José Antonio Lemos dos Santos
A projetada avenida do Barbado destaca-se entre as obras de maior importância para Cuiabá. De acordo com a Lei 3870/99 - aparentemente desconhecida pelas autoridades, mas que há 10 anos define legalmente o sistema viário de Cuiabá - a avenida do Barbado integra a Via Estrutural Circular Norte (Veci-N), projetada para ligar a Avenida Helder Cândia (MT-010) à Ponte Sérgio Mota, atravessando a Avenida Rubens de Mendonça, seguindo pelo córrego do Barbado e pelas avenidas Brasília e Tancredo Neves, atravessando também a Fernando Correia. Após a Ponte Sérgio Mota, segue em Várzea-Grande pela Avenida Dom Orlando Chaves até a Ponte Nova, atravessando ortogonalmente a Avenida da FEB, chegando a Avenida Miguel Sutil de novo em Cuiabá, formando uma grande voluta viária integradora de toda a conurbação. As travessias citadas hoje já exigem viadutos ou trincheiras como alternativa ao iminente colapso viário e a avenida e suas interseções independem da Copa, mas tornam-se muito mais necessárias com ela. A Copa é a chance de tornar realidade essa grande via estrutural, se não totalmente, ao menos no trecho que acompanha o córrego – que chamamos de avenida do Barbado - e que será um poderoso auxílio à Miguel Sutil, em estado crítico de circulação, e linha de chegada da Avenida das Torres, hoje em construção e também projetada na Lei 3870/99.
No segundo governo municipal de Dante de Oliveira, em 92, havia um projeto de canalização do córrego do Barbado no estilo então tradicional, isto é, com retificações e concretagem do canal, e adição de pistas laterais coladas, tal como na atual Avenida 8 de Abril, que no passado já foi um córrego chamado Mané Pinto. Eu estava na superintendência do IPDU e com o então secretário da recém criada SMADES, arquiteto José Afonso Portocarrero e o diretor de Projetos Especiais, arquiteto Ademar Poppi, ponderamos ao prefeito sobre o uso de uma metodologia mais atualizada para a urbanização daquele importante córrego, levando o conceito da “avenida-parque” que começava a ser discutido na literatura especializada e em alguns poucos projetos pioneiros no Brasil. O prefeito se entusiasmou.
O cerne da questão era preservar ao máximo o córrego em seu leito natural, mantendo seus padrões de velocidade das águas e permeabilidade do solo ainda que abaixo da Fernando Correia ele já fosse todo canalizado, e manter também ao máximo sua vegetação ciliar, ainda que em muitos pontos tivesse que ser recomposta. Respeitando suas faixas de preservação permanente, foram colocadas duas pistas laterais com duas faixas de rolamento e uma de estacionamento de cada lado, com iluminação e calçada. Com a mesma verba do projeto original seriam feitas ainda mini-estações de esgoto segundo as micro-bacias, e implantados play-grounds, pista de caminhada e equipamentos esportivos em áreas mais degradadas. Resultaria uma avenida com cerca de 5,6 Km de extensão e, de lambuja, um parque linear urbano com cerca de 34 ha: a “córgo-way” cuiabana, simpático apelido então dado pelos técnicos.
Dante chegou a iniciá-la entre a Archimedes Lima e a Avenida dos Trabalhadores, que hoje tem o seu nome. Mas a obra parou e nada mais foi feito até hoje, mesmo que tenha entrado no discurso da campanha do primeiro mandato do atual prefeito e seja cada vez mais importante para a cidade. Ainda dá para ser feita, bastando olhar nas imagens aéreas para ver que a própria natureza parece pedir pela realização da obra. Por estranho que pareça, ouvi dizer que Wilson Santos teria enfrentado restrições de ordem ambiental para a implantação dessa que poderia ter sido uma das primeiras avenidas-parque no Brasil.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 29/09/09)
José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário aposentado . Troféu "João Thimóteo"-1991-IAB/MT/ "Diploma do Mérito IAB 80 Anos"/ Troféu "O Construtor" - Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT/ Comenda do Legislativo Cuiabano 2018/ Ordem do Mérito Cuiabá 300 Anos da Câmara Municipal de Cuiabá 2019.
"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)
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terça-feira, 29 de setembro de 2009
AVENIDA DO BARBADO
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
OLHOS DE TIGRE
José Antonio Lemos dos Santos
Depois de muitos anos, neste mês vi ser citada por duas vezes, em ocasiões totalmente diversas, a expressão “olhos de tigre”, do filme já antigo, mas sempre bom, “Rocky, o lutador”. A primeira com o meu filho brincando com um dos netos, e outra com o prefeito Wilson Santos, na posse do novo titular da Secretaria do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Cuiabá (SMADES), Archimedes Lima Neto. Assistindo no Verdão ao ótimo Operário x Mixto do último domingo, deu para ver que apenas um dos times – e não foi o meu - entrou em campo com esse olhar felino imortalizado pelo cinema e indispensável ao sucesso e aos vencedores.
Ao empossar o novo secretário o prefeito lembrou que a SMADES é a secretaria mais complexa do município, pois trata de uma infinidade de temas que vão desde o pequeno camelô ao grande shopping, do barraco ao condomínio horizontal ou vertical, do Aquário ao Horto Florestal, da ordenação e controle do uso do solo urbano, à fiscalização do cumprimento dos códigos de obras, posturas e meio ambiente, passando ainda pela proteção ao patrimônio histórico edificado. Isso, acrescento, em uma Macro-Zona Urbana de 25.200 hectares, ou seja, 252 Km², altamente dinâmica e em plena renovação urbana, com uma população residente próxima de 600 mil habitantes, 150 mil edificações, mais de 40 mil lotes desocupados e a responsabilidade de zelar por dois rios e diversos córregos, sábia contrapartida da natureza às elevadas temperaturas médias diárias com que contemplou Cuiabá.
