"FIRMITAS, UTILITAS et VENUSTAS" (Tríade Vitruviana)



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O LEGADO AVANÇA

 José Antonio Lemos dos Santos

     Retomo a temática do artigo de duas semanas atrás dedicado às tantas coisas boas que aconteciam naquele momento. Puxadas pela Copa as coisas boas continuam acontecendo e não podem passar despercebidas, mormente em um contexto em que até pouco tempo os bons acontecimentos eram raros, se é que existiam, em especial na área pública. Desta vez começo com a notícia da reforma dos relógios e sinos da Matriz de Cuiabá, em convênio do estado com a mitra arquidiocesana.
RepórterMT

     Uma das mais fortes impressões de uma cidade levada pelo turista é a forma como é tratado seu núcleo original, seu centro histórico, em geral marcado no Brasil por uma praça central e uma igreja, aqui a Basílica do Bom Jesus de Cuiabá. Ao turista esse tratamento reflete como cada cidade cuida de sua relação com Deus e consigo mesma, e, se for de fato assim, estamos muito mal. Não só os relógios e os sinos estragados, cada mostrador parado de um jeito, mas a própria fachada da igreja suja, com rebocos caindo, inclusive expondo perigosamente a ferragem estrutural no campanário.
     Lembro, que na administração José Meirelles foi feito trabalho semelhante com apoio da colônia sírio-libanesa doadora dos relógios originais. Porém, tão logo consertados os relógios voltaram a ter problemas, pois necessitam de manutenção quase que diária, assunto que agora espero tenha sido equacionado. É um dos principais cartões postais da cidade e merece a providência. Em especial também porque se trata da casa do Bom Jesus de Cuiabá aquele que, como repito sempre, de fato trouxe a Copa para Cuiabá de forma surpreendente, num miraculoso choque de adrenalina em nós cuiabanos para que cuidemos melhor de sua cidade, preparando-a dignamente para o Tricentenário e seu extraordinário futuro.
     Na mesma linha também a prefeitura resolveu revitalizar a Praça Alencastro, inclusive sua fonte luminosa, um conjunto que forma outro cartão postal da cidade junto com o Palácio Alencastro. Tanto no caso dos relógios da matriz quanto da fonte luminosa, são situações nas quais, se tudo estiver arrumadinho e funcionando bem, poderão até nem ser notadas, porém, se estiverem neste estado de abandono e maltrato em que se encontram serão inesquecíveis aos turistas transformando-se em poderosa propaganda contra a cidade, afinal uma cidade que não respeita seu centro histórico, seu próprio coração e suas raízes, passa sempre uma péssima impressão. Daí a importância dos cuidados com os relógios da matriz, a fonte luminosa e a sede da prefeitura.
cbnfoz
RepórterMT

     Ainda na trilha das coisas boas, ontem pela manhã o governo do estado inaugurou mais duas obras importantes para a mobilidade urbana na Grande Cuiabá compromissadas com a Copa, a duplicação da ponte Mário Andreazza e a trincheira da Ciríaco Cândia fazendo conexão com a Avenida Miguel Sutil. Estas obras integram o complexo da nova Avenida Mário Andreazza, em avançado estado de construção, que fará a ligação da Zona Oeste de Cuiabá diretamente ao Trevo do Lagarto em pista duplicada, oferecendo uma alternativa à Avenida da FEB e servindo como suporte à nova frente de expansão urbana de Várzea Grande que se desenvolve na região da Guarita. Pena que este processo de expansão não aconteça a partir de um planejamento urbano abrangente e sistemático de toda Várzea Grande, planejamento que inexiste até o momento, mas que - como sou sempre otimista - talvez possa até ser induzido no contexto da administração municipal por este novo viés de crescimento da cidade. É o legado da Copa que começa a aparecer. 
(Publicado em 03/12/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

APROVEITAMENTO MÚLTIPLO DE MANSO

copadopantanal.com.br

José Antonio Lemos dos Santos

     Semana passada os governos federal e do estado entregaram os primeiros certificados de concessão de uso na Área Aquícola da Usina de Manso, em um programa nacional que visa à autossuficiência do Brasil na produção de pescados. Em julho deste ano já havia acontecido um fórum no Palácio Paiaguás tratando do uso das águas de Manso para irrigação na Baixada Cuiabana. Os 2 projetos têm tudo para dar certo e, oxalá os tanques criatórios e as plantações irrigadas produzam muito emprego, renda, e alimentação farta e barata para a população, com muito peixe. Para Cuiabá e Mato Grosso esta notícia é mais especial ainda, pois ela também vem no sentido do desenvolvimento das múltiplas finalidades de Manso, que sempre foram desprezadas. Manso é muito mais que uma hidrelétrica, por isso tem um lago maior que a Baía da Guanabara e 10 vezes o lago de Brasília. Falta o aproveitamento. 
     Manso surgiu da trágica cheia de março de 1974 do rio Cuiabá, que destruiu os bairros do Terceiro, Barcelos e Ana Poupino, os mais populosos de Cuiabá na época. O governo Geisel, recém- empossado, logo determinou a demolição do que restou dos bairros e a construção de conjuntos habitacionais para a população flagelada. E mais, determinou a realização de estudos para impedir novas inundações daquela magnitude. Daí surge Manso como um equipamento de proteção urbana com objetivo específico de reduzir as cotas das cheias do Cuiabá, isto é, um “açudão”. Embora quase não noticiado, Manso já cumpriu essa finalidade em 2002 e 2010, impedindo que volumes de água superiores ao registrado em 74 chegassem a Cuiabá. Ainda que fosse só por este objetivo, Manso já teria valido a pena e deve ser tratada como um dos mais importantes equipamentos urbanos de Cuiabá e Várzea Grande. 
     Depois, já em 1978, no antigo Minter, na Comissão Técnica criada pela Lei da divisão de Mato Grosso, participei de algumas soluções técnicas importantes como a transformação do projeto de Manso do “açudão” original em um empreendimento de aproveitamento múltiplo de barragem, pioneiro no Brasil. Na ocasião, buscando solucionar a questão energética, na época o principal problema do estado, a Comissão da Divisão e o governo do estado propuseram a energização do “açudão”, cuja construção se iniciaria naquele ano e que foi então suspensa para revisão geral do projeto, que adotou a filosofia do uso múltiplo. Manso passou então a ser geradora de energia e a ideia da proteção urbana foi ampliada para a de regularização de vazão do rio, garantindo uma cota mínima nas secas além da redução das cotas máximas nas cheias, com previsão ainda de abastecimento de água para Cuiabá e Várzea Grande e programas de irrigação no vale do Cuiabá, sendo que seu lago poderia também receber projetos de piscicultura, turismo e lazer. Graças a Manso a vazão mínima do rio Cuiabá em Cuiabá hoje é mais que o dobro das vazões mínimas anteriores à barragem, que tanto nos apavoravam com as perspectivas do rio secar e acabarem os peixes.
     Manso foi projetada com uma filosofia otimizadora de barragens usada no mundo inteiro, mas até hoje tem seu uso restrito à geração de energia e à regulagem de vazão. O projeto de aquicultura que agora tem início, assim como a discussão do projeto de irrigação da Baixada Cuiabana bem que poderiam ser sinais concretos do fim do desperdício burro desse imenso potencial de desenvolvimento que significa Manso com todas as suas possibilidades. E, em sendo assim, que Manso puxe também o aproveitamento das imensas perspectivas do gasoduto e do Porto Seco, também desprezadas até hoje. 

