"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

AVENIDA PARQUE DO BARBADO

Avenida Parque do Barbado (Foto:Secom/MT)
José Antonio Lemos dos Santos
     Como técnico e cuiabano emocionou-me a inauguração da Avenida Parque do Barbado não só pela obra, mas pelo governador Mauro Mendes ter destacado o conceito de “parque” para a obra inaugurada, por razões que depois explico, e determinado a continuidade de seu projeto. Importantíssima obra por todos os significados e funções que ela traz para Cuiabá e Região Metropolitana, e também em especial pelo governador estar concluindo obras antigas, como as da Copa, criminosamente paralisadas, quebrando um antigo e nada republicano costume do político tradicional de “não colocar azeitona na empadinha do outro”, isto é, não concluir obra dos antecessores.
     Na verdade, trata-se da inauguração do primeiro trecho dessa grande avenida que um dia ligará a Fernando Correa à Avenida Rubens de Mendonça tendo como eixo um parque linear urbano com cerca de 13 ha. Vai mais além compondo um complexo viário com as avenidas Tancredo Neves, Ponte Sérgio Mota (que preferia denominada Dante de Oliveira), Dr. Paraná, Dom Orlando Chaves e Miguel Sutil, formando uma grande espiral de avenidas integradora das malhas urbanas de Cuiabá e Várzea Grande. Muitos podem não acreditar, mas a ponte Sérgio Mota foi locada em função desse complexo viário metropolitano pensado lá na primeira metade da década de 90. No trecho cuiabano este projeto é contemplado na Lei Municipal 3.870/99, conhecida como Lei da Hierarquização Viária** de Cuiabá, como Via Estrutural Circular Norte (VECI-N).
     Voltando à Avenida Parque do Barbado, ela teve origem na primeira administração municipal Dante de Oliveira quando veio uma verba para canalização do córrego, técnica comum na época para tratamento dos córregos vítimas do lançamento de esgoto, mas já superada ao menos nas academias. Não eram mais aceitáveis as canalizações de córregos com o sacrifício de suas áreas verdes naturais de proteção, principalmente em Cuiabá, premiada com seu clima especial diferenciado pelas altas temperaturas. Seria “matar o cachorro para acabar com as pulgas”, como argumentávamos junto ao então prefeito em favor do novo conceito que viria a ser o “avenida-parque”*, aceito e logo desenvolvido em estudo preliminar pelo setor de Projetos Especiais da prefeitura então coordenado pelo arquiteto Ademar Poppi. Ademais, a impermeabilização e retificação dos leitos dos córregos aumentam o volume e velocidade das águas incrementando as inundações nos córregos canalizados. De lá para cá a avenida-parque viveu avanços e retrocessos, até que a Copa veio resgatá-la neste primeiro trecho inaugurado, esbarrando depois em problemas técnicos e sem conseguir conclui-la. 
     Outra fundamental justificativa para a preservação do córrego vinha do saudoso professor Domingos Iglésias Valério nos ensinando que os corpos hídricos “respiram”, assim como os orgânicos. Isto é, enchem e esvaziam alternadamente, por isso, ele tratava suas áreas de expansão como “o império das águas”, contra o qual era e é impossível lutar. Os córregos são especialmente perigosos pois suas águas sobem e descem rapidamente pegando geralmente a população de surpresa. Aliás, a sociedade brasileira tem pago muito caro pela ocupação hoje ilegal destas áreas classificadas como “áreas de risco” ou de “preservação ambiental”, com mortes e grandes prejuízos materiais todos os anos.
Protagonismo da vegetação (Foto: José Lemos) 
     E tudo ficou muito bonito urbanisticamente, ainda mais com o COT da UFMT lindeiro, também resgatado da Copa pelo governador Mauro Mendes, excelente projeto do arquiteto José Afonso Portocarrero. Porém, o mais impactante no conjunto é a presença exuberante, viçosa e bela da vegetação ciliar antes relegada como “mato”, e hoje protagonista na composição do novo cartão postal de Cuiabá. Viva!

