"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



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segunda-feira, 22 de julho de 2019

O PRÍNCIPE DA MINHA RUA

Alexis Romonov (O Cruzeiro)

José Antonio Lemos dos Santos
     De novo sua história e de sua suposta família está na tv e na internet em mais uma versão que se junta a tantas outras. Contudo, para mim sua história verdadeira é a que ele contou a vida inteira. Minha primeira referência a ele foi em uma reportagem na antiga revista O Cruzeiro, a mais importante revista brasileira na época, acho que em fins da década de 50, e mostrava um encontro dele com uma suposta irmã em Poços de Caldas, a qual depois lhe deixaria ao morrer uma relíquia pessoal, sua balalaica. Lembro ainda de uma reportagem de capa na Manchete, revista que substituiu a O Cruzeiro como a mais importante do país e, por fim, lembro também dele no programa do Jô Soares, isso tudo sem contar as diversas matérias nos jornais locais e na internet de um modo geral. Basta dar uma busca no Google.
     Falo de Alexis Nicolau Romonov, ou Romanov, antigo morador aqui da minha rua, mecânico falecido em 1996, atropelado. A história que sempre repetiu sobre sua vida despertou interesse geral por décadas, talvez pela coerência dos fatos, personagens, datas e locais que usava com convicção demonstrando no mínimo grande conhecimento de tudo que se passou no começo do século passado na Rússia, ainda que não levasse a crer necessariamente ter sido ele um dos protagonistas daquela trágica história. De um modo geral tudo que ele contava coincidia com a história oficial, menos em um ponto fundamental: ele devia estar morto desde 16 de julho de 1918. Então, na semana passada fez 101 anos de sua primeira morte, por fuzilamento junto com toda a família imperial russa, em episódio histórico incontroverso à época. Todos haviam morrido, impensável que alguém tivesse sobrevivido.
     Conforme aqueles que o entrevistaram, Alexis contestava a história oficial de bate-pronto, sem pestanejar, na bucha: “Se eu tivesse morrido, não estaria aqui.” E complementava que seu corpo e de sua irmã Anastácia jamais seriam encontrados junto aos da família imperial, porque eles haviam escapado graças à intervenções  não muito claras, dentre as quais de personagens como Rasputin, figura contestada mas de grande proeminência na corte russa de então, que teria inclusive sido adotado como guru e protetor pela da família imperial, em especial por proporcionar melhoras na saúde do príncipe Alexis, tido pela medicina da época como hemofílico, diagnóstico contestado pelo polêmico curandeiro. Como a morte de toda a família imperial era incontestável pela história oficial, a versão do mecânico cuiabano não poderia ir além de uma fantasia, como as tantas outras contadas por supostos pretendentes ao trono russo pelo mundo afora.   
     Mesmo descrente em relação ao seu protagonismo na história russa, a história do mecânico Alexis nunca me saiu da cabeça. Até que em 1991 um fato inesperado mudou minha forma de ver o assunto. Com a queda do regime soviético foram descobertas as ossadas da família imperial, revelando enorme surpresa: a ausência dos ossos de Alexis e Anastácia. Aí mudou tudo. A certeza histórica oficial irrecorrível e incontestável esboroou remetendo-me de imediato à afirmação do mecânico de Cuiabá de que seu corpo e de sua irmã Anastácia jamais seriam encontrados junto aos da família imperial.
     Histórias desta grandeza envolvem imensos e poderosos interesses e logo achariam os corpos dos jovens em outros lugares, providenciaram testes de DNA, inclusive com o Alexis cuiabano, recompondo assim a história oficial abalada. Sem mais delongas, com meus respeitos à memória de Alexis e à sua família cuiabana, mesmo que Alexis Nicolau Romonov jamais seja reconhecido como um Romanov, ou mesmo que jamais o tenha sido, para mim ele será sempre o príncipe da minha rua.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

VIVE LA RÉPUBLIQUE!