(Publicado em 26/11/2013 pelo Diário de Cuiabá)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

RENOVANDO LEMBRANÇAS

MOACYR FREITAS - é arquiteto e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso

É importante saber que também outros colegas observam a pouca urgência ou descaso que sofre nossa capital no trato da sua parte mais querida.
Várias vezes tenho escrito o meu lamento; magoado; vendo o desprezo que dão a minha cidade natal.
Aqueles que me conhecem sabem da minha atividade como profissional ativo que fui. Hoje, pela idade, apenas coisas escritas posso oferecer. São mais lamentos do que outra coisa.
Leio o que escrevem outros colegas, como José Antônio Lemos, e suas palavras tocam-me ao reconhecer que estão eles também provocando os insensíveis governantes para corrigirem o rumo que vêm dando no trato da nossa cidade envelhecida.
O tempo vai passando e nada de concreto acontece em relação a revitalização do seu patrimônio histórico cultural. Não é por falta de informação histórica.
Quantos novos cuiabanos gostariam de reconhecer os lugares históricos de sua cidade natal?! Não me refiro aos turistas, mas aos nossos nativos que não veem reconhecidos os lugares onde seus antepassados realizaram seus relevantes feitos contados na história. Por que não são revelados?
Daí, porque ainda insistimos com nossos governantes para que se esforcem, se apressem para dar-lhes essa resposta. Para não ficar “parecendo que não existe nada lá atrás”, como escrevera assim nossa colega professora da UFMT, Luciana Mascaro.
Quantos lugares que nenhuma referência a eles aparece! Como: 

- O beira-rio de São Gonçalo Velho, com a história de suas capelas primitivas, a do primeiro local e a do bairro do Porto, hoje com a imagem do santo padroeiro;

- A antiga Cervejaria Cuiabana do Porto, cujas dependências ainda existem. Ela foi muito ligada à história da cidade;

- Gasômetro do Porto, que localizei seus restos construtivos semi-enterrados, próximo ao camelódromo da av. Prainha;

- Deveriam estar no Museu Histórico de Mato Grosso sessenta telas (60x80 cm), que mostram a história de Mato Grosso no seu período colonial e provincial, numeradas em sequência histórica. Última vez que as vi, pouco mais de vinte estavam expostas. Mesmo assim, misturadas a outras coisas, sem a ordem numérica. Nenhum outro Estado da Federação tem sua história contada em telas, observara, certa vez, uma professora de história da UFMT.

Nesse mesmo Museu, está a miniatura do bonde puxado por burros que existiu em Cuiabá no início do séc. XX. Ninguém comenta ter visto essa miniatura! Eu mesmo a construí e doei ao Museu, protegido numa redoma de vidro. Será que ainda lá existe?

- A antiga hidráulica do Porto. Ainda está lá o abrigo das máquinas com acesso e tudo, próximo ao Museu do Rio e Aquário. Lembraram e restauraram a Caixa D’água Velha, mas esqueceram dela, a primeira hidráulica;

- O histórico Cemitério do Cai-Cai... O local dele, hoje é uma pracinha margeando a Rua São Sebastião, que ocupa apenas a metade da área.

- A Casa da Pólvora no Parque Mãe Bonifácia, onde ficavam isolados os variolosos da epidemia que assolou Cuiabá, após a Retomada de Corumbá na Guerra com o Paraguai;

- Muitas edificações no Centro Histórico estão ligadas à história da cidade, algumas foram lembradas... Vê-se outras ainda com possibilidades de preservação, antes que desmoronem, como aconteceu com a residência do historiador Rubens de Mendonça. Acredito que no antigo Largo do Sebo, Praça da Mandioca ou Conde de Azambuja, estejam ainda lá a Casa de Fundição de Cuiabá do séc. XVIII; 

- A Santa Casa de Misericórdia... Seu primeiro pavilhão é do séc. XVIII;

- E as igrejas!... Quanta história! É preciso mostrá-la, assinalando os locais nas praças com placas elucidativas, com banco e chafarizes próximos, por causa do calor. Para sua contemplação e meditação. Que tenha boa iluminação e bem vigiadas, diuturnamente.

Vamos amar de verdade nossa Cuiabá.
Esqueçam um pouco os passos da política; ela só perturba o rumo e o ritmo da administração, tirando atenção dos governantes a sua verdadeira missão. Infelizmente, não podemos impedir isso. Que pena! Continuamos esperando...

(Publicado em 18/11/2013 pelo Midianews)

A ARENA VISTA PELA CÁSSIA

Veja a Arena em 20/11/2013 nas fotos da arquiteta Cássia Abdallah tiradas de seu apartamento.


