pacífico encontrou forte alento no primeiro governo Maggi, com o governador liderando uma caravana até ao Chile. Mas ficou por aí. Hoje as ligações do Brasil ao Pacífico saíram por Mato Grosso do Sul e Acre. Por aqui nem pela linha aérea entre Cuiabá e Santa Cruz, outrora existente. Agora em dezembro de 2017 uma nova esperança pois autoridades bolivianas disseram em Cuiabá estar negociando com o Banco Mundial a pavimentação entre San Matias e San Inácio. Querem exportar ureia e gás de cozinha para Mato Grosso. Aí finalmente Mato Grosso estaria ligado diretamente ao Pacífico. Será?

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

ARQUITETOS, VOOS E FERROVIAS

Imagem AgoraMT
José Antonio Lemos dos Santos

     A quantas anda o voo Cuiabá–Santa Cruz? Antes pergunto, o que tem a ver arquiteto questionando sobre ferrovias, aeroportos ou rodovias? A proximidade do Dia do Arquiteto, dia 15 de dezembro, é boa para tentar esclarecer o que faz e pode fazer o profissional arquiteto e urbanista, atribuições não muito claras ao público em geral. O longo período de permanência no sistema Confea/Crea, sufocada entre mais de uma centena de especializações da engenharia, talvez explique um pouco esse quadro de desinformação sobre tão importante profissão. É certo que a criação ainda recente de um conselho próprio, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo, o CAU, será um divisor de águas e os profissionais arquitetos e urbanistas voltarão a ter o prestígio social que nunca deveriam ter perdido.
     Afinal, qual a função do arquiteto urbanista? A Arquitetura surgiu junto com o homem em função do atendimento de sua necessidade vital que é o abrigo. A espécie humana não nasceu com sua casinha nas costas como o caracol, ou com habilidade natural para fazê-la, ou para fazer seus habitats coletivos como os formigueiros. Sem abrigo o homem morre. Então a Arquitetura surge com a função de trabalhar o espaço transformando-o em abrigo, que deve ser funcional, seguro, belo e antes de tudo digno. Só que o espaço é contínuo e infinito cabendo ao arquiteto trabalhar desde o espaço interior de uma residência, à própria residência, aos edifícios para diversos fins, aos bairros onde eles estão inseridos, à cidade (a grande casa), indo até ao planejamento regional, dentro da concepção atual holística e globalizada que coloca o planeta como a nossa verdadeira grande casa.
     Na amplitude do espaço contínuo e interconectado o arquiteto e urbanista não pode prescindir da simbiose com outros profissionais especializados em suas respectivas áreas como os diversos ramos da engenharia, sociologia, geografia, biologia e a economia, citando só algumas das parcerias indispensáveis à Arquitetura e ao Urbanismo. No planejamento regional, um dos focos são as redes urbanas configuradoras do espaço de uma região, mas que são configuradas pelos fluxos de informações, mercadorias, capitais, pessoas, etc. Tais fluxos definem as redes urbanas, suas centralidades espaciais e hierarquias funcionais, numa abordagem realmente complexa cuja compreensão não prescinde da interação técnica multiprofissional.
     Trabalhando em diversos programas de desenvolvimento no antigo Minter, na hoje revivida Sudeco, na Comissão de Divisão do Estado de 1977 e no próprio governo do estado, pude constatar na prática a importância dos diversos modais de transporte para o desenvolvimento de uma região e de sua rede de cidades, não só como infraestrutura econômica, mas como base de condições para a melhoria dos padrões de vida de seus habitantes. A definição do trajeto de uma rodovia ou ferrovia cria e desenvolve cidades, mas pode também definhá-las e até matá-las. Cabe ao arquiteto e urbanista envolvido no assunto informar a população sobre as potencialidades e riscos. No caso de Cuiabá sua principal vocação é ser um grande encontro continental de caminhos. Daí a pergunta inicial. A quantas anda o voo Cuiabá – Santa Cruz? Com viabilidade comprovada no interesse de uma das maiores empresas aéreas nacionais, com o Marechal Rondon em condições e autorização do governo boliviano desde agosto passado, o que está faltando? Será necessária a iniciativa de algum outro município, como aconteceu com a proposta de extensão da ferrovia até Nova Mutum e assim passar por Cuiabá?

sábado, 5 de novembro de 2016

O AEROPORTO PAROU, DE NOVO!