Foto Divulgação
José Antonio Lemos dos Santos
     A Copa do Mundo deste ano não havia me entusiasmado. Até gostei da seleção brasileira, torci, mas quase burocraticamente. Talvez a Copa do Pantanal, com seu sucesso, seus problemas e suas polêmicas nos tenha supitado com o assunto. No entanto a importante vitória do Cuiabá diante do Joinville sábado passado na Arena Pantanal, renovou o interesse e novas luzes iluminaram a Copa destacando alguns aspectos que valem refletir aqui na nossa pátria mãe gentil.
     A conquista da França agora na Rússia não se deu por acaso como um “dom natural” dos franceses para o futebol, ainda mais sendo o futebol,  chamado “esporte bretão” na locução dos antigos “speakers” brasileiros, um esporte inventado pela gente do outro lado da Mancha, pelos quais o francês não nutre grande simpatia. A conquista de 2018 é resultante de uma política de estado, deflagrada em fins dos anos 70 após três eliminações sucessivas do “scratch” gaulês. O governo francês criou um instituto para o desenvolvimento específico do futebol, com centros de treinamento nas periferias das maiores cidades. Política séria, de longo prazo, sem pensar nas próximas eleições, mas no bem do povo francês. De lá saíram para a seleção  Pavard, Varane, Umtiti, Matuidi, Pogba, Giraud e Mbappé. Que tal?
Foto: Daniel P. Lemos dos Santos
     Uma política assim parte da visão do esporte como uma das formas mais sublimes de expressão da vida, todos os esportes, mas em especial o futebol, pela paixão que desperta não só entre brasileiros, mas, quer queiram quer não, no mundo inteiro, mesmo nas nações mais desenvolvidas. Nunca vi a Champs-Élyssés cheia daquele jeito como vi no domingo. O esporte tratado como política séria, catalisadora da juventude agregando-lhe ao mesmo tempo educação, saúde, inclusão social e racial, e uma alternativa digna de futuro em um dos maiores e mais promissores mercados de trabalho no mundo, neutralizando as alternativas das drogas, da violência e da exclusão. Em troca a sociedade recebe benefícios imediatos em segurança e saúde públicas, e, mais importante, garante futuras gerações de cidadãos com melhores níveis de vida e preparadas para conduzir seus próprios destinos.
     Mesmo sem muitas informações de lá, na Croácia também teve algo semelhante quando nos idos de 90 seu primeiro presidente disse que o esporte seria a primeira coisa capaz de levantar um país depois de uma guerra. Terceiro lugar na Copa de 98 e agora vice-campeão mundial. Um país quase com a mesma população de Mato Grosso e recém destruído pelas guerras. O Brasil e Mato Grosso deveriam seguir o mesmo caminho. Um dos objetivos do Brasil ter investido na Copa de 2014 era esse, ao menos nos discursos. Mas ficou nos discursos. O atual governador de Mato Grosso chegou a prometer em campanha a construção de quatro centros de formação de atletas, com registro em cartório. Também ficou na promessa, mesmo com a Copa tendo deixado a Arena Pantanal, que poderia ter se transformado na cabeça de um sistema estadual de formação de atletas, complementado pelos COT’s inacabados e as diversas iniciativas existentes pelo interior do estado. David Moura, Felipe Lima, Ana Sátila puxariam como exemplos um programa desses.
     Mas o melhor desta Copa da Rússia foi o atacante campeão Griezmann concluir sua entrevista após o jogo final bradando “Vive la République!” O técnico fez o mesmo. Entendi que para eles a República, a res-publica, o bem comum de todos os franceses é mais importante que a própria França. Ou melhor, a França é a República.  Esta é a grande diferença para um país onde o que vale são interesses pessoais ou de grupos em detrimento do bem comum, de uma República que não significa nada e que precisa ser reproclamada com urgência. Viva os campeões!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