*  enviado por equívoco à imprensa como "córrego-parque"
**enviado por equívoco à imprensa como "Lei da Hierarquização Urbana"


segunda-feira, 12 de março de 2018

CAMPEÃO DO MUNDO

BREEAM AWARDS2018
José Antonio Lemos dos Santos
     Até o ano passado enquanto fui professor da ativa sempre insisti com os alunos e colegas no entendimento de que no mundo da internet só é periferia quem quer. Não tem mais aquela velha desculpa de morar longe dos grandes centros culturais, industriais, distante das bibliotecas, das inovações tecnológicas, etc., que sem dúvida foi bastante válida durante muito tempo para muitos, mas que hoje com a internet não faz mais o menor sentido. Até a pouco tempo era compreensível a expressão “vou ao Rio ou a São Paulo tomar um banho de civilização”. Hoje a internet traz a civilização e o mundo para todo mundo e leva todo mundo para o mundo e a civilização, desde que cada um queira de fato. Mas mesmo sem a internet tinha gente que rompia a distância e o isolamento e ia ao encontro do mundo, alguns até para conquistá-lo, como Dutra ou Rondon que saíram de Cuiabá com todas as dificuldades para construir seus destinos, um chegou a presidente do Brasil e o outro é considerado em outros países, EUA por exemplo, como um dos maiores vultos da espécie humana.
     Baixando um pouco a bola, na semana passada, último dia 6 de março, em Londres aconteceu a premiação mundial de construções sustentáveis, BREEAM AWARDS 2018, destacando o Centro Sebrae de Sustentabilidade, em Cuiabá, e seu criador o arquiteto conterrâneo José Afonso Botura Portocarrero. Foram premiados como Melhor Edificação Sustentável em Uso nas Américas, por juri técnico e Melhor Prédio Sustentável da Premiação, em júri popular mundial por meio de votos digitais, tendo concorrido com edifícios das três Américas, Ásia e Europa. O BREEAM criado em 1992 na Inglaterra foi o primeiro método para avaliação de sustentabilidade em edifícios e hoje é uma das certificações de maior prestígio no mundo.
     Uma premiação deste porte traz por si só um impacto arejador no ambiente cultural do estado mas impacta também ao premiar um projeto que traz a interação daquilo que é mais contemporâneo em termos de tecnologia com lições fundamentais de sabedoria da arquitetura indígena coletadas pelo arquiteto Portocarrero e reunidas no seu livro “Tecnologia Indígena em Mato Grosso”, também premiado em outra ocasião. A interação de conceitos globais e locais, moderno e milenar é a proposta contundente e sedutora do edifício premiado.
     O Centro Sebrae de Sustentabilidade promove também o verdadeiro conceito de Arquitetura, mostrando superar os limites físicos da simples construção ao transformar os espaços em abrigos de qualidade com segurança, funcionalidade e com a magia capaz de transformar um edifício em um ícone.  O Centro Sebrae de Sustentabilidade consolidou-se de fato como um ícone da sustentabilidade na arquitetura, centro difusor de conhecimentos e promotor de discussões sobre as melhores formas do homem se relacionar com seu ambiente. E o edifício em si é a sua principal mensagem, o edifício é a primeira lição.
     É preciso saudar uma instituição como o SEBRAE-MT por buscar na arquitetura de qualidade um bom começo para o desenvolvimento de seu centro de sustentabilidade. Ninguém mais adequado que o arquiteto e urbanista José Afonso Portocarrero, professor, mestre e doutor, um dos idealizadores da Secretaria do Meio Ambiente de Cuiabá e seu primeiro secretário, estudioso do edifício, da cidade e do ambiente e que foi buscar com os índios, com olhos e mentes de aprender, as lições de convivência ambiental para sua arquitetura mais recente. Só podia dar certo. Além do sucesso, reconhecimento nacional e internacional para o Centro Sebrae de Sustentabilidade e seu arquiteto.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