Fotos: Cássia Abdallah

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MUITA COISA BOA

Edson Rodrigues/OlharDireto


José Antonio Lemos dos Santos

     Às vezes o mais difícil em um artigo é definir o assunto, neste em especial, ante tantas coisas boas que estão acontecendo e não podem passar despercebidas. Resolvi então tratar tudo o que me vier à cabeça, enquanto der no texto. Puxo a lista com o início das inaugurações das obras da Copa com as pontes sobre o Coxipó, uma ligando a Rua Antonio Dorilêo à Beira-Rio, aliviando a Fernando Correia e trazendo conforto à grande parte da população do Coxipó; a outra no Jardim das Palmeiras ligando a Fernando Correia à Archimedes Lima, então isoladas entre si por quilômetros, desde o Boa Esperança até o Tijucal. Marcada para ontem à noite, a inauguração do viaduto do Despraiado abre o ciclo das obras maiores e visa desbloquear o acesso àquela importante área da cidade. Nas fotos aéreas está muito bonito, mas quero passar por cima dele para avaliar melhor. 

MaykeToskano/Secom-MT


     Gostei também dos nomes escolhidos para os novos equipamentos urbanos, em especial os dos engenheiros Quidauguro Fonseca e Domingos Iglésias Valério os quais tive a sorte de conhecer pessoalmente me ensinando grandes lições de cidadania e respeito para com a profissão e a coisa pública, sem perder a simplicidade e a gentileza no trato das pessoas apesar de todos os desafios que venceram e os cargos que ocuparam. Se ainda não foram lembrados e minha intromissão não atrapalhar o processo de escolha dos homenageados, tomaria a liberdade de lembrar os professores Sátyro Castilho e Júlio De Lamonica Freire por tudo que fizeram pela cidade, em especial na criação do CPA e nas implantações da própria UFMT e do curso de Arquitetura na Unic. 
     Ainda ligado à Copa, no dia 6 de novembro chegou afinal a primeira composição do VLT a Cuiabá. Outras 4 estão navegando, devendo chegar aqui em dezembro. Agora um novo desafio, o de fazê-lo funcionar em articulação com os outros modais garantindo um elevado padrão de mobilidade urbana para a cidade e seus cidadãos. Também em função da Copa, mas um assunto pouco comentado, Cuiabá ganhou no dia 4 de julho o privilégio de ser uma das poucas cidades do Brasil a dispor da internet 4G, a mais rápida e moderna conexão móvel do país. Sabe quando seríamos prioridade sem a Copa? Nunca. Resta que saibamos aproveitar esta vantagem comparativa extraordinária. A última boa sobre a Copa é o esgotamento dos ingressos disponibilizados pela FIFA para os jogos na Arena Pantanal. Para alguns a Arena não teria público. Ainda bem que comprei logo o meu para o primeiro jogo. Assisti ao primeiro e ao último jogo do Verdão. Se Deus quiser estarei presente na inauguração da Arena Pantanal e no primeiro jogo da Copa.
     Extra Copa, não pode ser esquecida a realização dos Jogos dos Povos Indígenas, transformando a cidade na capital indígena das Américas. Espetáculo de vida, cores, cultura e integração, acho que Cuiabá podia ter aproveitado melhor o evento em termos de divulgação nacional e internacional, atraindo mais visitantes entre os simpatizantes e estudiosos da cultura indígena dispersos pelo mundo. 
     Tivemos ainda a anulação pela Justiça das alterações propostas pela Câmara de Vereadores na Lei do Uso e Ocupação de Solo Urbano de Cuiabá. Se forem necessárias alterações, que sejam em bases técnicas e conforme os ritos legais. A semana trouxe também a conclusão do processo dos “mensaleiros” e uma nova, inteligente e simpática forma de protesto trabalhista com os jogadores do campeonato brasileiro recusando-se a jogar por 1 minuto em uma das rodadas em prol de melhores condições de trabalho. Uma prova de que as antipáticas e improdutivas greves, que só trazem prejuízo ao povo, possam um dia ser substituídas por alternativas de luta mais eficientes e criativas? 
(Publicado em 19/11/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

REPROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

José Antonio Lemos dos Santos
historiabrasileira.com

     Tenho comentado algumas vezes neste espaço sobre o bizarro método brasileiro de combate à corrupção onde ao ser identificada uma obra corrompida imediatamente a obra é suspensa, mas os corruptos não. Ao pretexto de combater a corrupção – que anda à solta - foi criado um cipoal jurídico-burocrático que praticamente impede o início de qualquer obra ou sua conclusão, mas os responsáveis pelas supostas irregularidades permanecem incólumes gerindo ou legislando sobre a coisa pública. Desnecessário citar exemplos. Aliás, o primeiro grande benefício trazido pela Copa ao país foi escancarar ao mundo e a nós mesmos que o Brasil ficou incapaz de realizar qualquer obra ou serviço com prazo definido, desde as festivas como a Copa, até as emergenciais como as obras de prevenção às tragédias urbanas de verão. Para cumprir os prazos fixos da Copa foi preciso criar uma lei (RDC) autorizando o descumprimento das leis normais, caso contrário nada sairia. 
     Semana passada em Pelotas a presidenta Dilma manifestou-se sobre o assunto dizendo ser “um absurdo paralisar obra no Brasil, você pode usar de vários métodos, mas paralisar obra é algo extremamente perigoso. Por quê? Porque depois ninguém repara o custo." Corretíssima. Mas faltou o outro lado, o que trata dos corruptos, ou a imprensa não destacou. Contudo é importante a mais alta autoridade do país ter levantado o assunto. Emblemático, temos aqui em Mato Grosso o caso do Hospital Central do Estado, cujas obras, então quase concluídas, foram paralisadas na década de 80 por irregularidades que parecem não ter sido comprovadas após 30 anos das idas e vindas processuais. Além do prejuízo financeiro, e a perda sofrida pela população com a falta desse equipamento que lhe seria tão importante? 
     Outro dia o papa Francisco nos exortou à tarefa de reabilitar a Política como uma das formas mais elevadas da caridade. Ao menos no Brasil, nos dias de hoje nada parece mais distante da caridade do que a política. Mas a Política a que se refere o papa é aquela com “P” maiúsculo, a da doação do cidadão à causa do bem comum, da coisa pública, a “res-publica” que deveria ser o objetivo máximo de uma nação proclamada republicana no dia 15 de novembro de 1889. Acontece que os tempos passaram e as saúvas corromperam a República e a arte nobre da verdadeira Política que perdeu o “P” maiúsculo e o foco no bem comum. A coisa pública passou a ser tratada como um butim eleitoreiro a ser usado em função de interesses pessoais, grupais, empresariais ou partidários que se misturam a cada 2 anos iludindo o cidadão eleitor, que termina pagando o pato em todos os sentidos, ao perder sua nação e sua cidade, pagar a conta e ainda ficar com a culpa de tudo. As imagens recentes de um coronel da polícia e de um secretário municipal apanhando publicamente são imagens de uma nação que virou fumaça. Só se salvará quando e se resgatada pela cidadania. Ou seja, é preciso que a República seja reproclamada. E urgente!
     Cuiabá tem uma ligação histórica especial com a República, pois além de ter alguns de seus filhos entre os líderes da Proclamação, teve Dutra como presidente, Dante como restaurador das eleições diretas e os marechais Deodoro e Floriano Peixoto como moradores antes de serem os primeiros presidentes da República. O proclamador de República inclusive casou-se aqui e Floriano foi presidente da província, orgulhoso de ter um filho cuiabano, segundo Rubens de Mendonça. Semana passada o historiador Laurentino Gomes nos alertou em seu blog sobre o estado de abandono e ruínas da casa que ele identifica como a do marechal Deodoro em Cuiabá. Acrescento, em ruínas não apenas sua casa, mas também a República que proclamou. 
(Publicado em 12/11/2013 pelo Diário de Cuiabá)