2018, A ENCRUZILHADA

Resultado de imagem para encruzilhada
pipocasalpimenta.blogspot.com
José Antonio Lemos dos Santos
     Os anos geralmente chegam trazendo ótimas ou no mínimo boas expectativas de futuro. 2018, contudo, chega com a cara um pouco diferente prevendo alguns gargalos sérios para o mundo e principalmente para o Brasil. O mundo com a volta da perspectiva de um confronto nuclear de terríveis consequências para a humanidade, já o Brasil com dois eventos desafiadores para suas instituições nacionais que terão que dar provas de grande maturidade ou, no mínimo, de um grande esforço de amadurecimento, indispensável à consolidação do país como nação civilizada e democrática.
     O risco do confronto nuclear não seria de atemorizar tanto, ainda que seja muito grande o risco da proximidade entre botões nucleares e dedos guiados por cabeças de sanidade duvidosa. Botões são antigos, hoje talvez baste uma tecla “enter” para dar início a um apocalipse pós-moderno. Não haveria o que temer como prognosticou Mao Tsé-Tung na primeira Guerra Fria, diante da ameaça dos EUA e Rússia se engalfinharem com suas bombas nucleares e destruírem o mundo junto. Nessa época eu era adolescente e o medo que pairava no planeta era real quando Mao chamou os “machões” nucleares de “tigres de papel”. Na época a maioria não entendeu, nem eu. Só entendi agora com os poderosos EUA sendo desafiados pela Coreia do Norte, esta naturalmente também montada em um arsenal, ou digamos, em um estoque não tão grande assim de mísseis atômicos. Bomba atômica só é poderosa contra adversários que não as têm. Quando o outro também tem, aí a história é outra. O arrogante nuclear coloca o rabo entre as pernas e a perspectiva da hecatombe se reduz a um “galinhaço” acovardado como o que estamos assistindo. Ainda bem, pois assim temos assegurados os 365 dias de 2018 para cuidarmos de nossos próprios gargalos.
   Já no Brasil os riscos são mais iminentes. Ainda em janeiro haverá o julgamento em segunda instância do ex-presidente Lula, que poderá ou não liberar sua candidatura à presidência da República, em pleito marcado para outubro próximo. São dois momentos que exigirão não só das instituições nacionais, mas de todo povo brasileiro grande maturidade cívica e elevada consciência democrática e republicana para que sejam viabilizadas as decisões constitucionalmente corretas sendo aceitos civilizadamente quaisquer que sejam os resultados advindos dos tribunais e das urnas. A radicalização de posições no qual o país se embrenha pode leva-lo ao caos, isto é, nem para um lado nem para outro, mas para sua destruição enquanto nação. Uma encruzilhada.
     Para Mato Grosso renova-se o grande desafio das eleições majoritárias para governador e senador, bem como as ardilosas eleições proporcionais que exigem especial atenção do eleitor para não votar em um bom candidato e eleger um outro indesejável, ajudando assim a reproduzir este nefasto quadro político que envergonha a nação e sacrifica seu povo. Quanto a Cuiabá a agenda deveria ser a preparação para o seu Tricentenário com projetos que permitam à cidade alcançar melhores padrões urbanos e maior qualidade de vida. O que resta, porém é concluir as obras da Copa, em especial o aeroporto, as trincheiras, os COT’s e a Arena Pantanal, mesmo sem o VLT, e outras obras também inconclusas tais como o novo Aquário Municipal, o novo Pronto Socorro Municipal, a UPA do Verdão, os hospitais Júlio Muller e o Regional da UFMT, as duplicações para Guia, Chapada e São Vicente. Seria um bom pacote. Aproveitando o ano eleitoral, o grande desafio será a viabilização de uma cobrança forte e efetiva da cidadania organizada pois o tempo é curto e os órgãos responsáveis lentos, mesmo para a conclusão de obras que já deviam estar concluídas a muito tempo.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A COPA E O VOO INTERNACIONAL