Foto José Lemos

José Antonio Lemos dos Santos
     Algum pressentimento parece ter orientado quando na semana passada citei a linha aérea internacional Cuiabá-Santa Cruz de La Sierra como exemplo de um assunto de interesse do município estando, portanto, entre as obrigações das autoridades e lideranças municipais se
interessar, acompanhar e brigar junto às instâncias competentes por sua realização, independente de partidos ou outros interesses menores. Podia ter citado o gasoduto, a ferrovia, mas escolhi a nova linha aérea por sua importância e pela proximidade da data anunciada para sua inauguração, 5 de dezembro, sugerindo a necessidade dos prefeitos e vereadores dos municípios do Vale do Rio Cuiabá, novos ou velhos, só ou em conjunto, cobrarem o andamento do assunto antes de um possível derramamento do leite. Pois não é que o governo dias após suspendeu o contrato da obra do aeroporto, faltando 25% a ser concluída? Tomara que não atrapalhe em nada a inauguração da linha internacional, tão importante para a Baixada Cuiabana.
     Historicamente a relação dos órgãos gestores dos aeroportos no Brasil nunca foi de simpatia ou agilidade com nosso aeroporto, hoje o 14º do Brasil em passageiros. Um dos poucos grandes momentos de sua história foi no começo da década de 40 quando o governo do estado resolveu doar uma área de 700 ha para o aeroporto, decisão mais que visionária, profética, pois naquele tempo a aviação civil mal iniciava sua consolidação no Brasil. A primeira estação de passageiros só aconteceu porque a então primeira dama do Brasil, de passagem por aqui, precisou ir ao banheiro. Foi um pampeiro! Sorte, pois desse fato pitoresco saiu a primeira estação de passageiros, inaugurada em 64 com o nome de Maria Tereza Goulart, logo após mudado para Marechal Rondon. Depois disso, outra sorte foi em 2002 quando o saudoso cuiabano Orlando Boni presidiu a Infraero e suspendeu uma reforma meia boca programada para o aeroporto e determinou a execução e implantação de um projeto moderno de ampliação e um Plano Diretor para o Marechal Rondon. A ampliação começou, parou, começou, parou, e agora está parada de novo. O Plano Diretor sumiu. Fora isso, só pouco caso, incompatível com a importância da Infraero e seu quadro técnico.
     A maior chance veio com a Copa do Mundo, Cuiabá uma das 12 sedes e o aeroporto como peça fundamental. A ideia era de que nessa oportunidade o Marechal Rondon seria levado a sério. Que nada! A abertura da licitação para o projeto da ampliação só saiu em 2010, ano e meio após a escolha de Cuiabá como uma das sedes e sua ordem de serviço só 2 meses e meio depois. A licitação para as obras só em julho de 2012, 3 anos e 2 meses depois da escolha da sede, com menos de 600 dias para o início da Copa. A boa vontade com Cuiabá era tanta que a então ministra Gleise Hoffmann chegou a propor uma cobertura de lona, caso o aeroporto não ficasse pronto a tempo. Lona, isso mesmo!
     Mesmo inconcluso o Marechal Rondon melhorou muito em relação ao que era antes da Copa, graças ao governo do estado da época ter corajosamente assumido o risco de tocar as obras. Se não, nem isso estaria pronto. Qual o prejuízo sofrido por Mato Grosso, em especial Cuiabá e Várzea Grande com suas novas 15 torres hoteleiras que vieram com a Copa? Afinal, quem defende os interesses de Cuiabá e Várzea Grande? Eventualmente um deputado de Rondonópolis ou de Sinop? Tomaram nossa ferrovia, inviabilizaram nosso gás, fica assim? Quem lutará por nosso aeroporto e sua primeira linha internacional? Está difícil, hein? Com uma história de bravos antepassados será que viramos uma geração de amebas, incapazes de aprumarmos ao menos para reivindicar os próprios direitos? Ou cobrar de quem tem a obrigação de fazê-lo?
(Publicado em 05/11/16 pelo MidiaNews, no Blog do Lúcio Sorge, Arquitetura Escrita, NaMarra e em 10/11/16 pelo Diário de Cuiabá,...)