sábado, 9 de novembro de 2013

SERÁ QUE ESTOU AJUDANDO?


 Midianews

Moacyr Freitas

Sabemos que a cidade vive dos que vivem nela. É muito certa essa afirmativa. Por que, então, não tratar bem as pessoas que andam a pé pela cidade e que dão animação e vigor a ela?
Diante das inúmeras desatenções a essas pessoas é que cheguei a conclusão de que algo está mal focalizado na administração da nossa cidade. Numa análise da administração senti muito pouco aplauso a ela porque a estrutura do seu governo não visa o objetivo imediato de satisfazer as pessoas no que lhes toca mais de perto.

Vê-se muita preocupação com aquelas que estão dentro dos seus meios de transportes, os automóveis; por onde estes transitam e onde estacionam. Porém, nenhuma ou pouca preocupação com aquelas outras que andam a pé.

Sabemos que não se atinge todos os lugares dentro de veículos. Por isso os caminhos dos pedestres devem ser bem mais cuidados para dar satisfação aos que transitam por eles. Porém, isso não se vê por aqui. 

Muita atribuição a uma mesma secretaria faz com que ela se torne dispersiva. A importância dos pedestres é tanta que mereceria um departamento exclusivo para cuidar apenas deles. São eles os responsáveis pela vida da cidade. 

São as pessoas que caminham pelas calçadas, pelas praças, jardins, largos e parques...Deve-se cuidar para que neste caminhar não sofram, não se aborreçam, mas sintam satisfação de andar na cidade onde nasceram ou escolheram para morar e viver.

Solucionando apenas outros problemas, foge-se da mais importante para o louvor imediato da ação do prefeito. Ainda que outras atenções sejam necessárias, elas não tocam de perto no sentimento da maioria dos moradores efetivos da cidade que, sentindo-se desprezados, não aplaudirão a administração.

Os pedestres merecem atenção imediata porque eles estiveram na frente para construir a cidade, para formarem a sociedade. Os transportes coletivos vieram depois.

A estrutura administrativa deveria ser dividida em duas vertentes apenas: das pessoas saudáveis e das pessoas sem saúde perfeita. As saudáveis, naturalmente, usufruiriam com satisfação de todo equipamento social criado para elas. Para dar vida à sociedade. As adoentadas seriam tratadas com equipamentos outros apropriados para seu pronto restabelecimento. Teríamos assim, uma administração cuidadosa, para o bem-estar da população e não para o seu desassossego. 

O começo seria por onde as pessoas andam; pelas escolas onde suas crianças estudam; pelos espaços onde buscam seu lazer; por onde os mais idosos encontram convívio saudável de muita paz, carinho e tolerância.
Depois, os cuidados maiores com transportes coletivos e de cargas tão necessários para grandes distâncias e abastecimento da cidade. Os dois poderiam ser tratados simultaneamente.

Porém, repetindo, a atenção imediata deve ser dada para os que andam a pé. São os cuidados que se devem ter com as calçadas, com pisos apropriados, retirando deles os entraves que atravancam ou causam acidentes e poluições aos que nelas caminham. Deve-se dotá-las com arborização apropriada e de arbustos que lhes deem sombras e ainda cobertura vegetal de áreas para absorção do calor. Nos largos e praças, beneficiar as pessoas amenizando a temperatura do ar com borrifos de águas de chafarizes ou com as prazerosas presenças de lâminas d’água em pequeno ou sinuoso lagos, ou a visão maior de água em abundância do rio e nos parques, onde as pessoas possam deles usufruir em passeios embarcados...

Observa-se que apesar de existirem lugares assim propícios, não chegaram neles esses tratamentos como ocorre com o Parque Mãe Bonifácia, o mais famoso, que não tem o seu esperado lago projetado. 

Acredito que estas lembranças poderão ser úteis aos que cuidam de nossa cidade, os que amam Cuiabá.

Todas as Administrações têm a clássica preocupação: educação, saúde, transporte e segurança. Contudo, esquecem da prioridade, aqueles mais antigos, descendência que montaram a sociedade para os que vieram depois.

Conclui-se que a atenção deveria partir do Centro Histórico e do Porto. 

“A cidade vive dos que vivem nela”. Observou nosso saudoso radialista cuiabano João Alves de Oliveira, meu prezado parente e amigo de infância e juventude.


