"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A FALA DO ARQUITETO

OlharDireto   11/11/2015 - 09:35

Arquiteto defende projetos para pessoas de baixa renda e afirma que arquitetura traz sentimentos à casa

Da Redação - Isabela Mercuri

Foto:  Reprodução do site OlharDireto

Fazer projetos arquitetônicos para famílias de baixa renda pode se tornar realidade para muitos arquitetos do Brasil. Com a tentativa do Conselho de Arquitetura de regulamentar a lei que prevê assistência técnica gratuita para pessoas de baixa renda, elas, que não teriam acesso a isso anteriormente, passariam a ter mais conforto. Quem defende a ideia é o arquiteto Luiz Claudio Bassam, formado pela Universidade de Londrina (UEL) e atualmente professor da Universidade de Cuiabá (UNIC). 
Para ele, a arquitetura e o urbanismo são instrumentos de mudança social. De acordo com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), mais de 80% da população faz obras sem um projeto técnico nesta área. A falta de recursos é principal motivo apontado. Bassam ainda afirma que a diferença que um projeto faz numa casa vai além da praticidade e da organização, ele traz sentimentos e sensações à casa das pessoas.

Junto a essa iniciativa do Conselho, no entanto, está outra em pauta, que pede a revisão da Lei das Licitações pelo Congresso. Nesta revisão, seria retirada a exigência do projeto para a licitação pública, sendo necessário apenas o anteprojeto. “É um retrocesso muito grande pra um país que quer ser desenvolvido. Boa parte dos brasileiros não é profissional, e isso reflete lá em cima (no congresso). Fazemos tudo de hoje pra amanhã”, afirma Bassam. Ele explica que o projeto é um planejamento minucioso que facilita o trabalho quando a obra é levantada: “Na Europa, em países desenvolvidos, um projeto de arquitetura dura dois, três anos, ele não dura uma semana. Só que a obra ela se faz em seis meses, e ninguém pensa em mais nada, porque já está tudo planejado. Não têm aditivos, está resolvido. Isso é profissional”. 

E é por esta importância que o arquiteto dá aos projetos que ele concorda com a ideia de planejar para pessoas que ganham até três salários mínimos, “É um novo tipo de cliente. Tem que acabar com isso do arquiteto ficar sentado no escritório esperando o cliente aparecer. Agora ele pode ir na comunidade, ver as necessidades das pessoas, pega o financiamento, o recurso do governo e vamos trabalhar. Eu vou projetar, as pessoas que não teriam acesso a isso terão conforto, e eu vou receber por isso”, afirma. Com uma obra mais pensada, seria possível até mesmo conseguir economia posteriormente: “O principal exemplo é a economia energética. Se você fizer uma casa pra Cuiabá, com sombra, evitando que o sol entre no ambiente, você vai ter uma redução da carga térmica. Se precisar usar o ar condicionado, será numa potencia menor. Então gera uma economia violenta. Ventilação pode fazer até com que não precise de ar condicionado”. 

E essa ideia de projetar de acordo com o local, Bassam também tenta passar para seus alunos: “Eles precisam de referências arquitetônicas. Não é que eles vão copiar, eles vão perceber, por exemplo, que lá no Chile se constrói assim, por causa do clima, do relevo, no Marrocos se constrói assim. E aqui, em Cuiabá, como eu construo? Fazemos construções como nos grandes centros, tem a ver com o cuiabano? Em Marrocos, as casas são feiras para o deserto, árido, na Amazônia a arquitetura é leve, a casa é ventilada”, explica. 

“E eu acredito que o projeto de arquitetura é a síntese de tudo. O urbanismo trabalha cidade, então o arquiteto não pode pensar no um edifício isolado dentro de um terreno, o local onde ele está, conhecer o local, o entorno de onde aquele terreno está localizado é fundamental. Não se pensa dentro de quatro muros”, finaliza. 

Ler o original em
 http://www.olhardireto.com.br/conceito/noticias/exibir.asp?noticia=Arquiteto_defende_projetos_para_pessoas_de_baixa_renda_e_afirma_que_arquitetura_traz_sentimentos_a_casa&id=9638