REVITALIZANDO O CENTRO

Estrela Guia News

José Antonio Lemos dos Santos
     O artigo da semana passada sobre a possibilidade da UFMT ocupar a antiga sede da Delegacia da Receita Federal (DRF) na avenida Getúlio Vargas, despertou bastante interesse dos leitores, alguns entusiasmados com a proposta do professor José Afonso Portocarrero. Relembrando, a ideia é a instalação de uma faculdade, em princípio a de Arquitetura e Urbanismo, trazendo toda a cadeia de atividades a ela relacionada, tais como livrarias, lanchonetes, copiadoras, repúblicas, sorveterias, restaurantes e outras, resgatando o movimento de pessoas e da economia característicos dessa região em décadas passadas.
     A revitalização do centro histórico de Cuiabá tombado pelo Património Histórico Nacional e suas cercanias é antigo desejo da cuiabania, uma necessidade urbanística e uma imposição da história não só local, mas de Mato Grosso e do Brasil. Alguns menos ligados à história do Brasil e mesmo do continente sul-americano podem desconhecer que este lado do oeste brasileiro pertencia à coroa espanhola e Cuiabá foi o primeiro polo fixo da ocupação portuguesa por estas bandas. Primeiro e único durante muito tempo. Daí Cuiabá ser considerada a célula “mater” deste “ocidente do imenso Brasil” na letra do hino de Dom Aquino, mãe remota de todas suas cidades e estados.  O cuiabano comeu o pão que o diabo amassou para assegurar como brasileira esta rica parte do Brasil. Por isso a importância do Centro Histórico de Cuiabá ultrapassa os limites da própria cidade e deve ser cuidado com o carinho de uma relíquia urbanística não só pela cuiabania e governo municipal, mas também pelo estado e federação.
     A ideia soma-se à uma anterior determinação do prefeito Emanuel Pinheiro no mesmo sentido propondo incentivos fiscais para faculdades e escolas instalarem na região. Não sou da prefeitura, já questionei alguns projetos do prefeito e sou contra algumas atitudes suas até que explicadas convincentemente, mas ele está sendo brilhante com esta proposta concreta, em especial pela proximidade do Tricentenário da cidade. E ele sabe que só isto não basta. Mas é um passo importante.
     Como disse, o projeto de revitalização do centro histórico é sonho antigo da gente cuiabana e da própria prefeitura e que vem sendo atrapalhado pela mesquinharia política de alguns governantes que ainda creem na bobagem de que ajudar um projeto de outro seria como colocar azeitona na empadinha daquele que um dia poderá ser seu adversário. Até outro dia quando a prefeitura tomava a iniciativa o estado puxava o tapete, e quando o estado queria, a prefeitura atrapalhava. Presenciei algumas vezes. Tal desunião torna-se grave neste projeto porque seu grande gargalo é o rebaixamento da fiação, projeto muito caro, que não se viabiliza sem o apoio federal. E se não houver união não haverá força suficiente para sensibilizar o governo federal diante da grande demanda de projetos semelhantes que pressiona Brasília.
     Nada menos histórico do que um poste desproporcional, com um transformador gigante e um monte de fios pendurados, agredindo uma fachada restaurada a muito custo. Com a fibra ótica muitos desses fios foram inutilizados e hoje são lixos aéreos que, segundo soube, não são retirados pelo custo de sua remoção. Fala sério! Como podem empresas imensas, algumas multinacionais, concessionárias públicas, deixar seu lixo pendurado pelas ruas enfeando a já combalida paisagem urbana e pondo em risco o cidadão? Senhor prefeito, a retirada urgente desse lixo aéreo seria outro passo de sua administração em sinal de respeito ao centro histórico no rumo da revitalização. Isto, sem prejuízo da busca de recursos para o rebaixamento da fiação junto com o estado, unidos finalmente. O Tricentenário é a chance.
(Publicado em 26/09/17 pelo Diário de Cuiabá, FolhaMax, MidiaNews, ...)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