MOACYR FREITAS é arquiteto e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso
(Publicado em 07/11/2013 pelo Midianews)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

DIA MUNDIAL DO URBANISMO

Emblema do Urbanismo:sol, vegetação, ar                        caudf.org.br


José Antonio Lemos dos Santos

     A cidade constitui a maior, a mais complexa e bem-sucedida das invenções do homem. Surgida há 5 mil anos, com ela veio a civilização que acelera a evolução humana. De lá para cá o mundo foi se urbanizando e a partir de 2008 já é mais urbano que rural.
     Com a Revolução Industrial a cidade viveu seu momento de maior inflexão até os dias atuais. Até então ela não fora questionada, ainda que tenha enfrentado importantes crises em seu desenvolvimento. Com a industrialização, a urbanização acelera e as cidades se desequilibram gravemente, exigindo controle e intervenções em seu desenvolvimento. Surge então a ciência do Urbanismo, que evolui e supera a etapa do urbanismo modernista da Carta de Atenas – implodido em Pruitt-Igoe - passa pelas experiências pós-modernistas do Novo Urbanismo Americano e chega à revolução da eletrônica, da internet e da globalização, com os desafios da compatibilidade ambiental, da inclusão e das possibilidades das cidades inteligentes, verdes e sustentáveis.
     De extrema complexidade, a cidade é comparável a um organismo vivo em dimensões imensas, que vão das pequenas vilas até as megalópoles ou às megarregiões urbanas, chegando aos milhares de quilômetros quadrados com dezenas de milhões de habitantes. A cidade é um enorme recipiente, articulado regional e globalmente, onde acontecem as relações urbanas em toda sua múltipla diversidade. Sua função é permitir que tais relações aconteçam da melhor forma com sustentabilidade, conforto, segurança e, sobretudo, justiça. Ajudá-las no cumprimento desta função é o objetivo do Urbanismo.
     Em evolução contínua, o Urbanismo reflete a complexidade de seu objeto de trabalho e abrange os diversos campos de conhecimento que a cidade envolve. O urbanista não pode ser um especialista, mas um generalista voltado a entender o organismo urbano com um todo. Não se pode tratar os problemas da cidade sem antes tratar da cidade com problemas. O urbanista precisa saber um pouco de tudo para enxergar o todo, e, em especial, saber que esse conhecimento, embora indispensável, é nada sem a companhia das diversas especializações técnicas nas múltiplas facetas da cidade e da problemática urbana.
     8 de novembro é o Dia Mundial do Urbanismo, criado em 1949 para uma reflexão global sobre o assunto. As cidades de novo vivem uma inflexão profunda diante da revolução dos satélites, das fibras óticas e da internet que acena com perspectivas inimagináveis desconstruindo conceitos fundamentais como tempo, espaço e distância colocados agora no seio da realidade fantástica do ciberespaço, mas ainda atolada no drama da iminência do colapso com a água, lixo, mobilidade, poluição, energia, emprego, fome, moradia e segurança. Mesmo diante de tantas perspectivas extraordinárias, o problema maior do século XXI são as cidades. E as cidades falhando, a civilização explode.
     Inaceitável que no Brasil o Urbanismo e o urbanista sejam tão desconsiderados. Como podem existir cidades sem órgãos técnicos especializados que a estudem contínua e sistematicamente, apresentando à cidadania alternativas para suas perspectivas de desenvolvimento? Ainda mais nestes tempos dos grandes investimentos da Copa e da grave crise da mobilidade urbana. A falta do Urbanismo asfixia as cidades brasileiras que estressam, mutilam e matam. Mas ainda são os locais da diversidade e da inovação. O surgimento do CAU no ano passado e a Conferência Nacional das Cidades agora em novembro são esperanças. Crise é risco e oportunidade. Junto à possibilidade da tragédia está a oportunidade da reinvenção urbana em busca de cidades mais justas, seguras, sustentáveis e humanas. E da própria reinvenção do homem. 

(Publicado em 05/11/2013 pelo Diário de Cuiabá)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

TRINCHEIRA DO SANTA ROSA

Veja a situação das obras da Trincheira do Santa Rosa  ontem (31/10/13):

                                                                                                              Fotos FCLS


Dá para comparar com a situação 2 meses atrás (01/09/13):
01/09/13                                                                                                 Foto FCLS

01/09/13                                                                                             Foto FCLS

01/09/13                                                                                                   Foto FCLS

Compare a situação  em 5 meses de obras, entre 31/05/13 e hoje:

31/05/13                                                                    Foto FCLS

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

ESPERANÇA


Charge do arquiteto e urbanista Abílio Jacques Brunini Moumer. Muito legal. Espero que ele tenha razão. Espero. Olha a esperança de novo. O arquiteto é sempre positivo, projeta o que ainda não existe na esperança de que venha existir.  Sem esperança não há chance para a Arquitetura.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

BOMBEIROS, BOM-SENSO E LUVERDENSE

José Antonio Lemos dos Santos

     Apesar de tudo a Copa do Pantanal avança superando as imensas dificuldades do grande desafio, tanto as dificuldades normais de uma empreitada como essa, como aquelas que parecem plantadas por interesses que até hoje não aceitam Cuiabá como uma das sedes da Copa 2014. Na construção da Copa e de seu grande legado, Cuiabá e Mato Grosso vencem um leão por dia e, mesmo assim, nesta semana saiu a lista das primeiras 12 obras a serem inauguradas até novembro, obras significativas e necessárias que não seriam viabilizadas nem em décadas, tais como os viadutos do Despraiado e da UFMT, a duplicação da ponte Mário Andreazza ou a ponte do São Gonçalo, entre as outras. 
     Mas a maior vitória da semana foi do glorioso Corpo de Bombeiros de Mato Grosso por sua imediata e eficaz presença no incêndio no subsolo da Arena Pantanal, sexta-feira passada à tarde, que poderia ter se propagado de forma grave caso não fosse combatido de forma quase instantânea. De estranhar no início do sinistro as centenas de comentários de leitores felizes nos sites nacionais, alguns daqui, festejando o incêndio como o ponto final da Copa em Cuiabá, uma legítima pretensão mato-grossense e cuiabana, como seria de qualquer outra cidade brasileira. Mas logo apareceram nossos bombeiros e a brigada de incêndio da obra debelando rápido o fogo, num show de competência técnica. Moro perto da Arena e ainda naquela tarde passei por lá e não vi sequer sinal de fumaça. Não sou de me deter em coisas negativas, mas esse fogo me deixou com uma pulga atrás da orelha. 


