"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

A CONCLUSÃO DE MANSO

 José Antonio Lemos dos Santos

    Houve um tempo em que os políticos não gostavam de concluir obras iniciadas por seus antecessores alegando que não colocariam “azeitona na empadinha de ninguém”. Hoje parece um comportamento em extinção, vide os casos dos hospitais Central e Universitário, por exemplos, obras paradas há décadas e agora prestes a serem inauguradas, moderníssimos.

     A Barragem de Manso vem da grande cheia de 1974 na qual Cuiabá e Várzea Grande tiveram inundada grande parte de suas áreas urbanas, com imensas perdas para suas populações. Em função disso o governo federal mandou realizar estudos para evitar que aquele drama se repetisse, saindo então a proposta de uma barragem rio acima, um “açudão”, de proteção urbana contra futuras cheias. Manso já teria evitado algumas vezes que volumes de água maiores que os de 74 passassem por Cuiabá.

     Mas, além do drama das inundações, Mato Grosso enfrentava um outro problema fundamental para seu desenvolvimento: a carência energética. Mato Grosso era suprido precariamente por duas linhas de transmissão vindas de Cachoeira Dourada a 700 km - e a terceira já estava a caminho. As tais linhas por serem longas não ofereciam segurança – “ventava em Jataí, apagava a luz aqui” diziam. Na época uma nova administração federal assumia e não se dispunha a bancar uma hidroelétrica para Mato Grosso. Sem verba, a Comissão Especial Divisão de Mato Grosso, da qual fiz parte, teve que buscar alternativas, vindo então a ideia de energizar a barragem de Manso cujas obras estavam prestes a iniciar, otimizando, assim, os investimentos no “açudão”.

     Consultados os órgãos técnicos especializados no assunto, o “açudão” foi transformado na “APM” de Manso, isto é, numa barragem de aproveitamento múltiplo. Além de ser a barragem de proteção urbana inicial, Manso passou também a ter por objetivos regular a vazão do rio, gerar energia, possibilitar o desenvolvimento da psicultura e do turismo, bem como, o abastecimento de água e a irrigação de 40,0 mil hectares nos municípios da Baixada Cuiabana. Com novas funções, Manso teve que ser toda redimensionada, em especial o lago, e uma vez construída vem gerando energia, atendendo também os propósitos de regulação de vazão do rio e a proteção urbana, esta sua principal função.

  Quanto aos demais objetivos, só tenho acompanhado pelo noticiário, pois, apesar de sua importância Manso não tem despertado tantas matérias jornalísticas, teses e outros tipos de discussões públicas, a não ser em termos de suas interferências no Pantanal. Assim, a meu ver, cabe destacar positivamente o aproveitamento turístico com grandes empreendimentos instalados e em instalação, gerando empregos e renda com a qualidade que o setor oferece.

     Mas, o que salta aos olhos negativamente é a ausência de iniciativas públicas no sentido de ao menos avaliar tecnicamente as possibilidades do abastecimento de água e da irrigação por gravidade que Manso oportuniza e que podem ser uma solução duradoura para suprir a população da Baixada com água em abundância e qualidade, bem como o desenvolvimento de programas de irrigação nas áreas rurais, alavancando o desenvolvimento de suas potencialidades econômicas, como aconteceu no Nordeste brasileiro. Aos céticos, vide o exemplo da barragem da Pedra do Cavalo na Bahia, semelhante a Manso e que entre outros benefícios abastece 60% da população da Região Metropolitana de Salvador. 