UMA FACULDADE NO CENTRO HISTÓRICO

                                                                       Foto José Lemos
José Antonio Lemos dos Santos
     Recordo o ex-prefeito de Cuiabá, o saudoso coronel José Meirelles, militar por formação, seguidor de Pietro Ubaldi e kardecista convicto. Nada tinha a ver com o atual estilo de política que já se manifestava àquela época, e por isso nela não deixou herança. Quando prefeito tive o privilégio de ser seu assessor direto como secretário. Com ele aprendi muitas coisas, dentre estas, que os edifícios e as cidades precisam ter alma capaz de lhes assegurar vida contínua e bom funcionamento em comunhão com seus usuários, lição fundamental que me faltou dos bancos de graduação profissional. A vida de um espaço manifesta-se pelo interesse de seus usuários por ele.
     Semana passada comentei sobre a possibilidade do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso (CAU-MT) ocupar a atual sede do Tribunal de Contas da União (TCU) em Cuiabá, edifício icônico para os arquitetos brasileiros por se tratar de um projeto de João da Gama Filgueiras de Lima, o Lelé, um dos formadores do trio de implantadores do modernismo na arquitetura brasileira, ao lado de Niemeyer e Lúcio Costa. Este edifício mantem-se íntegro e em boas condições de uso graças a compreensão do TCU de que eles usavam uma obra de arte e não uma simples edificação, assim preferiram trocá-lo por um outro espaço mais adequado ao invés de mutilá-lo ou conspurcá-lo com aqueles “puxadinhos” tão comuns em nossa terra. O TCU assegurou-lhe a vida até hoje, e será preservada pelo interesse uníssono dos arquitetos e urbanistas de Mato Grosso.
     Ao mesmo tempo em que o professor doutor José Afonso Portocarrero soube da disponibilidade do edifício do Lelé, soube também da disponibilidade da antiga sede da Delegacia da Receita Federal (DRF) na Getúlio Vargas, edifício que já foi sede da Câmara Municipal de Cuiabá e esteve disponibilizado a um órgão federal que não teve recursos para fazer as adaptações necessárias e o devolveu à Superintendência do Patrimônio da União (SPU). De imediato contatou a Reitoria da UFMT sugerindo o requerimento do prédio à SPU para uso da Universidade em princípio como sede da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, proposta autorizada e providenciada.
     E o que tem de importante este edifício para Cuiabá e para a arquitetura? Trata-se de um puro exemplar do “neoclássico estadonovista” construído na década de 40 compondo o belo conjunto arquitetônico de edifícios públicos com a antiga sede do Tribunal de Justiça do Estado, da antiga Secretaria Geral do Estado e a antiga sede do INSS, coroando nos altos da Batista das Neves, a Avenida Getúlio Vargas também construída àquela época. O edifício da antiga DRF tem como irmão em estilo a antiga sede do Banco do Brasil, também na Getúlio Vargas, próximo ao Jardim Alencastro. Tal qual o edifício do Lelé no CPA, a antiga sede da DRF também precisa ser preservada como um patrimônio arquitetônico de Mato Grosso, mas preservado com vida útil e o interesse da UFMT aponta para sua revitalização.
     Mais importante, a revitalização desse edifício marcando a presença da UFMT no centro da cidade, será importante ferramenta para revitalização do próprio centro de Cuiabá, objetivo que vem preocupando a muito tempo a cidadania cuiabana. A presença da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFMT com seus estudantes e sua cadeia de atividades correlatas que será atraída para seu entorno, reanimará essa parte tão importante da cidade que começa a ser marginalizada. Nada mais apropriado para a comemoração dos trezentos anos de Cuiabá do que a reanimação de seu centro, o coração da cidade.
(Publicado em 18/09/17 pela FolhaMax, em 19/09/17 pelo Diário de Cuiabá, MidiaNews, Página do Enock, ...)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

PRESERVAÇÃO DE UM MONUMENTO