sábado, 11 de janeiro de 2014

A LENDA DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

Luis Augusto Pereira de Almeida, diretor da FIABCI/Brasil

     Com grande frequência, leio, escuto e observo severas críticas ao mercado imobiliário. Ora dizem que está pouco se importando com as cidades; ora o classificam como um segmento de especuladores, insensíveis aos problemas da população.
Não sei bem onde e quando surgiu tamanha animosidade contra o setor, mas se trata de uma imagem muito distante da realidade dos fatos e da atividade, cuja atuação precisa ser melhor analisada.
É necessário esclarecer que o estigma da especulação imobiliária brota de uma interpretação equivocada da antiga e irrevogável lei da oferta e da procura no movimento de compra e venda de imóveis. O cálculo é simples: quanto mais unidades habitacionais puderem ser construídas num terreno e quantos mais empreendimentos puderem ser edificados em uma região, mais competitivos serão os seus preços unitários. O contrário também é verdadeiro.
Quem define o que, quanto e onde pode ser construído numa cidade é o poder público, através de planos diretores, nos quais zoneamentos e normas de uso e ocupação são definidos. Neste quesito, nosso histórico foi sempre marcado por políticas de ocupação restritivas, de baixo aproveitamento do solo. Em São Paulo, já chegamos a ter coeficientes de aproveitamento de 17 vezes o tamanho do terreno (Edifício Martinelli). Hoje, nosso coeficiente chega, no máximo, a quatro vezes.
As empresas imobiliárias dimensionam cada projeto a partir dessas regras, somando os valores da compra do terreno e da realização da obra. O total é dividido pelo número de lares ou escritórios cuja construção a lei permite em cada terreno. Chega-se, assim, a um custo unitário, ao qual se soma o lucro, determinando-se o preço final. O raciocínio também é válido para cada bairro e para cada cidade como um todo: nas localidades em que se pode construir pouco, os preços sobem; onde ainda é possível realizar empreendimentos em maior número, os preços são mais competitivos. Se leis impedem ou restringem a ocupação, os imóveis serão cada vez mais caros e exclusivos. Fala-se em bolha imobiliária, mas o que na verdade existe é uma escassez cada vez maior de terrenos para moradia, trabalho e entretenimento, causando uma valorização crescente.
Em todo esse processo mercadológico não se configura a especulação, cujo verbete no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa tem a seguinte definição: “Negócio em que uma das partes abusa da boa fé de outra”. Obviamente, tal pecha não se aplica a quem empreende sob os ditames legais e tampouco a um mercado que atende à demanda da habitação, mantém milhões de empregos, recolhe impostos vultosos e cuja cadeia produtiva, a da construção civil, representa quase 12% do PIB brasileiro.
Há outro fator que também tem impacto nos preços, na satisfação dos ocupantes do imóvel e, claro, na imagem do mercado imobiliário: a qualidade da infraestrutrura urbana e dos serviços. Locais bem servidos nesses itens têm procura maior e, portanto, valores mais altos, além de um grau maior de satisfação das pessoas. Porém, quando falta isso, parece já ter transitado em julgado na opinião pública que a culpa, mais uma vez, é do mercado imobiliário. Ora, o setor não é o responsável por construir avenidas, pontes, viadutos, parques públicos, metrô, corredores de ônibus, trens, estrutura de atendimento médico-hospitalar, escolas e unidades policiais.
Como se vê, o que na realidade incomoda o cidadão e o faz pensar que a culpa é do setor imobiliário é o fato de as cidades crescerem sem planejamento, de ser cada vez menor o número de áreas disponíveis e mais restritivas as regras de uso e ocupação e de ficarem muito aquém da demanda os investimentos públicos em infraestrutura, cuja evolução não acompanha a expansão das cidades. Tal descompasso é mais acentuado nas grandes áreas metropolitanas.
A título de exemplo, tomemos a cidade de São Paulo, que cresce, todos os anos, cerca de 65 mil habitantes. Este contingente demanda moradia, escolas, transportes, água, esgoto, segurança, atendimento médico-hospitalar, comércio, serviços e entretenimento. Esta conta de investimentos públicos e privados não pode ser ignorada e precisa ser quitada todos os anos, sob pena de ocorrer um desequilíbrio crescente e piora na qualidade da vida.
Mesmo com o mercado imobiliário aquecido nos últimos cinco anos, não temos dado conta do déficit habitacional brasileiro, que ainda beira as seis milhões de unidades. Entretanto, muito pior é o nosso desempenho em investimentos e obras de infraestrutura em geral. Caracas, na Venezuela, com 3,1 milhões de pessoas, possui igual extensão de metrô (74 km) que o município de São Paulo, que tem população 3,7 vezes maior, de 11,44 milhões de habitantes (Seade – Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados).
Se maior adensamento, prédios altos e mais comércio e serviços fossem ruins, Nova York dificilmente seria o destino turístico mais procurado no mundo. Inclusive pela maioria de nós, brasileiros. Por que lá então é tão bom e aqui a crítica é geral? E é bom anotarmos que Nova York é 40% mais adensada do que São Paulo. Simples, porque a Big Apple é dotada de farta infraestrutura urbana, que propicia um crescimento sem traumas.
Que bom seria se morássemos perto de casa, se não tivéssemos de tirar o carro da garagem; se pudéssemos ir a pé ao shopping, ao supermercado, à escola ou fazer jogging no parque público do bairro. E tudo isso sem medo de ser assaltado. Aposto que, ao vender seu imóvel, você o precificaria em, no mínimo, 15% a mais.

