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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A GRANDE RODOVIA TRANSOCEÂNICA


A propósito do meu artigo postado ontem sobre a BR- 163 veja importante artigo do arquiteto e urbanista, professor Gabriel de Mattos, publicado em 11/10/2002 no Diário de Cuiabá e na Revista do IGHMT Vol. 61 - 2003.  Ele fala na ligação do Atlântico ao Pacífico a partir de Ilhéus, porém passando por Cuiabá e Cáceres.


A GRANDE RODOVIA TRANSOCEÂNICA
Gabriel de Mattos

            Estuda-se nos livros de Geografia que em Mato Grosso situa-se o Centro da América do Sul(na capital, Cuiabá), além do centro do Brasil (no município de Barra do Garças). Bela situação se buscamos aparecer com o nome em certos anuários ou manuais.
            No entanto, um CENTRO é definido como um ponto equidistante de dois outros, por onde se passa na metade do caminho entre os dois extremos. De fato, se não se passa de um extremo a outro, bem... aquele ponto não é um centro, mas algo como um espaço perdido entre um lugar onde as coisas acontecem e um grande vazio.
            É muito engraçado que a população de Mato Grosso, quando deseja ver o mar, não tenha um grande problema: Qual deles?
            Claro, se o Oceano Pacífico está tão distante quanto o Oceano Atlântico, porque não ficar em dúvida?
            É que, na prática, o país ainda não teve a coragem de olhar para dentro, em todos os aspectos. Ainda ficamos olhando para o mar, vendo a África e achando que ali está o primeiro mundo, a Europa...
            O brasilianista Mathew Shirts, há alguns anos atrás, escreveu uma crônica no Estadão, explicando que seu país natal, os Estados Unidos, é de fato uma grande rodovia, uma extensa rodovia ligando os oceanos Atlântico e Pacífico. E que isso é que fez daquele país um laboratório de descobertas, pois uma boa ideia que nascesse no meio dela (ou nas pontas) pegava a rodovia e ia testar se aquele negócio dava certo em outro lugar. E mesmo se alguém do lugar de origem menosprezava ou censurava a ideia, pegava-se a estrada e ia-se tentar em outro lugar.
            Exemplos? O cinema nasceu na costa leste, logo controlado pela figura carismática de Thomas Edison, que no entanto não pensava sequer no cinema de média metragem. Apertados no leste? O cinema pegou a rodovia e foi até uma cidadezinha lá no oeste, uma certa Hollywood. O resto é história.
            Boas idéias como uma lojinha que funcionava das 7 da noite às 11, quando todo mundo parava às 6 da tarde? A seven-eleven foi uma das primeiras franquias a ganhar a rodovia. Um hotel com o mesmo padrão de uma ponta a outra? A rede Hollyday Inn usou o marketing do conhecido para também ocupar a beira da rodovia. E, chegando a um exemplo indiscutível: hamburguers sempre iguais durante toda a viagem? McDonalds de oceano a oceano.
            Sem falar nas dezenas de concorrentes desses pioneiros, definindo um cenário de efervescência criativa interna, que moldou um padrão que resiste na maioria dos outros países. Chegando a um panorama de globalização.
            E é assim que vejo uma grande Rodovia, uma grande rodovia cruzando o centro da América do Sul. Não um caminho asfaltado, mal cuidado, sem acostamento, não. Uma Grande Rodovia, três pistas de Oeste para Leste, três outras de Leste para Oeste, espaços generosos aos lados, onde a criatividade brasileira vai implantar suas idéias.
Uma estrada que nasce lá na Bahia, no porto de Ilhéus, cruza o norte das Minas Gerais, entra em Goiás, passa no sonho modernista que é Brasília; Goiás de novo e entramos em Mato Grosso. Barra do Garças, Primavera do Leste, Cuiabá, Cáceres; chegando à Bolívia, cruzando a Cordilheira dos Andes. Como nós não queremos pouco: grandes viadutos e/ou túneis sobre e sob, entre as montanhas. E ali, próximo ao maior de todos, o Pacífico, uma abertura, um entroncamento: ao norte o Peru, porto de Arequipa; ao sul o Chile, porto de Arica.
            Não se trata simplesmente de “saída para o Pacífico”, significa ligar o Continente, fisicamente, de fato, apesar e acima de tratados.
            Claro que é uma idéia que dá medo. Não é algo que se possa confiavelmente prever os efeitos. É claro que algumas reações virão de quem tem medo de crescer, como os economistas que tem medo do consumo (entenda-se: acesso de todos aos bens produzidos), ou dos que preferem disputar um espaço exíguo do qual já ocupam lugares de destaque a confiar numa genuína lei de mercado que tanto pregam e tanto temem, a qual pode ampliar o espaço a ser ocupado. Não é para quem acredita em monopólios, em dominar e controlar; é muita coisa diferente que está envolvida.
            E também trata-se de uma Globalização de fato, não mera abertura para importar badulaques de quem, em troca, taxa tudo que nós produzimos. É uma via de comércio, a ser ocupada por “sacoleiros” se as leis não acompanharem a aceleração da economia. Um desafio para quem deseja criar o seu próprio negócio: está difícil aqui, vamos para mais longe, a rodovia permite, a rodovia é a perspectiva.
            E é coisa para já, para os novos governos de 2003. Para começar uma conversa entre Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia, Goiás e Distrito Federal. Um papo com o Chile, já começado há uns anos atrás, e negociações com Peru e Bolívia.
            Um dos efeitos que se pode prever (e que Mato Grosso já pode começar a trabalhar) é o Eixo Norte-Sul, passando por Cuiabá e chegando ao norte a Sinop e Santarém e ao sul a Mato Grosso do Sul e outros países do Mercosul. Um continente integrado, um caminho para o desenvolvimento. Mercoeste, Merconorte.
            É valido lembrar que a libertação das colônias espanholas, no século XIX,visava criar os Estados Unidos da América do Sul? Será que alguns líderes políticos atuais estariam interessados em resgatar um sonho, em entrar para a História?  A História do Século XXI?
Isso é coisa para estadista, para quem busca dividir a História em antes e depois de sua atuação, por merecimento e produção, como Getúlio e Juscelino, e não para quem joga com o certinho, sem sobressaltos, buscando o respeito dos tolos, dizendo que não fez mais porque era impossível mesmo (que se vai fazer?...).
Não é o futuro, é o Presente que está aí: o novo século é uma estrada aberta.
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Gabriel de Mattos é arquiteto e urbanista, professor universitário, Mestre em Educação, escritor e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. Este artigo foi publicado no jornal Diário de Cuiabá de 11/10/2002.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