COMENTÁRIOS:
No Midianews  Carlos Nunes  05.11.16 09h30
"Não sou vidente, mas prevejo que essa tragédia vai acontecer é com o VLT - depois de abrirem a cidade toda, DE PONTA A PONTA (do Porto até o CPA e do Centro ao Coxipó), e o dinheiro minguar, acabar, porque ninguém realmente sabe o tamanho dessa crise, nem quanto tempo ela vai durar, PARA TUDO. E a cidade vai ficar toda aberta esperando o dinheiro cair do céu. Máquinas e tratores já terão mandado pró espaço tudo o que estava na frente, embaixo e nas imediações: asfalto de boa qualidade, avenidas, ruas, calçadas, canos, adutoras, rede de esgoto, rede de energia, telefônica, e muito mais. Quanto custa esse patrimônio público consolidado que vai pró espaço? Quanto custará para REFAZER tudo isso? Aí o fracasso do Silval é transferido automaticamente para o Taques - fracasso antigo o eleitor esquece, mas fracasso atual não esquece...VLT ainda vai derrubar alguns políticos, que não serão mais eleitos pra nada. Se não fizeram na época das vacas gordas, fazer agora na época das vacas magras, do dinheiro curto, da pindaíba financeira, é suicídio. Agora não tem dinheiro nem para garantir o pagamento dos servidores, depende de repasse federal, se o dinheiro chegar paga, se não chegar não paga. Ontem os telejornais (todos) mostraram a calamidade econômica no Rio de Janeiro, e o comentarista do SBT alertou: o que acontece no Rio, vai ter um efeito cascata em todo país - NÃO TEM DINHEIRO. Não podemos deixar abrirem Cuiabá DE PONTA A PONTA, porque o negócio pode piorar. O que já está ruim, pode ficar pior. Não deviam é ter deixado o Silval comprar as Composições Milionárias do VLT, sem entender bulhufas de VLT. É caro para fazer e depois para manter."

