"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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sábado, 11 de março de 2017

A CHEIA DE 74


Internet (sem identificação do autor)


José Antonio Lemos dos Santos

     Dia 17 de março lembra o dia da cota máxima da famosa cheia de 1974 em Cuiabá, chegando a 10,87 metros, desabrigando milhares de pessoas nos antigos bairros do Terceiro (“de Dentro” e “de Fora”), Barcelos e Ana Poupino que juntos constituíam a área mais populosa da cidade. Uma tragédia que pegou a cidade justo em seu salto de crescimento decorrente dentre outros fatores da mudança da capital federal para Brasília. Grosso modo Cuiabá saltava de 56 mil habitantes em 1960 para 120 em 70, chegando a 240 mil em 80. Um crescimento para o qual não estava preparada, nem a cidade, nem a cabeça de seus cidadãos e autoridades depois de décadas de estagnação. Ninguém acreditava quando alguns visionários, verdadeiros profetas avisavam da necessidade de preparação da cidade para aquela expansão. Dessa visão surgiu por exemplo o CPA, a partir de intervenções de técnicos como Júlio De Lamônica, Moacir de Freitas e Sátyro Castilho.
     A calamidade de 1974 serviu para dar uma chacoalhada nas autoridades. O governo Geisel acabara de tomar posse dois dias antes já com o problema da inundação avançado. De imediato o ministro do Interior Rangel Reis veio a Cuiabá e tomou duas decisões radicais que marcaram profundamente a vida da cidade e precisam ser lembradas. Determinou a demolição do que havia sobrado dos bairros atingidos, transferindo suas populações para conjuntos residenciais a serem construídos, chegando até a utilizar a força para esse fim. Muito da cultura de Cuiabá perdeu-se nesse processo, mas as populações foram transferidas para os novos conjuntos, um deles o Novo Terceiro. A cultura virou saudade nas lembranças dos blocos carnavalescos “Sempre Vivinha”, “Coração da Mocidade” e “Estrela Dalva”, por exemplo. 




Internet (sem identificação do autor)


     Outra decisão do ministro foi a realização de estudos técnicos buscando uma solução para que nunca mais Cuiabá fosse vítima de uma tragédia semelhante. Desses estudos resultou Manso, originalmente apenas para reduzir futuros picos de novas enchentes, um “açudão” de proteção urbana. Embora quase não noticiado, Manso já cumpriu essa finalidade ao menos em 2002 e 2010, impedindo que volumes de água superiores aos 3.025 m³/s de 74 chegassem a Cuiabá. Fosse apenas por este objetivo Manso já teria valido a pena.
     Depois, já em 1978, no antigo Minter a Comissão da Divisão do Estado, da qual fiz parte, propôs em conjunto com técnicos do estado a transformação de Manso em um projeto de aproveitamento múltiplo de barragem, pioneiro no Brasil. Para solucionar a questão energética, na época o principal problema estadual, foi proposta a energização do “açudão”, passando Manso a ser também geradora de energia e a ideia da proteção urbana foi ampliada para a de regularização de vazão do rio, garantindo uma cota mínima além da redução das cotas máximas, prevendo ainda o abastecimento urbano de água e irrigação rural para a Baixada Cuiabana, três barragens a fio d’água rio abaixo, sendo que seu lago poderia também receber projetos de piscicultura, turismo e lazer.
     Muita gente ainda pensa que Manso foi construída para gerar energia, o que seria um absurdo pela dimensão de seu lago maior que a Baía da Guanabara e 10 vezes o Lago de Brasília. A geração de energia foi um subproduto importante pois apesar da geração de apenas 210 MW (a Termelétrica gera 480 MW), vem servindo para garantir estabilidade energética para o estado. Mas Manso ainda tem muitos outros potenciais que começam a ser explorados agora, como a aquicultura e o turismo. Como lembramos, tem muito mais. O correto aproveitamento integrado dos potenciais de Manso além de importante fator de desenvolvimento regional, seria também uma homenagem às perdas da cheia de 1974.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MUITA COISA BOA