MERCOSUL EM CUIABÁ

José Antonio Lemos dos Santos

     Quase não foi percebida a notícia da reunião do dia 8 passado no Ministério das Relações Exteriores, do governador Silval Barbosa e o senador Pedro Taques com o embaixador José Ferreira Simões tratando da viabilização da “Cúpula do Mercosul 2012” em Cuiabá. Ótima iniciativa, corajosa, de larga visão pública, compatível com aquilo que já é Mato Grosso no contexto nacional e em especial com a posição mágica centro-continental de Cuiabá que hoje pode e deve reivindicar eventos desse nível. Mesmo que não consiga o intento, importante é não fugir às boas lutas com medo de perdê-las. Assim foi na disputa por uma das sedes da Copa. Quase impossível, mas vitoriosa. Pena não ser sempre assim, disputando todas as chances. Lamentável, mas a cultura política tradicional não é de entrar em bolas divididas; espera que outros entrem, torce contra e, se tudo der certo, aí corre para sair na foto.
     Dentre as muitas potencialidades de Cuiabá, uma das mais ricas em oportunidades é sua localização central do continente sul-americano, identificada pelo Marechal Rondon com o marco do Centro Geodésico da América do Sul. Para aqueles que ainda não sabem, o Marechal Rondon foi um dos homens mais admirados do planeta. Só para dar uma idéia de sua dimensão, foi indicado ao Nobel da Paz por Einstein. Só. Não recebeu o prêmio, pois faleceu logo após a indicação, e o Nobel até então não podia ser póstumo. É indiscutível o privilégio das posições centrais, do futebol ao jogo de xadrez, assim como na geopolítica. Além do valor simbólico da posição central exata e das interferências místicas favoráveis que muita gente boa acredita acompanhar tais posições, existem também vantagens mais pragmáticas e objetivas. Todas elas devem ser aproveitadas ao máximo pelo governantes, pois significam emprego, renda e qualidade de vida.
     Iniciativas com este tipo de visão não podem passar despercebidas, merecem registro e elogios. Como seria diferente se esta posição central no continente fosse um atributo de Goiânia, Campo Grande, e o futuro. Mesmo sem o prestígio internacional de um Rondon Curitiba, ou de qualquer uma das poucas cidades do país com estruturas institucionais de inteligência urbana para pensar o presente sacramentando em tijolo e concreto sua posição estratégica, estariam explorando ao máximo essa extraordinária riqueza. Se fosse assim, muitos de nós daqui de Cuiabá já teríamos ido lá visitar um centro de cultura continental ou uma festa popular de integração dos povos do continente, deixado nosso dinheirinho com eles e voltado fazendo propaganda da cidade. Seus aeroportos seriam hubs continentais e promoveriam campanhas de atração de empresas em função das vantagens comparativas do lugar central. Se Curitiba fosse o centro da América do Sul, ela já teria encontrado um jeito de ser a capital do Mercosul.
     São sempre bem vindas as raras iniciativas que envolvam Cuiabá em suas dimensões plenas. Com o risco de esquecer algumas lembro de Dante com a 1ª. Festa Sulatina e a luta pela internacionalização do aeroporto; Vuolo e Iglésias com o projeto da Ferronorte como grande sistema ferroviário centro-continental; os irmãos Lacerda e a FIEMT com a saída para o Pacífico; Maggi e Bonilha com a Copa do Pantanal; Maggi com sua expedição ao Chile e a decisão de transformar a antiga sede da Assembléia Legislativa em um centro cultural sul-americano, abortada pela invasão do espaço pelos vereadores da época. Agora são Pedro Taques e Silval propondo a “Cúpula do Mercosul 2012” em Cuiabá. Isso é puxar a cidade para cima, é promoção para Mato Grosso, marketing urbano, emprego, renda e qualidade de vida para nossa gente.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá, Midianews, Hipernotícias, Turma do Êpa e Página do Enock em 14/02/2012)