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

LINHA INTERNACIONAL

Foto José Lemos

José Antonio Lemos dos Santos

     O que tem a ver aeroporto internacional, gasoduto, Manso, ferrovia, Porto Seco, Arena Pantanal e até o nosso queridíssimo Sol com eleições municipais, vereadores e prefeitos, conforme venho tratando nos últimos artigos? De fato, alguns questionam, parece claro que não se trata de assuntos da alçada municipal. A estes argumento que o prefeito é a maior autoridade pública municipal estando na Lei Orgânica entre suas atribuições “fiscalizar e defender os interesses do Município”. Aos vereadores cabe entre outras coisas cobrar e fiscalizar em nome do povo o cumprimento da lei. Inclusive o exercício dessa atribuição. Óbvio que existem competências administrativas e legislativas que não podem extrapolar os limites do município, mas essa história de cada um no seu quadrado só vale na música popular atual. Até ao cidadão cabe cuidar de sua cidade e lutar por ela. O que seriam “interesses do Município” citados na Lei Orgânica?
     Valendo para quaisquer dos assuntos citados no início do artigo cito por exemplo a inauguração da linha aérea entre o Aeroporto Marechal Rondon em Várzea Grande e Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, prevista para o próximo de 5 de dezembro, a partir de articulações do governador Pedro Taques. É claro que não se trata de assunto da competência administrativa nem legislativa do governo do estado, mas como é um assunto do maior interesse para um estado centro continental, em especial para Cuiabá e Várzea Grande, o governador, com apoio de diversos segmentos da sociedade, correu atrás dos setores competentes em todas as esferas públicas e privadas, e chegou à definição da linha. Não se trata portanto apenas de mais uma linha aérea para o 14º aeroporto mais movimentado do país, mas sua primeira linha internacional com fortes possibilidades de consolidação ligando direto o centro da América do Sul a um outro país, concretizando a internacionalização do Marechal Rondon, podendo puxar outras linhas internacionais e ajudando a alavancar novas perspectivas para a economia de Mato Grosso, turismo, comércio, lazer, cultura, etc.
     A grande vocação natural de Cuiabá com sua posição central no continente é ser um grande encontro intermodal de caminhos. Basta reparar que do jogo de xadrez ao futebol, o meio do campo tem papel fundamental e é o espaço de maior movimentação. Na logística a tendência é acontecer o mesmo. Aproveitar essa potencialidade natural foi a motivação do então prefeito Dante de Oliveira, e depois como governador, buscar a internacionalização do Marechal Rondon. Como Taques, também estava fora de seu quadrado administrativo, mas no mais absoluto sentido de responsabilidade política para com os interesses do estado. Agora falta 1 mês para a inauguração prevista e tudo ficou quieto. Não se fala mais no assunto. O que estaria acontecendo?
     Certamente que a ligação internacional de Cuiabá não é um tema inócuo, mas envolve interesses de outras cidades que também pleiteiam tal privilégio. Pauzinhos podem estar sendo mexidos contra o projeto de Mato Grosso. Já   tivemos por duas vezes uma linha internacional que foram interrompidas por questões absolutamente fáceis de superar quando existe determinação política em todos os níveis para superá-las. Não seria importante neste momento a intervenção dos prefeitos da Região Metropolitana ou, ao menos dos de Cuiabá e Várzea Grande, das Câmaras Municipais, das lideranças empresariais, em especial do trade turístico? Ou vamos deixar que a oportunidade passe novamente até que um dia a vantagem comparativa natural da posição central seja usurpada e inviabilizada definitivamente por outras localidades com mais disposição de lutar pelos próprios interesses municipais e regionais?
(Publicado em 29/10/16 pelo MidiaNews, Arquitetura Escrita, em 30/10/16 pelo HiperNotícias e NaMarra, em 31/10/16 pelo Diário de Cuiabá e pela Página do Enock,...)

COMENTÁRIOS:
Por email:
José Costa Marques     23:51  31/10/16
" Excelente artigo escrito pelo Professor Arquiteto Urbanista José Antônio Lemos, com quem temos a felicidade de partilhar alguns momentos como conselheiros do CAU/MT.
O professor extrapola o campo do desenho urbano e traz uma visão macro da nossa  região e a importância de fortalecer o transporte aéreo como um dos meios para incrementar o desenvolvimento econômico do Estado, em particular os municípios de Cuiabá e Várzea Grande.
Parabéns
Arqt. Urbanista José da Costa Marques "

Na Página do Enock
Osmir     2:59 am      01/11/16
"Quem gosta de pobre fica pobre.Que fixação que tem Zé Antonio, Alfredo Menezes e Serafim com a Bolívia.Inpressionante.Deveria ter aqui era um voô para Miami,lisboa,etc.O que nos queremos com essa bosta de Santa Cruz ainda maiss da Bolivia?O PIB dela é menor que de MT!"