(Publicado em 21/12/2013 pelo Portal Fator Brasil)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A LENDA DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

Luis Augusto Pereira de Almeida, diretor da FIABCI/Brasil

     Com grande frequência, leio, escuto e observo severas críticas ao mercado imobiliário. Ora dizem que está pouco se importando com as cidades; ora o classificam como um segmento de especuladores, insensíveis aos problemas da população.
Não sei bem onde e quando surgiu tamanha animosidade contra o setor, mas se trata de uma imagem muito distante da realidade dos fatos e da atividade, cuja atuação precisa ser melhor analisada.
É necessário esclarecer que o estigma da especulação imobiliária brota de uma interpretação equivocada da antiga e irrevogável lei da oferta e da procura no movimento de compra e venda de imóveis. O cálculo é simples: quanto mais unidades habitacionais puderem ser construídas num terreno e quantos mais empreendimentos puderem ser edificados em uma região, mais competitivos serão os seus preços unitários. O contrário também é verdadeiro.
Quem define o que, quanto e onde pode ser construído numa cidade é o poder público, através de planos diretores, nos quais zoneamentos e normas de uso e ocupação são definidos. Neste quesito, nosso histórico foi sempre marcado por políticas de ocupação restritivas, de baixo aproveitamento do solo. Em São Paulo, já chegamos a ter coeficientes de aproveitamento de 17 vezes o tamanho do terreno (Edifício Martinelli). Hoje, nosso coeficiente chega, no máximo, a quatro vezes.
As empresas imobiliárias dimensionam cada projeto a partir dessas regras, somando os valores da compra do terreno e da realização da obra. O total é dividido pelo número de lares ou escritórios cuja construção a lei permite em cada terreno. Chega-se, assim, a um custo unitário, ao qual se soma o lucro, determinando-se o preço final. O raciocínio também é válido para cada bairro e para cada cidade como um todo: nas localidades em que se pode construir pouco, os preços sobem; onde ainda é possível realizar empreendimentos em maior número, os preços são mais competitivos. Se leis impedem ou restringem a ocupação, os imóveis serão cada vez mais caros e exclusivos. Fala-se em bolha imobiliária, mas o que na verdade existe é uma escassez cada vez maior de terrenos para moradia, trabalho e entretenimento, causando uma valorização crescente.
Em todo esse processo mercadológico não se configura a especulação, cujo verbete no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa tem a seguinte definição: “Negócio em que uma das partes abusa da boa fé de outra”. Obviamente, tal pecha não se aplica a quem empreende sob os ditames legais e tampouco a um mercado que atende à demanda da habitação, mantém milhões de empregos, recolhe impostos vultosos e cuja cadeia produtiva, a da construção civil, representa quase 12% do PIB brasileiro.
Há outro fator que também tem impacto nos preços, na satisfação dos ocupantes do imóvel e, claro, na imagem do mercado imobiliário: a qualidade da infraestrutrura urbana e dos serviços. Locais bem servidos nesses itens têm procura maior e, portanto, valores mais altos, além de um grau maior de satisfação das pessoas. Porém, quando falta isso, parece já ter transitado em julgado na opinião pública que a culpa, mais uma vez, é do mercado imobiliário. Ora, o setor não é o responsável por construir avenidas, pontes, viadutos, parques públicos, metrô, corredores de ônibus, trens, estrutura de atendimento médico-hospitalar, escolas e unidades policiais.
Como se vê, o que na realidade incomoda o cidadão e o faz pensar que a culpa é do setor imobiliário é o fato de as cidades crescerem sem planejamento, de ser cada vez menor o número de áreas disponíveis e mais restritivas as regras de uso e ocupação e de ficarem muito aquém da demanda os investimentos públicos em infraestrutura, cuja evolução não acompanha a expansão das cidades. Tal descompasso é mais acentuado nas grandes áreas metropolitanas.
A título de exemplo, tomemos a cidade de São Paulo, que cresce, todos os anos, cerca de 65 mil habitantes. Este contingente demanda moradia, escolas, transportes, água, esgoto, segurança, atendimento médico-hospitalar, comércio, serviços e entretenimento. Esta conta de investimentos públicos e privados não pode ser ignorada e precisa ser quitada todos os anos, sob pena de ocorrer um desequilíbrio crescente e piora na qualidade da vida.
Mesmo com o mercado imobiliário aquecido nos últimos cinco anos, não temos dado conta do déficit habitacional brasileiro, que ainda beira as seis milhões de unidades. Entretanto, muito pior é o nosso desempenho em investimentos e obras de infraestrutura em geral. Caracas, na Venezuela, com 3,1 milhões de pessoas, possui igual extensão de metrô (74 km) que o município de São Paulo, que tem população 3,7 vezes maior, de 11,44 milhões de habitantes (Seade – Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados).
Se maior adensamento, prédios altos e mais comércio e serviços fossem ruins, Nova York dificilmente seria o destino turístico mais procurado no mundo. Inclusive pela maioria de nós, brasileiros. Por que lá então é tão bom e aqui a crítica é geral? E é bom anotarmos que Nova York é 40% mais adensada do que São Paulo. Simples, porque a Big Apple é dotada de farta infraestrutura urbana, que propicia um crescimento sem traumas.
Que bom seria se morássemos perto de casa, se não tivéssemos de tirar o carro da garagem; se pudéssemos ir a pé ao shopping, ao supermercado, à escola ou fazer jogging no parque público do bairro. E tudo isso sem medo de ser assaltado. Aposto que, ao vender seu imóvel, você o precificaria em, no mínimo, 15% a mais.