Vitruvius

José Antonio Lemos dos Santos
     Há alguns dias quando em visita técnica com seus alunos da UFMT ao edifício sede do Tribunal de Contas da União (TCU-MT) em Cuiabá o professor doutor José Afonso Portocarrero tomou conhecimento de que o TCU está deixando aquele local em busca de mais espaço. Soube, inclusive, que haveria risco de demolição dependendo do órgão que viesse ocupar o edifício. Espantado ligou de imediato ao presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso (CAU-MT), Wilson Andrade, informando a perspectiva absurda, sendo logo agendada uma audiência com a superintendente do Serviço do Patrimônio da União em Mato Grosso (SPU-MT), senhora Lucimara Tavares, onde foi confirmada a desocupação do prédio pelo TCU.
     Na mesma audiência a superintendente informou que, tratando-se de um patrimônio público da União, uma vez desocupado e para não se transformar em um patrimônio ocioso, fica à disposição de outros órgãos públicos que manifestarem interesse junto à SPU-MT, sendo tais pleitos encaminhados após as devidas análises ao Ministério do Planejamento em Brasília para decisão sobre cada requerimento. Informou ainda já existirem no sistema do SPU 3 ou 4, não me lembro, solicitações para uso do prédio do TCU, sendo uma instituição federal.
     O CAU é instituição federal jovem, às vésperas de completar o sétimo ano de existência, definido em sua lei de criação como uma autarquia federal que tem por função “orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de arquitetura e urbanismo, zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe em todo o território nacional, bem como pugnar pelo aperfeiçoamento do exercício da arquitetura e urbanismo”. E o zelo pelo patrimônio arquitetônico e urbanístico do país faz parte de sua nobre missão.
     E o que tem o edifício do TCU-MT de tão especial para os arquitetos? Além de ser um edifício que surpreende por suas formas e encanta usuários e transeuntes por sua beleza sinuosa e colorida, o edifício do TCU-MT é um dos mais perfeitos exemplares do tardomodernismo high-tech em sua vertente cuja composição estética não se encontra apenas na expressão de sua alta tecnologia, mas na busca também da beleza através dela. Trata-se de uma obra do genial João da Gama Filgueiras de Lima, o arquiteto carinhosamente conhecido dentro e fora do país como Lelé, falecido em 2014, considerado ao lado de Niemeyer e Lúcio Costa um dos componentes da tríade que trouxe o modernismo para o Brasil. Só isso. Deixando a dimensão apenas edilícia, o edifício transforma-se hoje em um monumento da arquitetura brasileira implantado em Mato Grosso encontrando-se basicamente bem conservado em sua estrutura estética e física. O grande risco não é só uma eventual demolição, mas seu desrespeito enquanto obra de arte com os célebres “puxadinhos” e outras mutilações a um projeto tão bem concebido e importante, heresias estas tão comuns em nossa terra.
     Ainda em fase de instalação e consolidação, mas em funcionamento pleno, o CAU-MT tem entre suas prioridades o estabelecimento em uma sede própria, compatível com sua funcionalidade e orçamento, mas à altura do simbolismo de sua nobre função. Não pode ser apenas um espaço físico, qualquer edificação, tem que expressar bem a arquitetura e o urbanismo em Mato Grosso. E o edifício do TCU vem ao encontro dessas preocupações, em benefício da preservação do monumento arquitetônico nacional e na solução do espaço digno de sediar a entidade cuja função é “pugnar”, lutar pela arquitetura e urbanismo em Mato Grosso. Mais que um espaço, uma relíquia arquitetônica!
Publicado em 12/09/17 pelo Diário de Cuiabá, Folhamax, NaMarra, Midianews, 14/09/17 pelo OIndependente, RepórterMT, ...)
Comentários no e-mail:
12/09/17 Cléber Lemes:
Parabéns Dr. José Antonio, faço coro em prol de destinar o edificio sede do TCU ao CAU , pois esse edificio é ao cartão postal da  arquitetura. Um abraço 
​Cleber