Edson Rodrigues/OlharDireto


José Antonio Lemos dos Santos

     Às vezes o mais difícil em um artigo é definir o assunto, neste em especial, ante tantas coisas boas que estão acontecendo e não podem passar despercebidas. Resolvi então tratar tudo o que me vier à cabeça, enquanto der no texto. Puxo a lista com o início das inaugurações das obras da Copa com as pontes sobre o Coxipó, uma ligando a Rua Antonio Dorilêo à Beira-Rio, aliviando a Fernando Correia e trazendo conforto à grande parte da população do Coxipó; a outra no Jardim das Palmeiras ligando a Fernando Correia à Archimedes Lima, então isoladas entre si por quilômetros, desde o Boa Esperança até o Tijucal. Marcada para ontem à noite, a inauguração do viaduto do Despraiado abre o ciclo das obras maiores e visa desbloquear o acesso àquela importante área da cidade. Nas fotos aéreas está muito bonito, mas quero passar por cima dele para avaliar melhor. 

MaykeToskano/Secom-MT


     Gostei também dos nomes escolhidos para os novos equipamentos urbanos, em especial os dos engenheiros Quidauguro Fonseca e Domingos Iglésias Valério os quais tive a sorte de conhecer pessoalmente me ensinando grandes lições de cidadania e respeito para com a profissão e a coisa pública, sem perder a simplicidade e a gentileza no trato das pessoas apesar de todos os desafios que venceram e os cargos que ocuparam. Se ainda não foram lembrados e minha intromissão não atrapalhar o processo de escolha dos homenageados, tomaria a liberdade de lembrar os professores Sátyro Castilho e Júlio De Lamonica Freire por tudo que fizeram pela cidade, em especial na criação do CPA e nas implantações da própria UFMT e do curso de Arquitetura na Unic. 
     Ainda ligado à Copa, no dia 6 de novembro chegou afinal a primeira composição do VLT a Cuiabá. Outras 4 estão navegando, devendo chegar aqui em dezembro. Agora um novo desafio, o de fazê-lo funcionar em articulação com os outros modais garantindo um elevado padrão de mobilidade urbana para a cidade e seus cidadãos. Também em função da Copa, mas um assunto pouco comentado, Cuiabá ganhou no dia 4 de julho o privilégio de ser uma das poucas cidades do Brasil a dispor da internet 4G, a mais rápida e moderna conexão móvel do país. Sabe quando seríamos prioridade sem a Copa? Nunca. Resta que saibamos aproveitar esta vantagem comparativa extraordinária. A última boa sobre a Copa é o esgotamento dos ingressos disponibilizados pela FIFA para os jogos na Arena Pantanal. Para alguns a Arena não teria público. Ainda bem que comprei logo o meu para o primeiro jogo. Assisti ao primeiro e ao último jogo do Verdão. Se Deus quiser estarei presente na inauguração da Arena Pantanal e no primeiro jogo da Copa.
     Extra Copa, não pode ser esquecida a realização dos Jogos dos Povos Indígenas, transformando a cidade na capital indígena das Américas. Espetáculo de vida, cores, cultura e integração, acho que Cuiabá podia ter aproveitado melhor o evento em termos de divulgação nacional e internacional, atraindo mais visitantes entre os simpatizantes e estudiosos da cultura indígena dispersos pelo mundo. 
     Tivemos ainda a anulação pela Justiça das alterações propostas pela Câmara de Vereadores na Lei do Uso e Ocupação de Solo Urbano de Cuiabá. Se forem necessárias alterações, que sejam em bases técnicas e conforme os ritos legais. A semana trouxe também a conclusão do processo dos “mensaleiros” e uma nova, inteligente e simpática forma de protesto trabalhista com os jogadores do campeonato brasileiro recusando-se a jogar por 1 minuto em uma das rodadas em prol de melhores condições de trabalho. Uma prova de que as antipáticas e improdutivas greves, que só trazem prejuízo ao povo, possam um dia ser substituídas por alternativas de luta mais eficientes e criativas? 
(Publicado em 19/11/2013 pelo Diário de Cuiabá)