(Publicado em 21/12/2013 pelo Portal Fator Brasil)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A ARENA DE MINHA JANELA


Veja como estava a Arena Pantanal vista de minha varanda hoje, 4 de julho de 2013.  As vigas dos monumentais  pórtico norte (primeiro) e sul já foram alçadas.  Ao final desta postagem tem um link do G1.com.br com um galeria de fotos internas da obra no mês passado. Veja:

Foto: José Lemos

Dá para comparar com a situação do mês passado (04/06/13:

Foto: José Lemos

E com o mês de março (04/03/13):

Foto: José Lemos


Ou no início do ano passado (14/01/12):
Foto: José Lemos


É para ficar pronta em outubro de 2013. Confira com a maquete para ver se está indo tudo certo:

Veja no link abaixo uma seleção de fotos do G1 das obras vistas internamente postadas ontem (04/06/13):


No link abaixo tem também uma seleção de fotos do G1 das obras vistas internamente no mês passado (02/05/13):


Veja também abaixo reportagem de 04/03/2013 do OlharDireto sobre o andamento da obra (atualizada):


MONTAGEM DA ARQUIBANCADA TERMINA; EM MAIO COMEÇA O PLANTIO DA GRAMA

Da Redação - Darwin Júnior 04/03/2013 - 18:12 

Foto: Darwin Júnior

 O consórcio construtor da Arena Pantanal, estádio de Cuiabá que receberá quatro jogos do Mundial 2014, acaba de encerrar mais uma etapa da obra: a montagem das arquibancadas. Os trabalhos foram concluidos no final de semana com a instalação das últimas filas do Setor Sul. De acordo com a Secretaria Extraordinária da Copa (Secopa), os trabalhos agora irão se concentrar na cobertura e partes hidráulicas e elétricas. A obra já está 62% concluída.

Daqui a 60 dias, um novo estágio terá início: o plantio da grama. Em maio terá início a instalação do sistema de drenagem para o escoamento da água. O Comitê Organizador Local da Copa (COL) recomendou o planio da grama do tipo Bermuda, da variedade 'celebration', que é a mais indicada para estádios localizados em cidades de clima quente. Mais quatro sedes irão utilizar o mesmo tipo de grama: Manaus, Salvador, Fortaleza e Brasília.

Confira esta matéria na íntegra no Olhar Copa


Reveja a reportagem do Bom Dia Mato Grosso do dia 4 de janeiro passado sobre as obras:

http://g1.globo.com/videos/mato-grosso/bom-dia-mt/t/edicoes/v/novo-turno-de-trabalho-e-implantado-na-construcao-da-arena-pantanal/2326756/

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

TEXTO PARA PENSAR

NINGUÉM GOSTA DE ARQUITETURA


Arquiteto André Huyer

Exceto nós, arquitetos. Este é nosso maior problema para o exercício da profissão. Como sobreviver fazendo a
lgo que ninguém se interessa? Ninguém se importa? Ninguém conhece? Atendendo às encomendas de nossos clientes, quantos trabalhos resultarão dignos de serem publicados em revistas ou exposições de arquitetura? Mas, porque só há duas ou três revistas de arquitetura no Brasil? E quantas exposições de arquitetura ocorrem regularmente no Brasil, fora a Premiação Anual do IAB do Rio de Janeiro?

Simples: somente arquitetos gostam de arquitetura. Se as pessoas que não são arquitetos apreciassem arquitetura, teríamos muito mais revistas e exposições! Não me refiro a revistas de decoração disfarçadas de arquitetura. Você conhece algum leitor de "Projeto Design” ou de "Arquitetura e Urbanismo"que não seja arquiteto?

Este desinteresse do leigo pela arquitetura talvez possa ser explicado pelo desconhecimento generalizado do que seja arquitetura. Quantas vezes por dia os arquitetos são chamados de engenheiros? Ou de decoradores? Já querer que o leigo saiba quais as atribuições profissionais do arquiteto, bem, aí realmente é querer demais. Mesmo porque tem muito arquiteto que também desconhece, e vai correndo chamar um engenheiro se tiver uma obra para encarar. Por que não procura um colega arquiteto se não tiver segurança de tocar uma obra?

E por aí prosperam os equívocos. Você vai à uma repartição pública, e lá está: "Assessoria de Engenharia'; "Departamento de Engenharia'; "Setor de Engenharia'; etc. Eles por acaso fazem barragens? Fazem pontes? Fazem estradas? Fazem túneis ou portos? Não. Fazem projetos arquitetônicos, fazem edificações/fazem layouts de interiores. Mas a maioria é chamado de departamento de engenharia, poucos são os departamentos de arquitetura.

Bem, daí quando tem um concurso para quadro de pessoal, adivinhem... claro, só tem vaga para engenheiro, como o concurso que o BRDE está fazendo agora. Ou, quando tem vaga para arquiteto, os engenheiros ainda têm o dobro do nosso número de vagas - como no concurso do Ministério Público, ano passado.

Mas a cultura que nos desfavorece não termina aí. Se o enfoque é positivo/o termo empregado é "serviços de engenharia" (lei das licitações 6888/93). Se o enfoque é negativo, aí são "barreiras arquitetônicas”;as grandes vilãs nas normas técnicas de acessibilidade. Por que não barreiras de engenharia ou de decoração?