sábado, 22 de setembro de 2012

COT UFMT

 
21.09.2012 | 15h56 - Atualizado em 21.09.2012 | Midianews
 
COT da UFMT passa por avaliação do Crea;
licitação será em outubro

Projeto foi elogiado como o melhor já visto até o momento

 
 

 
LISLAINE DOS ANJOS-DA REDAÇÃO Midianews
Previsto para ser licitado até o final do mês de outubro, o COT (Centro Oficial de Treinamento) da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) teve seu projeto de implantação analisado, nessa semana, por membros do Crea-MT (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso).

O projeto foi apresentado pelo arquiteto e professor da UFMT, José Afonso Portocarrero, que esclareceu detalhes do projeto e recebeu contribuições sobre acessibilidade às pessoas com deficiência.
 
 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

LIVRO SOBRE TECNOLOGIA INDÍGENA GANHA PRÊMIO NACIONAL

25º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira

     Ganhar um prêmio é sempre bom, mas tem um gosto especial quando a distinção acontece além das divisas do Estado onde o trabalho foi produzido. Foi o que aconteceu com o livro “Tecnologia indígena em Mato Grosso: habitação”, do arquiteto José Afonso Botura Portocarrero. Lançado há um ano pela Entrelinhas Editora, com apoio do Sebrae-MT, a obra foi contemplada com o 25º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, considerado o mais importante do setor. A cerimônia de premiação, realizada em São Paulo, na noite de terça-feira (22), foi presidida pela diretora geral do MCB, Mirian Lerner, pelo secretário de Estado de Cultura de São Paulo, Andrea Matarazzo, e pelo diretor da agência DPZ, publicitário Roberto Duailibi, que foi o criador do Prêmio Design há 25 anos, quando era o diretor geral do museu.
     “Estou muito contente com essa premiação, reconhecida como a mais séria e respeitada da arquitetura no Brasil. É especialmente significativo ganhar esse prêmio do Museu da Casa Brasileira pelo fato de estarmos fora do circuito Rio-São Paulo”, comentou o autor, chefe do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Tecnologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que viajou à capital paulista para participar da cerimônia de premiação. O autor e a Entrelinhas Editora foram premiados com o segundo lugar na categoria “trabalhos escritos publicados”. Segundo a comissão julgadora, o “livro apresenta ampla e excelente análise de objeto pouco estudado, desenvolvendo reflexões comparativas sobre as estruturas das habitações indígenas da região de Mato Grosso. Sua contribuição é fundamental para o conhecimento e principalmente para possíveis reflexões e direcionamentos em pesquisas futuras”.
     Apaixonado pelo estudo das tecnologias indígenas, Portocarrero vem se dedicando ao tema como pesquisador desde o mestrado e estendeu suas pesquisas a 10 povos de Mato Grosso no doutorado, realizado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Ele acredita que o prêmio contribui para divulgar a importância de se pesquisar a contribuição dos indígenas para a arquitetura, a valorizá-la e preservar essa memória. “Essas tecnologias estão longe de estarem ultrapassadas e o prêmio vai fazer com que mais estudantes de arquitetura se interessem pelo assunto”, comenta o escritor, que espera que sua obra seja adotada em outros cursos de Arquitetura e Urbanismo do país.
     A partir das referências do desenho cultural das casas indígenas, o arquiteto desenvolveu alguns projetos na perspectiva da etnoarquitetura, entre eles, o Espaço do Conhecimento do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Mato Grosso (Sebrae-MT), em Cuiabá. Para o superintendente do Sebrae-MT, José Guilherme Barbosa Ribeiro, é “uma honra” trabalhar com Portocarrero, “uma pessoa que sabe transformar a teoria na prática”. Ele também ficou muito feliz com o Prêmio do MCB que, na sua opinião, veio naturalmente como consequência de “uma configuração de esforços e competências”. “Quando instituições, empresas e pessoas trabalhem em conjunto em prol do bem, o reconhecimento acaba acontecendo”, comenta. Na opinião da editora Maria Teresa Carrión Carracedo, o prêmio é “um reconhecimento de que a sociedade brasileira tem muito o que aprender sobre design e sustentabilidade, além de outras áreas de conhecimento, com os povos que há milênios vivem neste território.”
“As pesquisas de Portocarrero e da Tecnoíndia trazem esta importante contribuição à cultura nacional. Estamos felizes por termos divulgado este trabalho em parceria com o Sebrae-MT”, acrescenta. A propósito, a premiação de “Tecnologia indígena em Mato Grosso: habitação” coincide com a realização da segunda Feira do Livro Indígena (Flimt), no Pavilhão das Artes, e, no final da tarde desta quinta-feira (24), o autor estará presente ao evento, juntamente com a antropóloga Maria Fátima Roberto Machado. Durante a feira estarão expostas maquetes de habitações indígenas feitas por Portocarrero.
     Sobre a obra – “Tecnologia indígena em Mato Grosso: habitação” trata do desenho das habitações tradicionais de 10 povos e seus aspectos construtivos. Fartamente ilustrada com fotos e desenhos, a obra, na avaliação do arquiteto Carlos Zibel Costa (FAU-USP), orientador de José Afonso Botura Portocarrero, “nos abre em toda sua originalidade e dignidade, mas também em toda sua restrição e especificidade tecnológica e socioeconômica a Arquitetura Indígena Brasileira de cada etnia estudada”.

“Ora, é justamente esse processo que a retira do limbo empoeirado das citações históricas e dos preconceitos, convidando-as a adentrar o universo das culturas locais e das civilizações dominantes no mundo globalizado e vivo da época presente”, afirma o orientador no prefácio do livro.

     No texto da apresentação, a professora doutora Maria Fátima Roberto Machado, do Departamento de Antropologia/Museu Rondon – UFMT e coordenadora do Núcleo Tecnoíndia, elogia a postura etnográfica de Portocarrero no levantamento dos desenhos das casas indígenas e o valor do material levantado por seu ineditismo.

“(...) Talvez uma das mais importantes contribuições de um intelectual comprometido com o mundo em que vive seja colocar a sua energia criadora à disposição do entendimento entre as pessoas, considerando as mais diferentes culturas e as mais diferentes condições materiais de existência”, diz Maria Fátima, numa referência ao desafio enfrentado pelo autor em suas pesquisas.