     O ano de 2026 será de eleições gerais no Brasil, ocasião em que devem ser levantados e discutidos os problemas e soluções para um país com alto índice de urbanização, uma oportunidade ímpar para enfim se abordar a conclusão da APM de Manso em todas as suas funções, com todos os benefícios que seu projeto de Aproveitamento Múltiplo foi concebido.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

MANSO


Foto Diário de Cuiabá

José Antonio Lemos dos Santos

     Prosseguindo na trilha dos fatores positivos disponíveis para o desenvolvimento da Baixada Cuiabana, neste momento de eleições e de elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado do Vale do Rio Cuiabá (PDDI), destaco a “Barragem de Manso” que é como se conhece a “APM de Manso”, nome reduzido para “Aproveitamento Múltiplo de Manso”, barragem localizada no rio de mesmo nome, afluente do rio Cuiabá. Este artigo baseia-se em lembranças pessoais, contando com a ajuda do engenheiro elétrico Roberto Loureiro que também viveu os fatos, visando ser apenas indicativo para futuras prospecções técnicas pelos órgãos afins, caso desperte algum interesse.
      A “APM de Manso” surgiu de dois problemas que convergiram para uma mesma solução, agregando em seguida a solução de outros problemas.   Vivenciei o início desse processo na calamitosa cheia de 1974 em Cuiabá como recém-formado voluntário, quando o então ministro do Interior determinou a realização de estudos para que Cuiabá não sofresse mais tragédias como aquela. Daí surgiu Manso. Depois em 1978 como membro da Comissão Especial da Divisão do Estado em Brasília, quando em conjunto com o governo do estado, decidiu-se pela energização de Manso, pois o novo governo federal não assumiu o projeto da Usina do Funil, à época a principal aspiração dos mato-grossenses. A alteração de projeto, levou a outras perspectivas de otimização do empreendimento, transformando-a no primeiro projeto de aproveitamento múltiplo em barragens no Brasil, o “Programa de Aproveitamento Integrado das Águas do Cuiabá e seus Afluentes”. E seria a primeira a ser construída, não fosse o espírito crítico de nós cuiabanos sobre nossas coisas e projetos que nos dizem respeito.
     A função que deu origem a Manso foi reduzir as cotas máximas das cheias do rio Cuiabá, evitando as inundações urbanas, função depois ampliada para garantir também uma cota de água mínima de 1 metro, evitando o risco que se anunciava do rio “cortar”. Sucesso total pois já em 2002, seu primeiro ano, Manso impediu uma vazão superior à de 1974, e impediu outras depois. Quanto à cota mínima, meu fornecedor no mercado diz que o rio ficou melhor para peixe. Um desafio para os futuros vereadores e prefeitos da Baixada, bem como para o PDDI é determinar, a partir de bases técnicas, se a cota de inundação, hoje 150m, deva ser ou não reduzida para efeito de ocupação urbana.
     Não houvesse Manso Mato Grosso teria entrado em crise energética alguns anos atrás, apesar de sua relativa baixa potência. Mais ainda, Manso previa à jusante de seu reservatório 3 outras usinas a fio d’água, Rosário, Jangada e Funil, para gerar cerca de 400 MW sem a construção de outra barragem de grande porte. Entre seus múltiplos aproveitamentos está também o abastecimento de água para as cidades do rio Cuiabá abaixo através de aqueduto trazendo por gravidade água já decantada da barragem. Manso é uma caixa d’água pronta a 100 metros acima de nossas cidades. Mereceria ao menos um estudo de viabilidade?
rdmonline.com.br

     E tem mais. O programa de aproveitamento integrado das águas do Cuiabá e seus afluentes previa ainda a irrigação de 50 mil ha na Baixada Cuiabana, gerando empregos, renda e qualidade alimentar. Em julho de 2013 houve até um fórum sobre o assunto no Palácio Paiaguás. Previa ainda projetos de piscicultura, e ainda em 2013 o então Ministério da Pesca realizou uma solenidade distribuindo certificados de concessão na “Área Agrícola da Usina de Manso” para os primeiros projetos. E nunca mais ouvi falar disso. Previa ainda projetos na área do turismo que vem se materializando em condomínios, restaurantes, marinas e agora inaugurando um resort de sofisticação internacional.
Publicado em 19/08/16 pelo site do CAU/MT,  Página do Enock, HiperNotícias,  no dia 20/08/16 no Midianews, ArquiteturaEscrita,...)