Então, enquanto o público ainda tiver a expectativa de que façamos engenharia predial decorativa, pouco nos resta. Questões caras para nós, como entorno urbano, coerência, modernismo x pós-modernismo, visão de conjunto, etc., só nos trarão angústias, frente ao desinteresse e repulsa dos nossos clientes.

Só que temos nossa parcela de culpa pela perpetuação deste estado das coisas. Primeiro que, nós arquitetos, não damos a devida importância à "conquista do mercado'; Qual a promoção mais temerária que uma entidade declasse pode querer promover? Um curso de marketing? A frequência é mínima, se não for nula. Cursos e eventos que tratam de questões profissionais congêneres idem.Já outros cursos/de assuntos até banais para qualquer arquiteto, ou o extremo oposto, excessivamente específicos, sempre há pencas de arquitetos para se aprofundarem (ou afundarem), em matérias que pouco retorno prático trarão. Segundo, a falta de auto-estima pela carreira.Quantos colegas trabalham em departamentos de engenharia, que muitas vezes nem engenheiro tem, e nunca fizeram nada para, pelo menos, mudar o nome na placa de identificação na porta? E quantas vezes nos chamam de engenheiros e não corrigimos os interlocutores?

Para que os outros gostem de arquitetura, é preciso que nós, arquitetos, além de gostarmos de arquitetura, também tenhamos orgulho de sermos arquitetos.

domingo, 4 de março de 2012

A ARENA DE MINHA JANELA

Foto: José Lemos (04/03/12)

Compara a foto de hoje (acima) com a do início do ano (abaixo).

Foto: José Lemos (04/01/12)

Se achou que a obra não está andando, compare com a situação (abaixo) no início de agosto do ano passado.

Foto: José Lemos (04/08/11)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

AVENIDA DO BARBADO

José Antonio Lemos dos Santos


     A projetada avenida do Barbado destaca-se entre as obras de maior importância para Cuiabá. De acordo com a Lei 3870/99 - aparentemente desconhecida pelas autoridades, mas que há 10 anos define legalmente o sistema viário de Cuiabá - a avenida do Barbado integra a Via Estrutural Circular Norte (Veci-N), projetada para ligar a Avenida Helder Cândia (MT-010) à Ponte Sérgio Mota, atravessando a Avenida Rubens de Mendonça, seguindo pelo córrego do Barbado e pelas avenidas Brasília e Tancredo Neves, atravessando também a Fernando Correia. Após a Ponte Sérgio Mota, segue em Várzea-Grande pela Avenida Dom Orlando Chaves até a Ponte Nova, atravessando ortogonalmente a Avenida da FEB, chegando a Avenida Miguel Sutil de novo em Cuiabá, formando uma grande voluta viária integradora de toda a conurbação. As travessias citadas hoje já exigem viadutos ou trincheiras como alternativa ao iminente colapso viário e a avenida e suas interseções independem da Copa, mas tornam-se muito mais necessárias com ela. A Copa é a chance de tornar realidade essa grande via estrutural, se não totalmente, ao menos no trecho que acompanha o córrego – que chamamos de avenida do Barbado - e que será um poderoso auxílio à Miguel Sutil, em estado crítico de circulação, e linha de chegada da Avenida das Torres, hoje em construção e também projetada na Lei 3870/99.
     No segundo governo municipal de Dante de Oliveira, em 92, havia um projeto de canalização do córrego do Barbado no estilo então tradicional, isto é, com retificações e concretagem do canal, e adição de pistas laterais coladas, tal como na atual Avenida 8 de Abril, que no passado já foi um córrego chamado Mané Pinto. Eu estava na superintendência do IPDU e com o então secretário da recém criada SMADES, arquiteto José Afonso Portocarrero e o diretor de Projetos Especiais, arquiteto Ademar Poppi, ponderamos ao prefeito sobre o uso de uma metodologia mais atualizada para a urbanização daquele importante córrego, levando o conceito da “avenida-parque” que começava a ser discutido na literatura especializada e em alguns poucos projetos pioneiros no Brasil. O prefeito se entusiasmou.
     O cerne da questão era preservar ao máximo o córrego em seu leito natural, mantendo seus padrões de velocidade das águas e permeabilidade do solo ainda que abaixo da Fernando Correia ele já fosse todo canalizado, e manter também ao máximo sua vegetação ciliar, ainda que em muitos pontos tivesse que ser recomposta. Respeitando suas faixas de preservação permanente, foram colocadas duas pistas laterais com duas faixas de rolamento e uma de estacionamento de cada lado, com iluminação e calçada. Com a mesma verba do projeto original seriam feitas ainda mini-estações de esgoto segundo as micro-bacias, e implantados play-grounds, pista de caminhada e equipamentos esportivos em áreas mais degradadas. Resultaria uma avenida com cerca de 5,6 Km de extensão e, de lambuja, um parque linear urbano com cerca de 34 ha: a “córgo-way” cuiabana, simpático apelido então dado pelos técnicos.
     Dante chegou a iniciá-la entre a Archimedes Lima e a Avenida dos Trabalhadores, que hoje tem o seu nome. Mas a obra parou e nada mais foi feito até hoje, mesmo que tenha entrado no discurso da campanha do primeiro mandato do atual prefeito e seja cada vez mais importante para a cidade. Ainda dá para ser feita, bastando olhar nas imagens aéreas para ver que a própria natureza parece pedir pela realização da obra. Por estranho que pareça, ouvi dizer que Wilson Santos teria enfrentado restrições de ordem ambiental para a implantação dessa que poderia ter sido uma das primeiras avenidas-parque no Brasil.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 29/09/09)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