                                 copadomundo.uol.com.br


g1.globo.com
                                                                                                                                                                   
     A participação dos Bombeiros de Mato Grosso foi noticiada, mas ainda não 
suficientemente exaltada pela presteza e competência de sua ação. O sinistro foi melhor que um teste programado de segurança e serviu para mostrar que ao menos nessa área a Copa do Pantanal está em mãos muito boas e preparadas. Sou do tempo em que em um chamado emergencial como esse o normal era - a contragosto da corporação - encontrar os caminhões estragados ou sem combustível, sem pneus,  telefone cortado e coisas desse tipo. Muita gente por aí achava que isso ia acontecer, mas aconteceu o contrário. Na Alemanha teria sido melhor, dirá alguém. Mas, aqui no Brasil duvido que todas essas cidades proclamadas mais merecedoras da Copa do que Cuiabá disponham de um serviço com tal confiabilidade nessa área, demonstrando a que ponto de qualidade pode chegar o serviço público, justamente homenageado ontem no Dia do Servidor Público. Que a Copa seja também uma oportunidade concreta de aprimoramento e promoção da importante e sofrida figura do Servidor Público em nossa cidade e nosso país. 
     Outro viva! Desta vez à vitória do bom-senso no episódio das cadeiras da Arena, uma armadilha grosseira montada através da comparação entre preços de 2 produtos de qualidades diferentes. De novo Mato Grosso surpreende resgatando o bom-senso, raramente presente nas decisões públicas em nosso país, ao revalidar o resultado da primeira licitação. Seria um absurdo por causa de uma falácia colocar em risco a mais compacta, mais barata e ainda assim a mais bela e premiada de todas as arenas da Copa, a 2 meses do prazo acertado com a FIFA como condição para a realização da Copa do Pantanal. 
     Por fim, mas não menos importante, viva o Luverdense pela vitória de domingo contra o Caxias ascendendo à série B do campeonato brasileiro e recolocando o futebol de Mato Grosso na elite do mais querido esporte no Brasil, posição relevante para um estado que conquistou e vem construindo com muito empenho a Copa do Pantanal. 
esporte.terra.com.br

(Publicado em 29/10/13 pelo Diário de Cuiabá, Blog do José Lemos ...)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O TRIMILIONÉSIMO PASSAGEIRO

José Antonio Lemos dos Santos

Assessoria/Infraero/G1-MT

     Contente com a vitória do Luverdense em Caxias do Sul no sábado, lembro que em janeiro de 2011 saudei o duomilionésimo passageiro anual do Aeroporto Marechal Rondon alcançado pela primeira vez em dezembro do ano anterior. Agora, em 2013 ele chegou já nos primeiros dias de setembro, numa significativa antecipação que reflete o extraordinário desenvolvimento de Mato Grosso, que se mostra também no sucesso dos times do Luverdense e Cuiabá. Como em 2010, agora também nada foi dito sobre este ilustre personagem simbólico, se teria sido homem ou mulher, a negócios ou passeio, chegando ou partindo. O que se sabe é que não teve nem retrato e nem foguete, como diria Noel, ou qualquer outra homenagem, assim como os duomilionésimos passageiros em 2011 e 2012. O milionésimo apareceu em 2007, também desprezado. 
Meneguini/Secom-MT

     E tem mais. Pelas estatísticas mensais, o Marechal Rondon já vive um movimento anualizado superior a 3,0 milhões de passageiros e verá ainda em 2013 seu trimilionésimo passageiro pela primeira vez num ano de calendário. Um momento para ser comemorado como marco no desenvolvimento de Cuiabá, Várzea Grande e do estado. Passou o Santa Genoveva da linda Goiânia e tem quase o dobro do movimento da invejada Campo Grande. Ao invés, saímos repercutindo uma pesquisa apontando nosso aeroporto como o pior no país, sem destacar que está em obras e que tem capacidade para atender 500 mil passageiros/ano, mas está atendendo 3 milhões! Sim, o projeto original interrompido em 2006 pela metade era para 1 milhão de passageiros/ano. Não sei como a Infraero alega uma capacidade atual de 2,5 milhões de passageiros/ano, nem como estima em 5,7 milhões de passageiros/ano a capacidade da nova estação que, para mim atenderá no máximo 1,5 milhões de passageiros/ano, isto é, 3 vezes 500. Ou seja, nascerá pequena. Mesmo assim, parabéns à Infraero pelas obras, a situação melhorará muito e é para festejar. Mas a síndrome de autoflagelação cuiabana é braba e preferimos cantar nossas carências em vez das conquistas, os defeitos às virtudes, e na falta de defeitos, inventamos. Pois não é que estamos pintando de bandida a premiada Arena Pantanal, justo a menor e mais barata das arenas da Copa - ainda assim a mais bela - só porque suas cadeiras seriam similares à do Beira–Rio e melhores que as de Brasília?
ReproduçãoTVCA/ExpressoMT

     Porém, tão logo comemoremos esta ampliação necessária e urgente, é bom que as autoridades e lideranças políticas, empresariais, profissionais e comunitárias locais, comecem a cobrar em conjunto a nova estação de frente para o Cristo Rei previsto no Plano Diretor do aeroporto. Aliás, é sempre imperioso destacar a fantástica visão de futuro dos que na década de 40 tiveram a coragem de destinar mais de 700 hectares ao ainda incipiente sistema aeroviário comercial. Era muita confiança no desenvolvimento do estado e da aviação, numa época em que o máximo que devia chegar por aqui eram alguns primitivos biplanos. Tinham a visão correta do futuro. Profetas. Ainda mais com a clarividência de locar o eixo da pista na continuidade do eixo do rio Cuiabá, antevendo a convivência segura de um dos mais movimentados aeroportos do país no centro da metrópole atual. Quantos hoje teríamos essa visão? Para chamar de “elefante branco” sim, aliás, muitos. 
     O desprezo ao Marechal Rondon expressa o permanente desprezo, não só da Infraero, mas de todas as autoridades locais nas diversas instâncias, municipais, estaduais e federais por um assunto fundamental no mundo atual. A ampliação de hoje só veio por causa da Copa, mas não é preciso esperar por outra. Quiçá lembrem o exemplo dos anos 40 e tratem melhor o trimilionésimo passageiro que está chegando. 
(Publicado em 22/10/13 pelo Diário de Cuiabá, )