No próprio nome a SMADES traz gravado seus objetivos-síntese, quais sejam, o meio ambiente e o desenvolvimento urbano, duas faces de uma mesma moeda, os dois principais termos da equação urbana contemporânea, apenas aparentemente contraditórios, mas que são parte indissolúvel do mesmo objeto que é a cidade, cuja qualidade de vida depende fundamentalmente dessa difícil e permanente tarefa de harmonização. Em suma, além de algumas tarefas específicas, a SMADES tem a responsabilidade de cuidar da cidade como um todo, de assegurar que a grande obra urbana se dê de forma coerente e tecnicamente correta, visando sempre como resultado a cidade confortável, segura, sustentável e, sobretudo, justa, desejada por seus cidadãos.
Nos ombros da SMADES pesa também a responsabilidade de ser o instrumento de sucessivas gerações de um povo que, muito antes da grande e bem-vinda onda verde tomar conta do mundo, já havia estabelecido para sua cidade o apelido de Cidade Verde, como paradigma urbano a ser construído. Em torno de tal modelo foi criado um complexo de usos e costumes que ia da arquitetura, vestuário, alimentação e toda uma forma de viver absolutamente compatível com as condições ambientais locais, ecologicamente corretos antes da Ecologia, criando uma composição climática única, que o poeta Carmindo de Campos cantou como “aquele calor sadio, às vezes melhor, muito melhor que o frio”.
O novo secretário da SMADES, engenheiro civil e mestre na área ambiental, que exercita a militância ambiental há muito tempo, já tendo também exercido com competência diversas funções na própria SMADES, conhecendo-a como estilingue e vidraça, mostra-se preparado, técnica e politicamente para assumir esse imenso desafio. Mais que isso, demonstra compromisso pessoal com a cidade, a empatia indispensável a quem quer de fato ajudar a construí-la, e os “olhos de tigre” buscados pelo prefeito Wilson Santos para assessorá-lo no gerenciamento da grande obra quase tricentenária que é Cuiabá.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 12/02/09)
Depois de muitos anos, neste mês vi ser citada por duas vezes, em ocasiões totalmente diversas, a expressão “olhos de tigre”, do filme já antigo, mas sempre bom, “Rocky, o lutador”. A primeira com o meu filho brincando com um dos netos, e outra com o prefeito Wilson Santos, na posse do novo titular da Secretaria do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Cuiabá (SMADES), Archimedes Lima Neto. Assistindo no Verdão ao ótimo Operário x Mixto do último domingo, deu para ver que apenas um dos times – e não foi o meu - entrou em campo com esse olhar felino imortalizado pelo cinema e indispensável ao sucesso e aos vencedores.
Ao empossar o novo secretário o prefeito lembrou que a SMADES é a secretaria mais complexa do município, pois trata de uma infinidade de temas que vão desde o pequeno camelô ao grande shopping, do barraco ao condomínio horizontal ou vertical, do Aquário ao Horto Florestal, da ordenação e controle do uso do solo urbano, à fiscalização do cumprimento dos códigos de obras, posturas e meio ambiente, passando ainda pela proteção ao patrimônio histórico edificado. Isso, acrescento, em uma Macro-Zona Urbana de 25.200 hectares, ou seja, 252 Km², altamente dinâmica e em plena renovação urbana, com uma população residente próxima de 600 mil habitantes, 150 mil edificações, mais de 40 mil lotes desocupados e a responsabilidade de zelar por dois rios e diversos córregos, sábia contrapartida da natureza às elevadas temperaturas médias diárias com que contemplou Cuiabá.
No próprio nome a SMADES traz gravado seus objetivos-síntese, quais sejam, o meio ambiente e o desenvolvimento urbano, duas faces de uma mesma moeda, os dois principais termos da equação urbana contemporânea, apenas aparentemente contraditórios, mas que são parte indissolúvel do mesmo objeto que é a cidade, cuja qualidade de vida depende fundamentalmente dessa difícil e permanente tarefa de harmonização. Em suma, além de algumas tarefas específicas, a SMADES tem a responsabilidade de cuidar da cidade como um todo, de assegurar que a grande obra urbana se dê de forma coerente e tecnicamente correta, visando sempre como resultado a cidade confortável, segura, sustentável e, sobretudo, justa, desejada por seus cidadãos.
Nos ombros da SMADES pesa também a responsabilidade de ser o instrumento de sucessivas gerações de um povo que, muito antes da grande e bem-vinda onda verde tomar conta do mundo, já havia estabelecido para sua cidade o apelido de Cidade Verde, como paradigma urbano a ser construído. Em torno de tal modelo foi criado um complexo de usos e costumes que ia da arquitetura, vestuário, alimentação e toda uma forma de viver absolutamente compatível com as condições ambientais locais, ecologicamente corretos antes da Ecologia, criando uma composição climática única, que o poeta Carmindo de Campos cantou como “aquele calor sadio, às vezes melhor, muito melhor que o frio”.
O novo secretário da SMADES, engenheiro civil e mestre na área ambiental, que exercita a militância ambiental há muito tempo, já tendo também exercido com competência diversas funções na própria SMADES, conhecendo-a como estilingue e vidraça, mostra-se preparado, técnica e politicamente para assumir esse imenso desafio. Mais que isso, demonstra compromisso pessoal com a cidade, a empatia indispensável a quem quer de fato ajudar a construí-la, e os “olhos de tigre” buscados pelo prefeito Wilson Santos para assessorá-lo no gerenciamento da grande obra quase tricentenária que é Cuiabá.
(Publicado pelo Diário de Cuiabá em 12/02/09)
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