PEQUENAS GRANDES OBRAS

José Antonio Lemos dos Santos


     Há um conjunto de obras que são importantes para a realização da Copa do Pantanal em 2014, mas que também são indispensáveis para a Cuiabá de hoje. Dentre estas são sempre lembradas as obras de maior vulto em detrimento daquelas de pequeno porte, que nem por isso devem ser consideradas menos importantes. Ao contrário, sem a realização destas, é muito provável que as grandes obras não apresentem os resultados esperados e a cidade não funcione adequadamente por ocasião do evento. Talvez sejam sempre adiadas justamente pelo fato de serem obras “mais baratas”, portanto, em tese, mais fáceis de serem viabilizadas a qualquer momento. O fato, entretanto, é que, não sendo realizadas, problemas menores se tornam maiores podendo chegar ao colapso em alguns casos, impondo à população grandes dificuldades em conforto, segurança e qualidade de vida. Das pequenas obras cito algumas que considero as mais importantes para hoje e para a Copa.



     A primeira trata de um retorno na Avenida Miguel Sutil, entre as rótulas do Centro de Convenções e a do Santa Rosa, ficando sua localização precisa dependendo de maiores estudos dos órgãos municipais responsáveis pelo planejamento do trânsito e da cidade. Sua geometria pode suprimir em um trecho as faixas de estacionamento, bem como contar com a faixa de domínio da antiga rodovia perimetral, cedida pelo governo federal à responsabilidade da prefeitura municipal. A existência neste trecho de equipamentos residenciais, comerciais e hospitalares fortemente geradores de tráfego, certamente está entre as razões da sobrecarga da rótula do Santa Rosa e do crônico engarrafamento de veículos no sentido Centro de Convenções - Santa Rosa. Independente de pesquisas, pode-se afirmar que grande parte desse fluxo teria como destino as regiões do CPA, do Coxipó e da UFMT/UNIC e só chegam à rotula do Santa Rosa, à contragosto, por absoluta falta de alternativa. O retorno liberaria parte considerável do tráfego engarrafado, permitindo a volta pela própria Miguel Sutil, sem o sacrifício de ter que se chegar à rótula do Santa Rosa, sobrecarregando-a, para só então fazer o retorno e embicar no rumo originalmente desejado. Uma pequena obra como esta poderia tornar novamente viável aquela importante rótula.
     De forma semelhante pode ser pensado o trecho entre esta mesma rótula do Santa Rosa e a do Círculo Militar. Entre as duas cabe muito bem uma nova rótula, na interseção da Ramiro de Noronha com a Miguel Sutil. Esta nova rótula funcionaria como uma alternativa de retorno, e também como acesso à Avenida Ramiro de Noronha, via de ótimas dimensões para Cuiabá e praticamente ociosa. Articulada com a Thogo Pereira, 8 de Abril e Estevão de Mendonça, pode se transformar em importante via alternativa de distribuição central, em apoio a Avenida do Lavapés, também aliviando a carga da rótula do Santa Rosa. Com essa rótula se ligariam a Miguel Sutil e a Coronel Duarte, no Porto.
     Destaco ainda a pavimentação da via que sai da Rua Marechal Deodoro, bem em frente ao Terminal Rodoviário de Cuiabá, ligando à Rua Tereza Lobo, que também teria sua pavimentação concluída até sua saída na Avenida Miguel Sutil. Funcionaria como um generoso desafogo à Rua Jules Rimet e à chamada rótula da Rodoviária, também em colapso nas horas de pico. Esta obra poderia ser combinada com a construção de um parque urbano histórico-ambiental de 3 hectares, envolvendo a última nascente ainda viva do córrego da Prainha, chamado pelos bororos de Ikuiebô – Córrego das Estrelas, origem de Cuiabá, beneficiando a populosa região do Alvorada e Consil, uma das únicas totalmente desprovidas de área verde na cidade.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 18/08/2009)