COMENTÁRIOS
Na Página do Enock em 19/08/16
Osmir
"Pela enésima vez,vou repetir:ÁS AGUAS DO MANSO E DO CASCA já vem para Cuiabá,pela calha do Rio Cuiabá,por gravidade e de graça há mais de mil anos.Querem encana-las e traze-las a custo do dinheiro público do pobre povo de MT—BABACAS!"


"Gostei! Vamos desativar o Rio Cuiabá e construir um aqueduto. Que tempos! E chamem o Lula para negociar a obra com a Odebrecht, assim a obra que é inútil será útil para encher as burras dos nada burros."

José Antonio Lemos dos Santos disse: sexta-feira, 19th agosto 2016 as 14:34 - Ip: 177.41.83.60
"Agradeço o privilégio de sua leitura e comentário Osmir. O problema é que a água ela precisa ser levada ao ponto mais alto da cidade para ser distribuída e aí entram em jogo as bombas que consomem muita energia a um custo tão elevado que em 10 anos se pagaria a adutora. Os antigos já faziam assim mesmo tendo suas cidades banhadas por rios importantes."

"IMPORTANTE ESTUDO."

NoMidianews
Fernando 20/08/16  15:03h:
"uma das vantagens é abastecer Cuiabá? Eu acho o abastecimento e distribuição de água em Cuiabá uma piada, a água não chega regularmente as residências... e a distribuição de energia elétrica tem melhorada nos últimos anos, mas no país todo, não somente aqui."


Pelo Facebook:
Paulo NInce   19/08/16     11:18h:
"Parabéns Jose Lemos sempre apontando caminhos para o sucesso do BR MT e Cuiabá, centro da América do Sul."

Francisco Gomes 20/08/16   09:47h:
"Grande professor... Sua postagem deve inspirar aqueles que acham que tudo é só política. Existe técnica e no planejamento urbanos é essencial!!!!"

]Carlos Eduardo Cuiabano  20/08/26   20h:
"Tive o privilégio de efetuar estudos em Furnas junto com a engenharia dessa conceituada empresa a nível de geração e transmissão de potência entre Mamso e Couto Magalhães. Desses estudos, com duração aproximada de três meses saiu um relatório de 200 pág. cuja conclusão indicava Couto Magalhães como a melhor alternativa. Manso prevaleceu e me parece que foi muito bom para o rio Cuiabá. Quanto ao fornecimento de energia, é uma usina medíocre, talvez forneça 20 % das necessidades da grande Cuiabá. Mas, o fato é que o conceito de sistema interligado já está ultrapassado porque todos os sistemas foram interligados. Hoje fala - se em Sistema Nacional. Daí, seremos afetados para melhor ou pior em função do que ocorrer no Brasil. O assunto é extenso e importa dar alguma informação. Trabalhei na operação do sistema interligado, matemática e computador, por mais de dez anos. Foi o embrião do sistema nacional e da Operação Nacional do Sistema, ONS. O assunto é vasto e muito bonito. Abraços."

José Antonio Lemos dos Santos  21/08/16 16:30  Dirigido ao Carlos Eduardo:
"Sua leitura e comentários sobre meus artigos me deixa lisonjeado. Este comentário então é especial. Acho que que nós que vivemos o período recente de nossa história em diversos setores devemos arranjar nossas formas de repassar esses conhecimentos à nova geração de mato-grossenses e cuiabanos. Tem muito aventureiro por aí dando cada chute que com o passar do tempo acaba virando verdade. Preocupo-me com as novas gerações e não com a possibilidade de nossas autoridades se sensibilizarem eles só pensam neles e com um horizonte eleitoral de 2 anos. Eu agradeço essas valiosíssimas contribuições de você. Sei que tem muito mais coisas a contar e na hora que achar importante é só escrever."