terça-feira, 15 de outubro de 2013

VITÓRIA DE MARIA


 José Antonio Lemos dos Santos

     Pode ser só mais uma das muitas histórias do futebol, mas sinto a obrigação de contá-la. Sábado passado, dia de Nossa Senhora Aparecida, ia para a missa de entronização da imagem da santa Padroeira do Brasil na Igreja Mãe dos Homens, imagem trazida de Aparecida por minha esposa e minha filha. Ia àquela missa também porque minha esposa levaria a santa até ao altar, sem dúvida uma grande honra para minha família e queria estar presente. Como elas tinham que chegar mais cedo, foram de carro e eu fui depois a pé, numa caminhada de no máximo 15 minutos.
     Caminhar de manhãzinha é muito bom. A cabeça fresca dá revolteios e faz mil viagens, até que parou na lembrança da santa homenageada do dia. Claro que há milhões de assuntos para pensar em Nossa Senhora. Mas adivinha onde foi parar meu pensamento? No futebol. Lembrei-me da fantástica história do jogo decisivo da Copa do Mundo de 1958, contada muitas vezes ao longo destas décadas em que acompanho o futebol, o então chamado esporte bretão. Para os mais novos, a história ou a lenda conta que a Copa de 58 estava preparada para a dona da casa, a Suécia, ser campeã. Não contavam ter pela frente o fabuloso escrete canarinho de Pelé, Garrincha, Zagalo e supercompanhia, que havia goleado a poderosa França. Como as duas seleções jogavam de amarelo, fizeram um sorteio para decidir qual delas trocaria de jaqueta. E, é claro, a Suécia jogou de amarelo. Sem seu talismã, a seleção brasileira ficou abatida psicologicamente. O Brasil nem havia levado camisa de outra cor e tiveram que comprar um jogo de camisas azuis, costurar distintivos e numeração de última hora.
     Essa troca da camisa arrasou realmente o time. Vendo que nessa situação o Brasil perderia o jogo e a Copa, e a vaca ia para o brejo, o chefe da delegação brasileira Paulo Machado de Carvalho viu que tinha que fazer alguma coisa e, num rasgo iluminado de inteligência, no último momento antes da seleção entrar em campo ele pediu a palavra e disse que aquela troca de camisa era um sinal de vitória pois Nossa Senhora Aparecida estava cobrindo a seleção com o azul de seu manto, abençoando a seleção que ia entrar em campo, ia ganhar o jogo e a Copa em homenagem à Padroeira. Resultado: Brasil 5 x 2, campeão do mundo pela primeira vez em terras tão distantes à época. Lenda ou realidade, faz parte das memórias do futebol brasileiro.
diariodepernambuco.com.br

     Ainda caminhando, o drama da seleção de 58 me levou ao drama do futebol cuiabano este ano com o Mixto não se classificando na série D e o Cuiabá naquele momento à beira de ser desclassificado da série C do campeonato brasileiro. Uma vitória em Brasília era improvável, não pelo time, mas por outras situações do futebol brasileiro. Quem sabe com o olhar e uma mãozinha de Nossa Senhora Aparecida? Cheguei quase a prometer em escrever depois sobre o assunto. Mas logo afastei a ideia. Nem cheguei a fazer uma promessa. Nossa Senhora tem muito mais o que cuidar do que um clube de terceira divisão do interior do Brasil. Para mim o Cuiabá estava eliminado e a cidade não teria time em qualquer das séries do futebol brasileiro, justo no ano da Copa. Fui assistir a um filme resignado com a derrota certa e não acompanhei nosso futebol como normalmente faço, no Dutrinha ou no rádio. 
     Saí do cinema com a notícia da vitória do Cuiabá, e as palavras de Émerson, o goleiro cuiabanista, sobre o pênalti que defendeu: 
“- Só tenho a agradecer a Deus por essa defesa. Nem eu sei como defendi. Deus me iluminou e pude pegar a bola. Depois disso, o time cresceu e conseguimos essa vitória importante.” 
     No meu entendimento fiquei devendo contar esta história. 
Émerson defendendo o penaltie.                 Foto: Cláudio Reis

(Publicado em 15/10/2013 pelo Diário de Cuiabá)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A COPA E A ARENA

essencialarchitecture.blogspot.com

José Antonio Lemos dos Santos

     O primeiro grande legado da Copa para o Brasil foi ter exposto ao mundo e, em especial, a nós mesmos que o país está encalacrado em um modelo político-administrativo enrolado, perdulário, corrupto e incapaz. A pretexto de combater a corrupção, que continua à solta, o país criou um emaranhado burocrático incapaz de construir qualquer projeto com datas inflexíveis, como a própria Copa ou as tragédias anuais de cada verão. Por enquanto a saída é o Regime Diferenciado de Contratações, que no fundo é um jeito legal de descumprir a lei, que de início seria só para a Copa, depois ampliou para o PAC e agora querem estendê-lo ao sério problema da armazenagem agrícola. A Copa vem mostrando que o Brasil precisa modernizar seus processos. 
     O bizarro é que o atual sistema tão preocupado com a corrupção ao invés de puni-la, prefere punir a obra, isto é, o povo. Quando aparece uma obra suspeita de corrupção a providência imediata é suspender a obra, deixando o corrupto ou o suspeito continuar em seu cargo e livre para ocupar cargos mais elevados, gerindo recursos públicos ou legislando,
enquanto responde aos infindáveis processos. Mas as obras são punidas imediatamente, pouco importando os prejuízos causados pela paralisação, às vezes maiores que o valor corrompido. Caso emblemático é a obra do Hospital Central de Mato Grosso paralisada na década de 80. Independente do resultado dos julgamentos, até hoje a obra não foi retomada, e nem adiantaria mais retomá-la para o mesmo uso pela defasagem do projeto após tanto tempo. O que restou foi um incomensurável prejuízo para o povo, tanto financeiro quanto em termos de sofrimentos, pois o estado ainda carece de um hospital central. Outro dia foi noticiado que não tem havido nascimentos há muitos anos em muitos municípios de Mato Grosso por não disporem de maternidades. A causa seriam irregularidades administrativas em gestões anteriores que as atuais não conseguem corrigir. Em um desses municípios não nasce ninguém há 20 anos! E quantos morrem? Mas para esta estranha forma de zelar pelo dinheiro público pouco importa se as mães dão à luz, perdem seus filhos ou morrem. Fecham as maternidades!
     Agora temos o caso das cadeiras da Arena Pantanal, cujos preços foram comparados capciosamente aos de produto de qualidade inferior. Sem voltar à discussão sobre a prioridade da Arena e mesmo da Copa, assunto já decidido e em fase vitoriosa de implantação, será que não houve precipitação nessa suspensão de contrato? Como entender a suspensão de uma etapa conclusiva de uma obra cujo prazo máximo de conclusão está compromissado para daqui a menos de 3 meses? Creio no bom senso e na inteligência da FIFA, cujo secretário-geral Jérôme Valcke visita hoje Cuiabá, mas temo os meandros barrocos de nosso sistema jurídico-administrativo. E se a empresa do contrato rompido recorrer à Justiça? A Arena Pantanal foi exposta a um risco por uma diferença pouco superior a R$ 6,0 milhões, que é muito para ser desperdiçado em um país cujo povo é tão carente como o nosso, porém ínfimo numa obra tão importante de meio bilhão de reais. Ainda mais que a suposta irregularidade não afeta a segurança da população e melhora a qualidade do produto final, com cadeiras comparáveis às da Arena Beira-Rio e de Fortaleza. Não seria o caso de se investigar antes, convocar os gestores, o arquiteto responsável para explicar sua especificação e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo para um laudo técnico competente? Entendo que em princípio todos sejam inocentes, mas, se em caso de culpa, não seria mais justo punir e cobrar aos gestores responsáveis o valor eventualmente perdido, sem comprometer o cronograma de inauguração da nossa bela e premiada Arena Pantanal? 
(Publicado em 08/10/2013 pelo Diário de Cuiabá)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A ARENA DE MINHA JANELA