amaszonas.com

José Antonio Lemos dos Santos

     A Copa 2014 passou e já virou história. Deu Alemanha, merecidamente. Pena que a seleção brasileira tenha sido um fracasso. Ruim, não por ter perdido, mas por não ter merecido ganhar. O brasileiro não merecia que um de seus mais queridos patrimônios, sua seleção de futebol, fosse tão malpreparada como nesta Copa em seu próprio país. Era para redimir 50 e redimiu para pior! Mas a seleção reflete muito bem o nosso país, rico, cheio de potenciais, clima maravilhoso, sem terremotos ou vulcões, uma gente boa, ordeira e trabalhadora, mas com dirigentes que nunca estão à altura, em todos os poderes e instâncias. E não é de hoje. O sucesso que alcançamos em algumas áreas é fruto do trabalho, criatividade e persistência do povo. E assim nossas seleções com seus jogadores. Desta vez, porém, os dirigentes chegaram ao inimaginável expondo nossos craques e o povo torcedor a uma humilhação sem precedentes, em sua própria casa.
     Contudo, para Cuiabá a Copa foi um sucesso. Por formação profissional trabalho com o futuro e já devíamos estar pensando no Tricentenário. Mas como cuiabano gosto de parar um pouco para saborear o presente em algumas vitórias, em especial estas que vieram apesar de tantas oposições, previsões negativas, ciladas, etc. E os resultados positivos continuam aparecendo. Semana passada um importante instituto publicou o resultado de uma pesquisa feita em Cuiabá com moradores e turistas da Copa do Pantanal na qual 91,6% dos visitantes aprovaram a Copa em Cuiabá e recomendariam Mato Grosso como destino turístico. Para 86,3% dos moradores a Copa foi fundamental para as transformações na cidade e 73% avaliaram positivamente estas transformações. Ainda segundo a pesquisa, 72,5% dos cuiabanos acham que Cuiabá não passou vergonha, como temiam antes da realização dos jogos.
     Cuiabá também ganhou a simpática propaganda da Skol contrapondo os 40 graus acima e abaixo de zero da cidade e da Rússia, cuja seleção e seus torcedores vieram para uma das partidas da Copa do Pantanal. Lembra aquela música do Skank da década de 90 que falava em “como não sentir calor em Cuiabá”. Bem aproveitadas essas citações se transformam em emprego e renda. Junto a outros potenciais turísticos, o calor é um diferencial que Cuiabá e o estado podem oferecer aqueles bilhões de pessoas do planeta que vivem no frio extremo e têm vontade de conhecer as condições de clima opostas às suas. Assim como nós buscamos conhecer as belezas da neve e do frio intensos. 
     Na contramão, vem a má notícia da suspensão da linha Cuiabá - Santa Cruz de la Sierra, criada para a Copa, mas com planejamento de continuidade. A suspensão é atribuída à Receita Federal, porém prefiro apostar no desleixo e pouco caso de nossas autoridades, e isso vale para todos, desde os prefeitos e vereadores da Grande Cuiabá, governador, deputados estaduais e federais, senadores e todos os seus subalternos, todos muito bem remunerados para zelar pelas coisas do interesse de nossa gente. Não podiam deixar chegar a esse ponto. Por sua posição centro-continental, Cuiabá tem vocação para ser um dos principais hubs aeroviários da América do Sul, outro diferencial que pode significar empregos e renda. Esse voo internacional entrava como um dos principais legados da Copa do Pantanal e Mato Grosso não pode perdê-lo. Suspenso aqui, a linha iria para Porto Velho, assim como já perdemos a mesma linha para Campo Grande, na década de 90. Será que também querem desmoralizar esse grande potencial da cidade, como fizeram com o gás que chega a Cuiabá, mas poucos usam por falta de credibilidade? Assim como os dirigentes do nosso futebol conseguiram fazer com nossa seleção? Vamos perder de novo esse importante voo? 
(Publicado em 15/07/2014 pelo Diário de Cuiabá, ... )

Para quem ainda não viu a propaganda da Skol veja o link:

https://www.youtube.com/watch?v=z12SRlH-RPQ