terça-feira, 29 de julho de 2014

ARENA, AEROPORTO E O LEGADO DA COPA

Trincheira Sta Rosa em matéria de 23/07/14Midianews/TonyRibeiro

José Antonio Lemos dos Santos

     Quando da preparação para a Copa um dos grandes temores era que as obras que não fossem concluídas a tempo do grande evento jamais ficassem prontas depois. Um temor procedente e que seria real caso a gente mato-grossense fosse composta apenas de “bobós-lelés”. Mas não, apesar de sua excessiva boa-fé e timidez na reivindicação de seus direitos, o mato-grossense, incluso o cuiabano, é um povo inteligente, produtivo e lutador, que fez de seu estado o maior produtor agropecuário do país e um dos maiores do mundo, apesar de sempre tão abandonado pelos governos, em especial, o federal. 
     Entretanto, há sinais preocupantes, pois, passada o grande dinamismo nas obras nos últimos meses precedentes à Copa, elas hoje estão praticamente paradas, com exceção das ligadas ao VLT, ainda que em ritmo lento. Falam em ajustes de cronogramas, acertos dos turnos extraordinários de trabalho, etc., e o governador continua garantindo que tudo estará pronto ao final de seu governo. Contudo, pela complexidade, e importância das intervenções o assunto não pode ser deixado apenas a cargo do governo estadual, até porque a maioria das obras envolve também o governo federal e até o municipal. Será preciso muito protesto e muita cobrança organizada da população, aproveitando que o pós-Copa ainda interessa à imprensa mundial.
     Ademais, a história vem ensinando dolorosamente ao mato-grossense, e muito especialmente ao cuiabano, que não dá para ficar só esperando El-Rey, não só porque ele já era, como também porque seus sucessores têm pouco ou nenhum compromisso com o interesse público. E nesse sentido há sinais animadores. Semana passada, por exemplo, o trade turístico movimentou-se em conjunto protocolando junto à Infraero um documento cobrando a continuidade das obras do aeroporto, cuja não conclusão foi usada como motivo para suspensão da linha internacional para Santa Cruz de la Sierra, causando enormes prejuízos ao setor que investiu em novos hotéis e restaurantes, bem como no desenvolvimento de eventos internacionais agendados em função da existência do voo. Neste caso nunca é demais lembrar a histórica má vontade do governo federal e ultimamente da Infraero para com Cuiabá quanto aos aeroportos, desde a construção da primeira estação de passageiros na década de 60 que só aconteceu quando uma primeira-dama do país precisou ir ao banheiro, até a atual e ainda precária ampliação, que só aconteceu por causa do milagre da Copa e dos compromissos internacionais assumidos pelo país para o evento.
     Outro bom sinal veio com a veemente manifestação da nova direção da Federação Mato-grossense de Futebol, do Cuiabá Esporte Clube e de parte da imprensa esportiva cobrando do governo estadual a discussão pública sobre o destino da Arena Pantanal, visando assegurar que o já tão querido equipamento exista em favor dos interesses do povo mato-grossense, que afinal foi quem bancou sua construção, em especial de seu futebol. Um equipamento de mais de R$ 500,0 milhões tem que ser visto como poderosa ferramenta de política de Estado para o desenvolvimento multissetorial, e não para ser simplesmente concedido a algum grupo privado sem uma clara definição prévia de compromissos com os interesses públicos locais. 
     Antes a Copa forçava a conclusão das obras. Agora só nos resta a cobrança eficiente e as armas que temos são o protesto organizado e o voto. A Copa foi uma invenção do Bom Jesus para sacudir os cuiabanos visando à preparação de Cuiabá para o Tricentenário. Parece que deu certo. A conclusão do legado vai depender de muita luta, e parece que ela já começou com o Aeroporto e a Arena. Não pode parar. Viva! 
(Publicado em 29/07/2014 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 15 de julho de 2014