terça-feira, 14 de abril de 2009

CRESCER PARA DENTRO

José Antonio Lemos dos Santos

     A uma década de seu tricentenário e vivendo pela primeira vez em sua história condições locais e regionais impulsionadoras, Cuiabá nesse período pode dar um salto significativo em sua qualidade de vida urbana. As condições existem e esse é o tempo mínimo necessário à construção do que seria o maior e melhor presente na festa de seus 300 anos. Para isso é preciso muito dinheiro, é óbvio. Público e privado. Felizmente, porém o dinheiro é apenas um grande problema que, entretanto, se tornará muito maior se adotado como início de uma empreitada deste tipo. Há outras maneiras mais corretas de iniciar.
     Em geral as cidades crescem a partir dos próprios recursos que geram ou que são capazes de atrair. Cuiabá vive um momento positivo, por polarizar uma das regiões mais dinâmicas do planeta, que demanda novos empreendimentos estimuladores do capital local e, principalmente do capital externo. Assim, a cidade hoje tem recursos, notadamente privados, e por isso vem se transformando espontaneamente a olhos vistos. O dinheiro, ou melhor, o capital é atraído pelas suas chances de reprodução e, docilmente, como uma cadelinha amestrada de Nélson Rodrigues, vem lamber as botas das oportunidades que estão surgindo.
     Por onde então começar? Uma cidade é antes de tudo uma grande obra, e nela a primeira coisa que temos a fazer é a sua delimitação física. A delimitação de uma cidade é fundamental desde o tempo dos etruscos que tinham na limitatio a primeira das etapas de sua planificação urbana. No nosso urbanismo atual corresponde à definição do perímetro urbano e a conseqüente macrozona urbana, que uma vez estabelecido em lei específica, deve ser obedecido rigidamente.
     A delimitação de uma cidade tem a ver diretamente com sua densidade populacional e, daí, com os seus custos operacionais e de construção. Quanto mais espalhada uma cidade, menos densa ela é e mais elevados são os custos de sua infra-estrutura de equipamentos e serviços por habitante. As cidades medievais mantinham densidades acima dos 200 habitantes por hectare para manter principalmente sua muralha, seu principal e mais dispendioso equipamento urbano.
     A Carta de Atenas, um dos documentos básicos do urbanismo, recomenda densidades em torno dos 250 habitantes por hectare como o ideal, a expressão do encontro entre as curvas da economicidade e do conforto, ou seja, onde a população pode viver bem com os menores custos urbanos. Cuiabá convive com uma densidade baixíssima, pouco superior a 21 habitantes por hectare, isto é, em tese sua macrozona urbana teria condições de receber 10 vezes mais população do que a que tem hoje, reduzindo 10 vezes seus custos per capita. E quanto menores os custos, evidentemente, maior facilidade para disponibilização dos equipamentos e serviços urbanos. Resumindo, Cuiabá tem hoje, por exemplo, muito mais asfalto, iluminação pública, rede elétrica e de água, escolas, equipamentos de saúde, e seus ônibus e caminhões de lixo rodam muito mais do que seria necessário para atender sua população se estivesse disposta de forma mais compacta.
     Fazer a cidade crescer para dentro, evitando a qualquer custo a ampliação de sua macrozona urbana, é fundamental na busca da qualidade de vida urbana. A lei do perímetro já existe, basta cumpri-la nestes 10 anos. Não é preciso dinheiro adicional, só vontade e determinação do poder público e, principalmente, uma população consciente e disposta a cobrar sua execução. O adensamento urbano, otimizando a infra-estrutura e reduzindo os custos operacionais da cidade seria um ótimo começo na preparação da festa do tricentenário de Cuiabá.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 14/04/2009)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A CONSTRUÇÃO DA CIDADE

José Antonio Lemos dos Santos


     O artigo anterior lembrando o tricentenário de Cuiabá e a necessidade da preparação da cidade desde já para a grande festa, rendeu vários comentários entusiasmados, com um destacando a importância da subsede da Copa 2014, e alguns com dúvidas quanto ao grau de sucesso possível. A desconfiança viria do que alguns chamam de “falta de cultura urbana do povo”, da qualidade dos nossos políticos e da dificuldade de obtenção de recursos públicos para investimentos.
     Não creio que estes argumentos possam reduzir o entusiasmo por uma empreitada comum pelos 300 anos. O importante é que existe uma forte motivação pela cidade, ainda que latente, como confirmada pelos comentários ao artigo, e que pode muito bem convergir em um esforço coletivo desse tipo. As dificuldades alegadas são falsos problemas, tradicionalmente alimentados em todo o Brasil como “álibis” para as mazelas a que sempre são relegadas as coisas públicas.
     Na verdade, o cerne da questão encontra-se na qualidade da nossa gestão urbana, que ainda se encontra nos tempos de “El-Rey” - o dono de tudo, inclusive das cidades, as vilas-reais - aguardando que as coisas aconteçam vindas de cima. Quando vem, bem, quando não vem, amém, repetimos hoje o que diziam os antigos. O ano que abre a última década do terceiro século de existência de Cuiabá marca também os 120 anos da proclamação da República, e apesar de todo esse tempo, até hoje o brasileiro ainda não assumiu como sua a coisa pública, a res-publica. Continua esperando as coisas virem de cima. E o salto na qualidade urbana no Brasil, e não apenas em Cuiabá, só acontecerá quando a cidadania assumir a cidade como de fato sua, não apenas quando da escolha de seus governantes, mas na participação efetiva em todos os momentos de sua gestão, colaborando, fazendo a sua parte, mas também cobrando, exigindo institucionalmente ou não das autoridades a execução das ações estabelecidas em favor do bem-comum.
     Quanto aos recursos, Cuiabá é uma cidade de muitos recursos, muitos ainda inexplorados, como as potencialidades do centro geodésico continental. Uma cidade dinâmica e saudável é um organismo vivo, que cresce e se transforma o tempo todo através dos recursos que gera e que atrai do ambiente econômico externo, bem como através da renovação urbana, que salta aos olhos em Cuiabá, com residências que viram comércio, pequenas lojas que viram centros comerciais, vazios urbanos que viram indústrias, conjuntos residenciais, shoppings, etc. Dessa forma as cidades são construídas e estão em constante construção. Bastaria o controle público firme dessa grande obra para se alcançar padrões urbanos superiores para nossas cidades, evitando os processos de metástase urbana que as afligem e fazem sofrer seus habitantes.
     A atual estrutura produtiva instalada aliada a projetos fundamentais que precisam ser concretizados ou reativados (gasoduto, ferrovia, aeroporto, etc.) assegura a vitalidade de Cuiabá e a continuidade de sua evolução, para o bem ou para mal. O rumo será ditado pela qualidade de sua gestão urbana, nela envolvidos o planejamento, o gerenciamento urbano, e, principalmente a participação pró-ativa da população. Sem esta última, os sistemas de gestão municipais funcionam apenas precariamente, produzindo este quadro local e nacional caótico e trágico. Além da motivação latente, mais do que esperar é preciso participar consciente e positivamente da construção da cidade. O que interessa para nós é que essa grande obra coletiva siga o rumo da melhoria da qualidade de vida urbana e que Cuiabá possa comemorar seu tricentenário não apenas como uma cidade grande, mas como a grande cidade que todos queremos.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 20/01/2009)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