Veja como estava a Arena Pantanal vista de minha varanda hoje, 4 de outubro de 2013. Dá para ver que começam a aparecer um pouco mais dos pisos e gramados do entorno e as estruturas das coberturas norte e sul já lançadas e que apenas começavam a ser implantadas no mês passado.  Veja:


Foto: José Lemos

Dá para comparar com a do mês passado (04/09/10. Veja: 


Foto José Lemos

E em agosto (04/08/13):


Foto: José Lemos

Dá para comparar com a situação em  4 de julho de 2013:  
Foto: José Lemos

Ou no início do ano passado (14/01/12):
Foto: José Lemos


É para ficar pronta em outubro de 2013. Confira com a maquete para ver se está indo tudo certo:


terça-feira, 1 de outubro de 2013

CADEIRAS E CARAPUÇA

José Antonio Lemos dos Santos
www.olharcopa.com.br

     O maior sentido da Copa para Cuiabá é a oportunidade de grandes investimentos públicos e privados deixando importante legado em favor da qualidade de vida de seus habitantes. Uma chance de ouro para investimentos que de outra forma a cidade não veria em décadas. E bota décadas nisso. Ainda com uma imensa vantagem adicional: por ser um compromisso internacional do país, tudo está sendo feito sob os olhos atentos da imprensa nacional e internacional de maior confiabilidade pública que os dos sistemas oficiais de controle, os quais também se esforçam para não ficar para trás. Nunca um pacote de investimentos foi tão fiscalizado publicamente, certamente que ainda não o suficiente para acabar de vez com as “tenebrosas transações” que alquebram o Brasil. Assim, meio que brincando tenho dito que a Copa foi uma sacudida do Senhor Bom Jesus em nós cuiabanos para que preparemos bem sua cidade para o Tricentenário em 2019. 
     Sem querer rediscutir o que já está decidido e em fase avançada de implantação, sou dos que entendem que Cuiabá está ganhando com a Arena não só um estádio de futebol, mas uma arena multifuncional, equipamento de ponta em tecnologia de eventos de âmbito nacional e global, permitindo à cidade entrar na disputa pelos megaeventos via satélite e internet, apoiada no charme do centro sul-americano, das belezas naturais do Pantanal e Chapada, do cerrado e Amazônia, e das maravilhas tecnológicas dos grandes campos produtivos da agropecuária mato-grossense. Um elefante dourado. Cabe sermos competentes para pilotar essa nave intergalática, poderosa arma na disputa pela agenda dos grandes eventos com as poucas similares brasileiras e, em especial, saber defendê-la dos ataques dos que querem abatê-la antes mesmo de concluída pelo simples fato de ainda não terem assimilado sua perda para a pequena, pacata e ainda desajeitada Cuiabá.
     A última pressão sobre a nossa Arena Pantanal veio por suas cadeiras serem melhores do que as cadeiras da Arena de Brasília. Segundo a Secopa, as cadeiras daqui obedecem às especificações técnicas do projeto e são diferentes das de Brasília, com preços também diferentes. Especificações de materiais e mobiliários em uma obra dessa envergadura são elementos técnicos integrantes dos projetos arquitetônicos, competência e responsabilidade do arquiteto, protegido por lei em suas decisões, inclusive quanto a direitos autorais. Questionamentos técnicos, só por técnicos legalmente competentes, observada a ética profissional. Seria como questionar as prescrições de um médico, embora muitos ainda achem que a arquitetura seja apenas uma questão de gosto. Cada projeto tem suas próprias especificações técnicas conforme seu partido arquitetônico e devem ser respeitadas. Ainda mais no caso de um projeto premiado dentro e fora do país. 
     Não sei qual será a decisão do estado sobre o assunto, mas seria uma pena a alteração da cadeira especificada. Nas novas arenas a cadeira é o trono do espectador e esta será uma das vantagens de nossa compacta e belíssima Arena Pantanal. Cuiabá já se orgulhou do antigo Cine Tropical com as poltronas mais confortáveis do país. Depois, do melhor gramado no saudoso Verdão. Por que não podemos ter a melhor cadeira de todas as arenas? Se coubesse questionar algum projeto, mais apropriado seria perguntar como a Arena Nacional de Brasília pode ter cadeiras inferiores, mesmo tendo custado mais de 3 vezes a arena cuiabana? A Arena de Brasília custou R$ 1,7 bilhão e a de Cuiabá R$ 0,56 bilhão. Não nos cabe essa carapuça. Por enquanto, melhor é lotar o Dutrinha amanhã e domingo apoiando Mixto e Cuiabá em suas partidas decisivas pela ascensão no futebol brasileiro. Força Mixto e Cuiabá! 
(Publicado em 01/10/2013 pelo Diário de Cuiabá)