Portocarrero acredita que a premiação vai ajudar divulgar o blog do Núcleo de Estudos e Pesquisas Tecnologias Indígenas (www.nucleotecnoindia.com), do qual é um criadores.
     Sobre o autor – José Afonso Botura Portocarrero nasceu em Bela Vista (hoje Mato Grosso do Sul), na fronteira com o Paraguai, e se formou como arquiteto pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos (SP). Iniciou a carreira docente no Departamento de Engenharia Civil da UFMT e participou da criação do Departamento de Arquitetura e Urbanismo dessa universidade. Em 2001, apresentou dissertação sobre a casa Bororo no mestrado em História da UFMT e, cinco anos depois, teve sua tese de doutorado aprovada na FAU-USP, tendo como orientador o arquiteto Prof. Dr. Carlos Roberto Zibel Costa.
     Como arquiteto, Portocarrero projetou a sede da Associação dos Docentes da UFMT (Adufmat), conhecida como a “oca”, e também elaborou o projeto do Memorial Rondon (em parceria com o arquiteto Paulo César Molina Monteiro), que começou a ser construído na borda do Pantanal, em Mimoso, distrito de Santo Antônio de Leverger, durante o segundo governo Dante de Oliveira.
     Sobre o prêmio – O Prêmio Design MCB foi criado em 1986, pelo publicitário Roberto Duailibi, então à frente do Museu da Casa Brasileira, para incentivar o design em nosso país, numa época em pouca gente sabia o que era isso ou dava importância a esta atividade. Ao longo dos últimos 25 anos, o prêmio cresceu em credibilidade graças a seu caráter cultural, sem interesses comerciais, garantido pela característica da instituição que o promove – um museu dedicado ao design e à arquitetura, vinculado à Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo.
     Em 2011, houve recorde de inscrições: 810 em produtos e trabalhos teóricos, nas seguintes categorias: Equipamentos de construção, de transporte, e eletroeletrônicos, Iluminação, Mobiliário, Têxteis, Utensílios, Trabalhos escritos publicados e não publicados. Ao todo, foram premiados 33 trabalhos e os vencedores foram contemplados com inscrição gratuita no iF Product Design Award 2013, ação realizada em parceria com o Centro Design Paraná. Para celebrar os 25 anos do Prêmio Design foram lançados durante a cerimônia de premiação um site especial e o livro “21-25º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira”, que reúne os projetos finalistas e premiados nessas cinco edições. Também foi inaugurada uma instalação interativa que disponibiliza ao público grande parte da memória do Prêmio, cuja história se mistura à do próprio design brasileiro. Os trabalhos finalistas e premiados ficarão expostos no MCB até o dia 15 de janeiro. (Entrelinhas Editora)
(Extraído do site da UFMT em 24/11/2011)

terça-feira, 25 de maio de 2010

RONDON, DUTRA E O TOCO

José Antonio Lemos dos Santos


     Tirando as últimas operações da Polícia Federal e o golpe “gramatical” no projeto de lei da ficha limpa, a semana que passou foi de ótimas notícias. A primeira ouvi no rádio e dizia que o governador Silval Barbosa acatou proposta da Agecopa, levada pelo seu diretor Carlos Brito, de incluir o Memorial Rondon em Mimoso no programa de obras da Copa do Pantanal 2014. Nada mais acertado. Rondon merece a homenagem e o projeto do arquiteto José Afonso Portocarrero – um apaixonado pela cultura indígena e por Rondon – está arquitetonicamente à altura do homenageado. Contemporâneo em sua pós-modernidade regionalista, instigante em sua utilização de elementos da linguagem indígena e em sua solução de composição ambiental, o edifício proposto é capaz de por si só ser um elemento de atração turística, não bastassem a beleza natural em que está inserido e a obra do nosso Marechal da Paz, cuja memória abrigará.
     A outra boa notícia foi a leitura no Plenário da Assembléia Legislativa do artigo da semana passada intitulado “O presidente esquecido”, minha homenagem ao presidente Dutra no dia em que deveríamos comemorar seu aniversário. O deputado João Malheiros fez a leitura, solicitou sua inclusão nos Anais da Casa e ainda apresentou Indicação ao executivo pedindo a construção de um memorial ao ex-presidente na praça do novo Verdão. Seria não só uma homenagem local ao ex-presidente nascido em Cuiabá, mas também a aquele que trouxe para o Brasil a primeira Copa do Mundo, a de 1950. O local favorece ao turista o conhecimento de uma passagem da história do futebol brasileiro, bem como permite a Cuiabá e Mato Grosso mostrarem ao mundo a importância de um de seus mais ilustres filhos.
     Por última lembro a obra de pavimentação do local onde foi retirado o toco de arueira que por quase duas décadas desafiava a civilidade cuiabana e a governabilidade municipal, passando por vários prefeitos. Tratei dele em alguns artigos e ficava ali na curva que faz a conexão entre a Travessa Tuffik Affi e a Avenida Tenente Coronel Duarte, no coração metropolitano, principal entrada de Cuiabá. Apesar de aparentemente simples, esta retirada tornou-se de uma complexidade inimaginável, envolta nos meandros do barroquismo jurídico-administrativo tupiniquim, a ponto de tê-la saudado em artigo como o principal presente para Cuiabá em seu último aniversário. O mourão de arueira era a ponta de um problema que envolvia também algumas edificações precaríssimas no local. A retirada e a pavimentação realizadas pela Prefeitura concluem um projeto de 1996 do IPDU. Viva! Mesmo que muito possivelmente desatualizado em seu dimensionamento e geometria, já permitiu de imediato uma melhor fluidez no local. Por outro lado, a desocupação da área melhorou significativamente a qualidade daquele espaço urbano, ainda que sem nenhuma espécie de tratamento urbanístico. Pena que a área tenha sido vendida.
     Uma cidade que precisa se preparar para a festa de seus 300 anos, e que no meio do caminho tem a responsabilidade de representar bem o Brasil como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, não pode mais conviver com situações como esta. Cuiabá é o centro de uma das regiões mais dinâmicas do planeta, reflete e impulsiona esse dinamismo, transformando-se com muita rapidez. Não pode mais depender de soluções tão demoradas. Ao menos desde a Roma dos Papas no Renascimento, o mundo firmou o conceito da desapropriação pública, sacramentando o princípio de que os assuntos de interesse da cidade são privilegiados e devem ser exercidos por suas autoridades em favor bem comum.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 25/05/2010)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