DE 2009 A 2019

José Antonio Lemos dos Santos

     Para Cuiabá o ano de 2009 é especial pois abre a última década de seu terceiro século de existência. Não é pouca coisa para uma cidade que teve que enfrentar inúmeras dificuldades para manter-se viva. Sem nunca ter o apoio nacional nos investimentos necessários à sua promoção ou sobrevivência - a não ser na gente das mais diversas origens que veio para formar o povo cuiabano - primeiro serviu como bastião da coroa portuguesa em meio ao território espanhol de então, depois, vanguarda ocidental na defesa e ocupação do território brasileiro e, hoje, como cidade moderna e dinâmica, centro polarizador e articulador de uma das regiões mais dinâmicas do planeta.
     Qual o presente para uma cidade que completa 300 anos? Como para qualquer pessoa, o principal é que o aniversário reflita um momento saudável, feliz, com amplas perspectivas de realizações com todos os seus. O presente é apenas uma lembrança física desse momento. Para uma cidade isto significa o funcionamento de suas atividades com sustentabilidade, conforto, segurança e, sobretudo, justiça, isto é, a utopia do Urbanismo, uma situação não realizada por qualquer cidade no mundo e a ser buscada constantemente por elas. A década que iniciamos é o que nos resta para a construção dessa utopia em Cuiabá, o melhor presente para seu tricentenário, em 2019.
     Em 1999, faltando 20 anos para os 300 anos da cidade, o IPDU propôs a adoção do tricentenário como foco das ações do desenvolvimento urbano a partir daquela data, lançando a expressão “Cuiabá 300”. Com o mesmo objetivo, o prefeito Wilson Santos, em sua primeira administração concebeu o projeto “Cuiabá 300 Anos”. Tanto agora, como a 10 anos atrás, a proposta não conseguiu sensibilizar a cidadania a ponto de envolvê-la em um grande projeto comum.
     Sabemos que Cuiabá está distante da utopia urbana e 10 anos é um tempo curto para uma empreitada de tal porte, o que deve ser compensado com o envolvimento e a participação de toda a cidadania, a verdadeira dona e construtora da grande obra comum que é a cidade. A motivação coletiva é o primeiro desafio a ser superado e, uma vez conseguido, há quer mantido crescente de forma a explodir na festa de 2019. Um desafio supra-partidário a ser encarado sobretudo pela parte da sociedade civil organizada que já se preocupa com o assunto, e pela prefeitura, que não pode desistir de seu grande projeto, indispensável como instrumento de catalisação e controle de todos os esforços.
     No meio do caminho, a Copa do Mundo de 2014 pode ser o grande exercício desse esforço coletivo por um objetivo comum. Assim também a realização anual da Corrida de Reis, cada ano mais bela e importante no cenário esportivo. Desde já, porém, não se pode pensar a festa de 2019 com o aeroporto do jeito que está, com o gasoduto e a termelétrica desativados, a rodovia Cuiabá-Rondonópolis em pista única e, principalmente, sem os trilhos da ferrovia. A história não perdoará esta geração de cidadãos e de políticos.
     Motivação é matéria prima abundante a ser despertada, exigindo para isso, entretanto, competência, persistência e, principalmente, confiabilidade permanente. Todo mundo quer uma cidade melhor. O problema é que muitos entendem que essa cidade melhor é obrigação dos outros e não sua também. A cidade é uma obra de todos, e mais se aproximará do ideal, quanto mais a cidadania assumi-la como sua, de seu interesse, com obrigações a cumprir e a cobrar junto aos governos, aos demais moradores e a si própria enquanto conjunto de cidadãos.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 13/01/2009)