A COPA E O VOO INTERNACIONAL

amaszonas.com

José Antonio Lemos dos Santos

     A Copa 2014 passou e já virou história. Deu Alemanha, merecidamente. Pena que a seleção brasileira tenha sido um fracasso. Ruim, não por ter perdido, mas por não ter merecido ganhar. O brasileiro não merecia que um de seus mais queridos patrimônios, sua seleção de futebol, fosse tão malpreparada como nesta Copa em seu próprio país. Era para redimir 50 e redimiu para pior! Mas a seleção reflete muito bem o nosso país, rico, cheio de potenciais, clima maravilhoso, sem terremotos ou vulcões, uma gente boa, ordeira e trabalhadora, mas com dirigentes que nunca estão à altura, em todos os poderes e instâncias. E não é de hoje. O sucesso que alcançamos em algumas áreas é fruto do trabalho, criatividade e persistência do povo. E assim nossas seleções com seus jogadores. Desta vez, porém, os dirigentes chegaram ao inimaginável expondo nossos craques e o povo torcedor a uma humilhação sem precedentes, em sua própria casa.
     Contudo, para Cuiabá a Copa foi um sucesso. Por formação profissional trabalho com o futuro e já devíamos estar pensando no Tricentenário. Mas como cuiabano gosto de parar um pouco para saborear o presente em algumas vitórias, em especial estas que vieram apesar de tantas oposições, previsões negativas, ciladas, etc. E os resultados positivos continuam aparecendo. Semana passada um importante instituto publicou o resultado de uma pesquisa feita em Cuiabá com moradores e turistas da Copa do Pantanal na qual 91,6% dos visitantes aprovaram a Copa em Cuiabá e recomendariam Mato Grosso como destino turístico. Para 86,3% dos moradores a Copa foi fundamental para as transformações na cidade e 73% avaliaram positivamente estas transformações. Ainda segundo a pesquisa, 72,5% dos cuiabanos acham que Cuiabá não passou vergonha, como temiam antes da realização dos jogos.
     Cuiabá também ganhou a simpática propaganda da Skol contrapondo os 40 graus acima e abaixo de zero da cidade e da Rússia, cuja seleção e seus torcedores vieram para uma das partidas da Copa do Pantanal. Lembra aquela música do Skank da década de 90 que falava em “como não sentir calor em Cuiabá”. Bem aproveitadas essas citações se transformam em emprego e renda. Junto a outros potenciais turísticos, o calor é um diferencial que Cuiabá e o estado podem oferecer aqueles bilhões de pessoas do planeta que vivem no frio extremo e têm vontade de conhecer as condições de clima opostas às suas. Assim como nós buscamos conhecer as belezas da neve e do frio intensos. 
     Na contramão, vem a má notícia da suspensão da linha Cuiabá - Santa Cruz de la Sierra, criada para a Copa, mas com planejamento de continuidade. A suspensão é atribuída à Receita Federal, porém prefiro apostar no desleixo e pouco caso de nossas autoridades, e isso vale para todos, desde os prefeitos e vereadores da Grande Cuiabá, governador, deputados estaduais e federais, senadores e todos os seus subalternos, todos muito bem remunerados para zelar pelas coisas do interesse de nossa gente. Não podiam deixar chegar a esse ponto. Por sua posição centro-continental, Cuiabá tem vocação para ser um dos principais hubs aeroviários da América do Sul, outro diferencial que pode significar empregos e renda. Esse voo internacional entrava como um dos principais legados da Copa do Pantanal e Mato Grosso não pode perdê-lo. Suspenso aqui, a linha iria para Porto Velho, assim como já perdemos a mesma linha para Campo Grande, na década de 90. Será que também querem desmoralizar esse grande potencial da cidade, como fizeram com o gás que chega a Cuiabá, mas poucos usam por falta de credibilidade? Assim como os dirigentes do nosso futebol conseguiram fazer com nossa seleção? Vamos perder de novo esse importante voo? 
(Publicado em 15/07/2014 pelo Diário de Cuiabá, ... )

Para quem ainda não viu a propaganda da Skol veja o link:

https://www.youtube.com/watch?v=z12SRlH-RPQ