AVENIDA DO BARBADO

José Antonio Lemos dos Santos


     A projetada avenida do Barbado destaca-se entre as obras de maior importância para Cuiabá. De acordo com a Lei 3870/99 - aparentemente desconhecida pelas autoridades, mas que há 10 anos define legalmente o sistema viário de Cuiabá - a avenida do Barbado integra a Via Estrutural Circular Norte (Veci-N), projetada para ligar a Avenida Helder Cândia (MT-010) à Ponte Sérgio Mota, atravessando a Avenida Rubens de Mendonça, seguindo pelo córrego do Barbado e pelas avenidas Brasília e Tancredo Neves, atravessando também a Fernando Correia. Após a Ponte Sérgio Mota, segue em Várzea-Grande pela Avenida Dom Orlando Chaves até a Ponte Nova, atravessando ortogonalmente a Avenida da FEB, chegando a Avenida Miguel Sutil de novo em Cuiabá, formando uma grande voluta viária integradora de toda a conurbação. As travessias citadas hoje já exigem viadutos ou trincheiras como alternativa ao iminente colapso viário e a avenida e suas interseções independem da Copa, mas tornam-se muito mais necessárias com ela. A Copa é a chance de tornar realidade essa grande via estrutural, se não totalmente, ao menos no trecho que acompanha o córrego – que chamamos de avenida do Barbado - e que será um poderoso auxílio à Miguel Sutil, em estado crítico de circulação, e linha de chegada da Avenida das Torres, hoje em construção e também projetada na Lei 3870/99.
     No segundo governo municipal de Dante de Oliveira, em 92, havia um projeto de canalização do córrego do Barbado no estilo então tradicional, isto é, com retificações e concretagem do canal, e adição de pistas laterais coladas, tal como na atual Avenida 8 de Abril, que no passado já foi um córrego chamado Mané Pinto. Eu estava na superintendência do IPDU e com o então secretário da recém criada SMADES, arquiteto José Afonso Portocarrero e o diretor de Projetos Especiais, arquiteto Ademar Poppi, ponderamos ao prefeito sobre o uso de uma metodologia mais atualizada para a urbanização daquele importante córrego, levando o conceito da “avenida-parque” que começava a ser discutido na literatura especializada e em alguns poucos projetos pioneiros no Brasil. O prefeito se entusiasmou.
     O cerne da questão era preservar ao máximo o córrego em seu leito natural, mantendo seus padrões de velocidade das águas e permeabilidade do solo ainda que abaixo da Fernando Correia ele já fosse todo canalizado, e manter também ao máximo sua vegetação ciliar, ainda que em muitos pontos tivesse que ser recomposta. Respeitando suas faixas de preservação permanente, foram colocadas duas pistas laterais com duas faixas de rolamento e uma de estacionamento de cada lado, com iluminação e calçada. Com a mesma verba do projeto original seriam feitas ainda mini-estações de esgoto segundo as micro-bacias, e implantados play-grounds, pista de caminhada e equipamentos esportivos em áreas mais degradadas. Resultaria uma avenida com cerca de 5,6 Km de extensão e, de lambuja, um parque linear urbano com cerca de 34 ha: a “córgo-way” cuiabana, simpático apelido então dado pelos técnicos.
     Dante chegou a iniciá-la entre a Archimedes Lima e a Avenida dos Trabalhadores, que hoje tem o seu nome. Mas a obra parou e nada mais foi feito até hoje, mesmo que tenha entrado no discurso da campanha do primeiro mandato do atual prefeito e seja cada vez mais importante para a cidade. Ainda dá para ser feita, bastando olhar nas imagens aéreas para ver que a própria natureza parece pedir pela realização da obra. Por estranho que pareça, ouvi dizer que Wilson Santos teria enfrentado restrições de ordem ambiental para a implantação dessa que poderia ter sido uma das primeiras avenidas-parque no Brasil.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 29/09/09)