terça-feira, 26 de novembro de 2013

APROVEITAMENTO MÚLTIPLO DE MANSO

copadopantanal.com.br

José Antonio Lemos dos Santos

     Semana passada os governos federal e do estado entregaram os primeiros certificados de concessão de uso na Área Aquícola da Usina de Manso, em um programa nacional que visa à autossuficiência do Brasil na produção de pescados. Em julho deste ano já havia acontecido um fórum no Palácio Paiaguás tratando do uso das águas de Manso para irrigação na Baixada Cuiabana. Os 2 projetos têm tudo para dar certo e, oxalá os tanques criatórios e as plantações irrigadas produzam muito emprego, renda, e alimentação farta e barata para a população, com muito peixe. Para Cuiabá e Mato Grosso esta notícia é mais especial ainda, pois ela também vem no sentido do desenvolvimento das múltiplas finalidades de Manso, que sempre foram desprezadas. Manso é muito mais que uma hidrelétrica, por isso tem um lago maior que a Baía da Guanabara e 10 vezes o lago de Brasília. Falta o aproveitamento. 
     Manso surgiu da trágica cheia de março de 1974 do rio Cuiabá, que destruiu os bairros do Terceiro, Barcelos e Ana Poupino, os mais populosos de Cuiabá na época. O governo Geisel, recém- empossado, logo determinou a demolição do que restou dos bairros e a construção de conjuntos habitacionais para a população flagelada. E mais, determinou a realização de estudos para impedir novas inundações daquela magnitude. Daí surge Manso como um equipamento de proteção urbana com objetivo específico de reduzir as cotas das cheias do Cuiabá, isto é, um “açudão”. Embora quase não noticiado, Manso já cumpriu essa finalidade em 2002 e 2010, impedindo que volumes de água superiores ao registrado em 74 chegassem a Cuiabá. Ainda que fosse só por este objetivo, Manso já teria valido a pena e deve ser tratada como um dos mais importantes equipamentos urbanos de Cuiabá e Várzea Grande. 
     Depois, já em 1978, no antigo Minter, na Comissão Técnica criada pela Lei da divisão de Mato Grosso, participei de algumas soluções técnicas importantes como a transformação do projeto de Manso do “açudão” original em um empreendimento de aproveitamento múltiplo de barragem, pioneiro no Brasil. Na ocasião, buscando solucionar a questão energética, na época o principal problema do estado, a Comissão da Divisão e o governo do estado propuseram a energização do “açudão”, cuja construção se iniciaria naquele ano e que foi então suspensa para revisão geral do projeto, que adotou a filosofia do uso múltiplo. Manso passou então a ser geradora de energia e a ideia da proteção urbana foi ampliada para a de regularização de vazão do rio, garantindo uma cota mínima nas secas além da redução das cotas máximas nas cheias, com previsão ainda de abastecimento de água para Cuiabá e Várzea Grande e programas de irrigação no vale do Cuiabá, sendo que seu lago poderia também receber projetos de piscicultura, turismo e lazer. Graças a Manso a vazão mínima do rio Cuiabá em Cuiabá hoje é mais que o dobro das vazões mínimas anteriores à barragem, que tanto nos apavoravam com as perspectivas do rio secar e acabarem os peixes.
     Manso foi projetada com uma filosofia otimizadora de barragens usada no mundo inteiro, mas até hoje tem seu uso restrito à geração de energia e à regulagem de vazão. O projeto de aquicultura que agora tem início, assim como a discussão do projeto de irrigação da Baixada Cuiabana bem que poderiam ser sinais concretos do fim do desperdício burro desse imenso potencial de desenvolvimento que significa Manso com todas as suas possibilidades. E, em sendo assim, que Manso puxe também o aproveitamento das imensas perspectivas do gasoduto e do Porto Seco, também desprezadas até hoje. 

(Publicado em 26/11/2013 pelo Diário de Cuiabá)